Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

O esplendor da inutilidade

 

Sou um homem feliz. Sou um homem feliz e realizado. Estou extraordinariamente satisfeito com esta sociedade da globalização. Estou desempregado. Sou pobre e, por isso mesmo, famoso. E admirado. As pessoas de hoje encontram imensa piada aos necessitados. Consideram-nos cidadãos exemplares, pessoas íntegras, desprendidas e honestas. Celebram a nossa inteira disponibilidade para sorrir. Congratulam-se com o nosso talento para dormir ao relento. Rejubilam com a nossa incapacidade premeditada em cumprir horários. Somos pobres – os pobres –, mas honrados. E livres. Nós, os pobres, somos livres. E, em si mesma, a liberdade é uma riqueza incomparável. O mesmo se pode dizer da pobreza de espírito. Abençoados os pobres de espírito pois é deles o reino dos céus.

Só um desempregado é inteiramente livre. Não tem que trabalhar, nem sequer fazer que trabalha. Não tem que ser útil. Não tem que ser escravo da obrigação, nem mesmo servo desta sociedade mediatizada, autofágica, aerofágica e formal.

Existe actualmente um sentido libertador nos militantes da inutilidade.

Os úteis são muito úteis para a inutilidade, mas completamente inúteis para a utilidade. E o contrário, estamos em crer, também é verdadeiro.

Os úteis olham para nós com muita inveja. E os intelectuais têm por nós uma admiração sincera. E os políticos também – honra lhes seja feita. No fundo, penso que se identificam espiritualmente connosco, que partilham dos mesmos sólidos valores. Tal como nós, eles sentem-se verdadeiramente úteis na sua inutilidade funcional. São, tal como nós, uns refinados idealistas, cidadãos que apreciam a beleza da paz de espírito, do desprendimento, da introspecção, da subjectividade de princípios. E fins. Porque, bem vistas as coisas, um princípio já e um fim em si mesmo.

E o mundo é um lugar tão belo! E a vida é um valor tão absolutamente absoluto!

Agora sou livre porque não tenho que ser escravo das convenções sociais. Só cumprimento quem quero, só falo com quem me apetece, só me relaciono com quem escolho. Sou um cidadão liberto da hipocrisia. Não vivo dependente da etiqueta social, das relações obrigatórias, das mistificações religiosas, ou, até, ideológicas.

Presentemente já só me preocupo com realidades essenciais, tais como dormir num banco com vista para um canteiro de amores-perfeitos, acordar num lugar virado a nascente para desfrutar do nascer do dia, ou ser retratado por um fotógrafo amador. Em todos os sentidos.

 


publicado por João Madureira às 21:18
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