Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Nostalgia do feno

 

 

Escrevo-te de C. para dizer que ando muito nostálgico. Ando cada vez mais nostálgico. Não sei se é do tempo, se é da comida, se é de ter cada vez mais saudades da minha terra ou, sobretudo, da minha infância.

Sim, lembro-me. Sim, ainda me lembro que foi num palheiro cheio de feno até quase ao tecto que tive a minha primeira experiência sexual. Foi com uma rapariguinha muito nova, quase tão nova como eu. Dela mal me recordo. Tudo são sombras e inexactidões. O que ainda sinto é o forte cheiro do feno seco. A sua agressividade. A sua insipidez vegetal. Posso até dizer-te que essa minha recordação é a preto e branco, tal como uma fotografia feita de luz e sombra, onde a luz rasga os corpos e a sombra lhes atribui a forma ligeiramente rectilínea. Senti então que a minha vergonha andava aos gritos. Que aquilo era uma um acto pecaminoso. Ainda hoje sinto o mesmo. Ainda hoje sofro a incomodidade daquele acto estranho, daquele fogo proibido, daquele acto animalesco.

Bem, em nós quase tudo é animalesco. Sobretudo o sexo. O sexo tem algo de arrasador. Qualquer coisa que nos transforma em pecadores obsessivos. Qualquer coisa que nos aproxima da barbárie, do primário. Da pulsão animal.

Apetecia-me dizer que foi bonito. Mas não foi. Não há beleza nenhuma em praticar algo que se estranha, quer na forma, quer no sentimento.

Lembro-me também de ter ficado enjoado e triste. Sobretudo, desiludido.

Podia escrever que o sexo me faz feliz, mas não é essa a verdade. O sexo só me angustia.

Sim. Talvez sinta o acto sexual como uma angústia feliz.

Também podia escrever que a vida sem sexo não é vida, o que até é verdade. Mas não o vou fazer.

Não sei se já te deste conta que uma pessoa pode escrever aquilo que diz não querer escrever, mas escrevê-lo na mesma, ficando assim a ideia ao contrário. Ou melhor, ficando assim escrita a ideia contrária à própria ideia inicial.

Para resumir, posso confessar-te que o sexo para mim tem o mesmo sentido que a ideia imediatamente anterior. A mesma simplicidade de construção e a mesma complexidade de compreensão.

E, suficientemente baralhado, por aqui me fico.

Um forte abraço.

 

PS – Por favor, não te esqueças de administrar a injecção anticonceptiva à cadela e de esfregar o pelo à égua.

 


publicado por João Madureira às 19:16
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