Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

O Wally já não sabe onde está

 

 

Eu sou o Wally e estou cada vez mais velho e míope. Antigamente escondia-me no meio da multidão à espera que me encontrassem. Sabia sempre onde estava. Tinha grande sentido de orientação e sabia escolher os melhores sítios para me misturar com a gente e assim passar despercebido. Posso dizer que gostava da minha profissão. Sempre gostei, aliás. Sempre gostei de me misturar com as pessoas, de passear incógnito no meio da multidão, apreciando o andar das mulheres, os sorrisos das crianças ou os gestos magnânimes dos homens. Também via passar os comboios na companhia do meu amigo George Simenon. Sempre tive um pequeno fascínio por comboios. Especialmente pelos antigos, ainda movidos a vapor. Viajava muito de um lado para o outro. E sempre de comboio.

No desempenho da minha profissão escolhia sempre lugares com muitas pessoas, tais como praças públicas, mercados, feiras, parques temáticos, jardins zoológicos, festas, praias e estâncias balneares. Depois elegia um sítio muito discreto, a meu gosto, e ali me deixava ficar até os desenhadores concluírem o seu diligente trabalho de esboçar tudo aquilo com muito pormenor. Para me identificarem faziam-me vestir uma camisa às riscas brancas e vermelhas, colocavam-me na cabeça um gorro do mesmo género e colocavam-me uns ridículos óculos redondos pretos sem lentes. Eu por ali ficava algumas horas à espera da conclusão dos trabalhos dos artistas. Naqueles longos espaços de tempo em que permanecia quieto lia muito, sobretudo romances russos. Sou um amante da literatura russa. Aprecio a loucura dos seus amores impossíveis e as dúvidas existenciais dos seus heróis. E amo profundamente as páginas que descrevem as estepes russas, a imensidão dos bosques de bétulas e a neve perpétua.

Acabo de me reformar. E fi-lo enquanto era tempo. Reformei-me porque me cansei de que andassem sempre a procurar-me. Agora sou eu quem procuro as pessoas. O que é estranho é que antigamente sabia sempre onde estava. Agora nunca me descubro. Nunca sei bem onde estou. Actualmente sou eu quem me procuro porque nunca sei onde me encontro.

 


publicado por João Madureira às 21:01
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