Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

A borbulha desintegradora de Virgínia Woolf

 

 

Quando passava a mão pelo teu rosto espelhado ele desintegrou-se de imediato. E não eras um sonho. Nem sequer eras uma miragem. Eras uma possibilidade.

Não sei bem o que eras, só sei que quando deslizava a mão pelo teu rosto espelhado te desintegraste como se tivesses vontade disso.

Os teus olhos estavam carregados de desilusão. E espelhados, tal e qual o teu rosto.

Sei que eras tu pelos suspiros que desenhavas com os lábios. Depois desintegraste-te. E não eras um sonho. Nem sequer uma memória. Eras tu reflectida nos teus próprios olhos. Espreitando-te num espelho revelador, como se necessitasses de uma derradeira imagem antes de desapareceres.

E choraste. Sei que choraste porque o adivinhei na tua ausência. A tua ausência era pranto. E mágoa. E desespero. Um desespero lacrimejante, como uma chuva contínua e oblíqua.

Os teus olhos reflexivos também eram oblíquos. Como oblíqua era a tua vontade. A tua desesperada vontade de desintegração.

Os teus olhos eram casas. Casas aristocráticas inundadas de vento, repletas de ar oprimido, de partículas alegóricas.

Tu eras uma presença oblíqua à janela quando a chuva caía ainda obliquamente no rio.

O rio era o teu olhar apaixonado. O rio era a tua existência. O rio era a tua morte. E as ondas. E os juncos. E as pedras. As pedras nos teus bolsos. E a loucura oblíqua da chuva. E a demência inclinada das ondas. E o desvario ambíguo dos salgueiros.

A tua loucura era líquida.

O fumo triste do teu cigarro sem filtro também era líquido.

E a tua inquietação também era líquida.

Entraste dentro da tua borbulha desintegradora e foste nas ondas até ao mar. Só depois desististe de escrever. Por fim.

 


publicado por João Madureira às 19:54
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