Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Ruído de fundo

 

 

Tudo à minha volta é movimento. Movimento desordenado, caótico. E eu sentado. Eles olham-me com relativa indiferença. Olham-me como um subterfúgio cristão, como um mal necessário. Também se não existissem pobres de pedir como é que se praticava a caridade cristã? Por isso sou muito útil na minha inutilidade. Por isso sou proveitoso à religião. Sou útil às pessoas, para assim se redimirem de alguns pecados, para assim aliviarem as suas consciências, para poderem praticar em alguém a sua caridade. E eles são tão caridosos, meu Deus! Oh, com são caridosos!

Eu olho-os nos olhos e eles, em troca, reparam nos meus andrajos e na minha sujidade ambulante.

Eu olho-os com relativa hipocrisia. Eles olham-me como uma peça da engrenagem de Deus, do seu Deus misericordioso, do seu Deus tolerante com os pobres e desvalidos. Se não fosse sinistro, isto até dava uma homilia.

Se há que redimir alguma coisa redimam-se os pobres, os desvalidos, os carenciados, os dissolutos.

São tão patéticos os homens. São tão patéticas as suas inclinações humanas, a sua cultura, a sua bondade forçada em troca de uma outra vida no além, da busca da imortalidade da alma. Mas se eles não têm alma, meu Deus! Eles não têm alma. Nem mesmo se ela existisse a conseguiam encontrar. E muito menos conservá-la. E o coração guardam-no em frascos de vinagre, juntamente com os pimentos.

O conceito de alma como introspecção é-lhes completamente alheio. Eles só acreditam no que vêm, no que lhes permite a sobrevivência diária, nas suas convicções, nas suas ilusões económicas, nas suas desilusões sociais.

Eu também sou para aqui um cão vadio. Um cão que só rosna. Um cão que só sabe pedir dinheiro ao dono.

Tudo à minha volta é confusão, idas e vindas, passagens aleatórias. E eles olham para mim e lançam-me moedas como pedras, nem grandes nem pequenas, moedas médias, não notas. Apenas moedas médias, como pedras médias. Não notas. Notas não. Moedas. Apenas moedas.

Tudo à minha volta é ruído. Eu também sou ruído. Eles também são ruído. Ruído de fundo. Ruído apenas.

Eu sou o seu suspiro interior. A sua pequena incomodidade. Eu sou um insecto teimoso, incomodativo.

Estou sentado no meio da confusão. Da sua confusão. Eu sou ruído no meio da sua confusão. Lá no fundo, os homens são só confusão, nervos, moralidade. Os homens são confusão. Eu sou parte da sua confusão. Sou a sua moralidade. Sou o seu movimento. Sou a sua confusão. E o seu ruído. Sou o seu ruído de fundo.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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