Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Assim a modos que…

 

 

– Não sei me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. Vai daí apareceu o Manuel e também começou a querer qualquer coisa e tal. Mas eu nada de me deixar ir na onda marada. Só sei que depois voltou o gajo e de novo se pirou e eu tornei a ficar ali e de novo a olhar para ele e ele a olhar para longe… e tal. O Manuel, entretanto, assobiava. Eu já estava a ficar chateado. Assim a modos que fodido. Mas mesmo muito. Não sei se me estais a perceber. Era uma cena muito marada. E eu para ali a cismar com o neurónios encalacrados de tanto pensar na coisa. Mas não desisti. Eu, como vós sabeis, não sou dos que desistem e muito menos quando sei aquilo que quero e tenho a certeza daquilo que penso. Não sei porque razão, mas o Manuel em vez de torcer por mim, continuava a assobiar como se não fosse nada com ele. E até era. Quando um amigo está em apuros o outro, se é mesmo amigo, também está. Era este o caso. E o gajo que tanto se pirava como regressava, voltou outra vez e, pumba, deu-se a mesma cena e coisa e tal. Não sei se me estais a perceber? Eu não podia permitir tal actuação. Era muito chato andar para ali à porrada, mas, bem vistas as coisas, que outra coisa podia eu fazer? Vai daí mandei o Manuel à merda e dirigi-me ao outro lado. No outro lado estava o Chico Pernalta, mas também ele fez que não me conhecia e pôs-se a assobiar como quem não quer a coisa… e tal. Vendo que o gajo tornava a ir-se embora, eu tornei o olhar para ele e ele novamente olhou para longe, como se não se tivesse já apercebido do imbróglio em que estava metido. Mas eu, por uma questão de honestidade, não podia proceder de outra forma e zás, tornei a atravessar a rua como quem não quer a coisa. Aquilo até já se estava a tornar monótono. Foi então quando o Manuel me perguntou se lhe podia emprestar algum dinheiro. E eu, porra, como estava um pouco chateado com ele disse-lhe para ir à merda. Mas ele não se chateou e continuou a assobiar e até me contou que na noite passada também esteve metido assim numa cena tal e qual como esta que vos conto. Eu não acreditei, claro! Mas, como vos conto, eu não sou sujeito para desistir. Eu prezo muito a honra e a dignidade. Ora, sendo assim, não podia agir de outro modo e foi aquilo que fiz. Agi como vos relato. Tal e qual. Eu não invento nada. Tudo o que vos conto é a mais pura verdade. Por isso, zás. E estava feito. O Manuel perguntou-me se não estava arrependido daquilo que tinha feito. E eu respondi-lhe que não. Penso que vós, na mesma situação, agiríeis da mesma forma. Ou não? Claro que sim! Eu conheço-vos bem. Não sei se me estais, bem, não sei se me estais, coisa e tal… Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. E zás, vai daí eu olho para ele e ele olha para longe e…


publicado por João Madureira às 22:00
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