Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007

Beleza demagógica

– Que lindo pôr-do-sol! Vou buscar a máquina e fotografá-lo. Gosto de ver o sol a pôr-se por entre as cores fortes do anoitecer. Não te seduz esta beleza?

– …

– Não é belo?

– …

– Não é lindo de morrer?

– Não. Não é.

– Achas que não é belo o pôr-do-sol?

– Considero que é apenas uma beleza estúpida.

– E porquê?

– Porque é excessiva. Porque é frequente, corriqueira, banal. Porque é apriorística, rotineira. Não tem subtileza nenhuma. Não é uma beleza trabalhada. É uma beleza que acontece, uma beleza frequente, normal, lógica, redundante.

– A beleza do pôr-do-sol sugere-me Deus.

– O pôr-do-sol Deus! Essa é boa. Se fosse o nascer do sol ainda se percebia. Tinha a sua lógica divina. O pôr-do-sol é como a sua própria antítese.

– Achas que o pôr-do-sol é a antítese de Deus?

– Eu não acho nada. Limito-me a raciocinar segundo os teus cânones. A mim tanto se me faz. Nem o pôr-do-sol é belo, nem Deus existe. É tudo uma ilusão.

– Não te entendo. Cada vez te entendo menos.

– Olha, eu também. Cada vez me entendo menos.

– Mesmo contra a tua opinião, vou fotografá-lo. Acho-o deslumbrante. O pôr-do-sol põe-me eufórica. Sinto-me plena de infinito.

– Balelas! Tu limitas-te a ser demagógica. No fundo, o pôr-do-sol é uma beleza demagógica. É uma beleza que se repete, que enfastia como um bolo demasiado doce, como um beijo demasiado prolongado, como uma cópula contemplativa.

– És estranho! Deves fazer muito esforço para conseguires dizer que não gostas do pôr-do-sol. É impossível não se gostar do pôr-do-sol. É impossível não se ser sensível à sua beleza cromática. És um casmurro.

– Sim, eu sou isso tudo e mais alguma coisa. Sou a tua coisa. O teu factor estranho. A tua sombra cinética. A tua desilusão metafórica. Sou o teu “incomplemento”. Mas, apesar disso, e da tua máquina fotográfica, não gosto do pôr-do-sol. Nem da sua ilusão. Não é a contemplação que faz a beleza, é a tensão, é o rasgo simbólico, a atitude, o desequilíbrio. Sim, a beleza é desequilíbrio sensorial. É fractura, apelo, tensão...

– Clic… já está!

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15


25
26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Barroso

. Barroso

. Poema Infinito (470): Do ...

. Barroso

. Loivos

. 456 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (469): O l...

. No Barroso

. No Barroso

. 455 - Pérolas e Diamantes...

. O cabrito

. No Couto de Dornelas

. ST

. Poema Infinito (468): Voo...

. No Louvre

. O anjinho

. 454 - Pérolas e Diamantes...

. Gente bonita em Chaves

. Luís em Santiago

. No Louvre

. Poema Infinito (467): A a...

. Louvre

. Em Paris

. 453 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Sorriso

. No Barroso

. Poema Infinito (466): Sem...

. Interiores

. No Barroso

. 452 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Barroso

. Poema Infinito (465): Dor

. No Barroso

. Misarela

. 451 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos santos

. Na feira

. O pastor

. Poema Infinito (464): A á...

. O homem da concertina

. Notre-Dame de Paris

. 450 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. Em Lisboa

.arquivos

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar