Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

A estranheza dos dias

 

 

O mundo hoje parece-me mais estranho do que ontem. E ontem o dia foi bastante estranho.

Nasceram-me olhos de mosca. Por isso te multiplico sem que te apercebas. Só o verde se agrega.

Está o tempo velho. E eu também.

O sol está inclinado sobre as pedras das muralhas.

Hoje também o sol está estranho.

Os meus olhos de mosca multiplicam as imagens. Todas as imagens que se movem.

Também as imagens estão velhas como o tempo. E estranhas como o sol. E esquisitas como o dia de ontem.

O tempo está fixo junto à sombra das muralhas. As muralhas esqueceram-se do seu propósito, por isso se deixam tombar pausadamente sobre o tempo que envelhece.

Tudo isto contemplo com os meus olhos de mosca, até a imagem de um homem que morre sem experiência.

Os meus olhos poliédricos multiplicam os teus passos, por isso saltas de fotograma em fotograma.

Os meus olhos de mosca decompõem a luz. É essa decomposição o sentir do tempo.

Os meus olhos de mosca fragmentam a física quântica, por isso passas a ser um átomo louco que reside onde nunca está. É essa a sua génese.

Os meus olhos de mosca não choram, nem se abrem, nem se fecham. Só observam. Fixam as imagens e desmultiplicam-nas até não se aperceberem qual é a verdadeira.

Para os meus olhos de mosca, as imagens envelhecem muito depressa. Tornam o tempo feroz.

É a ferocidade do tempo responsável pelo envelhecimento.

O tempo exige sempre mais tempo. Este tempo, o tempo passado, o tempo do futuro. O futuro do tempo. Todo o tempo.

Tudo é tempo.

O tempo tem a ferocidade dos deuses. Por isso nos enlouquece, porque não se enxerga. Mas está sempre aí.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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