Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Eu sou do norte

 

 

O musgo nas árvores indica sempre o norte.

Eu sou do norte, mas não tenho norte, nem sorte.

A minha avó dizia-me: vai para oeste; e eu dirigia-me para este, nunca para sul. Eu sou do norte, do norte geográfico, do norte magnético, do norte polar. Eu sou do norte e posso até ser de todos os outros pontos cardeais, mas nunca por nunca posso ser do sul.

O sul é o oposto do norte e eu sou do norte, do norte geográfico, do norte magnético, do norte afectivo e nostálgico. E da saudade. O norte é saudade. O norte é o oposto do sul. O norte é verde e o sul é cinzento. O norte é a direcção certa. É o ponto cardeal de referência.

Eu sou do norte porque gosto.

O meu avô dizia-me muitas vezes: vai para este e eu dirigia-me para leste, nunca para sul. O sul é confusão. O norte é o norte. O sul não sei bem aquilo que é. Mas uma certeza tenho: o sul não é o norte. O sul é o oposto do norte. Ora uma coisa não pode ser ela própria e o seu contrário. Isso só é possível ao nível da física quântica. Mas essa física é uma ciência “nanitiva”. Por isso não serve de exemplo para a nossa dimensão. Além disso o meu avô não percebia nada de física quântica. A bem dizer nem da outra física percebia algo que se visse. No entanto também ele era do norte. Tal como eu, também tinha pouca sorte, mas era do norte. Eu sou do norte. O meu avô era do norte. A minha avó também. E os meus pais igualmente. A minha família é toda do norte. Por isso eu sou do norte, nunca do sul. Eu sou do norte. De todos os “nortes” possíveis.

Eu sou do norte. O norte é deslumbramento, ficção, carinho, dicotomia, afirmação, camaradagem. Mas camaradagem sã, camaradagem de direita, camaradagem do tipo da que existe na tropa, não camaradagem de esquerda. Essa é a camaradagem do sul.

No norte os ventos são agrestes, a vegetação é densa, o frio é agressivo, as pessoas afirmativas e os animais domésticos são domésticos, os outros é que não. Ao contrário do sul, onde há animais domésticos que são selvagens e animais selvagens que são domésticos e, pasme-se, existem até animais que nem sabem se são domésticos ou selvagens. Por isso são do sul. O sul é confusão.

 No norte os rios são caudalosos, os céus limpos, os caminhos encantados, as casas sóbrias, os frutos doces. No norte os frutos doces são doces. Ao contrário do sul onde os frutos doces por vezes amargam e onde os frutos amargos por vezes também amargam.

No norte os vegetais são suculentos, a poesia simples, a comida diversificada, os sorrisos sinceros, as palavras quentes, os gestos duros, os olhares sinceros, os jardins nostálgicos, os monumentos eternos, as pedras grandes, o musgo fofo, os peixes saborosos, as aves coloridas e alegres, os desejos inevitáveis, o amor denso, o carinho sofrido e o lume forte.

Por isso eu sou do norte, de todos os “nortes”. Nunca serei do sul.

Ser do norte é um desatino, é dor que dói e não se sente e tudo o que se segue. Ser do norte também é ser original. Camões era do norte.

Ser do sul é um acaso. Camões não era do sul. Camões era do norte.

Já Cavaco Silva é do sul e está tudo dito.

José Sócrates é do norte. Bem, ele não é bem do norte. Por exemplo, não é tão do norte como eu. Mas é do norte, porque, como atrás expliquei, quem não é do sul, só pode ser do norte.

Ser do norte é orgulho.

O sul é o sol do meio-dia, um sol castigador, um sol que come a sombra dos seres vivos.

O norte vê o sol a deslocar-se no horizonte. O norte sabe o que é a beleza e o seu oposto.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 12 seguidores

.pesquisar

 

.Maio 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


22
24
25
26

27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Na aldeia, com neve...

. Na aldeia, com neve...

. 393 - Pérolas e Diamantes...

. Neve no Barroso

. Rio Tâmega - Chaves

. Na aldeia

. Poema Infinito (405): A s...

. Na aldeia

. Poldras de Chaves

. 392 - Pérolas e Diamantes...

. Na festa

. No São Caetano

. No São Caetano

. Poema Infinito (404): Cri...

. No museu

. Na aldeia

. 391 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (403): A b...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 390 - Pérolas e Diamantes...

. Cavalos e cavaleiros

. Cavalos e cavaleiros

. Ponte Romana

. Poema Infinito (402): A l...

. Bailando

. Passeando

. 389 - Pérolas e Diamantes...

. Neve

. Neve

. Neve

. Poema Infinito (401): A p...

. Neve

. Neve

. 388 - Pérolas e diamantes...

. No Porto

. No Porto

. No Porto

. Poema Infinito (400): Ind...

. No Porto

. No Porto

. 387 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Árvore na neve

. Neve no jardim

. Poema Infinito (399): A c...

. No Barroso

.arquivos

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.Visitas

.A Li(n)gar