Sábado, 10 de Março de 2007

O princípio imediato

 

 

Hoje apetece-me correr. Quando se corre pensa-se melhor. Deve ser porque o cérebro fica mais irrigado de sangue ou de qualquer coisa no estilo. Eu costumo pensar enquanto corro. Também costumo olhar enquanto ando e falar enquanto sonho. E também costumo cansar-me enquanto sonho que corro. E quando corro, mesmo sem sonhar. Fora isso, distraio-me com muita frequência. E comovo-me com bastante facilidade. Mesmo enquanto corro. No entanto é com alguma dificuldade que me concentro, independentemente de correr ou não correr, de olhar ou não olhar. Ou de me distrair. Mas penso que estou a sonhar. E distraio-me. Mas a minha grande dificuldade reside no facto de não conseguir entender convenientemente a realidade. Mesmo quando estou em descanso. No fim fico cansado, mas sonho que estou a sonhar. Dizem-me que não percepciono a realidade com a conveniência que ela nos impõe. Por isso considero que devem ter alguma razão. Para mim a realidade parece-me outra coisa, qualquer coisa entre o inventado e a não existência. A realidade parece o meu cansaço. Uma irrealidade física e uma realidade filosófica. Ou, dito de outra forma, se isto que vejo, concretamente, e sinto, algumas vezes, é a realidade, então melhor é não a tentar perceber. Se é que há nela algo que se possa entender.

 

Há um princípio imediato que subsiste à realidade, que é aquele que se baseia em tudo o que está para além dela. Por exemplo, ontem desci 120 degraus, mais coisa menos coisa, e tive a nítida sensação de que os tinha subido. Mais coisa, menos coisa.

Assisti na televisão à festa de aniversário da RTP, na própria RTP, mais coisa menos coisa, e fiquei com a nítida sensação de que estava assistir às bodas de ouro dos meus tios que já morreram.

Quando observei a gala da TVI, pareceu-me assistir ao desfile de carnaval de Aveiro.

E quando hoje espreitei o telejornal pareceu-me observar um aquário de lagostas, e outros crustáceos, num restaurante de Albufeira. Ou por ali perto. Mais coisa menos coisa.

 

Depois apercebei-me, não sem alguma surpresa, que tinha entrado dentro do romance de Robert Musil – O Jovem Törless –, mais precisamente na página 56 da edição portuguesa do Círculo de Leitores, e, aí chegado, não sem algum resignação, aguentei o que sofria o tal rapaz, e, até, com o mesmo vigor das palavras escritas: “Törless recuperou a calma; a estranheza desapareceu, tornando-se cada dia mais irreal, como rastos de um sonho que não se podem afirmar no mundo real, firme e ensolarado”.

 

Ao fim do dia senti, com algum desconforto, diga-se de passagem, que embati contra o vidro da janela da sala de jantar, enquanto voava e zunia com algum desalento rebarbativo.

 


publicado por João Madureira às 00:22
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