Terça-feira, 13 de Março de 2007

Da Alma Lusa e outras ilustrações estapafúrdicas

 

 

Ainda me lembro dos soldadinhos de chumbo, dos bonecos de trapos, dos cães de porcelana, dos vasos com flores, ou dos ferros de passar pintados, ou das lamparinas esquisitas.

Eram todos esses objectos elementos significativamente decoradores das nossas casas que, mesmo sendo humildes, estavam repletas de amor e carinho e amizade e fraternidade e solidariedade. O nosso mundo era pequeno, mas autêntico. Quase sempre reflectindo o esplendor reluzente da autenticidade e da pobreza, da sinceridade, do desejo, da urgência da comida, do enlevo da roupa, ou da protecção da religião. Muitas vezes até misturando todas estas coisas em conjunto.

Agora não. Agora o tempo é só incerto, a pobreza uma palavra, a singeleza um subterfúgio, a sinceridade uma ficção, a educação uma treta e a religião uma espécie de diversão.

Agora o que está na moda é rejeitar tudo o que faz parte intrínseca da nossa cultura e aceitar tudo o que vem de fora.

Desdenhamos das meias de lã e compramos meias de plástico. Desprezamos os carros de bois, as mocas de Rio Maior, os malhos tradicionais e compramos bonecos de pau feitos em África, representando gente que não conhecemos, nem gostamos, nem apreciamos.

Hoje os valores estão subvertidos. Em vez de um boi, ou de um burro, ou de uma cabra, ou de um porco, enchemos as nossas casas de girafas, leões, búfalos, hipopótamos, tigres, macacos ou outros bichos do estilo. Como se todos fossemos africanos, retornados, influentes colonizadores, ou adeptos da Interculturalidade.

Compramos os brinquedos aos chineses, as camisolas aos andinos e a bonecada pretensamente decorativa, e a cheirar a graxa, aos africanos.

Estão os transmontanos loucos. Loucos varridos. Isto é, se ainda há transmontanos de gema, pois a mim parece-me que já só existem transmontanos da treta.

Agora as maçãs e a “picanha” que comemos vêm da América do Sul, o peixe chega-nos da Grécia e as sapatilhas da China.

E tudo isto podia até ser cómico se não fosse trágico. Como trágica é a obra de Camões “Os Lusíadas”. Onde este poeta imortal nos fala das ninfas, das ninfetas, dos deuses e das suas cornetas, dos homens de coração puro, dos conquistadores, dos reis lusos, das rainhas lusas, dos bravos portugueses, dos guerreiros destemidos. E da alma lusa. Sim, e da Alma Lusa.

Agora os escritores só escrevem odes à cultura dos outros, à sua música, à sua gastronomia, aos seus etecéteras. Como se todos os outros povos fossem melhores do que o nosso. E esta nova ideologia até podia ser trágica, mas é, apenas, ridiculamente cómica.

Portugal já não é um país de poetas. Agora limita-se a ser um país de gatos fedorentos.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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1 comentário:
De Tupamaro a 14 de Março de 2007 às 13:13
Na linha de inspiração e estilo característicos de João Madureira, o “Augusto” Augusto de Ervededo, eis um texto contundente, autêntico, em que todas e cada uma - mesmo uma a uma - palavra se aproveitam como sumo puro de verdade pura.
Nos seus textos e nos seus retratos desafia, dia a dia, a nossa preguiça (o nosso comodismo) a dar o salto sobre as fendas sinápticas e chegar a “metas que se vejam” - «coçar o piolho» e «bater com a mão no peito» - não em sinal de contrição, mas para tocar a rebate a sineta da nossa consciência!
Tupamaro


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