Quarta-feira, 14 de Março de 2007

O sonho e a realidade

 

 

Quando era criança sonhava ser bailarino. Era uma aspiração bizarra em mim, já que não consigo sequer dançar o baile dos passarinhos, pois tenho pé de chumbo, ouvido de mercador e sofro da síndrome de timidez introspectiva anti-social.

Mas, como ia dizendo, quando era pequeno sonhava muito e mal, como se vê. Sonhava também em ser pintor ou escritor ou agricultor. Sonhava muito em ser agricultor. Mas não era um sonho romântico, como à primeira vista pode parecer. Sonhava ser, não um agricultor à maneira dos meus avós, mas antes um agricultor abastado, com muitos e muitos e muitos hectares de terra, metade sequeiro e outra metade regadio, uma grande floresta, pastos, e até rios para os animais poderem beber à vontade. Queria ser o que hoje conhecemos com um agricultor tipo CAP, que é um agricultor rico, estudado, bem-falante com o seu escritório repleto de projectos financiados pela Europa, ou pelo Estado Português, pois para o dito tanto monta.

Nas minhas fantasias cheguei mesmo a misturar o sonho de ser bailarino com o de ser agricultor abastado. Quando misturava os sonhos via-me a dançar como um cossaco em grandes festas rurais, para espanto dos aldeões, da minha criadagem e, até, para espanto do gado, especialmente do mais chegado, como os cães de caça, os cavalos de trote e os de corrida. Sim, cavalos de corrida, porque sonhava que tinha vários cavalos que ganhavam todas as corridas em que participavam. Mas eu, generoso como me sonhava, distribuía os prémios pelas instituições de caridade, obras de cariz social, apoio à ciência, aos ecologistas e às associações de defesa dos animais desvalidos, abandonados e carenciados e das plantas em vias de extinção. Nunca nos meus sonhos me vi a financiar a política ou políticos porque, os que então conhecia, eram, ao contrário dos de hoje, verdade seja dita, homens pouco sérios, ambiciosos, aldrabões compulsivos e demagogos inveterados. Naquela altura ainda as mulheres não se metiam nessas aventuras. Tinham mais que fazer.

No meu sonho também organizava sumptuosos bailes clássicos, onde tudo vinha vestido a rigor e onde eu me encontrava, por genuíno imprevisto do destino, com uma princesa russa empobrecida, ou outra no género, vítima da fúria revolucionária dos maçons, bolcheviques, ou de ambos ao mesmo tempo, mas linda de morrer, por quem eu me apaixonava perdidamente, bem assim como ela por mim, e onde a própria me fazia declarações de amor na sua língua materna, traduzidas pela sua querida e estimada mãe, que era uma santa, mas que tinha sido violada pelos malditos revolucionários quando cantava ópera numa festa de aniversário do seu querido esposo, um rei honesto, intrépido, sereno, valente, sábio, poliglota, amante da arte e da agricultura e, curiosamente, também ele bailarino de grande talento…

Depois acordava do sonho e ficava tão arreliado com a realidade que, mais tarde, me transformei num revolucionário e fui pérfido durante algum tempo.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Julho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9


22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No lagar

. Olhares

. Poema Infinito (414): A ...

. Delicadeza

. Sorriso

. 401 - Pérolas e Diamantes...

. Músicos

. Sorrisos

. Fumeiro

. Poema Infinito (413): A ...

. À espera

. Sorriso

. 400 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (412): O ...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 399 - Pérolas e Diamantes...

. No jardim

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (411): Os ...

. Nas batatas

. Na aldeia

. 398 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. No museu

. Poema Infinito (410): Ind...

. Na aldeia

. na aldeia

. 397 - Pérolas e Diamantes...

. Berto e amigos em Covas d...

. Pai e filho no Barroso

. Eu e o Berto ao espelho

. Poema Infinito (409): Exp...

. Na aldeia

. Autorretrato a P&B

. 396 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. Olhares

. Croché

. Poema Infinito (408): O p...

. Sorriso

. A roca e o fuso

. 395 - Pérolas e Diamantes...

. Expressões

. Expressões

.arquivos

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar