Quinta-feira, 15 de Março de 2007

O passeio dos santos

 

 

Estão os santos com sorte.

Por vezes os homens ficam generosos e resolvem trazer os seus santos padroeiros a dar um passeio pela cidade.

Os homens passeiam-nos aos ombros, numa cadência certa para as pacientes esculturas não se atrapalharem, ou assustarem.

A virtude dos santos é a paciência. Por isso são santos. E também são seres disponíveis, amáveis, generosos e, muitas vezes, solidários. Já o mesmo não se pode dizer dos homens, pois são seres muito impacientes, cheios de voracidade, ambição, pressa.

Os santos já foram humanos. Agora são mais do que isso, são elementos protectores. E há muitos santos. E diversos. Mais do que um por dia. Todos os dias do ano.

Os homens colocam-nos em altares para assim lhes prestarem a devida homenagem e para a eles recorrerem quando necessitados de apoio, amparo, aconselhamento.

Desta vez alinharam-nos na praça em frente da igreja e desde ali puderam escutar as sábias palavras do senhor bispo que lhes disse interpretar, o que eles deviam interpretar, sem tradução ou missa cantada, num clamor de sentimentos e devoções, mas não deixando de lembrar que, a quem devemos rezar é a Deus, e a quem devemos amar são os seres humanos. Mais coisa, menos coisa. Fora os seres. Ou, talvez, os humanos. Salvo seja. Pois penso que isto é consensual. Não sexual. Nem homossexual. Nem outonal.

Penso que os santos sabem disso muito bem. No entanto deixam-se utilizar como símbolos religiosos. Não é por ambição que o fazem. É por oferecimento. Além disso, os seres humanos tratam-nos bem e até lhes oferecem dinheiro, animais e objectos valiosos em ouro. E eles, porque não ligam às coisas terrenas, confiam-nos aos senhores padres e estes aos senhores bispos e estes, por seu lado, oferecem-nos às pessoas mais necessitadas. Isto num ritmo e cadência muito convenientes. Sempre a fluir. A intenção e a solidariedade sempre a fluírem num ciclo perfeito e ininterrupto. Num ciclo glorioso de dar a quem precisa, de ajudar quem necessita, de auxiliar quem está desprotegido e inseguro. Sempre a fluir a bondade humana. Sempre a fluir a solidariedade. A ir e a vir. A fluir.

E, num gesto de grandiosidade, pegam nos seus santos padroeiros e vão passeá-los para a cidade. Para o burgo os poder contemplar em grupo, para lhes serem prestadas as devidas homenagens. Depois eles vão à frente e a procissão segue-os religiosamente na retaguarda. Num passeio fraterno e contemplativo, abençoando as ruas, as pessoas, as pedras, as ervas, o ar, as nuvens, o céu. Abençoando tudo e todos. Inundando, com as flores que os adornam, a cidade de rubor e odor.

E nós olhando os andores e os andores andando. Tudo como convém. Tudo como Deus manda.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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