Sábado, 24 de Março de 2007

Joaquim, o Perfeito

 

 

– Espera aqui um pouco que eu já volto – disse eu ao Joaquim, e fui-me embora deixando-o a falar sozinho no meio da multidão.

O Joaquim é bom rapaz mas é chato como a potassa. Enrola-se, e enrola-nos, sempre numa conversa de parvos e não há quem o aguente. Ainda por cima tem o vício de estar sempre a bater-nos nos braços para que lhe prestemos a devida atenção.

Além disso, é daquelas pessoas que, quando fala, não dialoga, impõe. Impõe sempre a sua opinião, que, no Joaquim, não é opinião, mas certeza absoluta. É ele um homem de certezas absolutas. Tem tanta certeza, e tantas certezas, que incomoda.

Se fala de futebol diz logo que o Simão Sabrosa é o melhor jogador do mundo e arredores, pois ele, como se vê, é do Benfica. Não se esquecendo de lembrar, enquanto cospe bolinhas de saliva, que os jogadores do Porto são todos uns trogloditas manhosos e encartados, e os do Sporting uns copinhos de leite misturados com café.

É ele, nas suas próprias palavras e na sua especial visão, o melhor treinador do mundo. Muito melhor que o José Mourinho. Que, na sua douta opinião, não passa de um “treinadorzeco” mediano, arrogante, mas com muita sorte.

Se fala de política, arrasa de uma penada o primeiro-ministro, os ministros e os secretários de Estado. Só ele é que conseguia endireitar o país. E logo se emaranha no enunciado do perfil do seu político ideal: uma mistura de Salazar, Cunhal, Soares, Sócrates, Sá Carneiro, Cavaco Silva e Durão Barroso. Todos misturados num indivíduo só: no Joaquim, claro.

Na sua perspectiva, ele chegava e sobrava para governar Portugal. Só ele sem mais ninguém por perto a importuná-lo. Talvez, se as coisas se pusessem um pouco feias, era capaz de ir buscar alguns directores-gerais para o coadjuvarem. Mas esse cenário só o poderia admitir em casos de extrema gravidade para o nosso querido país.

É esse o protótipo de governo ideal. Ele e só ele. Até dispensava de serviço o próprio presidente da república. E o parlamento. E os respectivos deputados que, na sua óptica, só servem para se sentarem e levantarem e assim ganharem o dinheiro dos contribuintes. Todos eles. Uma cambada de chulos e corruptos.

E quando fala de mulheres é ele o macho perfeito.

Quando fala de maridos é ele o marido perfeito.

Quando fala de filhos é ele o pai perfeito.

Quando fala de pais é ele o filho perfeito.

Só ele é perfeito. O Joaquim.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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