03
Nov06
Ir e vir
João Madureira
Passei alguma parte da minha juventude a andar. Andava muito.
Andava em volta do tempo, da amizade e da esperança.
Compunha circuitos concêntricos que sempre me traziam de volta ao mesmo lugar.
No fundo, a vida é um pouco isso: uma sensação de movimento sem avanço real.
É uma curva contínua que nos transporta constantemente ao ponto de partida.
Estamos sempre a partir para chegar ao mesmo lugar. Sempre a partir e a chegar. Sempre a chegar e a partir. Sempre a ir e a vir. Sempre a vir e a ir. Sempre a fugir. Sempre a chegar. Sempre a ir. A ir e a vir. Sempre a partir. Sempre a chegar. Sempre a fugir. Sempre a colidir. Sempre a cair e a decair. Sempre a sair. A ir e a vir. Sempre a medir e a prevenir. Sempre a sentir. Sempre a divergir, a aderir, a ferir, a interferir. Sempre a ir e a vir. Sempre a vestir e a despir. Sempre a competir, a inflectir, a reflectir e a repetir. A ir e a vir. Sempre a dividir, a exibir e a proibir. Sempre a ir, sempre a rir e a fugir. Sempre a transigir, a transgredir, a confundir, a reunir, a surgir, a cuspir, a punir, a deduzir, a produzir. Sempre a ir e a vir. Sempre a seduzir. Sempre a reproduzir. A ir e a vir. A ir e a vir. A ir e a vir. Sempre a seduzir. Sempre a fremir, a ir e a vir. A ir e a vir. A ir e a vir. Sempre a inserir. A ir e a vir. A ir e a vir. A ir e a vir. Sempre a repetir, a seduzir, a inserir. A ir e a vir. A insistir. Sempre a insistir. Sempre a insistir. Sempre a fornir. Sempre a curtir. Sempre a introduzir. A ir e a vir.
Sempre a presumir.

