24
Out06
Tudo me lembra
João Madureira
Tenho saudades infinitas do som da chuva quando batia no zinco da parede de minha casa em noites frias e turbulentas de Inverno.
Tenho infinitas saudades desse período mágico em que aprendia a sonhar com o lento cinzelar do tempo na cara da minha avó.
Tenho ainda infinitas saudades da luz clara do amanhecer em alvoradas inundadas de neve e frio.
Tenho eternas saudades de pisar a neve dos caminhos pela primeira vez.
Tudo me lembra: os sons do vento, o gemido dos gatos, o ladrar monótono dos cães, o cantar das almas do purgatório, a conversa dos gigantes do Larouco, a agitação frenética das folhas mortas dos carvalhos, o tilintar das moedas no bolso do meu pai, o fumo a sair das chaminés tristes, o chorar das crianças desalentadas, o piar dos mochos, o brilho das geadas, a lareira a arder, a agitação do vento gelado fustigando as ovelhas, as palavras repetidas das missas de domingo, as brincadeiras em torno de um banco ou em cima de uma árvore, as nuvens a fugir no céu, o brilho das estrelas cadentes, o cheiro do feno, o cantar dos grilos nas tocas, os voos nocturnos das bruxas, o grito aflitivo dos dementes, o sorriso discreto das vacas, o rastejar das cobras e dos lagartos, a água a correr nas pedras do castelo, o colher do musgo para o presépio, o corte picante dos ramos de azevinho, a água a ferver nos potes, o torrar do pão ao lume, a matança do porco, a leitura de histórias nas manhãs gloriosas de domingo, o sorriso apaziguador de minha mãe, o meu pai, o meu pai, o meu pai, e as minhas irmãs, e os meus amigos

