Segunda-feira, 14 de Julho de 2014

198 - Pérolas e diamantes: fardo insustentável

 

Sir Tomás Morus escreveu em 1516, no seu livro Utopia, o seguinte: “Na verdade, quando considero qualquer sistema social do mundo moderno, não vejo neles, assim Deus me perdoe, senão uma conspiração dos ricos, para servirem o melhor possível os seus interesses, sob pretexto de organizarem a sociedade. Procuram todos os tipos de habilidades e artimanhas, em primeiro lugar para manterem a salvo os seus lucros mal adquiridos e, em segundo lugar, para explorarem os pobres, pagando-lhes o menos possível pelo seu trabalho.”

 

Em pleno século XXI, Pedro Passos Coelho voltou a encher de sentido estas palavras e a torná-las, mais uma vez, dolorosamente verdadeiras.

 

Pensa ele que o seu pensamento neoliberal é moderno e atual, mas não é. É antigo como as igrejas. E perverso.

 

Na sua sanha contra o Tribunal Constitucional, chegou a invocar o argumento da falta de escrutínio democrático por parte deste órgão institucional e independente.

 

Sendo assim, convém perguntar que tipo de escrutínio democrático permitiu que alguém tão impreparado como o primeiro-ministro chegasse onde chegou?

 

Onde legitima ele esta sua fúria ideológica baseada em leituras enviesadas de badanas de manuais de introdução ao capitalismo selvagem?

 

Onde legitima a sua campanha eleitoral assente em mentiras colossais que o alcandoraram ao cargo de primeiro-ministro, precisamente no momento mais crítico da nossa democracia?

 

É hoje mais que evidente que Pedro Passos Coelho se esconde por detrás de propostas formais, pois é incapaz de enfrentar os problemas.

 

Os banqueiros seus amigos vieram logo a terreiro botar-lhe uma mão. Fernando Ulrich insinuou que não deviam ser apenas juízes a apreciar a inconstitucionalidade das normas orçamentais. Na sua peregrina argumentação, além dos juízes, no TC deviam ter assento também os economistas. Esses mesmos que nos levaram a esta situação de crise profunda expondo os fundamentos mais estapafúrdios.

 

Vítor Bento, o profeta e guru de PPC, veio a terreiro ostentar a sua indignação dizendo que existe demasiada política nas decisões do TC. Agora é o putativo presidente executivo do BES. Afinal os favores pagam-se. E com língua de palmo.

 

Sendo assim, é ocasião para mais duas ou três perguntas: É preferível um país sem Constituição? Ou tendo nós uma Constituição, podemos prescindir de um Tribunal que a faça cumprir? Ou ainda mais radicalmente: como se apelidam os regimes políticos sem constituições democráticas e sem tribunais independentes?

 

Além disso, começa a ser cansativo que a liderança europeia, da qual fez parte um cidadão português que dá pelo nome de Durão Barroso, insista em continuar a tratar-nos como ratos de laboratório da experiência económica neoliberal e não seja capaz de vislumbrar uma alternativa que não se baseie em cortes e mais cortes… em cima de cortes, da subida de impostos e da diminuição da massa salarial.

 

Uma mente moderada e assente no bom senso apenas pode defender para Portugal, em detrimento da subida de impostos, o alargamento do prazo para podermos concluir a consolidação orçamental e, dessa forma, aliviar o pesadíssimo fardo dos juros da dívida do empréstimo contraído junto da troika.

 

Continuando com esta terapia, alguém consegue descobrir empresas de qualidade que pensem abrir portas em Portugal?

 

E que tipo de trabalhadores qualificados se sujeitará a labutar em troca de salários cada vez mais terceiro-mundistas com uma carga fiscal ao nível dos países mais ricos da Europa?

 

Assim, está visto, não vamos lá.

 

Este governo deixou de ser um fardo para se transformar num pesadelo.

 

Quem está a mais no nosso sistema político não é o Tribunal Constitucional. É sim este executivo PSD/CDS que não é capaz de cumprir com as leis da república.   


publicado por João Madureira às 07:45
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1 comentário:
De almerinda melo a 14 de Julho de 2014 às 09:17
Os nossos políticos vivem na demagogia, e fazem dela bandeira. E o Zé povinho continua a espera do sonho \"todos iguais\" o mais utopico sonho dos sonhos. E enquanto o sonho não chega o povo vive o pesadelo .


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