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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jun06

Correspondência

João Madureira
2004_0816quarteiracoimbra0164.JPG
Escrevo-te daqui de baixo, das terras de C. esperando que estejas bem.
Eu cá estou a gozar os rendimentos com muito entusiasmo e dedicação.
Com mais dedicação que entusiasmo, para ser rigoroso e sincero.
Levanto-me logo de manhã cedo, corro junto ao rio, depois tomo banho, volto à rua e sorrio para quem passa. Depois passeio um pouco e vou tomar o pequeno-almoço.
Bebo muito leite e muita água e como muita fruta fresca. Também leio os jornais no café ou nos bancos do jardim. A seguir passeio um bocado pelas ruas da cidade e, por vezes, paro para ouvir um pouco da música com que graciosamente nos brindam muitos músicos de Leste que por aqui passam. Cerca da uma da tarde vou almoçar a um restaurante pequenino que mais parece uma gruta. Mas a comida que servem é de boa qualidade. E bem sabes que isso para mim é que é importante. Depois desço mais algumas ruas, subo algumas vielas, percorro alguns recantos, visito alguns bairros e medito junto aos templos.
Posteriormente vou outra vez até ao café ler revistas científicas. Entretanto bebo mais leite e água, como mais alguma fruta fresca e sorrio para as pessoas que sorriem para mim. É muito frequente parar outra vez para ouvir mais música. Eu sou um rapaz simpático e educado, o que implica que por vezes compre um cêdê para dar de comer a quem toca e dar de beber a quem canta. É esta a minha obrigação.
Também observo montras, varandas, janelas, portas, os desenhos dos passeios, os declives dos telhados, o empedrado das ruas da zona velha, os olhares dos gatos e dos velhos que se sentam junto à porta das suas casas para observar quem passa. Têm olhos tristes, os velhos. Olham para mim como quem olha para uma sombra. E isso dói-me muito. Dói-me mesmo muito. À noite vou jantar a outro restaurante que mais parece o museu da casa da moeda. Tem um ar decadente e um pouco descuidado, mas a comida é boa e, como tu bem sabes, isso para mim é que é importante. Depois passeio mais um bocado junto às margens do rio e fico em paz com o mundo. Por vezes passam por mim pares de namorados sorridentes e eu sorrio também com muita satisfação. Eles quase sempre retribuem o sorriso. E eu torno a sorrir. Em certas alturas volto à rua principal e lá encontro novamente mais músicos a tanger os seus instrumentos.
Então paro um pouco e escuto mais uma pequena modinha.
Assim a modos que bem disposto, ou vou para o meu quarto ler algum livro, ou dois, ou três, com intervalos regulares entre eles, ou, então, vou ao cinema, mas quase sempre saio de lá melancólico. Os filmes são de uma qualidade mais que desprezível. Mas eu gosto de ir ao cinema. Para mim é um ritual. Mais do que um filme, o que busco são lembranças e sensações dos meus tempos de cineclubista. Bons tempos.
Por hoje é tudo.
Um abraço.

PS – Não te esqueças de regar as plantas e de dar de comer ao periquito.
29
Jun06

Outros espaços te esperam... ou desesperam

João Madureira
2004_0727bandapardais0005.JPG
Incendeiam-se os aspectos.
Iluminam-se as pétalas das tulipas.
Sussurram os insectos.

Incendeiam-se os aspectos.
Deslumbram-se os trombonistas com as partituras.
Tonificam-se as trompetas com o juízo final.
Afligem-se os clarinetes com ciúmes dos oboés.

Incendeiam-se os aspectos por não perceberes a febre dos besouros, o delírio das cotovias, o desfalecimento dos grilos, o trabalho físico das cigarras, o canto das formigas, a exaltação dos olhares.

Incendeiam-se os aspectos por amares demais as pedras das calçadas, os reflexos dos morcegos quando passam a rasar os muros do Liceu, as coxas céleres das fêmeas ciosas da sua feminilidade oscilante, os queixumes inseguros das flores ansiosas.

Incendeiam-se os aspectos porque já não alcanças planar acima das nuvens.

Já desapareceram de ao pé de nós as libelinhas dos rios.
Já se purificaram os cavalo-das-bruxas.

Incendeiam-se os aspectos dentro dos livros.

E tu extenuas-te de luz.
Entorpeces-te de música.
Fantasias com a angústia dos desventurados.

Incendeiam-se os aspectos e tu foges com receio dos passos em desvio.

Acalma-te.
A iluminação das tuas mãos é uma bênção.
Caminha.
Outros espaços te esperam.
Outros
espaços
te
esperam...

Ou desesperam.
28
Jun06

Olá

João Madureira
2004_0813quarteira0043.JPG
Lá ao longe um avião desapareceu do nosso campo de visão. Agora só vemos nuvens e azul. É bonito o azul. São bonitas as nuvens.
Está um céu agradável.
Por vezes tudo é memória e bem-estar. E mais memória. E mais memória.
Quanto ao bem-estar, nem por isso.
Parece que não vemos nada quando espreitamos o universo inteiro numa gota de água, ou num olhar distraído, ou numa saudade de convívio.
Tudo anda centrado em superfluidade. Em acrescentos. Em mobilidade. Em juntar o supérfluo ao remanescente, o sobejante ao excessivo, o ínfimo ao irrisório, ou o ridículo ao irrelevante.
Mesmo olhando para o lado, mesmo parecendo distraído, o olhar lá esta a exprimir que o óbvio não se pronuncia entre pessoas que se querem.
Nem sempre o centro das nossas atenções está ao centro.
Nem é esse o perfil de quem saboreia.
27
Jun06

Linhas cruzadas

João Madureira
jm.JPG
Ontem não te pus os olhos em cima e sabes bem como me fazes falta.
Andam os dias desestabilizados e os céus turvos.
Por mais que me esforce não consigo estabilizar os meus sentimentos.
E não é transgressão minha as alucinações que experimento quando viajo de carro.
Só penso no motor a aquecer, a aquecer, as rodas a girar no asfalto, o ar a ausentar-se transversalmente ao vidro. O asfalto de encontro aos olhos, os olhos de encontro às árvores, as árvores de encontro à noite, a noite de encontro ao dia.
Decompõe-se, assim, a probabilidade do entardecer.
Desalenta-se a noite antes de embranquecer.
Não é o escuro que dói, é a indiferença.
Queria voltar a ser absolvido pelo que não fiz.
Perdoem-me.
26
Jun06

Deixa-te ficar aí

João Madureira
2004_0727bandapardais0016.JPG
Não me posso sentar porque tenho pressa.
Estou agitado. Estou nervoso. Estou eléctrico.
Estou desejoso de chegar a casa para ler pela terceira vez a obra “Pedro Páramo” de Juan Rulfo.
Aquilo não me sai da cabeça. Está tudo morto, até o narrador.
Que dor. Que sensação de loucura total.
Não me convences. Prefiro ir ler o livro que ficar aqui a falar de futebol.
Concordo que está fresquinho. Mas não me convences a ficar aqui para falar de futebol.
Vou para casa. E já.
Até amanhã.
Não quero que me acompanhes a casa. O melhor será ficares aqui a falar de futebol com os teus amigos.
Tu até falas bem de futebol.
O problema não está no futebol, está na conversa interminável sobre quem é o melhor a fintar, quem passa melhor a bola ao Pauleta, quem corta melhor os lances do adversário, quem organiza melhor o jogo.
O problema também não está no Pauleta, que não marca golos.
O problema está na conversa, não na bola. O problema está na conversa não nos médios, nem nos defesas, nem nos avançados, nem nos laterais, nem no guarda-redes. O problema está na vossa conversa interminável sobre aquilo que não dominais mas que teimais em discutir como se dependesse da vossa conversa a vitória dos jogadores.
Tu, por exemplo, nunca deste um pontapé numa bola mas falas como se tivesses sido o Eusébio do teu bairro.
Tu até falas bem. Falas mal de tudo, mas falas bem. Dizes mal de tudo, mas falas bem. Tu até falas bem, mesmo quando dizes mal, que é aquilo que sempre fazes.
Agora até já percebes de economia e finanças. E de futebol. E de tácticas. E de educação. E de política internacional. E de política interna.
Deixa-te ficar aí.
Deixa-te ficar aí.
Quero lá saber da lesão do Cristiano Ronaldo. O que eu quero é chegar a casa e sentar-me a ler o livro do Juan Rulfo. Não, não quero que me acompanhes a casa. Eu vou sozinho.
Não, não quero que me acompanhes a casa. Eu vou sozinho.
Não insistas.
Eu vou sozinho.
Quero lá saber do cartão vermelho do Deco.
O que eu quero é chegar a casa e pôr-me a ler o “Pedro Páramo”.
Quero lá saber da expulsão do Costinha.
Não, não quero que me acompanhes a casa.
Quero ir sozinho.
Tenho pressa. Até amanhã.
Deixa-te ficar aí. Não insistas.
Até amanhã.
Não insistas.
Até amanhã.
Não, não quero que me acompanhes a casa.
Eu vou sozinho.
Quero lá saber quem é que vai substituir o Figo.
O que eu quero é chegar a casa e deitar-me a ler o livro do Juan Rulfo.
Até amanhã.
Não insistas, eu vou sozinho.
Até amanhã.
25
Jun06

Desabafa, por favor!

João Madureira
2004_1208chavesDezPonteRio0049.JPG
Nunca é tarde de manhã.
A manhã é que pode ser tardia.
Mas a tarde nunca é manhã.
A tarde é sempre tarde.
A tarde, quase sempre, é noite amanhecida, mesmo sendo noite e manhã, desejando, sempre, sendo a tarde tardia, ser tarde e noite, quando a manhã é manhã (ou manha) e a tarde é noite sendo a manha quase a manhã da tarde e da noite amanhecida.
E a noite tardia é manhã (que não manha), ou será que a noite é que é maninha?
Não me estragues a tarde, ó manhã.
Não me arruínes a manhã, ó noite.
Não me destruas a noite, ó tarde.

Nunca a manhã é tardia, mesmo sendo a tarde amanhecida.
A manhã é manhã, mesmo não querendo.

Ó noite, nunca sejas demais. Porque sendo, por vezes, tardia, nunca és manhã mas és amanhecida antes da tarde.
Tarde, tardia tarde, tarde tardia, nunca foste manhã. Mas és quase noite.

E, por outro lado, bem podias ser noite quase amanhecida.

Quero tocar-te de noite, ó tarde.
Mas eu amo a manhã.
Mesmo quando amanheço tardiamente à noite.
24
Jun06

Mudar de passeio

João Madureira
passeio. jmad.JPG
O José não gosta nada de mudar de passeio.
Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe destabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido.
Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude.
O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu.
Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar.
Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama.
Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas.
Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os.
Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo.
Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pêlos da epiderme.
Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso.
Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia.
Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos.
Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de Chaves. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra.
O José é muito habilidoso com as mãos. Aprendeu a fazer croché e confecciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do Tâmega.
Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.
Hoje tocou-a para mim.
Eu até chorei.
Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas.
Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart.
O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes.
O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.
23
Jun06

a, b, c, d, e, f

João Madureira
2004_0905chavesaguasetembro0073.JPG
a) Sinuosas são as linhas por onde se cosem os argumentos cinematográficos. Especialmente os portugueses. Que, de tão elaborados, destroem a paciência do cinéfilo mais intrépido.
Mas o cinema de hoje é imbecil. Muito movimento e pouco argumento. É só meia bola e força.
Tudo se baseia nos actores. Mas os actores são quase todos iguais, isto para não dizer todos. Todos e mais alguns. E é nos “alguns” que a porca torce o rabo.

b) Um dia vi um filme com uma porca e já me esqueci da história. Doutra vez vi um filme com um anão. Só me lembro do anão. E mal. Também me recordo de ter visto um filme sobre uns emigrantes magrebinos em França que comiam um pão tipo cacete com chouriço junto a um camião do lixo. Não me lembro de mais nada porque depois adormeci. O filme era do Godard. Também me lembro de outro filme onde um jovem francês bebia ar com a ajuda duma colher no meio do campo, depois não me lembro de mais nada porque adormeci. O filme era do Godard. Lembro-me, ainda, de um outro onde um jovem casal falava através dos títulos dos livros e não me lembro de mais nada porque adormeci a meio. O filme era do Godard.
Recordo de ir ver mais alguns filmes do Godard mas desses não me lembro mesmo de nadinha. Só de acordar no fim do filme.

c) Está claro que o problema não estava na falta de qualidade dos filmes do realizador francês. O problema residia na minha falta de cultura cinéfila. Pois não percebia as metáforas, os planos, os diálogos, a montagem, as insinuações, a linguagem revolucionária, nem percebia o francês, que para mim sempre foi uma linguagem de donos de gatos persas que gostam de sair à noite com alguns rapazes.
O povo detesta os filmes do Godard. Os intelectuais adoram-nos. Não sei é se os conseguem ver sem adormecer.

d) O povo é muito leal nos seus gostos. Os intelectuais não. Os intelectuais são bons rapazes, ou raparigas, mas é gente que gosta de se sentir mal com o bem dos outros. Adoram dizer que gostam de coisas chatas e complicadas. Não apreciam coisas simples. Gostam do povo vertido em dialecto epilogado. Gostam do povo mas detestam tudo o que ele faz, o que ele come, o que ele veste, o que ele lê. Abominam a música e adoram ruído.

e) Os intelectuais são demais, mas, por outro lado, nunca são demais. Em Portugal até são de menos. Mas eu gosto muito deles. E também gosto do povo. E de música popular, fado, marchas, folclore. Adoro caldo verde e chouriço. E pão saloio. E camisolas do Figo. E bandeiras de Portugal e braceletes de Portugal e “pines” de Portugal e cachecóis de Portugal e de lenços de Portugal e relógios da selecção de Portugal… e também gosto de Portugal, propriamente dito.
E de sardinhas assadas e de febras assadas e de linguiças assadas e de alheiras assadas e de camisolas do Deco e do Figo e do Pauleta e do Simão Sabrosa. E de Portugal e da nossa selecção. E da nossa querida bandeira das quinas. E de figos e de maçãs e de laranjas e melões e melancias e de peras e tangerinas e da camisola do Maniche e da do Figo e da do Deco e da do Ricardo e da do Figo novamente, porque nunca é demais. E da bandeira de Portugal e da camisola da selecção de Portugal. E de Portugal, propriamente dito, também gosto muito. E de sopa de chícharros com couves e de creme de cenoura e de arroz de tomate com carapaus fritos. E gosto muito dos calções com o número 7 do Figo. E dos cachecóis da selecção e das bandeiras de Portugal.

f) Viva Portugal, propriamente dito.
Viva a bandeira portuguesa que agora está em toda a parte.
Viva a selecção portuguesa.
Viva o bacalhau.
Viva tudo o que é nosso.
Viva Timor-Leste, que é bem o espelho da sua Pátria-Mãe.
Viva tudo o que pode viver.
E viva outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra ainda.
Golo. Golo. Golo e outra vez golo. E mais um golo e outro e outro e outro.
E mais uma bandeira e mais um golo e mais uma camisola do Figo e o caldo verde e tudo e tudo e tudo.
Viva tudo e mais alguma coisa.
22
Jun06

Procura-se um candeeiro

João Madureira
2004_0714chaves-noite-julho140002.JPG
Desapareceu-me um candeeiro.
A quem o encontrar pede-se encarecidamente que nos contacte neste blog.
Estou inconsolável. Não sei que vos diga.
Estava eu a editar mais um “postal” quando ele se volatilizou nas auto-estradas da Internet. E não disse nada. Não se despediu, não comentou com ninguém o seu hipotético mal-estar. Desapareceu. E é tudo.
Não sei se foi por causa da minha admiração por candeeiros, se pela deslumbrante arte de os admirar.
Não sei, ainda, se foi alguma coisa que eu escrevi o que o pôs em fuga.
Só sei que desapareceu sem sequer se despedir. E isso não se faz.
Estou inconsolável, triste, abatido, dilacerado, confuso, gaguejante, amargurado, deprimido, humilhado e ofendido.
Mesmo assim continuarei a amar profundamente os candeeiros, a sua verticalidade, a sua luz, o seu brilho, a sua calma paciência, o seu sentido de missão, a sua capacidade para o sofrimento, a sua beleza pura, o seu ferro forjado, as suas lâmpadas, os seus parafusos e fios.
22
Jun06

Em memória dos desertores

João Madureira
2004_1218torrervededo0016.JPG
Lá vem o sol aquecer os pinheiros e eles agradecem, como os animais agradecem a sua sombra nos dias de maior calor.
O sol e a sombra nos montes do interior queixam-se de abandono.
Mas ninguém lhes liga.
Também se queixam os pássaros e os grilos e as cigarras e as cobras e os lagartos e os coelhos.
Sente-se um sussurro de compaixão quando o vento resvala pelos troncos das árvores dos montes. E gemem baixinho.
Aglomeram-se as formigas nos carreiros que ninguém usa.
Apodrecem as folhas e as raízes das árvores por falta de carinho e utilidade.
As teias de aranha envolvem as giestas.
Os tojos já não crescem como deviam.
Deslizam as ervas pelos outeiros invadindo o que já foi útil e belo.
Choram os salgueiros.

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