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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Jul06

Debaixo da noite

João Madureira
2004_0714chaves-noite-julho140015.JPG
Debaixo da noite está o silêncio das portas e debaixo dele ainda estão os gritos das cadeiras e o gemer das pedras e o murmurar dos interstícios das paredes e o olhar das gárgulas e o piar das corujas e o desabafar das ameias dos castelos de montanha e o rumorejar das escadas e das portas e o destino das árvores e o cenáculo das oliveiras e a desfaçatez dos aloendros e a suposição dos carvalhos e das urzes e o bulir profundo das ervas e o rastejar das cobras e o bulício dos insectos e dos olhares das cigarras e a metamorfose dos lírios e a insipidez dos bonsais nas estufas e o florir extemporâneo das rosas e dos cravos e dos nenúfares e o rezar dos elefantes e o implorar dos desviados e a liturgia dos infelizes e dos indistintos e o andar dos lobos e o uivar dos cães e o miar dos gatos e a inteira lucidez dos crentes e a sabedoria dos agnósticos e os segredos dos príncipes e a cegueira dos poderosos e a sabedoria dos inocentes e a incoerência dos bem-aventurados e as dúvidas dos sábios e a dicotomia dos sérios e o riso dos tontos e o choro dos aprendizes e a consciência dos incautos e a satisfação dos inocentes e a inocência dos pecadores e a lucidez dos opressores e a infelicidade dos amantes e a ditosa pátria dos apátridas e a reflexão dos artífices e o compulsão dos eremitas e a imensa lógica do espaço e a infinita dimensão de tudo e de nada e a interminável sucessão dos dias e das noites… e de tudo o que existe.
Ámen.
18
Jul06

Etc.

João Madureira
2004_0515Chaves0147.JPG
A minha primeira namorada chamava-se Lurdes. Era uma rapariga feia mas enérgica e decidida. Dava-me beijos como quem dá murros.
A segunda chamava-se Rosa e era bonita, mas muito piegas e choramingas. Sabia beijar muito bem, mas parecia de plástico.
A terceira não era nem bonita nem feia, antes bem pelo contrário. Não se interessava por beijos nem por nada. Só cantava modinhas a toda a hora. Chamava-se Fátima.
A quarta era loira e de olhos azuis. Gostava muito de dançar. Chamava-se Rebeca e dava beijos muito apaixonados.
A quinta foi a Isabel que usava umas mini-saias verdadeiramente vistosas. Tinha umas pernas muito bonitas. Fora as pernas e a mini-saia, nada mais tinha de interessante. Ria-se de uma maneira grotesca.
A sexta chamava-se Cristina, era gaga mas muito boa rapariga. Até a rir gaguejava. Até gaguejava a beijar.
A sétima foi a Joana. Era uma rapariga do melhor que há. Só que era muito azarenta e distraída. Num só mês conseguiu partir um braço e uma perna.
A oitava tocava muito bem flauta, escrevia lindos poemas de amor e corria muito bem os cem metros. Chamava-se Rosário.
A nona andava muito bem de bicicleta e era muito boa aluna a matemática. Chamava-se Manuela.
A décima chamava-se Conceição e assobiava que nem um pintassilgo e tocava muito bem a pandeireta. Era também muito brincalhona. Dava beijos como amoras.
O resto fica para outra ocasião, porque a ocasião é que faz o lambão. E não o oposto.
Ou dito de outra forma, a ocasião é que faz o aldrabão.
E o contrário também tem razão. Que não o lambão, que, por ser aldrabão, se aproveita da ocasião para ser ladrão.
E todos sabemos que ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão, etc.
17
Jul06

Mais de oito mil

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0073.JPG
Sou um sucedâneo. Um pássaro nocturno. Uma ave agoirenta. Uma vontade de voar. Um pássaro existencialista e, sobretudo, memorialista. Uma litania de referência. Sobretudo de referência, para quem as não tem.

Sou…
Da litania, o surrealismo. Do surrealismo, a inércia. Da inércia, a eterna paz da agitação.

Para além da vontade de ser ave nocturna, sou da luz e da Lua e de Marte, quando não de Vénus e de Júpiter. Desejo ser de Júpiter se muitos outros forem de Marte e da Lua ou, até, da Terra.

Quando tudo está em calma eu estou agitado. E quando tudo está agitado eu estou em calma. Por isso sinto que vou por aí. E por aí mesmo. E não por outro lado. E é aí que está a calma da agitação e a agitação da calma. E a calma da calma da agitação.

Não há melhor calma que a de pertencer e ser do lado do lado de cá e do lado do lado de lá.
Se há lado eu sou do lado de lá.
Se não há lado eu sou do lado de lá. E se há lado de lá, bem, eu sou capaz de ser do lado de lá e do lado de cá.
16
Jul06

Descer a calçada

João Madureira
2004_0918chavestarde0009.JPG
A Maria Rosa desce a calçada. E também a Helena e a Teresa e a Joaquina e o José Manuel e o Rui e o Francisco e o João e o António e o Fernando e a Sofia e a Amélia e tantos outros que vieram ao casamento da Margarida e do Pedro.
Estão todos bonitos de se ver. Todos bem enfarpelados, com os seus melhores fatos, os melhores sapatos e muito perfumados. Os homens estão todos bem escanhoados e as senhoras ostentam penteados admiráveis. Todos sorriem muito.
Enquanto descem a calçada falam uns com os outros de uma maneira descontraída.
Podemos dizer que um casamento é sempre uma festa conveniente. Uma festividade admirável de futilidades bem projectadas na vida das pessoas. É o admirável caminho da redenção. Uma união subtilmente desaforada, uma ligação agradavelmente efémera.
Este é um dia que se vive para recordar.
Depois da cerimónia religiosa vem a lambança estapafúrdica que quer significar festa e celebração.
Hoje é festa. Amanhã logo se vê.
15
Jul06

Também

João Madureira
2004_0515Chaves0112.JPG
Hoje fartei-me de abrir e fechar portas. De fechar e abrir portas. De as encostar, de as bater.
Também me fartei de subir e descer ruas, de contornar praças, de subir e descer escadas.
De entrar e sair de cafés bares e restaurantes.
Também me fartei de falar, de ouvir e de falar outra vez. E tornar a ouvir e tornar a falar. E assim sucessivamente, sempre em períodos de tempo absurdamente idênticos.
Também olhei para muitos telhados, para muitas janelas, varandas, brasões, escadas, cornijas, parapeitos, vidros e chaminés.
Também olhei para as sombras que as pessoas desenham nas calçadas, para os bancos dos jardins, para as árvores que guardam as margens do rio.
Mas o que melhor me soube foi apanhar fresco numa rua estreita no coração da cidade.
15
Jul06

Fintas

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0075.JPG
Sobe o olhar até bater no céu.
Perco momentaneamente o equilíbrio.
Agora só me resta descer o olhar pela linha das margens.
É sempre a mesma finta.
13
Jul06

Remanesce a folha

João Madureira
2005_1126ChavesA11nov0039.JPG
Remanesce a folha, olho para os sapatos. Para a camurça dos sapatos. Para os pontos que cozem a borracha ao couro. Olho para o seu aspecto arredondado, para a sua característica peculiar de dar conforto e protecção.
É a sua utilidade aquilo que me seduz. A sua disponibilidade intrínseca, a sua capacidade de sofrimento.
Pouso um pé junto ao outro e descanso.
A sua simetria ajuda-me a calçá-los.
São os meus pés simétricos.
Mas é a assimetria aquilo que nos permite evoluir. Se é de evolução que falamos quando falamos de afeição. Se é de afeição que falamos quando falamos de evolução.
Agora fala-se quase sempre por falar, por isso hoje limito-me a falar dos meus sapatos que pousam merecidamente sobre o alcatrão da estrada.
12
Jul06

A raia miúda

João Madureira
2004_0905chavesaguasetembro10083.JPG
O meu país nunca teve fronteiras, mas é como se as tivesse.
Qualquer pessoa gosta de ter uma casa só para si.
Uma casa que não é só nossa, é de todos e não é de ninguém.

O meu país nunca teve política, mas sempre lhe fez falta.
O meu país vive de ar e vento. Uns pesam que isso é muito poético, mas é apenas triste. As pessoas do meu país têm muita saudade. Têm saudade de tudo e não se interessam por nada.

São felizes na infelicidade, as pessoas do meu país. Por isso sorriem por tudo e por nada.
Quando se metem ao caminho nunca sabem bem para onde vão, mas dizem sempre que querem ir. E querem ver. E querem ser. E querem estar.
Querem ir porque vêem os outros ir. Mas nunca se perguntam porque razão os outros vão.

Não somos todos iguais. E isso é sadio. Mas as pessoas do meu país pensam o contrário.
Eu até considero que elas não pensam. Limitam-se a ser o oposto. Que, por isso mesmo, não é coisa nenhuma.

Uma estrada vai sempre de um lugar a outro. Tem sempre um propósito. Uma fronteira.
Só que o meu país nunca teve fronteiras, mas é como se as tivesse…
11
Jul06

Fugir

João Madureira
2004_0730santoamaro29julho040022.JPG
Meia-noite e há silêncio nas ruas.
A festa é só amanhã, mas eu prefiro ir-me embora já hoje.
Eu não gosto de festas. São manifestações pouco adequados à minha maneira de ser.
O convívio dá-me urticária e também me provoca tonturas e espasmos maniqueístas.
Nas festas, ao contrário das outras pessoas, fico irascível, mal disposto, nervoso e começam-me a piscar os olhos sem sentido.
Mas é sobretudo o barulho aquilo que mais me perturba. E não há festa sem barulho.
E eu não posso com o barulho. Assusta-me.
Portanto, quando há festa no meu bairro fujo para a minha aldeia e ali passo dois dias desprezíveis mas sem dores de cabeça. E isso basta-me.
Lá estabilizo as minhas preocupações existenciais. Sobretudo vivo de pequenas, mas preciosas, recordações. O olhar da minha avó. O cantar da minha tia. O choro da minha irmã. O vento assobiando nos ramos das árvores. O sol iluminando a igreja. A chuva regando os campos. A sombra deslizando na tarde. O paciente correr do rio. Os animais regressando dos lameiros ou do trabalho. Os homens e as mulheres cantando enquanto regam o jericó. O lento crepitar da lareira. O subtil e paciente ferver do caldo. O cozer das batatas no pote. O estrugir do arroz de tomate na panela. O simpático bater dos vizinhos na porta da cozinha. O vinho bebido pela caneca.
No fim do dia adormeço sonhando com o impossível regresso ao passado.
10
Jul06

Ondas

João Madureira
2004_1208chavesDezPonteRio0047.JPG
As ondas de calor atormentam-me, bem assim como as ondas do cabelo, ou as ondas do mar, ou as ondas radiofónicas.
As pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, pelo contrário, tranquilizam-me.
São bonitas de se ver.
As pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, também tranquilizam muito a minha vizinha, que nos dias de alguma ondulação começa a cantar lindas cantigas de amigo.
O seu marido, igualmente se entusiasma com as ondas do Tâmega, só que a ele as canções que melhor lhe saem são as de amor.
A uma sua filha, pelo contrário, as pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, causam-lhe nervos e por isso só entoa canções de escárnio e maldizer.
A mim, as ondas do simpático rio, quando existem, fazem com que fique com disposição de tocar gaita-de-beiços.
Então vou para a janela e toco olhando para o céu e imaginando as ondas do Tâmega, isto quando elas existem.
Podem os meus amigos imaginar a beleza do momento tocando eu pequenos improvisos de jazz na minha gaita de beiços, a minha vizinha cantando lindas cantigas de amigo, o seu marido entoando melodiosas cantigas de amor e a sua filha berrando controversas cantigas de escárnio e maldizer.
Isto enquanto o Tâmega se enche de pequenas ondas que mais parecem arrepios de uma sereia apaixonada pela Ponte Romana.

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