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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Set06

... e pong

João Madureira
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29
Set06

Ali e a semiótica

João Madureira
2005_1126ChavesA11nov0033.JPG
O meu amigo Mário revelou-me que anda triste porque agora já não consegue encontrar indivíduos.
Confesso-vos que não percebi bem o queixume. Eu sou mais terra a terra. Ele é que gosta de pensar sobre o que os outros pensam ou não pensam, sobre o que significam determinadas palavras fora do contexto ou dentro dele, de reflectir sobre a arbitrariedade das ideologias totalitárias ou sobre a indiferenciação ideológica e política que atravessamos. Fora isso, é até bom rapaz, um eficaz chefe de família, um atinado adepto do F. C. Porto e um rigoroso praticante de desporto, nomeadamente das corridas de karting.
Na segunda-feira passada abandonou na mesa do café os seus amigos mais chegados. E isto porque, segundo o próprio, sendo todos de orientação política, futebolística e religiosa diferente, agora estão sempre de acordo. “Parecem parvos”, diz ele para quem o quer ouvir. “Actualmente dizem e defendem todos o mesmo”. E repete muitas vezes a frase: “Cada vez existem mais pessoas com as mesmas ideias. E isso é assustador.”
Eu também acho que é. Mas penso que não é motivo suficiente para abandonar a mesa das suas amizades. Mesa que frequentou e animou durante 20 longos anos. Foi ali que debateu a questão da semiótica do marxismo, a táctica e estratégia da guerra do Iraque na perspectiva de um chinês xintoísta, a liberdade aparente dos ricos, a penúria simbólica dos deputados europeus, a ontologia das operações matemáticas, a liberdade sexual em contexto cibernético, o direito internacional dos cães de caça, a influência da cor dos olhos na reprodução assistida, a importância da linguagem no crescimento dos antúrios e por aí fora, passando pela requalificação da Galinheira, o simbolismo da curva do Caneiro, a inteligência sofisticada dos embriões dos caracóis e o egocentrismo dos estrelas do mar.
A mãe do Mário disse-me que o filho falou na sua barriga, quando andava grávida de sete meses. Por isso ele é tão predestinado.
28
Set06

Sem título

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0020.JPG
Hoje encontrei o José, um rapaz da minha idade que já não via há muitos anos.
Está praticamente igual. Parece que o tempo não passa por ele.
Claro que está um pouco mais gordo, mais enrugado e mais calvo, mas, fora isso, parece praticamente igual ao que foi.
O José era muito castiço. Tinha muita piada.
Sabia tocar um pente com um papel imitando uma trompete, cantava como o Joe Cocker, imitava a bateria dos Deep Purple com a boca, travava os seus carrinhos de brincar no tempo certo e com um chiar muito característico.
Fora isso, queria ir para polícia. Só que imigrou para Espanha.
E… já não me apetece escrever mais nada sobre o José, nem sobre nada. Estou irritado, apetece-me rasgar o computador e quebrar um disco de fado. Estou muito irritado e mal disposto. Até me doem os dentes. Também me apetece dizer asneiras.
Apetece-me dar um pontapé num gato, ou num cão.
Estou muito arreliado. Até me doem os joelhos e os pés.
E este tempo ainda me põe mais irritado. Chove e brilha o sol. Onde já se viu tal estupidez. O barulho dos carros enfurece-me.
Tenho uma borbulha no nariz.
Estou numa pilha de nervos. Tenho de ir cortar as unhas.
27
Set06

O que

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0036.JPG
Hoje perdi a linha do horizonte e ainda não a consegui encontrar.

O que está feito, feito está.

Logo mais à noite vão brilhar de novo os olhos cobiçosos da medusa.

O que está dito, dito está.

Um deslizamento de vontades desvaneceu-se no limite da paciência.

O que está decidido, decidido está.

Há portas que foram fechadas e que nunca mais serão abertas.

O que está, está, e o que vier, logo se verá.
26
Set06

Auto-retrato com calma

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0024.JPG

Tem este retrato a particularidade de ser auto e de ter alma.
Tem a alma alguma calma em ser retrato.
Enquanto a alma se acalma, o retrato se assanha.
Tem forma a alma e paciência a calma.
Tem memória a manha.
25
Set06

Quase tudo, quase nada

João Madureira
2004_0515Chaves0030.JPG
Uma vez contaram-me uma história a preto e branco. Era uma história alegre, que parecia triste, mas onde os maus eram absolutamente maus e os bons eram tão bons que não podiam ser melhores.
Acho que foi a partir daí que deixei de gostar de histórias de bons e maus.
Agora só gosto de histórias reais. E não me interessa se são a preto e branco ou a cores. O que me interessa é saber se são ou não reais.
E gosto dessas histórias especialmente porque são tão surpreendentes e ricas que me fazem sonhar.
Sonho tanto com a realidade que já confundo tudo.
Mas não me importo.
Acho que é da confusão que nasce a realidade.
Por isso é a realidade tão confusa, tão perturbadora e tão criativa.
Uma vez contaram-me uma história passada numa terra a cores onde o bom era mau e o mau era bom, onde o primeiro era branco e o outro mestiço, quase preto, quase mau, sendo, ou parecendo, mau, ou quase mau, só que era bom, mesmo parecendo aquilo que não era.
Tinha o outro personagem da história a estranha qualidade de parecer aquilo que as pessoas esperavam dele. Por ser branco tinha que ser bom, só que era mau e, por mais que a vontade das pessoas fosse, ou parecesse, que parecesse bom, era mau, ou quase mau. Por isso também era quase bom.
Mas se era quase bom, também era quase mau, quase mestiço, quase branco. Porque um mestiço é quase branco, mas também é quase preto.
Portanto era o branco quase preto e o preto quase branco porque ambos eram quase mestiços. Sendo o mestiço quase preto a mesma coisa, porque estava, ao mesmo tempo, no meio e no fim do espectro. Por isso também o que era quase bom era quase mau e o que era quase mau era quase bom.
Abreviando: eram ambos quase brancos e quase pretos e quase mestiços, quase bons e quase maus e vice-versa.
24
Set06

Saudades do estilo

João Madureira
2004_0727bandapardais0019.JPG
Tenho saudades dos tempos em que fumava, não por vício, mas por estilo.
Para dizer a verdade, fumar é um acto quase imbecil. Desde logo porque o fumo é algo de entediante e eufemístico.
Mas a saudade não. A saudade é uma sensação especificamente humana.
Lembro-me que a primeira vez em que dei uma passa num cigarro foi na parte traseira da escola primária de Montalegre. Engasguei-me com muito estilo e passei logo o cigarro ao meu colega. Ele fez o mesmo, engasgou-se com muito afinco e passou o cigarro ao outro parceiro. Por seu lado, o terceiro colega chupou no filtro do cigarro, engasgou-se bem engasgado e passou o cigarro ao outro companheiro e assim o cigarro foi passando de mão em mão até chegar ao filtro. Foi a mim que coube a tarefa bizarra de atirar o paivante ao chão e de o apagar com a ponta do sapato.
Muito congestionados, com a boca a saber terrivelmente mal e com as mãos a cheirar a tabaco, fomos para casa observar os nossos pais que fumavam quando lhes dava a vontade.
Depois o gesto imitativo foi-se tornando hábito e o hábito transformou-se em vício e durou muitos anos até ao dia que abandonei o maço de cigarros num cinzeiro e por ali se quedou a minha dependência, que foi estilo e que agora é saudade.
Actualmente, quando me dá a saudade, pego no meu olhar e vou contemplar a banda a tocar.
E é ali que recordo com dor a imagem do meu pai fumando em contraluz contra as imagens deslizantes dos seus dedos calmos e abstractos.
23
Set06

O que cai

João Madureira
2004_0905chavesaguasetembro10129.JPG
Houve tempos em que permanecia à janela da minha casa a observar as gotas que desciam pela cara de granito da estátua que morava no meio da praça.
No bairro tudo era calma e solidão.
Lá mais ao longe as árvores abanavam com o vento.
Algumas pessoas corriam para ir dar de comer aos animais.
O cego da casa 43 olhava entretido a escuridão eterna.
No sótão da mansão da Dona Inês os ratos faziam ninho.
A minha avó à lareira aquecia uma alheira para me dar.
E eu continuava observando as gotas de chuva que escorriam pelos vidros da janela.
E as gotas lá deslizavam em linhas sinuosas.
Havia silêncio nas minhas mãos. E uma quietude de prata.
Lá fora a chuva insistia em tombar sobre a estátua.
E a estátua nem se mexia.
Só olhava para norte, sempre para norte.
Sempre.
Se por puro acaso tropeçares na água que cai do céu não te espantes.
É apenas o meu olhar que regressa do passado.
22
Set06

O ímpeto dos dias que descem sobre a cidade

João Madureira
2004_1030feirasantos20011.JPG
Começa a descer o tempo sobre a cidade.
Alguém se esqueceu de celebrar o ímpeto dos dias.
Na margem direita do rio passeiam os namorados mais desprevenidos.
Os outros acomodam os beijos nos lábios comprimidos pela aragem gélida do norte.
Não faz frio onde o fantasma que persigo pousa os seus pés.
Parecem que fumegam as suas pegadas.
Eu reconheço os fantasmas pelos sinais, pelo seu modo de ser, pelo seu discreto desejo em colher as flores de neve.
Agora mesmo começo a subir a rua de costas voltadas para o destino.
Lá mais em baixo foge o alento na direcção ao poente.
Expande-se o momento na direcção do tempo.
Abala o tempo, volta a angústia.
Começa a derivar o ímpeto na direcção dos dias.
Mais logo o vento virá desfazer o teu sonho de andares sem destino.
Começa a descer o tempo sobre a cidade.
Começa a cidade.
É o tempo.
O nosso tempo.
Outro tempo.
Outra cidade.
Uma cidade que desce desesperadamente sobre o tempo.
21
Set06

Tu

João Madureira
2004_0918chavestarde20017.JPG
Há no tempo uma curva que o torna implacável.
Há no espaço um desvio que o força ao infinito.
Há no infinito outro infinito e ainda outro e outro e assim sucessivamente até ao infinito do infinito do infinito.
No infinito.
Tu.

Percebem-se os momentos quando o vento sopra nos teus instintos agressivos.
Tu não o notas, mas eu sim.
Tu não o notas, mas eu sim.
Tu não. Eu sim.
Sim. Assim.
Tu.

Tudo o que volta se desfaz em desalento.
Tudo o que volta.
Desalento.
Tudo. Tudo. Tudo.
À volta. Desalento.
Tudo desalento. À volta.
Tudo não.
Tu.

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