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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

21
Out06

Determinismo biológico

João Madureira
2005_1126ChavesA11nov0015.JPG
Caem as folhas com uma verdadeira necessidade de morrer em silêncio e com beleza.
Antes desperdiçam o verde e adquirem cores que as tornam verdadeiramente sumptuosas.
Mas, apesar disso, tombam e fenecem.
Por isso não é a cor o fundamental.
O essencial reside no tempo da maturação.
20
Out06

Inzonices em Tu

João Madureira
2004_0515Chaves0013.JPG
– Já te disse que a tua história é inverosímil.
– O quê?
– A tua história não parece verdadeira.
– Porquê?
– Porque sim.
– Mas isso não é resposta.
– Nem a tua história tem qualquer fundo de verdade.
– E porquê?
– Porque é invulgar.
– Mas o que é invulgar pode ser verosímil.
– Mas também pode ser o contrário.
– Tu és um verdadeiro inzoneiro.
– O quê?
– És um pateta. Tu gostas é de inzonar as pessoas de bem.
– Essa é boa. Tu uma pessoa de bem! Tu és mais uma pessoa de bens.
– Ora essa…
– Tens a mania que só tu és capaz de contar histórias verdadeiras.
– A inverosimilhança da tua história reside em ti e não na história. Tu é que tornas as histórias inverosímeis.
– E porquê?
– Porque não as sabes contar como deve ser.
19
Out06

Tracinho-te

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0053.JPG
Já lá vai o tempo em que, por circunstâncias diversas, ficava atónito a olhar para qualquer vidro que reflectisse.
É que as reflexões do vidro são sempre simétricas.
O que está aqui está lá, só que em posição inversa.
E, como todos sabemos, as posições inversas são, além de incómodas, difíceis de aguentar.
Aguentar uma posição inversa é, nos dias que correm, um tarefa árdua, como árduos são os que são, porque os que não são, mal parecem, e quando estão, permanecem, embora discretamente.
A discrição é um atributo dos sábios e os sábios, como todos sabemos, sabem muito.
É nesse saber onde está a sua virtude.
Também existem sábios que não são nada virtuosos, mas, mesmo assim, são sábios.
O saber não ocupa lugar, mas os sábios sim.
Não é que por aí abundem sábios, mas, mesmo sendo poucos, ainda ocupam algum espaço. É esse o seu espaço vital, como vital é o sal na alimentação dos humanos. Mas também é sábio e prudente evitar o sal.
Eu não posso abusar do sal porque tenho a tensão alta.
Mas sempre vos digo que os pronomes pessoais são uma subclasse de palavras que representam, no discurso, as três pessoas gramaticais, indicando, por isso, quem fala, com quem se fala e de quem se fala.
Para que não persistam dúvidas, aqui os deixamos com votos de um feliz aniversário e um fim-de-semana bem recheado deles.


Número Pessoa Sujeito Complemento Directo Complemento Indirecto Complemento Circunstancial
sem preposição antecedido de preposição
Singular 1ª eu me me mim mim, migo
(comigo)
2ª tu te te ti ti, tigo
(contigo)
3ª ele, ela se, o, a lhe si, ele, ela si, sigo
(consigo), ele, ela
Plural 1ª nós nos nos nós nós, nosco
(connosco)
2ª vós vos vos vós vós, vosco
(convosco)
3ª eles, elas se, os, as lhes si, eles, elas si, sigo
(consigo),
eles, elas

Resumindo: Vós, vos, vosco, si, se sigo, consigo… tracinho-te


17
Out06

O olhar vital

João Madureira
jmadla0049.JPG
Lá ao longe vejo a floresta.
Ainda não distingo a árvore.
A guerreira vem a seguir.

Na bruma dos acontecimentos ressurgem os movimentos ténues das borboletas como se de uma mensagem críptica se tratasse.
Nos tempos que vão circulando, a floresta arde, a árvore é apenas um espectro e a guerreira um sonho alegórico de desejo.

Agora o fogo queima tudo com premência.
Há nesse fogo urgência. Imensa urgência.
Uma urgência absoluta de tudo consumir.

Lá ao longe a floresta movimenta-se, as árvores tombam com um baque seco, logo seguido de um gemido inaudível.

Há nesse estertor uma ideia de fim.
Uma ideia lancinante de destruição.

Há nessa destruição um propósito de catástrofe.

Por momentos observo surgir por entre a imagem dos teus olhos a chama rútila da vida, essa incandescência total de vitalidade, essa calma nutritiva do ressurgimento, a intuição calma dos determinados, a interrogação autêntica das audazes, a simplicidade complexa dos desejados, a nitidez simétrica do infinito.

É esse, para sempre, o meu olhar vital.
16
Out06

Para o infinito e mais além...

João Madureira
2004_0515Chaves0109.JPG
Foi ao amanhecer que o meu pintassilgo morreu.
Estava velho, deprimido e exausto.
Mas foi a pressa quem o matou.
Faleceu mesmo à beira da liberdade.
Durante a noite alguém se esqueceu de fechar a portinhola da gaiola.
Ele então saiu do cárcere e esperou pacientemente pelo nascer do dia na esperança de que alguém lhe abrisse a porta da cozinha para assim conquistar a brisa e voar rumo ao céu azul e infinito.
No preciso momento em que a avó Matilde abriu a porta, a inocente ave, obcecada com a perspectiva do desenlace, distraiu-se e foi então quando o gato da vizinha, que é muito lambareiro e oportunista, o abocanhou e imediatamente se pôs em fuga, desaparecendo no labirinto das ruas do bairro.
Nada pudemos fazer. Só lamentar o sucedido.
15
Out06

... e peng

João Madureira
2004_0905chavesaguasetembro0007.JPG
Pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang, pang…
14
Out06

O triângulo metafísico

João Madureira
a3.JPG
Ai a Metafísica, a Metafísica, a Metafísica.
Bem dizia o poeta, já há Metafísica bastante para não pensar em nada. Ou será: já existe Metafísica bastante para não pensar em mais nada?
Isto é como quem diz, porque a Metafísica dá quase para pensar em tudo. Em tudo mesmo. Por exemplo, a Metafísica, e resumimos: “trata dos problemas sobre o desígnio e a origem da existência e dos seres e especula em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser. Muitas das vezes é vista como parte da Filosofia, outras, com ela se confunde”.
Ora aí está: é quase uma obsessão filosófica. E eu gosto muito de filosofar, porque filosofar é falar sobre tudo e sobre nada. Sobre Deus, sobre nós, sobre a existência.
Sobre o que está antes e o que vem depois. Sobre o filamento sinuoso do destino. Sobre a geometria, sobre as linhas, sobre os triângulos, sobre os espaços tridimensionais, sobre as transcendências e outras essências. E é aí que entra a Metafísica em todo o seu esplendor. O esplendor do desejo. O desejo de quem deseja e o desejo de quem é desejado. O que deseja agarra na Metafísica e com ela encaixa as sensações no sítio certo. O desejado faz o mesmo só que em sentido contrário.
É esta a Metafísica essencial.
13
Out06

Fellinidades

João Madureira
2004_0606Chavesdiversos0042.JPG
Lembro-me de passar perto da tua casa em dia de geadas pictóricas e de os pássaros não voarem por causa do frio.
Fazia então um frio impressionista, pintando aflições nos olhos dos pobres.
Eu olhava intrépido e assustado de indiferença para os fios de sol que se espalhavam pelas lajes da rua.
Lembro-me que as ervas se aqueciam lentamente no suceder das meias horas.
Era o tempo da simplicidade.
Nessa altura o desassossego apenas originava desilusão e arbítrio.
Precisamente ao meio-dia os olhos dos gatos enchiam-se de raiva e iam à caça das aves entorpecidas.
Ficavam os pássaros surpreendidos com a ferocidade felina dos predadores, mas nada faziam para lhes fugir.
Ali permaneciam eles aflitivamente parados como numa fotografia.
12
Out06

Indecisão de mar e terra

João Madureira
2004_0813quarteira0088.JPG
Hoje quero ir para o mar e obrigam-me a ficar em terra.
Ontem queria ficar em terra e obrigaram-me a ir para o mar.
Eu não nasci para ficar em terra, mas também ninguém me convence a ir para o mar.
O mar, o mar, o mar…
Farto-me de estar em terra.
A verdade é que quando estou no mar tenho saudades da terra e quando estou em terra fico com saudades do mar.
Ai o mar, o mar, o mar…
Estou cansado de estar em terra.
Onde está o mar?

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