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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Dez06

Está tudo iluminado (continuação três)!

João Madureira

Escrevo-te de A. para te dizer que aqui também tudo está iluminado.

Estão iluminadas as tendas dos árabes que acreditam na paz, estão iluminadas as ondas do mar e também as pequenas embarcações dos pescadores, e as figueiras, e as flores de plástico que tenho na sala.

Continuam ainda iluminados os mamilos da minha namorada à espera do orvalho, e os lápis de cor com que pinto os desenhos para o meu sobrinho.

Também ele está iluminado bem assim como a trotinete que lhe comprei no Natal.

Iluminado encontra-se também o jacuzzi do hotel onde me albergo à semelhança da conta do meu advogado.

Iluminados andam os meus olhos com o que vejo à noite no meu quarto.

Andam iluminados os segredos do meu bem-estar, a felicidade por poder ver o céu azul e as linhas diáfanas da mulher que agora me acompanha para todo o lado. E sem compromisso. Bem, quase sem compromisso.

Muito bem iluminada continua a boa amizade que tenho por ti, meu bom amigo.

Um abraço mesmo muito bem iluminado.

 

PS – Não te esqueças de arejar os pirilampos. Também eles precisam de se iluminarem convenientemente.

 

30
Dez06

Está tudo iluminado (continuação dois)!

João Madureira

E ainda continua tudo iluminado: o Largo do Arrabalde depois da chuva, as coxas de Marilyn Monroe no filme “O Pecado Mora ao Lado”, a “Teoria da Relatividade”, Tom Wolfe, a linguagem imaginativa de Mia Couto, “O Malhadinhas” de Aquilino Ribeiro, a minha máquina fotográfica, as sandálias do pescador, Lawrence da Arábia, as minhas recordações do Cine-Teatro de Chaves onde vi “O Último Tango em Paris” e os “Doze Trabalhos de Astérix”, a posição enrolada da Luzia, o sorriso altruísta do Vasco, o clarinete do Axel quando toca a “Garota de Ipanema”, a poesia de Vinicius de Moraes, a música de Frank Zappa e a sua fina ironia, as ilusões de Natal, as desilusões de Ano Novo, a regularidade dos dias e das noites, tu, eu, a vontade de estar sempre num lugar diferente, o olhar das ovelhas, o concerto no La Scala de Milão do pianista Keith Jarrett, o lento passar das nuvens, os gritos das baleias, o silêncio, o arado com que o meu avô arava as terras da Ribeira, as páginas já escritas do meu novo livro, as geadas da meia-noite, o amanhecer do Sol por detrás do Brunheiro, os olhos secretos de Deus, a alegria dos homens e das mulheres quando fazem amor…

29
Dez06

Está tudo iluminado (continuação um)!

João Madureira

 

… as orelhas de Franz Kafka, a grande muralha da China, os candeeiros da ponte Romana, a enciclopédia Larousse,  as folhas caídas dos carvalhos, a literatura erótica, Corto Maltese, a Casa Dourada de Samarcanda, o livro de poesia “Vocação Animal” de Herberto Hélder, o olhar dinâmico da Luzia, a calma da chuva miudinha que continua a cair nesta tarde de Inverno, o olhar selvagem da raposa esfomeada das serranias, a carne cozida no pote, a cafeteira de barro, a relva das margens do Tâmega, os gestos labirínticos da água a escorrer na calçada da Rua de Santo António, o próprio Santo António, a linguagem diáfana das sereias.

28
Dez06

Está tudo iluminado!

João Madureira
 

Está tudo iluminado: os arcos da ponte, os teus olhos, os dedos do meu pensamento, a lenta paciência do musgo, os picos do azevinho, os peixes do rio, a tua face cálida, a ternura esponjosa dos níscarros, os livros de aventuras, a poesia das tuas mãos, as feiticeiras más, os lambris dos passeios de Oz, os anões de Oz, os vestidos de Judy Garland, as longas e belas mãos do Vasco e do Axel, o nariz do boneco de neve, a neve do boneco de neve, Rosebud, Juan Rulfo, Daryl Hannah – a namorada do “replicant” do Blade Runner, a actriz e o actor do filme “Disponível Para Amar”, a rua Direita, o sorriso dos meus amigos, as paredes irregulares da casa da minha avó, os caminhos aventurosos do Larouco, as dúvidas dos crentes, as alucinadas alucinações dos visionários, o altruísmo dos simples, a lógica irracional, a razão impura, os ramos dos rododendros, a electricidade estática dos carros, a imobilidade dos nenúfares, o meu chapéu azul, as palhas da corte dos bois, o podão, as linhas cimeiras dos montes e…

27
Dez06

Conversa captada por uma antena parabólica entre o Senhor e um pardal

João Madureira
 

– A maioria das pessoas limita-se a procurar a beleza em vez de criá-la.

– Piu, piu, piu, piu, piu.

– Olha à tua volta. Até eu já duvido que a beleza se encontre na natureza, da mesma forma que a verdade se encontra afastada da vida.

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Tens razão. Verdade e beleza são criações do próprio homem.

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Tu estás mais velho, quer dizer, cresceste!

– Piu, piu, piu, piu, piu, piu, piu.

– Andas a ler romances?

– Piu, piu, piu, piu, piu.

– É estranho, isso de ler romances. Depois as pessoas passam a vida a perguntar umas às outras: já leste este? Já leste aquele?

– Piu, piu, piu, piu.

– Só Deus Meu Pai sabe o que estás para aí a dizer!

– Piu, piu.

– Então piu para ti também.

 

26
Dez06

Mas que rica cristandade!

João Madureira
2004_1208chavesDezPonteRio0011.JPG
Então, onde estão os patos?
O que fizeram às pobres criaturas de Deus?
Bonita cristandade esta, chacinam milhões de animais para encherem a pança de comida e depois rezam a Deus para irem para o céu.
Mas que grande desperdício de vontades.
Mas que grande ilusão.
Era bem feito que viesse por aí um peru, ou um bacalhau, ou um polvo, e vos comesse com a mesma voracidade e ternura com que vós os comestes em família na ceia de Natal, ou derivados.
25
Dez06

... e ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang!

João Madureira

j.mad.JPG

Pung, ping, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping, peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping peng, pung, ping, pung, ping, ping.

24
Dez06

Feliz Natal, Miguel Torga

João Madureira
2004_1208chavesDezPonteRio0006.JPG
Finalmente encontrei o verdadeiro Rei Midas, o que transforma as folhas, as palavras, e todos os utensílios de ouro, em húmus.
Por isso, a todos um Natal cheio de humanidade, de vida, de coisas verdadeiras, simples e discretas.
Um Natal dos Simples.
Fazes cá muita falta, Miguel Torga.
23
Dez06

Tudo é lixo e ao lixo há-de voltar

João Madureira
2004_1030feirasantos20018.JPG
Hoje anda tudo nas compras.
As pessoas compram tudo e mais alguma coisa.
Adquirem tudo aquilo que podem negociar.
Tudo aquilo que o dinheiro possibilita.
Mas o essencial na vida não se pode embrulhar.
Não se pode adquirir.
Não se pode “coisificar”.
Só se pode sentir.
Hoje escrevo estas palavras porque ninguém as vai ler.
Mas o quem de ser tem muita força.
A força do desejo e da vontade.
22
Dez06

Foda-se, Pai Natal

João Madureira
2004_0605Chavesdiversos0080.JPG
Foda-se, Pai Natal, repito, e restante família. Acabaram-se os postais de Boas-Festas.
Essa era já a minha vontade desde há muito tempo, mas não a podia exprimir assim tão abertamente.
Eu já tenho tudo aquilo o que posso ter. Até tenho um blog. Só não tenho o que mais quero. Que são as estrelas no meu bolso para as dar à Luzia. E foi isso sempre o que eu mais quis. Dar-lhe estrelas.
E também dar as estrelas e os planetas ao Vasco e ao Axel. E oferecer, desembrulhadas, as constelações mais longínquas ao meu pai, que já não posso ver, mas de quem sinto imensa falta. E recompensar o cantos de trigo e os rebuçados que a minha avó me deu pondo-se no teu lugar quando a abandonaste num Natal longínquo de 1966.
Foda-se Pai Natal.
Desculpa Pai Natal.
Eu sempre pensei que não existias, mas agora sei que existes e que és uma grande merda. Simbolicamente, claro.
E isso é muito pior de que se verdadeiramente não existisses. Transformaram-te em realidade, uma dura, crua e sinistra realidade. Uma obsessão. Uma conspiração contra os sentimentos, contra a beleza, contra a fraternidade. Contra a simplicidade das sensações mais íntimas e mais puras.
Tu és só “presentes”. Tu és só presente.
E os ausentes? Hã? E os ausentes? Onde estão os ausentes?
Só cintilas com dinheiro. Só sorris no meio do desperdício e da futilidade. Só ajudas os que têm. Só iludes os que não são capazes de sonhar.
E os ausentes, que tanta falta me fazem, onde estão?
Foda-se, Pai Natal, deixaste que te transformassem num velho de barbas branquinhas todo vestido de vermelho. E, ainda por cima, gordo. Muito gordo. E que se ri como um comentarista de rádio que dá peidos sonoros, roucos, untuosos e vernáculos.
Foda-se, Pai Natal, dás pena.
Apetece mesmo dar-te com o pinheirinho artificial nas trombas e depois pôr-te à geada enrolado em luzinhas intermitentes. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar…

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