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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

10
Abr08

A personalidade orgulhosa

João Madureira

 

Ter personalidade, embora muitos afirmem o contrário, continua a ser uma postura escandalosa. E as raras pessoas que ainda possuem a ousadia de a expor sem complexos de culpa ou de a manifestar sem temor, são vistos como criaturas, ou pré-históricas, ou, então, pessoas heréticas e sem sentido de oportunidade. Ser de “certa” maneira, não gostar daquilo que a maioria gosta, é muito propalado mas pouco consentido. Apregoar a diferença é considerado um excelente conceito, mas uma atitude irresponsável. É mais do nível da teoria do que prática.

É necessário banir a canalha herética.

Cá por mim, confesso, com honra e orgulho, que aprecio a diferença e a coragem de quem assim se assume.

Quando pego em qualquer ideia (disco, quadro, pessoa, ou livro) que seja genuinamente inédita e original e que assuma a sua inconfundível beleza pessoal, fico radiante.

O feitio das pessoas, das pessoas verdadeiras, não é coisa que me arrelie ou me cause repulsa. Antes pelo contrário, se há coisa que me atraia e console é uma personalidade assumida. E é com essas “peças raras” que me dou bem. É com elas que comunico.

 

09
Abr08

Luminosos e descarados

João Madureira

É evidente que à geração que agora está no poder lhe falta instinto de grandeza. A ter instinto é o da vulgaridade de mandar os princípios às urtigas e substituí-los pela ambição de ser forte com os fracos.

Desconhecem a inquietação autêntica. E, como muito bem definiu Miguel Torga, “não se lhes vislumbra a ambição de apresentar aos séculos vindouros o testemunho duma cruciante pertinência criadora. Morrem ao nascer, suficientes, impantes de eternidade”.

Ora isto já vem de longe. Estes senhores: “cultivam vasos de manjericos à janela da impotência (…), o conjunto é mesquinho, digam o que disserem os cartazes de propaganda, que nunca se viram tão luminosos e descarados”.

 

08
Abr08

A força dos fracos… ou a fraqueza dos fortes…

João Madureira

 

Uns apregoam que a verdadeira força (a força dos realmente fortes) vem do sofrimento, insinuando que o sofrimento é o que nos torna fortes.

Estendendo o conceito, temos que aqueles que de nós nunca conheceram a dor real e o verdadeiro sofrimento não podem ter a mesma força que os que sofreram muito.

Por dedução, temos que ser fracos para sofrer e de sofrer para ser fortes.

A lógica, se não me perdi no raciocínio, é a de que temos de ser fracos para sermos fortes.

 

07
Abr08

Pling, tlint, pling, ping, tling…

João Madureira

 

Pling, pling, tlint, tlint, ping, ping, pling, tlint, tlint, pling, pling, ping, ping, tlint, pling, pling, pling, ping, tlint, tlint, ping, pling, pling, tling, pling, tling, tling, tlint, pling, pling, pling, pling, pling, pling, pling, pling, tlint, tlint, tling, tling, pling, tlint, tlint, ping, ping, pling, tlint, tlint, pling, pling, ping, ping, tlint, pling, pling, pling, ping, tlint, tlint, ping, pling, pling, tling, pling, tling, tling, tlint, pling, pling, tlint, tling, tling, tlint, ping, ping, pling, tlint, tlint, pling, pling, ping, ping, tlint, pling, pling, pling, ping, tlint, tlint, ping, pling, pling, tling, pling, tling, tling, tlint, pling, pling, pling, pling, pling, pling, pling, pling, tlint, tlint, tling, tling, pling, tlint, tlint, ping, ping, pling, tlint, tlint, pling, pling, ping, ping, tlint, pling…

06
Abr08

Fotografia da alma

João Madureira

 

 

Dizem que os massai, esse povo íntegro e ancestral, na sua sabedoria antiga, que é vista pelos ocidentais com fina sensibilidade ligada às civilizações primitivas, não se deixam fotografar porque tal facto lhes rouba a alma.

Mas também já li algures que qualquer turista consegue fotografar a maioria dos massai em troca de cinco dólares.

Talvez a sua alma esteja agora a preço de saldo.

Pensado nisto, veio-me à ideia a singela opinião da gente que nos visita sobre a nossa integridade, a nossa hospitalidade, a nossa coragem e a nossa capacidade de trabalho.

Quer-me parecer que os panegíricos com que nos atordoam não passam de palavras ocas.

 

05
Abr08

Insatisfação animal

João Madureira

Somos animais insatisfeitos. E digo-o sem dor, mas com mágoa.

Quando estamos em determinado local, que por acaso até é aprazível, logo pensamos noutro. Passado pouco tempo de comprarmos um carro desejamos trocá-lo por um igual ao do vizinho, ou comprar uma casa idêntica ao vizinho do cunhado, ou ir de férias como o funcionário bancário que nos gere a conta. E se por acaso estamos de férias no Brasil, pensamos que era preferível ter ido a Cuba como o fez o nosso colega de trabalho que recentemente se divorciou para se casar com uma outra mulher, bem mais nova e que aspirava unir-se a um homem maduro para começar tudo de novo.

É o ser humano feito desta matéria dissolvente que é a insatisfação. Nunca estamos satisfeitos, nunca sintonizamos num mesmo local o corpo e a mente.

Somos dominados por uma espécie de cegueira congénita e irresistível no que se refere à efectiva essência das coisas.

 

04
Abr08

Que coisa esquisita

João Madureira

 

Pensei que era revolucionário. E fiz disso profissão de fé. Mas a minha fé na revolução estagnou e depois definhou, até se extinguir. E a razão é simples: os revolucionários, todos os revolucionários, especialmente os teóricos, desdenham da beleza. Ou melhor, apostam tudo na disciplina. A revolução é só disciplina. E só nela encontram aquilo que definem como beleza.

Eu sou daqueles que, e apesar das sacudidelas da vida, acredito que a beleza e o dever podem andar juntos na maioria das disciplina da vida.

 

03
Abr08

A esperança do pobre

João Madureira

 

Porque sebastianistas, os portugueses sabem o que é ter esperança.

Os portugueses, mais do que ter esperança, são a própria esperança.

A esperança é quimérica.

Proust definiu-a em forma de sentimento: “Era como um pobre que deixa cair menos lágrimas sobre o seu pão seco quando pensa que talvez não tarde que um estrangeiro qualquer lhe dê a sua fortuna”.

Quiméricos foram: D. Sebastião, a Padeira de Aljubarrota, as perdizes e a pança de D. Carlos, o cavalo de D. Fuas Roupinho, D. Inês de Castro, Salazar, o Velho do Restelo, o olho cego de Camões, o próprio Camões, Fernando Pessoa (o heterónimo de Walt Whitman), o cardeal Cerejeira, os pastorinhos de Fátima, a Senhora que por lá apareceu, Álvaro Barreirinhas Cunhal, João Villaret, a Santa da Ladeira, Mário Soares, os cravos do 25 de Abril, o Mosteiro dos Jerónimos, ao pasteis de Belém, o Benfica, Pinto da Costa, Alberto João Jardim, a pedra Bolideira, José Sócrates.

E volto outra vez a Proust: “Para tornar a realidade suportável somos todos obrigados a alimentar em nós algumas pequenas loucuras”.

Para terminar sugiro que leiam a história de baixo para cima.

 

02
Abr08

O equídeo silencioso

João Madureira

 

Neste seu ciclo de crescimento, Portugal comporta-se como antigamente os cocheiros que, receando que os animais apanhassem frio, os levavam de vez em quando a dar umas voltas pela cidade.

É que quem nos dirige superiormente, claro está, na sua presciência e distinção, nunca se esquece de revestir de borracha as rodas da caleche para que os passos do cavalo, em contraste com o silêncio do carro em movimento, se destaquem de forma nítida.

 

01
Abr08

Diálogo epistolar

João Madureira

 

 

- Estou desiludido contigo, João! E a desilusão num ser humano provoca-me infelicidade. E eu não gosto de estar infeliz. Um Deus infeliz é uma blasfémia.

 

- Mas, Senhor, a felicidade é um mito. Foi apenas inventada para nos fazer comprar coisas.

 

- Ai João, João, a tua argumentação há-de fazer de ti um herege.

 

- Já o sou, Senhor!

 

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