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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Ago08

É a paciência…

João Madureira

 

É a paciência humana quem torneia o ferro. Não é a imortalidade da alma. Também o ferro é líquido quando lhe molestam o corpo. A alma do ferro é quente, por isso enferruja.

Gostam os escultores de moldar o ferro, de pôr formas humanas em volumetrias divinas, como se Deus fosse de pedra. Como se o cosmos derivasse para princípio da criação.

Não nos devemos preocupar com o infinito. A verdade está sempre mais além.

Têm a tua pele a maciez dos pêssegos maduros. E essa é quase a infinita verdade do momento em que te acaricio a face.

Basta dividir o espaço a percorrer em duas metades para nunca atingirmos o fim.

Esse é um bom princípio. É o princípio da paciência.

 

30
Ago08

Nem de propósito

João Madureira

 

Nem de propósito, mal abri a janela logo por ela entrou o teu ar tímido, igualzinho ao que puseste no dia em que te encontrei na incerta curva do tempo. Era o tempo de te conhecer, um tempo calmo, mas intenso.

O tempo de conhecer é sempre intenso.

Ainda hoje não sei definir o teu olhar. Não era atrapalhado, antes anunciava ousadia. A ousadia dos iluminados.

Pela janela entram também os teus reflexos dourados, como num filme musical.

Vou esperar-te enquanto o vento murmura palavras de paixão.

Ir e vir na maré das montanhas, é esse o meu desejo.

Logo à noite o pecado vai ser longo.

Não precisas de me procurar, eu irei ter contigo, estejas onde estejas.

 

29
Ago08

Não me fio

João Madureira

 

 

Não me fio em ti e desconfio dos meus instintos. E por aí vou como se pisasse terreno minado. Todo o campo aberto é passível de ser minado. Para isso Deus criou o Homem. Para acabar com isso o Homem criou Deus. E, também por isso, Eva transformou-se em serpente. E Adão numa maçã. Numa maçã com características indistintas.

A ideia religiosa é uma teimosia estapafúrdica. Mas, talvez por isso, o espírito humano é uniformizador. Não há diferença que nos valha quando “O Livro” nos esmaga com a crueldade de um Deus sanguinário.

Quem parte e reparte e não fica com a maior parte, ou é tolo, ou não tem arte.

Deus escreveu, com toda a certeza, os provérbios populares.

 

28
Ago08

De novo subo a montanha

João Madureira

 

 

 

De novo subo a montanha como se não me custasse, mas custa-me muito. Cada vez mais. Mas não é aí que reside o problema. A dificuldade está no objectivo. Subir uma montanha não é objectivo para ninguém. A não ser que goste de se cansar. E não é esse o meu caso. Eu gosto de admirar os caminhos ascendentes. As suas imperfeições naturais, o seu serpentear por entre a vegetação, como se nos conduzisse a algum lugar.

Os caminhos nunca acabam. Um caminho é um destino em si mesmo, como o piscar dos olhos de uma estátua de sal.

Não há pecado nas veredas. Não há delito nos sendeiros. Não existe ofensa nos carreiros. O pecado não é original, o pecado vem dos atalhos. E da velocidade irrequieta das abelhas que fazem o mel por dever.

Os canteiros dos jardins salpicam-me os olhos como se estivessem prisioneiros, como se lhes custasse assistir ao mágico colorir das flores domésticas.

Não me agrada ver-te respirar sobre o lado esquerdo da montanha, como se fosses desmaiar.

Por vezes sinto que a montanha também desfalece quando o vento norte a corta ao meio.

Já me secaram os lábios de tanto beijar. Finalmente vou poder dormir nos teus dedos ímpares.

 

27
Ago08

Passo pela sombra

João Madureira

 

 

Passo pela sombra como se estivesse ao sol. O sol aflige-me. Por isso me refugio na sombra. Na paz ténue da sombra das árvores que sibilinamente namoram os pássaros e os insectos. E respiro a calma nobre das folhas espiraladas.

É na nervura das folhas opalinas onde se esconde a alma dos desditosos. Ou melhor, a alma das suas almas.

Nos dias quentes os desditosos afogam as suas mágoas na espuma das cascatas das serranias. Também os penhascos se sentem deslocados. E as almas.

Nos dias perigosos, as almas ausentam-se do sol, deslizam pelos contornos das sombras e pronunciam palavras obscenas. Ninguém as deve interromper. Devemos deixá-las concluir os seus lamentos.

Eu sinto-as quando passo pelo sol em direcção a ti.

 

26
Ago08

Sim, eu posso…

João Madureira

 

Sim, posso ir de encontro a ti, posso ir de encontro ao teu santo protector, ao teu filme preferido, ao teu olhar desiludido, posso ir de encontro ao mecanismo simples da inércia, sim eu posso ir. E vou quando me apetecer. Nada me impede. Nada. Outra coisa é falar. Falar é fácil. Falar por falar. Outra coisa é andar. Andar é fácil. Andar por andar. Nada me impede de andar e falar. Sim, posso ir de encontro às paredes e não me magoar. Outra coisa é amar. Amar é fácil. Nada me impede de amar. Difícil é amar-te. Isso implica muito esforço. Há uma exigência lógica nesse esforço. Por isso posso ir de encontro a ti e não te ver. Há muita intenção no esforço de ir de encontro a ti. E isso não é retórica. É impulso desenfreado. O poder de ir é avassalador. Nada me impede de ir de encontro a ti. No entanto hesito quando me olhas. No entanto, volto a repetir, posso ir de encontro a ti…

25
Ago08

Splach, splach, pling...

João Madureira

 

 

 

Splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling, splach, splach, pling…

 

24
Ago08

Já lá vai a manhã…

João Madureira

 

 

Já lá vai a manhã e eu continuo parado a observar o desequilibrado voo dos estorninhos.

Tento aprender o seu movimento em bando imitando as ondas do mar, no seu perpétuo enrolar e desenrolar.

O banco onde me sento tem a paciência concreta dos hirtos.

Eu já não tenho paciência para adivinhar a trajectória das nuvens.

A insânia dos ascetas ainda me preocupa.

Sou uma mistura de impressões.

Sou filho das imprecisões.

Sou metaforicamente raro como rara é a contemplação dos homens modernos.

A mim já não me chateiam. A luz dos dias brilha mesmo quando um homem dorme.

Por fora tudo parece igual.

Por fora tudo parece.

Já lá vai a tarde e eu continuo a sonhar com os cânticos nostálgicos dos rouxinóis.

Por dentro tudo parece diferente.

A mim já não me chateia a luz.

E é nisso que penso antes de adormecer.

 

23
Ago08

O caminho da felicidade

João Madureira

 

 

O caminho da felicidade é curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. Mais à frente existe outra curva, depois nova curva, ainda depois nova curva e finalmente outra recta. Como o caminho é difícil, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. Mais à frente existe outra curva, depois nova curva, ainda depois nova curva e finalmente outra recta e outra curva e uma recta um pouco maior que desemboca numa curva ligeiramente menos acentuada. Segue-se nova curva, nova recta e mais uma curva e outra curva e outra recta e nova curva e mais uma curva, esta muito acentuada e enorme a que lhe sucede uma recta invulgarmente extensa que vai desembocar noutra curva. A partir daqui é seguir a intuição, que é a modos como o caminho iniciado há já algum tempo, por isso é mais fácil de decorar e percorrer: curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. E depois novamente curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e… curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. Mais à frente existe outra curva, depois nova curva, ainda depois nova curva e finalmente outra recta. Como o caminho é difícil, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. Mais à frente existe outra curva, depois nova curva, ainda depois nova curva e finalmente outra recta e outra curva e uma recta um pouco maior que desemboca numa curva ligeiramente menos acentuada. Segue-se nova curva, nova recta e mais uma curva e outra curva e outra recta e nova curva e mais uma curva, esta muito acentuada e enorme a que lhe sucede uma recta invulgarmente extensa que vai desembocar noutra curva. A partir daqui é seguir a intuição, que a modos que o caminho iniciado há já algum tempo, por isso é mais fácil de decorar e percorrer: curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. A seguir segue-se uma recta, depois outra e ainda mais outra e, como o caminho é árduo, segue-se de novo uma curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e outra recta. E depois novamente curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra e… (é tempo da vossa colaboração).

Então vamos lá continuar: O caminho da felicidade é curva, recta, curva, recta, curva, curva, recta e recta, curva, curva, recta e de novo curva e recta e de novo uma curva um pouco mais acima e mais uma curva e outra e outra…

 

22
Ago08

Eu quase…

João Madureira

 

 

Eu quase alinho no teu desalinho. Eu quase aninho no teu ninho. Eu quase…

Eu quase ando. Eu quase desando. Eu quase mando. Eu quase…

Eu quase vejo. Eu quase penso. Eu quase…

Eu quase eu. Eu quase tu. Eu quase…

Eu quase só. Eu quase dó. Eu quase ré. Eu quase…

Eu quase sim. Eu quase não. Eu nunca talvez. Eu quase…

Eu quase pompa. Eu quase circunstância. Eu quase…

Eu quase alinho, eu quase ando, eu quase vejo, eu quase ré, eu quase sim, eu quase circunstância…

Eu quase, quase…

 

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