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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Out08

A tristeza

João Madureira

 

É estranho este gume arbitrário.

Cada um de nós chega à teimosia da alma numa fome redonda como quem colhe as folhas estranhas do orvalho.

É essa a surpreendente arquitectura da ressurreição e da unidade lendária de te terminar.

Tem a privação a insidiosa máscara do desvio.

Tu roubas-me todo o resguardo da religião. Mas há sempre meia hora para orar. Não sei é salvar-me na via dolorosa da possessão.

Quem saboreia versos recolhe condições.

A memória é uma sinecura humana.

O mal é uma memória íntima.

O teu lugar é uma intimidade superior.

Apesar disso não te consigo ocultar.

 

30
Out08

As minhas mãos

João Madureira

 

 

Hoje as minhas mãos escrevem a idade ardente da melancolia.

As minhas mãos já rasgaram as estações brancas até ao cume, como se o silêncio fosse uma coisa larga, uma aptidão para a desordem. Hoje as minhas mãos têm nos poros aberturas luminosas. A figura cavada nas grutas queima o tempo como um alimento manobrado. Agora a agitação é curva. A tua cara é alta e as tuas mãos sumptuosas. A estreita disposição das imagens transforma a tua boca num lenço de despedida.

Hoje as minhas mãos carregam a força das tempestades. Sorris-me quando te deixo. Essa é uma lei difusa que custa a entender.

 

29
Out08

Os homens do poder

João Madureira

 

 

Na minha idade a ideia de eternidade tem raízes de sinos de igreja como estátuas cegas à espera do silêncio bloqueado da terra fria. A solidão aparece batendo com as mãos na luz dos símbolos. O tempo dura ainda a verdade dos dilúvios. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Há muitas saídas para animais de estimação. A voracidade é um enigma sorridente que floresce nos negócios das jóias arrancadas à miséria. Vejo-me comovido pelo frio das lágrimas como um amigo morto. A noite ainda não é nada. É uma saudade azul como um poema em francês. O pão que mata a fome é triste. É triste cantar a água estendida nas rosas murchas dos jardins gelados da memória. Uma mulher pálida abraça um belo colar de ouro intenso e esquece-se de respirar. Mais lágrimas nuas caem no chão liso e aí ficam como se fossem apenas água escorrida de um guarda-chuva. O mal é o singular da lei da obliquidade. A luz da tua voz ainda me adormece apesar desta loucura escura do dia-a-dia. Na minha idade a ideia de eternidade tem uma saudade azul da luz da tua voz. A voracidade surge fustigando o pão que mata a fome aos homens sem poder. Há muita saída para animais de estimação. As mulheres pálidas caem nuas nas rosas murchas dos jardins onde adormece a loucura. Lá onde a tristeza é sossego espalham-se os sinais fracos do crepúsculo. Há muita saída para animais de estimação. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade. Os homens do poder têm hoje as faces frementes de opacidade…

28
Out08

O pensamento junta as nuvens

João Madureira

 

 

Donde vem este ar? O horizonte deste vento grávido de árvores confunde-se com os pássaros que rasgam os dias. Dilatam-se os corpos na chuva dos círculos. Tu cantas e escondes o desejo na meiguice da alvorada. Os teus lábios confundem-se com a fronteira das sombras. As sombras cantam a ternura dos abismos. O pensamento junta as nuvens nas cicatrizes dos anciãos. Olho para ti e tu já não passas, foste com o vento visitar as fontes. De súbito o silêncio falha o entardecer. Lá em baixo as crianças brincam com as árvores agitadas. As fadas ouvem-nas chegar e sossegam. Os gnomos pisam a dor da erva e falam da saudade. A negação é também uma saudade. A saudade é ainda outra saudade. As ideias amam o silêncio. O receio dos sonhos torna os olhares nítidos. A eterna novidade do mundo desce junto à realidade.

27
Out08

Ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping…

João Madureira

 

 

Ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping, ping…

26
Out08

Arde a certeza da paz. E…

João Madureira

 

 

Este futuro tem o amor atrasado. Arde o mundo ao teu redor e os homens mortos caem como aves silenciosas. É a certeza do céu o que atrasa os dias de paz. Quatro são as noites do degelo lá onde a fé nos dias insinua a felicidade das lâminas aquecidas. É pálida a riqueza quando a muralha desaba sobre a invasão dos bárbaros. As veias transportam agora sangue frio. Sim, as veias agora transportam a confusão das espadas triunfantes que amortalham a súplica da aflição. É inútil a cólera dos mortos. As borboletas usam cabeleiras curvas, ou conchas, ou tempestades tenras. Tu bordas sorrisos no ferro das estátuas. É essa a tua vaidade. É esse o teu segredo. Dizes que te assustam os homens esquivos. Por isso estou inseguro. O mundo nasce todos os dias e com ele desejamos a sabedoria feliz dos sonhos. À noite moldas portas sentadas no perfil da areia. Nos cruzamentos das cidades a vida salta no vazio das paixões. Queima este frio dos heróis que se transformam em nome de ruas. O punhal da indiferença ainda abre chagas na nudez dos amantes. À noite a solidão cerca-nos com o seu arame farpado e…

Eu colecciono guardadores de rebanhos enquanto o mundo arde. É essa uma dor nula. É esse o silêncio de tudo. Debaixo dos ramos das árvores do parque alguém grita e… Este futuro tem o amor atrasado. Arde a certeza da paz. E…

 

25
Out08

Espero-te devagar na escuridão

João Madureira

 

 

Espero-te devagar na escuridão, quando a noite gotejante brinca na polifonia dos insectos. Ainda se sentem os gritos no soluço dos anjos. O jardim inquieto cai inteiro a teus pés. O brilho calmo das casas recebe o orvalho que já molhou navios. Sangram as veias dos montes e a vaidade demonstra que as aldeias estão cegas de dia. Musil grita alto que todos os caminhos para o espírito partem da alma, mas nenhum a ela regressa. Do outro lado da madrugada um galo responde-lhe: có-có-ró-có-có.

24
Out08

O caminho breve das raparigas

João Madureira

 

Senhor trago nas minhas veias a festa redonda como se eu fosse um homem executado, como se a lâmpada dos pobres me escurecesse o sangue. A força que eu julgava incendiada estremeceu na mão fria da noite. É o escurecer quem situa as coisas na consciência do fogo, nele repousa a porta velada por deus quando o amor dos rios carrega os objectos cegos que suportam a humildade da palavra dada. Depressa as ervas vestem o desenho demorado da boca dos amantes. O caminho breve entardece nos passos das raparigas. Fica fecundo o desejo do amor e os olhos das planícies voltam às fontes da paixão. A minha alma desfaleceu no sonho irregular dos carvalhos. A tua mão triste pôs-me na boca a ave ferida da saudade. Sou o teu sonho vagabundo. Por isso tenho saudades tuas mesmo quando estou agarradinho a ti.

23
Out08

Assim é impossível levitar

João Madureira

 

Nasce a melancolia na solidão espantada dos anúncios excitados da falsificação dos espíritos. Assim é impossível levitar. Quando apertas as pálpebras apagam-se as vertiginosas palavras tristes das paisagens. Assim é impossível levitar. Algo permanece frio no outro lado da mesa. Assim é impossível levitar. Não sei se sorris com a cabeça inclinada sobre os retratos antigos. Assim é impossível levitar. Está na altura de atravessarmos as cidades salvadoras e meditar na fantasia demorada das crianças que sorriem perdidas na infância. Assim é impossível levitar. Se alguém pudesse acordar os pilares misteriosos da vergonha a existência podia ser cheia de luz. Assim é impossível levitar. Depois a música é breve e cai no abismo das palavras brilhantes dos loucos precários. Assim é impossível levitar. Cada vez há mais mártires do nada. Assim é impossível levitar.

Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar.

Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar.

Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar.

Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar.

Assim é impossível levitar. Assim é impossível levitar…

Este pais mata-me lentamente.

 

22
Out08

A tua alma blasfemou

João Madureira

 

A tua alma blasfemou quando me abandonaste nos braços da luz fosca dos candeeiros do jardim. A chuva dizia que me querias entregar o corpo. A luz chovia devagarinho no meu desejo. Depois foste embora como uma luxúria provocante. Eram os tempos do imprudente pudor da mocidade. Eu apenas pretendia admirar o salto nu do desejo. Mas só consegui observar que a luz dançava por ti em voluptuosos círculos azuis.

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