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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

24
Set09

A verdade e a mentira

João Madureira

 

 

“Contudo, neste mundo, em distintas e bastas ocasiões, muitas virtudes se encontram tanto na verdade quanto na mentira. E tanto na verdade como na mentira se vislumbram, em bastas e distintas ocasiões, muitas máculas e sofrimentos. Olhai o mundo, se duvidais! Mata-se por se dizer a verdade, se mata servindo-se da mentira, morre-se por se defender a verdade e se morre ao abraçar-se a mentira. Em nome da verdade, por mor da mentira, pelos dois motivos, se oprime e se tira a vida, se perde a vida e se é oprimido.

Aliás, pelas suas semelhanças, a verdade dos homens é a irmã da mentira. Embora tantas vezes possam parecer dissemelhantes, são como as duas faces de uma mesma moeda, não existindo uma sem a outra. E por esse motivo se confundem, se transmutam, quantas vezes, uma na outra. São ambas maleáveis, por não dependerem da razão e da realidade, que são imutáveis. Ao invés, são elas flexas perante o poder, que é inconstante. Se juntardes uma assembleia de povos malquerentes, cada um dirá ser a sua opinião ou causa a verdadeira, acusando as outras de falsas. A verdade para uns é a mentira para outros. Quem decide quem mente, quem profere a verdade, acaba por ser um atributo do vencedor, que a impõe não tanto pela razão mas pelo poder da persuasão, pelo poder da argumentação, pelo poder da força, tantas vezes pelo poder das armas. E depois lutam, continuadamente, na defesa da sua verdade, mas não pela defesa da razão nem da realidade.

E assim sucede, marquês de Villanueva de Barcarrota, porque nem a verdade nem a mentira são perenes. A verdade hoje aceite pode ter sido a mentira de ontem e transformar-se no engano de amanhã. Por isso, o mundo dos homens é uma constante guerra para impor a verdade, aniquilando a mentira, por receio de esta lhe usurpar o lugar. E é nestas transmutações que muitos males sucedem, não necessariamente apenas aos reputados mentirosos.

Quantos foram os homens e até as mulheres, marquês de Villanueva de Barcarrota, que morreram por defenderem a verdade antes do tempo correcto, durante o tempo errado ou depois do tempo certo? E quantos mataram impondo como verdade o que antes era considerado mentira? E quantos mataram ou morreram na luta para verem a sua mentira olhada como verdade? Confundo-vos com palavras, mas se assim procedo é com uma simples intenção: a verdade não é sempre boa, nem a mentira é sempre má. Por serem iguais na essência, se exaltamos uma, não podemos aviltar a outra.

Engana-se assim quem julga que por apenas falar verdade será conduzido à salvação, que a mentira encaminha somente para a perdição. E engana-se quem julga que a mentira é contrária à ordem natural, à harmonia dos povos e até contra a nossa religião. Se o é, então o mesmo sucede com a verdade. (…)

De igual sorte também acreditei, marquês de Villanueva de Barcarrota, que Deus permitia, mesmo em casos especiais, que a mentira prevalecesse sobre a verdade, e influía até em certos homens para obrarem o Bem. Isto é, Ele os levava a mentir, mas com bom coração, para, contornando a verdade dos homens, se poderem salvar e cumprir uma missão divina. Exemplos daquilo que vos digo encontram-se nas Sagradas Escrituras. Se Cristo desejasse que proferíssemos sempre a verdade acreditada pelos homens, jamais teria permitido que Simão Pedro o negasse por três vezes antes do galo cantar. Aquele apóstolo não O negou por fraqueza humana ou cobardia, pois Deus não escolheria alguém com esses desdourados atributos para erigir a Igreja. Simão Pedro mentiu sim por influência divina, porquanto sem a mão de Deus nada lhe aniquilaria a sinceridade e lealdade. E sendo sincero e leal, dizendo a verdade, Simão Pedro se perderia, sem qualquer vantagem nem glória, perdendo-se assim a missão que Deus lhe destinara.

(…) Podemos dizer que, sendo perseguidos, encontram glória em Deus, que morrem e se tornam santos mártires. No entanto, deixam este mundo como o encontraram. Olhai, aliás, o exemplo de Cristo sacrificado pelos fariseus. Foi morto por usar palavras e actos verdadeiros, sem subterfúgios e manhas, para remissão dos nossos pecados, mas milénio e meio após o seu sacrifício está o mundo igual. Ou talvez pior. Continuamos a matar, a fazer sofrer, a ser intolerantes para aqueles que têm opinião contrária, com a agravante de ser a nossa religião, a religião de Cristo, quem mais comete estes ignóbeis actos, ao difundir dogmas, para perpetuar a sua verdade e aniquilar quaisquer desvios.”

 

A Mão Esquerda de DeusPedro Almeida Vieira – Publicações Dom Quixote

22
Set09

Tudo está fora de sítio

João Madureira

 

Há pessoas assim, leves. Que adormecem sonhando com a loucura acesa dos que amam. Na sua ardente visão descobrem espíritos virtuosos iluminados pelos antigos mitos e pelas cores adormecidas das paisagens insinuadas pelos jovens. São eternas porque se multiplicam no amor. Levantam-se com os olhos imensos apossados de desejo. Vivem por detrás de tudo, num espaço límpido. O seu silêncio apaixona. Têm nomes húmidos. Usam pedras celestes ao peito. Amam-se na confusão do musgo, em dias terrivelmente ardentes. Usam a linguagem pura das exaltações. Ressuscitam a profundidade indefinida dos segredos. Dizem: tu és uma onda grávida, um nome plural, uma musa profunda, uma linguagem de locuções tensas, como a palavra saudade. E chega o mundo concreto. O amor deitado com uma mulher. Ou a luz de um coito efervescente como a dilatação dos dias. Dizes: toco as palavras, toco a luz, toco a paixão. Depois pensas na palavra que invade a paixão do sangue. O desejo desce como o orvalho. Na tua carne mergulho os meus dedos. Os meus dedos mínimos. Amas a palavra amor e apaixonas-te pela força dos beijos. Há uma razão oculta para o amor. Existe uma causa humilde para a vida. Sobre a sombra do desejo a mulher beija a própria boca. Antes beijar o ar, pensa. Mas brevemente desiste. As demoradas paisagens dos corpos nus alimentam-se da energia dos orgasmos. Os sexos aprofundam os espaços. A pele queima. Os teus movimentos cosem a rapidez dos espelhos. Hoje renasce o silêncio central. Tudo agora está no sítio.

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