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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Mar10

Quando tudo muda de lugar

João Madureira

 

Longas são as manhãs que alimentam as paisagens. Eis que quase tudo muda de lugar. Gostava de ser o espaço onde as canções de embalar dormissem a sua imortalidade fingida. A luz encurva nos teus olhos claros raiados de esperança. É preciso esperar pela alegria. Escrevo pensando em belíssimas ondas de desejo, em corpos regenerados pela memória. Escrevo escutando o barulho da noite revelada pela ironia das estrelas. O quente silêncio das tuas mãos enche a minha pele de abismos. A tua carne está iluminada de frutos. Estimaria pensar nos teus movimentos de fogo para vagarosamente os inspirar. O sossego dos teus beijos é a minha inspiração oculta. Eu queria saber da luz dos campos onde nos amámos. Da sua intensa necessidade de queimar. O tempo tudo destrói com o seu devir eterno. As imagens perfeitas espelham obsessões. Por isso te falo da velocidade do amor, do seu inquieto princípio, da sua truculência, da sua dissipação furiosa, dos seus campos magnéticos extraordinários. Toco a tua alma com uma mão sôfrega de tudo. Sinto a tua nudez a arder no tempo, o ritmo sobressaltado dos sentidos, a tua boca a exaltar a fúria do desejo. Sinto-me como um deus esmagado pela iluminação dos corpos. És a minha religião. Junto ao teu peito adormeço em paz. Pela consagração da noite erguerei a glória árdua da vida. Começa o tempo a unir as nuvens florescentes. Cantam de novo as nossas mãos de água. Cerco a minha tristeza de lágrimas vagarosas. Abrigo docemente a paixão.

29
Mar10

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

10 – Quando chegaram à aldeia, estacionaram o carro junto da igreja e deslocaram-se a pé às instalações do edifício escolar. Cá fora, as mulheres rezavam e os mais jovens tinham transformado o recreio da escola numa festa de Entrudo. Dentro da sala, uma meia dúzia de homens gritavam impropérios e faziam juras de morte ao comunismo e à Rússia, terra que a Nossa Senhora de Fátima havia de converter para a salvação do mundo.

Os camaradas esclarecedores, quase todos docentes, continuavam na sua teima em falar dos amanhãs que tinham de cantar também em Portugal, tal e qual os galos que os camaradas camponeses possuíam nos seus galinheiros. Bastava de especuladores e intermediários gananciosos, de parasitas que viviam à custa do povo humilde e laborioso. O Partido, liderado pelo camarada Punhal, era o guia redentor, o farol revolucionário, a chama ardente da vontade dos proletários de todo o mundo, que em aliança sagrada com os camponeses, tinha de triunfar, custasse o que custasse.

Cá fora as mulheres, juntas a um canto, continuavam a rezar monocordicamente muitas ave-marias e pais-nossos. Os rapazes, na sua estupidez crua e profana, faziam rebentar bombas de carnaval e lançavam bichas-de-rabear para debaixo das saias das raparigas. Elas, tontas de lascívia, sorriam e davam gritinhos histéricos. Lá dentro os homens maduros gritavam alto: “Morte ao comunismo, Punhal para a Sibéria”. Os camaradas esclarecedores teimavam na sua ladainha revolucionária. O camarada da aldeia era o único que ouvia com atenção a arenga retirada, palavra a palavra, com vírgulas e tudo, do editorial da “Verdade”. Os maneirismos de linguagem eram uma imitação barata e triste da musicalidade do discurso do camarada de cristal.

Dentro da sala, o ambiente estava a tornar-se pesado. Os camponeses olhavam para as meninas comunistas com ar de quem não se importava mesmo nada de abocanhar mulheres tão tenras e fáceis. No fundo, o comunismo era isso mesmo, igualdade, fraternidade… e amor livre.

Os camponeses, com os olhos postos nos seios das meninas camaradas e no traseiro generoso da companheira mais madura, acusavam o Partido de querer-lhes roubar as terras, as casas, os animais e a religião. Ou seja, Deus. E a Nossa Senhora também. E os santos. Substituindo-os por imagens de Lenine, Marx, Engels e Punhal. Isto apesar de Punhal afirmar que detestava o culto da personalidade. Dele não havia fotografias em nenhum centro de trabalho do Partido. O único que circulava era os seus desenhos de prisão, com homens possantes, mulheres de pés descomunais e seios como os pães da padeira de Aljubarrota. Apesar de famintos e paupérrimos, os retratados nos desenhos do líder comunista, eram todos bem constituídos, a irradiar saúde e esperança no povo do qual faziam parte integrante, quase como anjos magnânimos, insensíveis à dor e às necessidades humanas primárias.

“Ai Jesus, vem aí os guerrilheiros!”, gritou aflita a beata mais beata das beatas da aldeia.

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