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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Abr10

As flores também vão para o Inferno

João Madureira

 

“– Sabias que o velho Mr. Radley era um Anabaptista lava-pés dos sete costados?...

– Isso é o que a senhora é, certo?

– Não sou assim tão devota, minha filha. Sou uma Anabaptista.

– Vocês não acreditam todos na cerimónia do lava-pés?

– Acreditamos. Em casa, na banheira.

– Mas nós não podemos comungar com vocês todos…

Aparentemente decidindo que era mais fácil definir o anabaptismo primitivo do que a comunhão fechada, Miss Maudie afirmou:

– Os lava-pés acreditam que tudo o que dá prazer é pecado. Sabias que um destes sábados houve alguns que saíram da mata e vieram p’rá aqui dizer-me que eu e as minhas flores íamos para o Inferno?

– As suas flores também?

– Sim, senhora. E que vão arder juntamente comigo. Achavam que eu passava demasiado tempo a desfrutar da Natureza que Deus nos deu e não dentro de casa a ler a Bíblia.

A minha confiança nos sermões do púlpito diminui com a visão de Miss Maudie a arder para sempre nos vários infernos Protestantes. Era verdade que ela tinha uma língua afiada e não andava propriamente pelo bairro a fazer boas acções, como fazia Miss Stephanie Crawford. Mas enquanto ninguém que tivesse um pouco de tino confiava em Miss Stephanie, eu e o Jem tínhamos uma confiança quase inabalável em Miss Maudie. Nunca tinha feito queixa de nós, nunca nos tinha perseguido e não estava minimamente interessada na nossa vida privada. Era nossa amiga. Por isso não compreendíamos como é que uma criatura tão atinada podia viver com o perigo do eterno tormento.

– Mas isso não está certo, Miss Maudie. A senhora é a melhor pessoa que conheço.

Miss Maudie sorriu.

– Obrigado, minha cara amiga. O problema, é que os lava-pés pensam que as mulheres por si só já são um pecado. Sabes, eles levam a Bíblia à letra.

(…) – Retira já o que disseste, rapaz!

Esta ordem, dada por mim ao Cecil Jacobs, marcava o início de tempos um tanto ou quanto conturbados, tanto para mim, como para o Jem. Cerrei os punhos e estava pronta apara atacar. O Atticus já tinha prometido que me castigava se soubesse que eu tinha andado à pancada, já era bem crescidinha para coisas tão infantis, e quanto mais cedo aprendesse a controlar-me, melhor seria para todos. Mas depressa me esqueci de tudo isso.

A culpa foi toda do Cecil Jacobs. Tinha andado a dizer no recreio da escola que o paizinho da Scout Finch defendia os pretos. Eu neguei-o. Mas depois até contei ao Jem.

– O qu’é qu’ele q’ria dizer com aquilo? – perguntei.

– Nada – disse o Jem. – Pergunta ao Atticus, ele explica-te.

– Defendes pretos, Atticus? – perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.

– Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio.

– Mas’é o qu’toda a gente diz na escola.

– Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa…

– Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas pr’á escola?

O meu pai olhou para mim de forma indulgente. Via-se que estava obviamente divertido. Apesar do nosso compromisso, a minha campanha para evitar a escola tinha continuado aqui e ali, desde a minha primeira dose de aula: o início de Setembro último tinha trazido consigo depressões, tonturas e leves queixas gástricas. Cheguei ao ponto de pagar uma moeda só para ter o privilégio de esfregar a minha cabeça contra a do filho da cozinheira, Miss Rachel, que sofria de tremendas impigens. Não adiantou.

Só que agora havia outra coisa que me apoquentava.”

 

Por Favor Não Matem a Cotovia – Harper Lee – Difel

28
Abr10

Palavras queimadas pela razão

João Madureira

 

São claras as crianças inesperadas como candeias mortais. Acondiciono lentamente o silêncio como se adquirisse o espírito purificado de um grito. Uma luz interior repousa sobre a íntima unidade do Poema. Lágrimas fortemente anunciadoras circundam o teu rosto. Palavras adormecidas percebem o teu sentido impenetrável. A manhã começa a fender os lírios e os raios de sol decompõem os sorrisos inertes. Fazes-me doer o mundo. Corres pela memória das paisagens entre a água e o silêncio. A tua cabeça vibra veementemente coberta de insónias. Renasces na melancolia dos dias mastigando auroras irrelevantes. Imagino se será possível desfazer em mim essa espécie de força confusa fixa na vontade possessiva do desejo. Uma mão nasce fechada fora do tempo. Inclina-se para ti uma sombra densamente evocativa. A tenebrosa densidade da carne reclama a suspensão do desejo. O teu sexo é um livro quente alimentado de superlativos. Estamos no quarto tentando imaginar uma ideia pura do tempo. Todo o tempo começa agora. As palavras nascem queimadas pela razão. Estou iluminado por dentro. Tu levitas a meu lado. Entretanto deito-me no teu nome e pulo no teu olhar como se fosses uma estrela candente. Sou a própria natureza da dor. Respiro o teu corpo com sofreguidão. O amor acumula-se no lugar do silêncio.  

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