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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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02
Jul10

Atravessar espelhos

João Madureira

 

“O caso mais perturbador foi talvez o de Vera Lengsfeld. O seu pai tinha sido funcionário da Stasi desde a criação da Firma após a guerra. Durante a sua juventude, Vera foi uma leal e obediente criança da nomenklatura, mas mais tarde viria a revoltar-se. Tornou-se membro do Partido Comunista, mas foi expulsa em 1982 quando se tornou numa cristã convertida. Juntou-se a um grupo pacifista associado à Igreja Luterana e começou a protestar contra os mísseis nucleares posicionados na Europa – nomeadamente a presença de mísseis soviéticos na RDA. Era constantemente vigiada, chegou a ficar detida durante breves períodos e foi despedida do emprego de professora numa academia de investigação social de Berlim. Sessenta agentes da Stasi estavam permanentemente destacados para a vigiar e relatar todos os seus movimentos. O mais atarefado desses agentes provou ser o seu próprio marido, o matemático Knud Wollenberger, pai de dois rapazes, que em tudo parecia ser um companheiro carinhoso e um pai protector. Entregava os relatórios ao seu operador na Stasi, que dava pelo nome de código «Daniel», e neles relatava todos os pormenores da vida dela, os momentos de intimidade entre ambos e as conversas na cama, todas as dores de cabeça deça, saídas para ir ás compras, momentos de ma disposição, vulnerabilidade emocional e telefonemas feitos. Wollenberger conheceu-a, namorou e casou com ela por ordem da Stasi. «Foi um casamento falso desde o início», disse ela. «A nossa vida doméstica, tudo… era uma mentira.» Era «inimaginável» que um homem pudesse casar com uma mulher só para poder espiá-la e «mais incompreensível ainda que pudesse ter dois filhos durante esse processo».

Quando Vera Lengsfeld descobriu a verdade, «foi como se morresse por dentro e depois voltasse à vida… A coisa mais surpreendente foi que os relatórios pareciam referir-se a uma mulher estranha e não à sua própria esposa… Ele considerava-me uma inimiga do Estado e fizera tudo para me combater a mim, o inimigo». Wollenberger disse que tinha sido um cidadão leal da RDA e que não conseguira «dizer não» quando a Stasi lhe pedira para ajudar. Disse ainda que quando saía de casa para o trabalho era «como atravessar um espelho e estar num mundo completamente diferente».

(…) Mielke tinha sido agente dos serviços secretos durante mais de cinquenta anos. Rufia de rua que tinha lutado pelos comunistas contra os nazis da década de 1920, os Soviéticos fizeram-no sair clandestinamente da Alemanha para Moscovo em 1931 após ter assassinado dois polícias e se vangloriar desse feito certa noite num bar de Berlim. Tornou-se agente do KGB a tempo inteiro. Durante a Guerra Civil de Espanha ganhou medalhas não «por ter combatido os fascistas», segundo as palavras de um seu antigo colega, «mas sim por matar trotskistas e anarquistas». Assim que os Russos libertaram Berlim, Mielke foi para lá enviado para ajudar a estabelecer «uma espada e um escudo» para o partido na Alemanha de Leste. Mielke estava convencido de que dirigia a organização de espionagem mais eficaz do mundo comunista e tinha opiniões muito precisas sobre o trabalho dos serviços secretos. Afirmava que os espiões mais eficazes eram simplesmente aqueles que tinham mais contacto com o público. A Stasi instruiu condutores de eléctricos, mulheres da limpeza, médico e enfermeiras. Os professores, por exemplo, eram particularmente bons a identificar crianças cujas famílias viam televisão ocidental – aquelas pessoas que, segundo Mielke, «emigravam para outro país às oito da noite». Era permitido ver emissões ocidentais desde o final da década de 1970 e de facto o regime tolerava-o como uma forma de amnésia política todas as noites. Mas mesmo assim a Stasi queria saber sobre esses hábitos de ver TV. Os informadores não recebiam um pagamento chorudo: quatrocentos marcos em média, cerca de 10% do salário médio. A maior parte deles não o fazia pelo dinheiro, mas pelo desejo de aprovação, pela esperança de um melhor emprego ou de uma vaga numa universidade melhor para o filho ou filha de um familiar. À medida que a Stasi se tornava num Estado dentro do Estado, os espiões começaram a vigiar outros espiões. E Mielke guardava ficheiros volumosos sobre todos os seus colegas oligarcas comunistas na RDA, nomeadamente sobre o seu colega de longa data Erich Honecker, que tinha muito segredos para esconder, como o chefe da Stasi sabia.

(…) Chegara a haver de facto uma fronteira aberta na Alemanha após os dois lados se terem dividido oficialmente em Outubro de 1949, quando nasceu a RDA. Em Berlim, as pessoas podiam deslocar-se livremente. Muitos viviam num dos lados e trabalhavam no outro, usando o sistema de metropolitano U-Bahn e a rede de comboios subterrâneos S- Bahn para viajar pela cidade. Tinham de parar em vários postos de controlo, onde os guardas das fronteiras leste verificavam os documentos dos viajantes. Mas podiam passar esses postos sem qualquer obstáculo. Mas no decurso dos anos começou a haver um número crescente de pessoas a sair da zona leste quando perceberam que o regime estava a tornar-se mais autoritário, sobretudo após Junho de 1953, quando as greves num punhado de fábricas se transformaram em motins contra o governo, que acabaram põe ser suprimidos pelos tanques soviéticos.

(…) Ulbricht nomeou Erich Honecker, o seu protegido e braço direito, para chefiar a altamente secreta Operação Rosa. Foi Honecker quem cunhou a expressão «Barreira de protecção antifascista» para descrever o Muro e a partir de então, pelo menos em público, era esse o nome pelo qual designava sempre o Muro. A construção foi planeada com o maior dos secretismos – só metade da liderança da Alemanha de Leste estava a par dos pormenores. A construção foi iniciada repentinamente da noite para o dia, no fim-de-semana de 12 e 13 de Agosto de 1961, e prosseguiu com uma eficiência suprema. No centro de Berlim, os operários labutaram toda a noite e dia ao longo das várias centenas de metros em redor do Checkpoint Charlie (a barreira que dividia os sectores soviético e norte-americano da cidade) e conseguiram concluir o trabalho em três dias. A lógia do regime comunista ficara assim estabelecida com um horrendo e poderoso símbolo – e a carreira de Erich Honecker ficou inextrincavelmente associada a estes alicerces de betão.”

 

Victor Sebestyen – Revolução 1989: A Queda do Império Soviético – Editorial Presença

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