Sábado, 17 de Julho de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Deus ama a violência

 

“Apreciou a última dádiva de Deus? – perguntou o director.

Teddy olhou para o homem e detectou doença por detrás daqueles olhos perfeitos.

– Perdão?

– A dádiva de Deus – disse o director, e abarcou com um gesto do braço o relvado destruído. – A sua violência. Quando desci as escadas, em minha casa, e vi aquela árvore na sala, ela estendeu-se para mim como uma mão. Não literalmente, claro. Mas figurativamente, estendeu-se para me tocar. Deus ama a violência. Compreende isto, não é verdade?

– Não – disse Teddy. – Não compreendo.

O director afastou-se alguns passos e voltou-se para ele.

– Se assim fosse, porque haveria tanta? Está em nós. Sai de nós. É o que fazemos ainda mais naturalmente do que respirar. Fazemos guerra. Queimamos sacrifícios. Pilhamos e rasgamos a carne dos nossos irmãos. Enchemos grandes campos com os nossos fedorentos mortos. E para quê? Para Lhe mostrar que aprendemos com o Seu exemplo.

Teddy viu as mãos do homem acariciarem a encadernação do livro que apertava contra o abdómen.

O director sorriu, e os dentes eram amarelos.

– Deus dá-nos tremores de terra, furacões, tornados. Dá-nos montanhas que cospem fogo sobre as nossas cabeças. Oceanos que engolem navios. Dá-nos a natureza e a natureza é um assassino sorridente. Dá-nos doenças para que, na nossa morte, acreditemos que nos deu orifícios só para que sentíssemos a vida a fugir-nos por eles. Deu-nos luxúria e ira e ganância e os nossos nojentos corações. Para que possamos praticar a violência em Sua honra. Não existe ordem moral mais pura do que a tempestade a que acabamos de assistir. Não existe, aliás, qualquer espécie de ordem moral. Existe apenas isto: pode a minha violência dominar a tua?”

 

 

Dennis Lehane – Shutter Island – Gótica


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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Portefólio – Tâmega (em) cheio


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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Deus inveja as vaginas das mães

 

Dizes: Assim húmida me ofereço ao teu amor. O sonho dissimula a loucura. Sonho ligado a ti pela simulação do dia-a-dia. Sonho por Deus em teu nome durante todo o princípio do torpor. Dizes: A origem do universo deu-se num milionésimo de segundo a partir de um ponto negro de uma densidade incalculável. Depois tudo foi criado. Deus quis o nada e criou o tudo a partir do fermento do caos. Eu entendo a forma e a harmonia: a celebração do nada absoluto, Deus. O eterno universo morto a fermentar na dor. A dor de Deus absoluto. Absolutamente. E a matéria fermenta apoiada na vida que é uma alma inteiramente física. Dizes: Tu és a minha identidade inteira. Depois amo-te numa eterna insatisfação. Dizes: Tenho intacto o prazer admirável do tempo voluptuoso. Expando-me no admirável sopro de Adão. Enfrento o nada com o orgulho humano da finitude. É belo o teu gesto atónito que regressa do nada. Deus arde nos teus olhos. Deus inveja as vaginas das mães. Por isso grita sóis de pedra. Sou um lugar carregado de vidro. A minha temperatura química ergue-se bruscamente da sombra e torna-se memória. Espero uma imagem segredada do teu rosto. Eu sei que a harmonia queima. Por isso Deus é uma palavra extasiada. Por isso beijo a tua boca furiosamente ateia. Os nossos corpos vibram numa constelação arterial. Eu sou o teu sangue e o meu sémen. O espaço que nos une multiplica a elegância bárbara da carne. As veias são agora varas demoníacas. O amor é uma pintura que respira. Dizes: O amor anoitece no teu corpo. Finalmente pratico a minha arte das proporções girando na noite universal da ausência. Digo: Está na hora do adeus.


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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Portefólio – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

O Homem Sem Memória

 

22 – A praça encheu-se de gente. O José nem queria acreditar no que os seus olhos enxergavam. Mesmo através da seteira existente no meio da muralha de jornais, o que se via do terreiro dava para pôr um comunista com os pêlos do corpo arrepiados, como quando somos observados por um lobo, mesmo que não o vejamos. Era um mar de gente a berrar “Portugal é do povo, não é de Moscovo”, ou “Comunistas para a Sibéria já”, ou outras provocações pelo estilo. Ali estavam meia dúzia de jovens comunistas atónitos encafuados dentro do Centro de Trabalho e com medo do povo. O mesmo povo que eles defendiam com unhas e dentes, mas que não lhes ligava nenhuma. O povo abominava os comunistas. Isso era evidente. E visível. Os rostos dos manifestantes evidenciavam raiva e determinação. O povo estava do lado da reacção, do lado da igreja, do lado da burguesia. O povo estava contra o povo. Isso era evidente. Mas se o povo estava contra si mesmo, que razões havia para se sacrificarem em nome dele?

Era um mar de gente a manifestar-se contra a ditadura comunista que estava para vir. Os comunistas queriam roubar-lhes as terras, as casas, o pequeno comércio e, principalmente, degolar os padres e queimar as igrejas. No rosto dos manifestantes, o José via sobretudo medo e raiva. Muita raiva. E ódio. Muito ódio.

Cada qual em sua janela, os UEC apontavam o olhar ora para os manifestantes ora para as caçadeiras carregadas com cartuchos de chumbo de caça grossa, que evitavam pegar. O alçapão que dava para as bombas encontrava-se aberto desde madrugada, quando souberam que a manifestação da reacção tinha como principal objectivo passar pela casa dos comunistas nevoenses, com o intuito de lhes demonstrar que em Névoa os comunistas eram meia dúzia de gatos-pingados.

Estes intrépidos militantes comunistas defensores do CT estavam firmemente decididos a disparar as suas armas e a arremessar as bombas, caso fossem invadidos. Bombas que, a caírem no meio do povo, iriam provocar uma matança digna de registo nos anais da história da cidade. José estava determinado a, mesmo não tendo tempo para fazer uma revolução a sério, pelo menos a fazer história. Escrever a história com actos corajosos de revolucionário marxista-leninista.

Mas o povo continuava a vociferar contra os comunistas, com ódio, com raiva, com determinação. O povo não gostava dos comunistas, tinha-lhes medo. E por isso clamavam vivas à liberdade, à democracia, ao pluralismo. O pluralismo burguês que o povo gritava apoiar era a principal arma para o subjugar. O parlamentarismo é a forma suprema da dominação capitalista. É uma ilusão democrática. O parlamentarismo burguês é uma farsa. O camarada Punhal tinha afirmado que Portugal nunca poderá ser uma democracia parlamentarista, uma democracia do faz-de-conta, onde convivem os revolucionários e os inimigos do povo. Onde convivem os filhos do povo e os filhos da puta. Os lobos e os cordeiros não podem viver lado a lado.

Mas lá fora o povo gritava, a plenos pulmões, o seu rancor aos comunistas. Chamam-lhes assassinos e ladrões. Por isso o José pensou, enquanto apontava a mira da caçadeira para um conhecido reaccionário nevoense, que o povo ainda não estava maduro para fazer a revolução. Mas ele estava. Sim, ele estava. Apesar de ser comunista apenas há seis meses, ele estava de alma e coração com o Partido, com a revolução e com o camarada Alberto Punhal, por quem mantinha uma admiração profunda. Para o José, Punhal era um novo Cristo. Sem ofensa para com o camarada Punhal.

E o povo, na sua santa ignorância, no seu vesgo obscurantismo, provocados por décadas de fascismo e por séculos de cristianismo, não tinha verdadeiramente a culpa. Os reaccionários e os burgueses é que a tinham. E os padres. O povo não tinha culpa. Os culpados eram os outros, que não sendo do povo, mas fazendo-se seus amigos, o tentavam manipular, contando-lhes falsidades acerca da União Soviética, o Sol do Mundo, o Farol da Humanidade, a Terra da Liberdade.

Mas o povo continuava a gritar “Comunistas para a Sibéria, já”, como se isso fosse algum castigo. A Sibéria Soviética era fria e mais nada. A Sibéria czarista é que tinha sido uma prisão imensa. Agora essa vasta região era apenas fria, mas aquecida com o fulgor da revolução proletária. Agora era terra de liberdade. Mas os reaccionários mentiam com o propósito de enganar o povo. E o povo, na sua santa ignorância, acreditava mais nos reaccionários do que nos comunistas. E isso entristecia o José. Por isso se sentia capaz de matar. Agora era bem capaz de disparar para calar a voz da reacção. Ele que apenas tinha disparado espingardas de chumbo para matar pardais, sentia-se um revolucionário capaz de alvejar o senhor Felisberto, o dono da mercearia do seu bairro, que sempre ganhou a vida a roubar no peso da massa, do arroz e do feijão que vendia a granel. Ou de alvejar o Padre João, que gritava alto o nome de Deus e o do Papa, como se fossem a salvação do mundo. Os filhos da puta. Quem poderia salvar o mundo era Marx e Lenine. E, claro, o camarada Punhal.

O povo continuava lá fora a gritar e bem alto o seu ódio aos comunistas. Alguns reaccionários, mais corajosos, incitavam alguns companheiros a invadirem o CT. Era preciso cortar o mal pela raiz e expulsar os comunistas da cidade. José apontou a caçadeira. Os outros seus companheiros revolucionários fizeram o mesmo. O Martins foi buscar duas bombas feitas com pregos e cacos de pote. Os reaccionários já ali vinham. José benzeu-se e pediu perdão, não a Deus, mas sim a Alberto Punhal. Depois os seus dedos pousaram suavemente no gatilho da caçadeira. Apontou para na direcção do padre João e fez mira ao centro da testa. Hesitou. Baixou os canos da espingarda na direcção do coração. Não pretendia falhar.

De repente, o Martins, que se preparava para abrir a porta e lançar as bombas, gritou: “Alguém vá atender o telefone, que eu não posso”. Foi o que salvou o Padre João de ser a primeira vítima da revolução em terras de Névoa.

José foi atender, pois sabia que não atender o telefone podia ser uma enorme transgressão à militância revolucionária. O telefone do CT era uma das armas mais prestigiadas na actividade revolucionária do dia-a-dia.

Era o Dr. Sebastião a informar que estava a chegar um pelotão de soldados do MFA para defender o CT do Partido. O comandante do quartel tinha recebido ordens expressas de Lisboa para disponibilizar um pelotão de SUV’s voluntários para defender a casa dos comunistas. 

Ficou assim a luta adiada. Os soldados chegaram, dispuseram-se em formação de defesa, engatilharam as G3 e esperaram, sorridentes, que as coisas acalmassem.

O povo continuou a gritar a seu ódio aos comunistas. Os comunistas continuaram dentro do CT a olhar os reaccionários através do ponto de mira das suas caçadeiras. E o Martins, com calma e perseverança, foi esconder de novo as bombas no esconderijo do bar. “A revolução é como Roma e Pavia, não é para se fazer num dia”, pensou. E pensou bem.

Durante vários minutos, os manifestantes continuaram a exteriorizar o seu ódio e a sua raiva aos comunistas de Moscovo e aos seus lacaios portugueses e a gritar bem alto a sua vontade de defender a liberdade e a democracia. Vendo que a manifestação tendia a demorar mais tempo do que o previsto em frente do CT do Partido sem se definirem os campos, o capitão do pelotão incumbido de o defender, mandou disparar uma rajada de metralhadora para o ar e a manifestação começou a andar para o local de onde tinha partido. E, o que começou em paz terminou em paz, para desgosto das partes envolvidas.

“E palavras leva-as o vento, lá diz o povo. Mas o povo não sabe muito bem o que diz. Senão não tinha vindo para a porta do partido que o defende gritar impropérios e atoardas que não o dignificam. O povo tem de ser educado. Tem de ser esclarecido. Um povo que não é esclarecido não é povo. O povo para ser povo, para ser verdadeiro, tem que estar ao seu lado. O povo tem de estar ao lado do povo. O povo tem de estar ao lado do Partido. O povo não pode estar contra o povo. O povo não pode estar contra o Partido. Porque o Partido é o povo. O povo é que pode não ser o Partido. Mas sendo o Partido o povo, mesmo quando o povo não está com o Partido, está o Partido com o povo. Porque o Partido é que é o verdadeiro povo. Porque o povo que não está com o Partido não é povo. Mas o Partido é o povo. É o povo do povo. O povo verdadeiro. E esse povo, o verdadeiro, é que é o Partido. O Partido verdadeiro. O povo. O Partido. O Partido do povo. O Povo do Partido. O Partido”. Isto foi o que o José pensou antes de adormecer profundamente em cima dos bancos onde os militantes se sentavam nos dias de reunião.

 

 

 

                                                                


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Domingo, 11 de Julho de 2010

Portefólio – Corpo de Cristo – 26 de Maio de 2005


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Sábado, 10 de Julho de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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