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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Dez10

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

44 – Ainda mal se viam os primeiros raios de sol e já o Artur, o filho mais novo de um colega do guarda Ferreira, subia na burra a rua que conduzia ao largo onde costumavam estacionar as carreiras com destino a Chaves e a Braga. O pai e a mãe iam a pé. A mala seguia em cima do pescoço da jumenta tenteada pelas mãos do Artur.

O guarda Ferreira e a Dona Rosa, com o João ao colo, acompanharam o José também a penates. Como não tinham burro, o José foi no macho que o cabo Aníbal lhes emprestou. Um pouco mais atrás seguiam o Virtudes, que carregava o malote por excesso de zelo, e o Leão que abanava a cauda de contentamento. A tomar conta da criançada lá em casa ficou a irmã do Alcino.

O José, ao contrário do seu colega Artur, ia triste. Nunca se tinha aventurado a passar quinze dias fora da companhia da mãe, do pai, dos irmãos e dos amigos. Ia ser duro. A mãe olhava para ele e choramingava. O pai olhava para ele e sorria. O Virtudes olhava para ele e assobiava. O Leão olhava para ele, abanava a cauda e ladrava. O João olhava para ele e cantava a canção da “galinha põe o ovo” com a ajuda da mãe. O Artur olhava para o José e gozava. O pai do Artur olhava para a mãe do Artur e depois para o ar fungoso do José e ainda para o ar alegre do seu filho e gozava. O macho olhava para a burra e ruminava.

Fizeram-se as despedidas. A Dona Rosa continuou a choramingar e a dar conselhos ao filho sobre os diversos cuidados a ter com os rufias que se aproveitam destas ocasiões para humilhar e roubar os meninos mais inocentes e bem-educados. O guarda Ferreira acendeu um cigarro, deu um beijo envergonhado e mais algum dinheiro ao filho e abalou para o posto a assobiar o hino do Porto; o José deu um beijo à mãe, fez uma festa ao cão e outra ao macho, e entrou para a camioneta. O Virtudes pegou no irmão mais novo do José e também entrou na carreira. Ia fazer o desmame do João a Chaves, pois o raio do garoto não havia maneira de deixar em paz a teta da mãe. Já tinham experimentado a técnica de pôr malagueta no bico do seio da Dona Rosa, mas o malandro, depois de chorar baba e ranho, voltava ao mesmo. E como o leite e as forças já iam faltando à mãe, o Virtudes lembrou-se de o levar três dias a Chaves para dessa forma violenta abandonar definitivamente o vício da teta. É que parecia mal um menino tão crescido agarrar-se à mama da mãe como se fosse um cordeiro faminto. Aquilo era doentio. Além disso trilhava-a com os dentes, inflamando-lhe os mamilos. O João, quando viu que a mãe continuava a chorar e não entrava na camioneta pôs-se a gritar. Mas o Virtudes deu-lhe uma guloseima, acariciou-o, começou a galhofar e o João calou-se. O José sentou-se ao lado do amigo e do irmão e tentou pensar numa coisa alegre. Pensou no mar e no sol. Já sentia saudades. Desde que abalara de Lisboa nunca mais tinha ido à praia. Não é que gostasse muito da água. Tinha-lhe até medo.

Isso aconteceu porque uma vez uma senhora sueca, tentando ser simpática, pegou-o ao colo e levou-o para dentro de água para o ensinar a nadar. Mas ele atrapalhou-se e começou a chorar. Como a senhora não se apercebeu, continuou a praticar distintos exercícios de mergulho e lançamento o que lhe provocou uma aflição muito próxima do pânico. Depois desse dia, mal alguém o aproximava da margem do Tejo ou da água do mar, começava a tremer e a chorar. O máximo que conseguia fazer era pôr-se no areal onde as ondas iam morrer e deixar que aquele nico de água lhe banhasse as pernas. Mesmo assim arrepiava-se e contraía todos os músculos do corpo.

Chegados a Chaves, despediu-se do Virtudes e do irmão e, na companhia do Artur, já um rapaz experimentado nestas andanças, rumou ao posto da GNR onde foi integrado no grupo que, sob a supervisão de um colega do pai, se dirigiu ao comboio que os levaria ao Porto.

Aí pernoitaram numa das casernas do posto central. Foi uma noite terrível para o José, mas divertidíssima para o Artur e os demais rapazes que estavam habituados a estas aventuras. Mal se fechou a porta e se apagaram as luzes, estabeleceu-se uma batalha de almofadas que se prolongou por muito tempo. O José e os demais caloiros tornaram-se nos alvos da chacota e da fúria dos malandrins. Os caloiros não dormiram nada porque mal fechavam os olhos eram logo vítimas de mais um assalto de almofadas. Não é que doesse muito, mas moía. Sobretudo a paciência. O José chorou que se fartou.

O Artur nem uma única vez o defendeu. O filho da puta. Era até o que mais se empenhava em castigá-lo. Aquele cabrão sádico. Não perdia por esperar. Quando fosse padre não o absolveria de nenhum pecado. E, dessa maneira, ia para o inferno, com toda a certeza. E isso era o menos, pois estava determinado a pedir ao Alcino para lhe armarem uma emboscada e lhe fazerem por trás o que fizeram à irmã pela frente. E não iam cobrar nada pelo serviço. Era-lhe muito bem feito. Ao filho da puta!

Razão tinha a Dona Rosa quando apelidava a mãe do Artur de puta relaxada e o pai de corno manso. Ao princípio custava-lhe ouvir a mãe dizer: “Sempre tão pintada, tão asseada, tão folgada, a puta do sargento Pires. E o corno manso do marido, em troca, tem sempre os serviços mais leves. Mal sai do posto. É ele o correio do sargento. É ele quem recebe dos contrabandistas a paga pela distribuição das patrulhas e pela falta de vigilância nos caminhos que vão dar à fronteira. São meia dúzia os que recebem o grosso da maquia. Os outros contentam-se com as migalhas. E tu, Ferreira, nem pareces meu marido. Deixares-te endrominar pelo sargento e pelo corno manso. Se fosse comigo, quem os fodia era eu. Ou me pagavam convenientemente ou denunciava-os. Não se ficavam a rir. Ai não ficavam não.”

Agora dava-lhe razão. O Artur só podia ser filho de uma puta e de um corno manso.

Ficou cheio de medo quando o Artur, no meio da galhofa, apontando para ele e virando-se para o grupo de mafarricos, vociferou: “Lá na praia temos de lhe ir ao cu”. Todos se riram como se isso fosse normal. Ele pensou nas palavras da mãe: “Nunca te afastes dos monitores.”

29
Dez10

O Poema Infinito (28): a luz repousa…

João Madureira

 

A luz repousa no sossego jubiloso da água e o silêncio das palavras esquecidas ergue-se à altura da transparência íntima. Somente o pastor que reza as insónias da paz infinita dos ermos penetra na condição viva do desespero. O deus profano das brisas sopra presépios incandescentes e o seu pungente cântico de amor eleva-se imperiosamente sobre o hábito intemporal do parto doloroso da virgem mãe do menino. Os símbolos instrumentalizam a sabedoria. O hábito estuda o improviso da entrega. Todo o corpo é vida e morte. Por isso dentro de ti me ilumino com o rigor do sossego. Come-me, eu sou a minha carne e o teu desejo. Tu és o meu vinho especial. Tu és o meu vínculo à nostalgia da infância, à presença escrita dos frutos lúcidos.  Especificas agora a iluminação eterna do vagar, do sossego coetâneo da entrega. A terra antiga sofre a paciência triste do trabalho. Os anos sossegam o profundo silêncio da velhice. Todo o corpo organiza o abstracto. O azul dos verbos íntimos percorre a paciência imprevista da palavra amor que está agora nua na nossa boca. Por isso a imagem do dia soletra a insubmissa palavra eternidade. O tempo implode nas imagens evidentes da dúvida. Sou agora o sinal interior da ausência.

27
Dez10

O mictório e a matança

João Madureira

 

Fui para a matança com a preocupação estampada no rosto. Até o F. deu conta. “O que é que te desassossega tanto?”, perguntou ele a sorrir. Mandei-o passear, está claro. Pus-me a olhar para a máquina fotográfica como se lhe faltasse alguma peça. Mas não faltava lá nada. Era só impressão. Por vezes dá-me para estas coisas. Por exemplo, o mictório direito da casa de banho masculina do Modelo está avariado vai para uns meses. E aquilo incomoda-me. Não é que o terceiro mictório seja assim tão necessário, ou importante, na hora de aliviar a bexiga. Com os dois restantes, os cavalheiros que lá se deslocam para fazerem as suas micções conseguem despachar-se sem que se formem bichas. Mas o que me inquieta é que seja o terceiro mictório do Modelo. Se fosse o segundo mictório de um tribunal, o quarto de um centro de saúde, ou o primeiro de uma escola, vá que não. São instituições de serviço público, pagas com os nossos impostos e onde o dinheiro não abunda e a gestão financeira é rigorosa. Mas o Modelo, meu Deus, o Modelo não tem essa desculpa. O Modelo é uma referência comercial, económica e social de cariz privado com prestígio nacional e internacional, com lucros fabulosos. Será que não consegue arranjar alguém para consertar o mictório direito da sua superfície em Chaves? Eu não acredito. Estou em crer que o lucro da venda de vinte cadernetas da Popota dá e sobra para pagar o conserto do já anteriormente referenciado mictório. Por amor de Deus, consertem-no. Esse pequeno sinal de desleixo e incompetência pode deitar por terra a boa imagem que possuem na nossa comunidade. Eu sei que as casas de banho estão sempre limpas, que os produtos estão sempre bem expostos, que as prateleiras se encontram quase sempre repletas de promoções, de boas promoções, que têm descontos em cartão, que oferecem descontos sem ser em cartão, que vendem três pela importância de dois, que vendem polvo de qualidade por quinze euros o quilo, que vendem bacalhau com uma razoável relação entre a sua qualidade e o seu valor, que vendem o quilo da carne a preços difíceis de encontrar no comércio tradicional, que vendem brinquedos pelo preço de chupa-chupas e que oferecem vales de desconto aos clientes. Sei que limpam constantemente o chão do edifício, que trocam qualquer produto que esteja deteriorado, que alguns produtos quase os dão para as pessoas aí se deslocarem frequentemente, pois o que o Modelo mais aprecia e privilegia são as visitas dos seus estimados clientes, nem que seja apenas para ir tomar um café e comer uma nata, que fazem parte de uma outra promoção e que também ela pode ser acumulada em cartão. Sei que fazem feiras do vinho, do queijo, da chouriça, do presunto e do peixe onde só não compra quem for parvo ou então adepto do comércio tradicional. Sei que o pessoal é competente, simpático, trabalhador e pago a horas. Sei que os sindicalistas se queixam dos baixos salários praticados pela Sonae, mas os sindicalistas também se queixam por tudo e por nada. Sei que o parque de estacionamento é bom, que os carrinhos das compras são robustos, que os senhores da segurança dispensam muito bem a polícia. Sei que a loja book it tem bons livros com um desconto permanente de 10%, que disponibiliza gratuitamente jornais e revistas aos seus clientes mais assíduos, vizinhos ou reformados, publicações que as pessoas lêem em pé ou mesmo sentados em cadeiras confortáveis. Sei que a Modalfa faz promoções que metem as dos ciganos e as dos chineses num chinelo. Sei de tudo isto. Mas o pormenor do mictório não me sai da cabeça. Ali está ele para lembrar às pessoas que até a maior superfície comercial pode ter os seus defeitos. Dizem que a arte está nos pormenores. E que a qualidade nos detalhes. Quem persegue a perfeição não pode esquecer que um simples mictório avariado pode deitar por terra todo prestígio acumulado ao longo de anos a bem servir os consumidores portugueses. Então a Sonae consegue alimentar quase metade da população portuguesa, consegue organizar concertos e mega piqueniques com o Tony Carreira e é incapaz de consertar em tempo útil um mictório de um seu estabelecimento em Chaves? Eu sei que estamos em crise, mas não acredito que ela seja tão grave que não permita disponibilizar algumas verbas para o conserto de um mictório em terras de Aquae Flaviae. E a desculpa de que a mão-de-obra escasseia em Portugal é mais um mito a juntar ao do D. Sebastião. Dados oficiais dão conta que 550.846 é o número de desempregados em Portugal e quase 60% são do sector terciário, sobretudo das áreas das actividades imobiliárias, administrativas e serviços de apoio. Mas 18.929 foram as ofertas de emprego por preencher no final do mês de Outubro de 2010. A maioria das ofertas registadas nesse mês relaciona-se com postos de trabalho na área das actividades e serviços a retalho de hotelaria e restauração e construção civil. O problema é que anda aqui falta de informação. Há mictórios avariados, existem desempregados e há ofertas de emprego que ficam por preencher. Na opinião do senhor secretário de Estado, Valter Lemos, isto é possível devido a um desfasamento geográfico muito complicado. Pois há regiões que não têm gente suficiente para as necessidades. Ora como Portugal, mesmo não parecendo, é enorme, as pessoas não se podem deslocar. Por isso as ofertas de emprego ficam por preencher. São os custos da nossa dimensão. Os custos do desenvolvimento. Estou em crer que se o conserto do mictório do Modelo pudesse ser feito por computador e via internet, ele já lá estava a cumprir com o seu destino. Assim não. Fica mais uma vez provado que a informática e as novas tecnologias não resolvem tudo.


Agora que já desabafei posso finalmente descrever (fotografar) a matança do porco da Abobeleira. O porco ali vem, fazem-lhe uma pega. (Fotografias). Ele berra, foge, berra, foge. (Fotografias). Os homens vão atrás dele, pegam-lhe nas patas, prendem-lhe o focinho com uma corda e levam-no para o banco. (Fotografias). Ele berra, berra cada vez mais. (Fotografias). Os homens riem e deitam-no no assento. (Fotografias). A senhora do alguidar aproxima-se, o matador faz um pequeno corte experimental, aponta a faca e faz força. (Fotografias). A faca entra pela carne adentro em direcção ao coração. (Fotografias). Os homens riem, o porco berra, o sangue brota da garganta do animal com força, parece uma torneira aberta. (Fotografias).  Um pouco mais de energia na faca e o animal começa a dar sinais de fraqueza. (Fotografias).  Berra mais um pouco e o sangue continua a brotar com intensidade. (Fotografias).  O alguidar grande fica meado. Dali vai para o pote que já ferve. (Fotografias). O porco é agora chamuscado, raspado e lavado. (Fotografia). Depois de bem barbeado, é aberto, estripado e pendurado. (Fotografias). Corta-se a cabeça e os pés e ali fica até ser desmanchado. (Fotografias).  Os Lumbudus vão agora dar um passeio, passam pela barragem romana, pelo moinho, pela ribeira. Regressamos. Prepara-se o sangue, os rins e o fígado. (Fotografias). É o almoço. Come-se, bebe-se, fala-se, convive-se. Fotografa-se ainda mais. Vamos tomar café e passamos pela casa do Nel onde comemos uma sopa. (Fotografias). Passamos a tarde a falar e a fotografar. Logo mais aparece a vereação Municipal e vários presidentes de junta. (Fotografias). Come-se a feijoada e as febras assadas e bebe-se mais um pouco. (Fotografias). Posteriormente entram em cena os músicos. Mais fotografias, risos, conversa, mais fotografias, música, conversa. Está na hora de ir. Cá fora ainda nos entretemos mais um pouco a fotografar nuvens de fogo produzidas por alguém que lança no ar as brasas da fogueira que arde desde a manhã. Tudo está bem quando acaba em bem.


 

PS – Agora que aí vem 2011, compre para si ou para oferecer, isso fica à sua inteira responsabilidade, para homem, o livro “Golfe”, um cachecol Fred Perry, umas luvas Camel, um fato Ermenegildo Zegna, um colete Ermenegildo Zegna, uma gravata Ermenegildo Zegna, uma camisa Ermenegildo Zegna, o livro “Tudo Isto é Fado”, uns óculos Dolce & Gabanna e uns botões de punho Dunhill.

 

Para as senhoras aconselhamos: babydoll Ebony&Ivory, mala Louis Vuitton, óculos Funny da Alain Afflelou, vestido Deprés Nuno Baltazar, perfume Nina Ricci, lingerie Triumph Merry Sparkle e sapatos Pedro Garcia.

 

 

 

 

 

25
Dez10

Postal de Boas Festas

João Madureira

 

Foda-se, Pai Natal, repito, e restante família. Acabaram-se os postais de Boas-Festas. Essa era já a minha vontade desde há muito tempo, mas não a podia exprimir assim tão abertamente. Eu já tenho tudo aquilo o que posso ter. Até tenho um blog. Só não tenho o que mais quero. Que são as estrelas no meu bolso para as dar à L. E foi isso sempre o que eu mais quis. Dar-lhe estrelas. E também dar as estrelas e os planetas ao V. e ao A. E oferecer, desembrulhadas, as constelações mais longínquas ao meu pai, que já não posso ver, mas de quem sinto imensa falta. E à minha mãe que me morreu nos olhos. E recompensar os cantos de trigo e os rebuçados que a minha avó me deu pondo-se no teu lugar quando a abandonaste num Natal longínquo de 1966. Foda-se Pai Natal. Desculpa Pai Natal. Eu sempre pensei que não existias, mas agora sei que existes e que és uma grande merda. Simbolicamente, claro. E isso é muito pior do que se verdadeiramente não existisses. Transformaram-te em realidade, uma dura, crua e sinistra realidade. Uma obsessão. Uma conspiração contra os sentimentos, contra a beleza, contra a fraternidade. Contra a simplicidade das sensações mais íntimas e mais puras. Tu és só presentes. Tu és só presente. E os ausentes? Hã? E os ausentes? Onde estão os ausentes? Só cintilas com dinheiro. Só sorris no meio do desperdício e da futilidade. Só ajudas os que têm. Só iludes os que não são capazes de sonhar. E os ausentes, que tanta falta me fazem, onde estão? Foda-se, Pai Natal, deixaste que te transformassem num velho de barbas branquinhas todo vestido de vermelho. E, ainda por cima, gordo. Muito gordo. E que se ri como um comentarista de rádio que dá peidos sonoros, roucos, untuosos e vernáculos. Foda-se, Pai Natal, dás pena. Apetece mesmo dar-te com o pinheirinho artificial nas trombas e depois pôr-te à geada enrolado em luzinhas intermitentes. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar.

24
Dez10

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

43 – Mal chegou a casa, ainda vacilante nos seus passos frouxos, já depois de deixar os seus amigos no café a beber ainda o último copo de vinho, ordenou olhando na direcção da mulher: “Arranja a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias.” “O quê?”, perguntou a Dona Rosa. “O quê?”, perguntou o José. “Já disse, prepara a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias em Matosinhos.” “Mas...”, exclamou a Dona Rosa. “Mas...”, exclamou o José. “Não há mas nem meio mas”, avisou o guarda Ferreira, “como nunca mais foi à praia desde que viemos de Lisboa, vai agora antes de ingressar no seminário.” “Quem o inscreveu?”, perguntou a Dona Rosa. “Quem me inscreveu?”, perguntou o José. “Fui eu”, respondeu o guarda Ferreira com a autoridade necessária. “Afinal quem é que manda cá em casa?”, perguntou apreensivo o guarda Ferreira. O Leão ladrou no curral dando sinal de que se preparava mais uma batalha familiar. O Virtudes subiu as escadas para vir proteger as crianças. A Dona Rosa armou-se de varapau em riste e o José pegou no livro e foi para o quarto ler. Ou fazer que lia. Mas a guerra terminou ainda antes de começar. O guarda Ferreira serviu-se de vinho do garrafão, pegou numa linguiça, embrulhou-a numa folha de couve e colocou-a no meio das brasas. Um pouco a custo, assentou-se no escano. Depois deu um pontapé no gato e começou a falar sozinho. Entretanto a mulher tentou tirar nabos da púcara: “Quando foi que o inscreveste para a colónia de férias?” “Quando os meus colegas inscreveram os seus filhos.” “Mas não me disseste nada!” “Não te disse nada porque já sabia que ias dizer que não. Eu sei que o rapaz precisa de sol. Está magro como um cão.” “Vê lá como falas do teu filho. Mais magro estás tu. Também vais para a colónia de férias?” “Não me faças rir. Com estas flausinas da cor do leite ia ser um enchente de riso.” “Tu de calções de banho e eu de biquíni íamos ser o casal mais vistoso da praia.” “Lá isso íamos. De tão brancos ainda ofuscávamos o sol.” E riram-se os dois. Até o José se riu lá no quarto. “Não te rias dos teus pais que é feio”, gracejou o guarda Ferreira. Então a Dona Rosa começou a cantar a canção que agora passava muito na rádio: “Já arranjei muito bem / Tudo quanto convém / P'ra praia levar. / O pente, o espelho, o batom…” Ouvindo a dona a cantar, o Leão atreveu-se a subir as escadas e foi para ao pé dela pôr-se a ganir. Logo de seguida subiu o Virtudes e a rapaziada. Vendo que o ambiente se tinha composto, o José pousou o livro e veio para o escano. O pai deu-lhe um pouco da linguiça e disse-lhe para beber um golo de vinho da sua pichorra. Ele bebeu, mas a custo. Afinal já se estava a transformar num homem. Já fumava, já pinava, só lhe faltava mesmo começar a beber para ser um homem. O seu irmão João começou a rir-se naquele seu encantador trinado de menino feliz e riu tanto que deu um peido. Todos começaram a rir como tolos. E nunca mais paravam. E quanto mais se riam, mais vontade tinham de continuar a rir. Então o José, como quase sempre fazia, pegou no seu irmão João e começou a balançá-lo de um lado para o outro e a fazer-lhe cócegas na barriga com os lábios e o ar que expelia pela boca. Então o João, esgotado, no momento em que o José abria a boca para respirar depois de mais uma sopradela na barriga do irmão, mijou-lhe em cima com a naturalidade das crianças. Nesse momento o riso colectivo atingiu o clímax. Feliz, o Virtudes levantou-se de onde estava sentado, pegou no menino ao colo e deu-lhe o biberão de leite. A Dona Rosa, mais corada que um pimento, e como sabe que momentos destes não abundam na vida de um casal, lembrou aos meninos que estava na hora da deita. O José, ainda com o cabelo húmido depois de se ter ido lavar, juntou-se ao Virtudes e ambos ajudaram os irmãos a despir-se e a vestir as ceroulas e a camisa de dormir e contaram mais uma vez a meias a Lenda da Maria Mantela, história que tinha o apreciado dom de os acalmar. Depois adormeceram. O Virtudes ainda se entreteve a beber um copo e finalmente também foi embora. O guarda Ferreira, a inseparável pichorra, mais a Dona Rosa, continuaram a conversar noite dentro. O José, na cama, não conseguia dormir. Chegou mesmo a contar e recontar os jogadores que tinha repetidos e não conseguia trocar. Mas o sono não chegava. Ouviu o pai a bater a porta da rua e a dar duas voltas à chave na fechadura. Depois a Dona Rosa e o guarda Ferreira foram para a cama. De seguida ouviu qualquer coisa como “chega para cá o rabiosque que eu aqueço-to…” a que se seguiu “não sejas estouvado… sim… umm… sim… shh… que o José tem ouvidos de fuinha… anda lá Ferreira… não se me endireita… shh… sim… vá lá homem… queres que te… sim… shh… ummm… anda lá… não se em endireita… vá lá que eu ajudo… abre mais um pouco as… shh… umm… força… agora… shh… eu faço-te mais umas festinhas… não consigo… é do ciga… caralho…

22
Dez10

O Poema Infinito (27): saem as paisagens da água

João Madureira

 

Saem as paisagens da água vestidas com crianças azuis. É o tempo do espanto. As cidades explicam a luz na contemplação da chuva. O silêncio exibe a dilatação dos gritos. Os sexos navegam húmidos na cumplicidade das manhãs. A vida reproduz-se a uma velocidade incrível. Dormimos agora o sono das palavras possíveis. Reconstruímos a verdade das ilusões. A realidade é um momento. Os olhos imaginam pintores clássicos adorando os seus modelos. Van Gogh salta incendiado pelo amarelo das searas. Jesus incendeia o sangue dos peixes do Mar da Galileia. Deus estremece na transparência dos objectos. Os nossos corpos naufragam numa outra língua onde tudo é desejo. As paisagens atravessam agora as paredes da madrugada. Somos crianças em corpos de adultos. Por isso escrevo os textos possíveis onde anoto criteriosamente o caos da vida. Pássaros nitidamente cinematográficos desenham metáforas no céu. Agora os dias vêm carregados de inscrições premonitórias. As velhas cicatrizes saltam das promessas estonteantes. As noites antigas sofrem o aroma perturbante do vazio. Arde-me nos pés o caminho do regresso. Ao contrário de Ulisses, jamais encontrarei o caminho para Ítaca. A viagem termina antes de começar.

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