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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

20
Dez10

As pontes

João Madureira

 

Eu e alguns dos meus amigos costumamos passear junto ao Tâmega e, de vez em quando, atravessamos as pontes que unem as suas margens com muita determinação. Se há coisa em que sejamos determinados é na travessia de pontes.


Se há coisa em que o bom povo português é determinado é em fazer pontes, nós somos mais determinados em as atravessar. Cada louco com a sua mania. É que nós, além de sermos portugueses por obrigação (adopção?), somos transmontanos por condição. E disso não podemos fugir. Ninguém escolhe o seu país de origem e muito menos a terra onde nasce.


Mas, como ia dizendo, o nosso grupo aprecia muito passear junto ao rio, de olhar para as suas margens, para as pessoas que por ali passeiam e de conversar sobre tudo e sobre nada. Que é quase a mesma coisa. Nisso assemelhámo-nos muito aos políticos e aos padres. Mas só nisso. Porque, enfim, somos honestos, não mentimos, prometemos apenas aquilo que podemos cumprir, somos amigos uns dos outros sem segundas intenções, pagamos sempre aquilo que comemos e bebemos, as casas, os carros e as viagens que fazemos são pagos unicamente com o dinheiro dos nossos salários, e não garantimos, nem nos iludimos, com o paraíso, seja ele terrestre ou divino. E, sobretudo (podem sorrir, pois estão perdoados), as nossas conversas são quase sempre muito instruídas e espirituosas.


O R. possui um tipo de generosidade autista: não sabe dar, não sabe receber, não sabe agradecer. Mas diz coisas que nos espantam, tais como: “Os inteligentes estão condenados a serem atormentados pelos estúpidos.”.


O L., com o espanto, até se engasgou. Ele que é de convivência fácil mas de difícil intimidade. Ser íntimo do L. só à base de muito porfiar. Além disso faz parte dessa categoria de espíritos que extrai uma alegria sarcástica de ter razão contra o maior número. Mas eu gosto dele. Aprecio-lhe a lucidez e a coragem.


O meu amigo D. contou-nos que se sentia triste porque lhe tinha morrido o pai. E eu senti-me triste também, apesar de o meu pai ter morrido há já muito tempo. E não era velho por aí além. Podemos dizer até que era novo. Era ainda novo para morrer. Depois pensei nos avôs que não conheci. E ainda fiquei mais triste. Seguidamente olhei para ele e disse-lhe algo como: “Aprecio a simplicidade pelo facto de ela ser o resultado da esgotante labuta de eliminar os elementos supérfluos”. Ele pôs-se a olhar para mim como se eu tivesse dito ou uma grande verdade ou a maior das idiotices. Mas eu não me descosi. Por vezes dizemos coisas tão profundas que nem sabemos lá muito bem o que elas querem significar. Mas também a quem é que isso pode magoar? Os amigos gostam de nós com todos os nossos defeitos e com todas as nossas virtudes.


O F., que tem um jeito especial para o pessimismo social, deu-nos conta das suas últimas investigações: “Os cientistas sociais são peremptórios quando afirmam que o potencial humano só pode ser desenvolvido quando não estamos assustados, encolerizados ou esfomeados. Sendo assim, fica justificado o baixo grau do nosso desenvolvimento”. Tal tirada foi suficiente para que atravessássemos o Tâmega sem que alguém no grupo proferisse uma única palavra. Apenas quando chegámos à outra margem é que o D. se referiu ao tempo. Todos concordámos com ele. Estava sol, corria uma aragem não muito agradável, as nuvens junto ao Brunheiro estavam a deslocar-se a uma velocidade curiosa e a temperatura ia descer muito durante a noite.


Eu, para não deixar a conversa destrambelhar e também para dar um arzinho da minha graça, citei G. K. Chesterton: “Porque se inventou uma razão para explicar o resultado, quase se nega o resultado para justificar a razão.”


O F. voltou à carga com os cientistas sociais, a sua nova mania: “Fez-se um estudo denominado «pager» sobre as relações de uma família e chegou-se à conclusão que os dois membros de um casal médio passam menos de dez minutos por dia a fazer seja o que for que possa ser designado por tempo de qualidade”.


Eu voltei a G. K. Chesterton: “Uma vez mais, aquilo que conduz ao engano é a dimensão da teoria, no sentido em que a fantasia é maior do que os factos”.


“Tu gostas muito de te armar”, comentou o D. Eu olhei na sua direcção e quase me arrependi de me ter sentido solidário com ele ainda há pouco. Mas disfarcei. Os amigos também devem disfarçar os seus pérfidos sentimentos. Com os amigos apenas são permitidos as boas sensações, tudo o resto fica de fora.


O R., olhando para a Ponte Romana, começou a assobiar uma melodia e todos nos calámos para a ouvir. Ele imita muito bem o canto de vários pássaros.


“Que bem assobias R. Dá gosto ouvir-te. Fazes-me lembrar a Primavera e os agradáveis momentos que eu passei na aldeia”, disse o L.


“Que bucólico estás”, disse o D.


O F., que não é muito apreciador destas pequenas minudências que dão alegria e sentido à vida, disse do alto da sua erudição: “Maria Helena da Rocha, a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra e uma das responsáveis pelo novo Acordo Ortográfico disse ao Expresso que ler pela primeira vez a Ilíada no original (grego) foi tão emocionante que ficou doente”.


“Tem graça, a mim isso acontece-me quando leio os livros do António Lobo Antunes”, atirou maldosamente o L.


Eu, para aliviar um pouco a tensão no grupo, disse em tom de brincadeira: “A ex-candidata a deputada no Brasil, Gabriela Leite, afirmou aos jornais ter sido prostituta durante anos não por necessidade mas por prazer. «Escolhi ser puta porque é uma profissão que eu gosto», confessou.


Todos se riram, menos o F. que citou Ben Johnson: “A linguagem revela o homem”.


“Neste caso a mulher”, corrigi.


“Está bom de ver que Gabriela Leite pretendia juntar o útil ao agradável”, disse o R.


“Tu lá sabes do que falas”, provocou o L.


“Eu apenas fui candidato independente em lugar não elegível numa lista do… (pi)”, admitiu o R. E depois aconselhou: “Esperai aqui por mim que vou ali mijar e já volto”. Era esta a sua forma de dizer que se ia embora porque a conversa não lhe estava a agradar. Nós respeitamos a sua vontade e continuamos a andar e a atravessar as pontes que ainda nos faltava atravessar.


Os amigos vão e vêm. É esta uma verdade muito conveniente.

 

 

PS – É um sinal de bom gosto, e também de alguma inteligência prática, comprar calçado Cohibas. E para acompanhar no bom gosto pode, se apreciar claro está, fumar charutos Cohiba Behike. Pormenor importante, as cintas dos charutos desta linha têm, pela primeira vez, dois hologramas identificativos de segurança.

17
Dez10

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

42 – Veio o calor e o José entusiasmou-se com as brincadeiras. As aulas estavam a acabar e os exames foram fáceis. Tudo lhe sorria: a natureza, a mãe, os livros, as raparigas. Sobretudo as raparigas que desde tempos imemoriais gostam dos mancebos que vão para a guerra ou dos efebos que vão para padres. Os homens devem ser guerreiros ou santos.

Os colegas miravam-no com um ar cada vez mais sério, um pouco desconfiados, ou mesmo revelando uma inveja mal disfarçada. O filho do guarda Ferreira ia sair da terra para estudar numa grande cidade. Abalava da parvónia para ser sacerdote.

Ser padre era uma das poucas formas dos filhos dos pobres poderem singrar na vida. Ia aprender a falar bem, a comer com proveito, a beber virtuosamente, a dar-se caridosamente com gente necessitada e a relacionar-se proveitosamente com gente culta e rica. Ele dizia que não pensava nisso. As férias aí estavam para ser preenchidas com brincadeiras. A mãe chorava pelos cantos enquanto lhe compunha o enxoval constituído por lençóis de linho, calças, camisas, camisolas, casacos, meias, sapatos e um crucifixo banhado a prata que a madrinha lhe ofereceu dentro de uma caixa de madeira recomendando-lhe a rogatória da sua alma a Deus.

E continuava a chorar. Parece que só actualmente lhe estava a chegar o amor pelo filho mais velho. No momento que ele se ia embora é que aludia à falta que lhe fazia. “Ai o meu José que se me vai embora! O que vai ser de mim agora. Ele era o meu guardião. Era quem ia buscar o bêbado do pai à taberna.” Ao que as amigas respondiam: “Deixa-te disso, mulher.” Ao que marido respondia: “Deixa-te disso, mulher.” E ela: “Sabeis lá vós o que significa perder um filho. O meu querido filho que tanto me custou a criar.” E as outras mulheres: “Nem que tivesse ido para a guerra. Onde se viu tamanha toleima? Tu devias estar contente. No guerra morreu o Mário para nunca mais. Isso é que dá pena. Dá pena e tristeza…” Ao que a Dona Rosa ripostava: “Ele não morreu na guerra, morreu nas mandíbulas de um crocodilo”. E elas: “Morreu em África vestindo a farda militar, por isso morreu na guerra. Tudo o resto é má-língua. Aquilo foi algum turra que ensinou o crocodilo a merendar soldados portugueses. Assim não se gastam balas. Parece que os pretos terroristas têm poucas. Contra isso não há nada a fazer.” Ao que a Dona Rosa contrapôs: “Isso não é guerra não é nada. É circo.” “Sim, a guerra é um circo”, concordaram todas quantas lavavam no tanque da Vila a roupa para a festa do Senhor da Piedade. A Dona Rosa era já a quinta vez que lavava os lençóis de linho do enxoval do filho. As companheiras avisaram-na: “De tanto os lavares, vão ficar rotos antes de serem usados.” “Quero-os tão limpos como a alma do Senhor”, sarrazinou ela.

Naquele preciso momento, o José e os amigos estavam a divertir-se no palheiro. Brincavam em cima do feno e atrapalhavam-se respirando o seu intenso cheiro e as partículas suspensas no ar. Pareciam tolos de todo. Depois vieram cá para fora gritar e tornaram a entrar.

No palheiro havia pouca luz, mas a suficiente para verem a um canto o Carlos Perneta sentado no colo do Luís enquanto este o beijava e lhe introduzia a língua na boca.

“O que estão eles a fazer?”, perguntou o José boquiaberto. “Estão a treinar os beijos à maneira da professora e do escrivão do Tribunal”, responderam confusamente as silhuetas dos amigos. “Assim não está certo”, balbuciou o José. “Assim não presta. O natural é os beijos serem dados entre homens e mulheres.” “Mas isto é um treino”, responderam de novo as silhuetas saltitantes dos amigos. “A mim não me parece nada um treino. Aquilo é mesmo a valer”, teimou o José. “Parem já com essa merda, paneleiros do caralho, antes que vos foda os cornos”, sentenciou o Alcino entrando de rompante no palheiro. “Vamos pinar.” Avisou o Alcino. “Eu não sei pinar”, confessou o José. “Além disso vou para o seminário e não me posso habituar a essas coisas.” “No seminário também pinam. E pinam muito.” Lembrou o Alcino. “Mas se lá não há mulheres, como é que pinam?”, perguntou de novo o José. “Pinam no cu uns dos outros”, respondeu afoito o Luís que já se tinha levantado. “E tu como o sabes?”, perguntou mais uma vez o José. “Ouviu-o ao Padre Zé”, respondeu o Luís. “És um mentiroso”, gritou o José. “O Padre Zé não é paneleiro.”

Todos se calaram quando viram entrar no palheiro a irmã do Alcino que, apenas com doze anos, trabalhava como uma escrava em casa do pároco. Ela disse: “O José tem razão, o Padre Zé não é paneleiro. Ele gosta muito de pinar as beatas.” “Mas elas são velhas!”, disse o José. “Também as há novas.” Explicou a irmã do Alcino. “São as que se confessam mais. O Padre Zé pediu-me várias vezes batatinhas, mas eu não consigo imaginar o cabrão a meter aquele salpicão grosso na minha rata. É assustador. Ele que o meta nas beatas, que a têm larga. De gordas que estão conseguem aguentar-lhe bem as fouçadas sem se queixarem muito. E a confissão tudo lava aos olhos do Senhor.” Tu és uma pecadora do caralho”, advertiu-a o José. “Vê lá como falas do senhor abade.”

“Vou-vos ensinar a pinar”, afirmou a irmã do Alcino. “A troco de vinte e cinco tostões cada, dou-vos uma lição das boas. O meu Alcino recebe. Fazem fila lá fora, entra um de cada vez, deita-se em cima de mim e pina.”

“Ouviram, tudo lá para fora. Só entra um de cada vez. Dá-me cinco croas, deita-se em cima da minha irmã e pina”, explicou novamente o Alcino.

“E como se pina? Eu não sei pinar”, desabafou o José. “Além disso não tenho dinheiro.” “Quem não tem dinheiro não tem vícios”, avisou o Alcino. Mas a irmã condescendeu: “Pagas-me quando fores padre, mas com juros.” Ao que o Alcino retorquiu: “Sem dinheiro ninguém pina.” “Eu empresto-lhe o dinheiro”, disse o Luís. “Mas quero assistir.”

“Pinar não tem nada de complicado. Tentais enfiar a piroca na minha rata e depois levantais e baixais o rabo. O resto é comigo.” Explicou a irmã do Alcino.

Todos pinaram o que tinham a pinar, sem grande convicção. Apenas o José vomitou no fim. Todos lhe perguntaram: “Vieste-te.” Ele confessou com sinceridade: “Não, cansei-me.”

15
Dez10

O Poema Infinito (26): o segredo do tempo

João Madureira

 

Esta é a minha oferta iluminada: o nada. Esta é a minha invenção: a espada. Este é o meu interior: o fogo. Este é o meu corpo: uma estrela de sal. Esta é a minha verdade: a palavra. Por isso eu subo espantado por cada virgindade perdia. Por isso eu ardo em cada taça de vinho. Por isso sorrio em cada cálice de angústia. Por isso me custa dormir em cada sinal de glória. Por isso tenho vertigens em cada deus nas alturas. Por isso cada noite atravessa o meu sangue cantando hinos de glória. Toda a palavra renascida é um perdão. Todos os meus beijos são a loucura da procura dos teus. Deus é disso testemunha invisível. Pela terra adiante o perdão redentor sopra a alucinação da sua insignificância. A morte é o seu sinal glorificado. As tecedeiras beijam as mãos das avós e atravessam as manhãs como flores líricas. Talvez a intimidade das palavras seja vã, mas todos os poemas revelam coisas. Toda a carne é complicada. O seu desejo quente sobe por nós como uma vertigem poderosa. Somos a inspiração fodida dos anjos. Lúcifer morre no seu sexo negro. Deus morre no seu sexo esdrúxulo. Sinto que enlouqueço nos meses frios como se fosse o espinho precário de uma rosa maldita. Milagroso é o tempo secreto do mundo.

13
Dez10

A conversa

João Madureira

 

E lá estávamos os três a olhar a praça com olhos piscos por causa do sol e por causa da saudade. Eu, o meu amigo R. e o meu outro amigo, o L. O L. é muito dado à política e ao futebol. O R. é muito dado ao estudo. E eu não sou dado a nada. Cada um é para o que nasce. Eu não sou dado a nada mas valorizo tudo. E valorizo sobretudo os meus amigos. Para mim os amigos são tudo. Ou quase.

 

O R. ainda não se conseguiu conformar com o facto de terem substituído as Freiras por uma praça chã. Sem alma e sem fulgor. O meu amigo L. já se conseguiu conformar com o facto mas continua a não entender as causas. Eu, por conseguinte, acho que o progresso é uma coisa imparável. Mas, confesso, sinto ainda muito a falta do Jardim das Freiras.

 

O R. olhou lá bem para o fundo, na direcção do tanque e do repuxo, e disse baixinho: “Ando a tirar um curso pela internet.” “Andas?”, perguntei eu a fingir interesse e surpresa. O L. abençoou retoricamente a confissão e aplaudiu a iniciativa. E disse ainda que a internet é uma coisa boa. Eu também concordei para logo semi-discordar, referindo que também ela tem o seu lado mau, pois vicia e torna os seres humanos mais autistas. O R. olhou para mim com os seus olhinhos de recém-reformado e disse que não consegue estar sem ocupação. Que tem de se entreter com alguma coisa. Os seus cinquenta e seis anos transmitem-lhe ainda muita inquietação. E a nós intensa impressão. Podemos dizer que reformar-se com esta idade é uma espécie de prémio da lotaria. Nós que só vamos conseguir, quando muito, reformar-nos aos sessenta e cinco, roemo-nos de inveja. Mas sorrimos para disfarçar.

 

O R. olhou para mim e disse que anda a estudar as várias espécies de águas engarrafadas. Ele que é um excelente apreciador de vinhos. Eu olhei para ele e depois olhei para o L., seguidamente olhei para a praça lá ao fundo e para o tanque e para o repuxo. E olhei novamente para o R. Ele olhou para o L. e novamente para mim e depois para o repuxo e seguidamente para o tanque de água da praça. E disse olhando para a fachada da Biblioteca Municipal: “Eu aprecio muito a água do Luso. Mas agora apenas a compro em garrafas de vidro.” E olhou para a porta do café Sport onde acabava de entrar um ex-autarca do PS. Eu olhei para o quiosque onde naquele momento um ex-autarca do PSD comprava o DN. E perguntei: “E porquê?” E o L.: “E porquê o quê?” E o R.: “Deves prestar atenção à conversa se queres conversar.”Eu concordei com a cabeça. O L. concordou com a cabeça. Então o R. explicou: “A água tem tendência a oxidar nas garrafas de plástico.”Eu concordei e dei uma achega: “A água mineral quer-se fresca, sem mau gosto.” E olhei novamente lá para fora, na direcção da esquina do Lopes. O L. olhou para o R. e o R. olhou para mim que nesse mesmo instante tentava focar a imagem de uma senhora que me pareceu uma antiga colega de Liceu. O L. olhando na direcção dos Correios desabafou: “Eu não percebo realmente a diferença entre a água de nascente e a água natural. Se é que existe alguma diferença.” Eu olhando para o repuxo, depois para o L. e ainda novamente para a esquina do Lopes e outra vez para o tanque lá ao fundo disse: “Alguma diferença deve haver. Não é verdade R.?” E o meu amigo R. olhando para um menino que naquele momento andava de bicicleta no meio da praça, acompanhado pelo pai, e olhando de novo para o tanque e para o repuxo explicou: “A água natural é qualquer água de origem subterrânea. Ou seja, cujo conteúdo mineral não foi alterado, embora a água possa ter sido desinfectada ou filtrada.” “Muito interessante” diz desinteressadamente o L. E adianta distraído, olhando para as pernas bem torneadas de uma senhora de meia-idade que beberrica um café enquanto come uma nata: “Sabeis que o Pedro Passos Coelho entrou no PSD através de um campeonato de cartas organizado pelos laranjinhas no Verão?” “Ai sim?”, digo eu olhando para o quiosque onde a senhora se entretém a olhar para a praça na direcção dos Correios. “Sim”, diz o L. tentado puxar a conversa para a política enquanto olha para a esquina do Lopes. Eu olho para o repuxo e depois para o tanque e ainda mais numa vez para a fachada da Biblioteca Municipal e outra vez para o R., enquanto ele olha para o L. e depois novamente para mim e diz: “Na água de nascente os minerais podem ser acrescentados ou retirados e, geralmente, não é tratada. A maioria da água vendida em Portugal é de nascente. A diferença entre a água destilada e a água purificada é…”, hesita um pouco que é o suficiente para o L. olhar para mim e puxar a conversa para a política: “A crise vai matar o Sócrates. Os ratos do PS já começaram a abandonar o barco, pois…” hesita um momento enquanto olha para a esquina do Lopes e de seguida para as pernas da senhora de meia-idade. Eu aproveito para dizer alguma coisa de cultural, enquanto olho para o R., depois para o L., novamente para o repuxo e posteriormente para o tanque e novamente para o quiosque: “O Thomas Pynchon acaba de…” e hesito um momento porque vejo novamente a minha provável colega de Liceu a atravessar a praça em direcção à Lapa, facto logo aproveitado para o L. tornar a puxar a conversa para o seu lado: “E esse em que equipa joga?” Nesse momento o R. olhando com ar de caso para mim e depois para o repuxo, novamente para mim e novamente para o tanque, diz: “Na água destilada ou purificada a maior parte dos minerais foi retirada. A água foi fervida e o vapor condensado. É água pura.” O L. olha na minha direcção, depois na direcção das pernas da senhora de meia-idade, ainda depois na direcção do quiosque onde agora um aluno do Liceu compra a Blitz, e diz: “Tenho pena da juventude porque não tem grande futuro. Portugal é um país de…” “A água destilada tem um gosto insípido…”, diz o R. olhando pata mim. “Como o PSD…” diz o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade… “E geralmente não é para beber.” Conclui o R. olhando na direcção da esquina do Lopes. Então o L. olhando para a praça e seguidamente para as pernas da senhora de meia-idade, adianta. “O Porto vai ganhar as próximas eleições legislativas….” Eu, olhando para o L., mas não olhando para as pernas da senhora de meia-idade corrijo: “Queres dizer o PSD, não é verdade?” Ele deixando de olhar para as pernas da senhora de meia-idade corrige: “Sim, eu queria dizer o PSD…” “E a água mineral?”, pergunto eu na direcção do R. e depois olhando para a esquina do Lopes onde ninguém vai a passar. E ele olhando para o tanque e depois para o repuxo: “A água mineral não contém substâncias químicas, nem sais, nem cafeína…” “E o PS?”, pergunta o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade que olha para o meu amigo R. e ele novamente para mim. “A água gasosa tem picos por causa do dióxido de carbono…”, depois hesita e eu prontifico-me a continuar: “Acaba de sair um novo livro de Saul Bellow…”, mas o L. não me deixa acabar e, olhando para o sítio onde a senhora de meia-idade tinha exibido as pernas, diz: “O Sousa Tavares já escreveu outro livro?” O R., olhando para o quiosque onde uma senhora de idade compra uma revista de croché, explica: “Quem gosta de água gasosa deve comprar sempre a que é naturalmente gasosa, porque só essa é que possui o dióxido de carbono que está na origem. É essa a grande diferença entre a das Pedras e a de Carvalhelhos.” Eu olho de novo para o R. e de seguida para o menino que continua a andar de bicicleta no meio da praça debaixo do olhar atento do pai  e pergunto: “Qual é a água que se deve beber depois de fazer exercício?” O L. olhando para mim como se não me visse diz: “O PS vai ter de mudar de treinador, senão não se safa.” Eu olhando para o tanque e depois para o repuxo corrijo: “Queres tu dizer, o Benfica…” E, ele, olhando para a senhora de meia-idade que agora sobe a Rua de Santo António diz: “Umas boas pernas são meio caminho andado para…” “Ganhar as eleições o P…”, tento dizer eu mas sou logo interrompendo pelo R. que olhando para a fachada da Biblioteca Municipal como quem olha para o infinito, diz: “Mais do que a marca, o que deves procurar é que ela esteja bem fria.” “O quê?”, pergunta o L. olhando para as pernas bem esculpidas de uma jovem que se sentou numa mesa mesmo à nossa frente. “Porque é absorvida mais rapidamente do que se estiver à temperatura ambiente”, responde o R. olhando para o L. que olha para as pernas da jovem da saia curta. “Mas não achas que a água é o melhor para repor os fluidos, já que entra na corrente sanguínea mais rapidamente do que qualquer outro líquido?”, pergunto eu olhando para o R. que olha para o L. que continua a olhar para as pernas da jovem de saia curta e perna longa.  “Sim, o Cavaco Silva vai ganhar o campeonato…” diz inconclusivamente o L. olhando para o busto da jovem que abre e fechas as pernas enquanto sopra na meia de leite que se prepara para beber. Entretanto toca o meu telemóvel avisando-me que está na hora de ir fazer os meus quinze quilómetros de bicicleta sem sair do lugar. Saio dali olhando para o espelho que me transmite uma imagem já um pouco gasta. O R. olha para o L. e ele olha para a jovem que olha embevecida para o ecrã do seu computador. O namorado da jovem pousa suavemente a sua mão na coxa da namorada enquanto bebe uma Água da Pedras fresca com limão e olha distraidamente para o L. que olha de novo para o repuxo e para o tanque, enquanto reza baixinho: “Ai que saudades tenho das antigas Freiras e do meu tempo de estudante.”

 

 

PS – Se vai comprar uma toillete para o Ano Novo sugerimos-lhe uma camisa Mirto, que já as fazem desde 1956, pois eles seleccionam as melhores telas e dão mais de oitenta passos para confeccionar uma grande camisa. A gravata deve ser da Dustin. Como está frio aconselhamos também um gorro de bombazina Failsworth, um cachecol de lã Merino e Lambswool da Johnston’s, e um pack de 3 garrfas de whiskys Talisker. Para dar um toque ainda mais british, sugerimos camisolas de lã Lambswool Alain Paine e uns sapatos Berwick, Emidio Tucci ou George’s. Sugerimos ainda um casaco de pele Emidio Tucci. E, já agora, deve optar por uma eau de toilette 100ml e emulsion après-rasage da Terre D’ermès.

 

Se vai oferecer prendas, seja original e decida-se pelo papel higiénico Renova (The black toilet paper company) que é um papel às cores (nós sugerimos o vermelho para dar com a quadra). É muito macio, elegante, alegre e pode ser utilizado em milhentas coisas. Pode também decidir-se pelo livro de José Saramago Nas Suas Palavras, pelo berbequim Bosh, que é um óptimo saca-rolhas, ou então pela Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.

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