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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

21
Jan11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

47 - Bem avisou o agente da autoridade: “Ó senhor Martins, não me faça uma desfeita dessas. Os Pereiras foram sempre uns ranhosos. Uns cheios de fome. Agora com o contrabando lá vão comendo carne do talho de vez em quando. Mas é sol de pouca dura. São uns desgraçados. As mulheres são para aí uma piolhosas. Nada que se compare às lá de casa.”

Mas o guarda Martins nada de lhe ligar. Quando largava a presa não lhe tornava a deitar o dente. Por isso respondeu com maus modos: “Sai-me da frente, filho de uma giesta seca. Ou me largas ou nunca mais passas um saco de café que seja. Tu sabes como eu sou, abocanho e largo. Sou um caçador de boca fina.”

Mas ele voltava ao mesmo: “Ó guarda Martins, nós sempre o tratámos bem, servimos-lhe sempre o melhor pedaço de presunto, o salpicão mais refinado, a melhor galinha, o coelho do monte mais vistoso. A melhor franga…”

“Deslarga-me cabrão. Quero lá saber da tua franga. Já está muito usada. Eu gosto delas virgueiras. A tua mulher tampouco me importa. É um pedaço de toucinho amarelado com sabor a ranço. Comer carne do mesmo animal causa-me fastio. Deixo para ti os restos da porca gorda e da franga desarranjada,” replicava o guarda-fiscal enquanto tocava o cavalo para a frente.

Mas o contrabandista não se dava por vencido. Os pobres possuem essa coragem imensa de nunca esgotarem a sua capacidade de súplica. E tornou: “Ó Martins, não me troque por esse miserável do Pereira. Ainda lhe põe remédio dos ratos na comida. Até comprei uma banheira de cobre para a Rosita dar banho em água de rosas. Comprei-lhe um vestido novo e umas cuecas modernas no Gomerzindo de Xinzo.”

“Umas cuecas novas?”, admirou-se o guarda. “E para que as quer? Sempre andou com as partes ao léu.”

“É para lhe agradar”, respondeu o contrabandista. “A pombinha chama por si muitas vezes. Diz que gosta dos rebuçados que lhe dá.”

“Desses rebuçados já tu lhe deste antes de mim, meu debochado. Eu sempre gostei de as adestrar. Mas a tua Rosita já estava treinada. Por isso perdi o interesse. Podes tu voltar a dar de mamar à miúda, meu canalha. Deslarga-me filho-da-puta.”

“Está visto que não me conhece. Carne que eu não como dou-a aos cães”, proferiu cerrando os dentes o contrabandista. E pôs-se a correr pelo monte fora como um galgo. O guarda Martins tirou a pistola do coldre, fustigou o cavalo com o pinguelim e correu à desfilada disparando tiros de raiva. Mas aqueles ermos eram bem melhores de percorrer a pé que de ginete. E a cavalgadura do guarda-fiscal fora treinada para trotar com fidalguia e aprumo em campo raso. Por isso retraiu-se na hora da caçada.

Ao longe ecoou o grito de vingança do contrabandista: “Hei-de matar-te, meu filho de uma grandessíssima puta, nem que seja a última coisa que faço na vida. De mim ninguém se fica a rir.”

Os tempos foram passando. O agente da autoridade continuou na sua vida de contrabandista e pedófilo. O contrabandista perseverou na sua rotina de cabrão, cheira cus e chefe de família. Aliciou vários guardas-fiscais, outros tantos republicanos, um que outro agente da judiciária e dois pides, dos bons. Conseguiu ganhar mais algum dinheiro, distribuiu benesses, fez-se amigo do sargento e conseguiu mesmo comprar uma pistola de guerra como a que usava o guarda Martins. Mas a sua arma preferida passou a ser uma navalha de ponta e mola que afiava todos os dias. Foi também apalpando terreno, mas com muita cautela, pois sabia que o guarda Martins tinha bons e leais amigos e espiões competentes distribuídos um pouco por todo o lado.

Primeiro foi falando mal do homem que o tinha abandonado e desprezado, dizendo que ele era um debochado, um pedófilo e um traidor. Todos os que o ouviam lhe respondiam da mesma maneira: “Olha que tu!” E ele: “Posso ser aquilo que sou, mas de mim ninguém se fica a rir.” Depois começou a persegui-lo com toda a experiência de homem do contrabando. Estudava-lhe as rotinas, anotava mentalmente as horas dos passeios e sabia de cor os dias em que invariavelmente o guarda Martins ia a casa da família Pereira locupletar-se com o gado da capoeira.

Como já se disse, o guarda Martins não fumava, não bebia vinho nem cerveja, mas libava, quando saciado de sexo, um whisky velho de marca a que juntava um charuto cubano. Escusado será dizer que nesses dias, o seu sexto sentido se desvanecia e muitas das vezes era o tino do cavalo que o conduzia a casa sem se enganar no caminho.

Era noite estrelada e fria quando o cavalo e o cavaleiro, bufando ambos das ventas, viram aparecer ao longe um vulto embuçado numa capa de burel. O cavalo relinchou. O guarda Martins berrou: “Quem vem lá que faça alto senão é um homem morto.” Mas o vulto não obedeceu. O guarda Martins sacou então da pistola e, dando uma chupadela no charuto, tornou a ameaçar: “Quem vem lá que faça alto senão é um homem morto.” E mais uma vez o vulto nada de obedecer. Quando chegou mais perto, o vulto desembuçou-se e deu lugar à fina figura da Rosita em cima de umas andas que gritou muito alto o nome da guarda. Então o cavalo empinou-se e fez com que o surpreendido guarda caísse ao chão. Quando se sentiu sem carga, a montada do agente da autoridade Martins pôs-se em fuga deixando o seu estimado dono estatelado no chão. Por detrás da Rosita surgiu o seu pai que se aproximou do surpreendido guarda e lhe deu com o cipó de torgo na cabeça. Desfalecido, mas não inconsciente, viu como o contrabandista lhe apertava as mãos e os pés como quem se prepara para matar um animal.

O guarda ouviu o contrabandista dizer para a filha: “Chega-me aí a navalha.” “Para que queres tu uma navalha, filho de um reco?, balbuciou o guarda Martins. “Para te capar”, respondeu a Rosita. Então baixaram-lhe as calças, as cuecas e, com gesto certeiro, de um só golpe deceparam-lhe o pénis. “Este já está”, informou o pai. “Mete-lhe o rebuçado na boca, para que desfrute”, pediu a Rosita.

O contrabandista benzeu-se e assim fez.

 

19
Jan11

O Poema Infinito (31): derradeira infância iluminada

João Madureira

 

Vens do espaço infinito dissipando o vento e incendiando com versos e trovas o mundo das imagens rasgando o mar que há-de vir brandindo o amor que sobe voluptuosamente pelo corpo do desejo e nos teus dedos de mar e calma desvanecesse-se a solidão e o universo expande-se à velocidade dos barcos seduzidos pela textura do sal e dos peixes que pensam ter a sua origem divina nos promontórios onde os deuses se sentam para descobrirem os corais feitos de sol e saudade e de ilusões e de sinais pacificados onde os filamentos do teu rosto e do teu sexo queimam a luz do poema onde um pequeno e discreto messias fala da sua divindade humana segurando-se firmemente nas escarpas escorregadias da ciência onde a condição humana aprende a castigar o prazer e o medo e os beijos de noites suficientes onde por vezes se acendem os sorrisos curtos dos poetas e a incerteza desce no teu brilho solar e se nega a beijar o dia onde agora poisa a minha domesticada carícia onde o sacramentos dos dias e das estrelas dançam num ritual de liberdade obsessiva onde os santos escrevem os seus nomes nas margens cristalinas do rio do esquecimento e é aí que o equilíbrio e a ordem se apagam fundido o dia a descrença e a fé nova do nada quando observamos o esplendor da purificação do baptismo e da consumação da desordem e da irracionalidade da ordem onde a idade recomeça a desenhar mais uma linha de tempo e onde os gestos fazem a sua longa travessia de auto comiseração num longo ocaso de manhãs oníricas e com o fogo nas veias invento uma nova possibilidade de uma outra infância onde o meu coração de pássaro não pode ser ferido nem tocado nem suspendido nem acariciado em demasia nem infectado pela exaltação da vacuidade nem pelas lágrimas de deus nem pelos ais das mães nem pelas chagas impetuosas do saber nem pelo cântico negro do bem e do mal onde o conhecimento do inferno aviva a dor frágil do amor e da morte onde os lamentos silenciosos aguentam a busca do tempo e a poeira dourada e a chuva vencida e os corpos desiludidos e as mentes brilhantes e as carícias de fogo e as cinzas dos sonhos e os lábios que mordem quando mentem e talvez por isso um cristo redimido numa cruz de sofrimento ilumina a oração dos descrentes e eu rezo pensando na fúria dos teus olhos liquefeitos na ilusão feliz do céu no acto imperfeito da fecundação no húmus amargo das raízes da esperança na lassidão insidiosa da embriaguez na felicidade coalhada do amor na doçura sóbria da vida na dor da ausência da gulosa dor da ausência na invisível escolha do silêncio na porta falsa da fé na violência quantificada que precede o acto de amor e na aura do sonho de uma derradeira infância iluminada…

 

17
Jan11

A crise e os idiotas

João Madureira

 

Estávamos nós a debater a crise nacional e internacional com tanto entusiasmo como discutimos futebol quando o P. se saiu com esta: “Podem-se ter todos os direitos do mundo, mas quando se é pobre, esses direitos não querem dizer nada; e quando se vive em Portugal pensando que se vive na América, não se vai a parte alguma. O problema da nossa crise é a realidade. A nossa realidade. Até aqui vivemos na ficção dos empréstimos e dos direitos: mais um direito, mais um empréstimo; mais um empréstimo, mais um direito. Agora toca-nos viver a realidade da política. Acabaram-se os empréstimos e dizem os idiotas que ficaram os direitos. Direitos sem dinheiro não existem, são pura ficção.

 

O R. engasgou-se com o café, o N. assoou-se com toda a força e o C. disse uma asneira, depois outra e ainda mais outra e lembrou que não nos devemos limitar a observar o mundo mas antes a modificá-lo. Em uníssono mandamo-lo à merda. Até o cego da lotaria se riu a bom rir e o seu cão ladrou algo de enigmático. Marx é hoje um tremendo equívoco.

 

O P., embalado pela sua recente inspiração política, tornou a falar: “Tal como Herodes, o primeiro-ministro é uma raposa – demasiado esperto para nós, demasiado esperto para a imprensa, demasiado esperto para o seu próprio bem e demasiado esperto para Portugal.” Desta vez quem se engasgou foi o cão e o cego foi vender a lotaria para outro lado. Nós limitámo-nos a concordar sem sabermos lá muito bem porquê.

 

“Deixa lá os eufemismos e trata de ser prático”, pediu o C.  “O engenheiro Sócrates nunca foi o que se considera ser um primeiro-ministro socialista”, tentou concluir. Ao que o R. objectou: “Os socialistas queriam algo que era tão simples: socialismo… Mas Sócrates é demasiado justo para isso.” Desta vez quem se engasgou foi o empregado do café que tinha acabado de servir meio whisky a cada um. C., com um olho na bebida e outro no R., disse tentando ser alternativo: “Reconheço que os socialistas foram cínicos em relação a Sócrates, apesar de não conseguirem deixar de o admirar.” O C., pousando o whisky, asseverou descaradamente: “Sócrates esteve sempre interessado em… Sócrates.” Desta vez ninguém riu, ou sorriu sequer. O R. rematou como é seu timbre: “A verdade não aceita alternativa.”

 

Então o C., virando-se para o R. com toda a surpresa estampada no rosto, comentou: “És o que se pode chamar de um homem sábio. Sábio até de mais.” Mas o R., de novo inspirado, retorquiu inflamado como um gelado que me serviram no restaurante chinês: “Estou farto que me digam que sou bem informado e que sei aquilo que digo. Ninguém diz isso acerca de Marcelo Rebelo de Sousa. Nem sequer gosto que digam que sou inteligente. Isso é rebaixante. É manifestamente óbvio que sou inteligente. Porque não dizeis simplesmente que sei do que estou a falar. O N. considera que ainda me falta muito para ser tão bom como o Marcelo Sousa. Eu respondo: O que me falta é um pai antigo ministro do antigo regime, uma cátedra numa universidade, falar de tudo sem verdadeiramente perceber de nada e aparecer na televisão. Eu não tenho vergonha de ser transmontano, nem peço desculpa por falar a língua de Camões.”

 

O silêncio impôs-se como um anátema. Todos agitámos o gelo no copo e nele molhámos o bico como passarinhos resfriados.

 

PS – Receitas para ajudar a combater a crise.

Camarão fu yung: Ingredientes (para 4 pessoas de apetite moderado ou para 6 pessoas que sejam muitos boas a controlar o apetite e as boas maneiras) – 1 colher de sopa de azeite; 112,5 gramas de camarão cru, descascado e sem tripa, 4 ovos suavemente batidos; 1 colher pequena de sal e 1 pitada de pimenta branca; 2 colheres de cebolinhos chineses, finamente picados.

Confecção – Num wok ou frigideira pré-aquecidos, aqueça o azeite e salteie o camarão até começar a ficar da cor partidária do senhor primeiro-ministro. De seguida tempere os ovos batidos com o sal e a pimenta e deite-os por cima dos camarões. Salteie durante 1 minuto e depois adicione os cebolinhos. Deixe cozer mais 4 minutos, mexendo sempre até os ovos estarem completamente cozidos, mas ainda moles, e sirva de imediato.

14
Jan11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

46 – Ninguém queria acreditar, mas o guarda-fiscal Martins jazia morto e arrefecia no carreiro que ligava Vilar de Perdizes à fronteira. Ali estava ele a fitar o céu com os seus olhos agora cegos e com o pénis ensanguentado, e definitivamente morto, criteriosamente enfiado na boca.

O Martins era um homem severo, rancoroso e interesseiro. Aos olhos dos pobres era visto como um verdadeiro filho-da-puta, aos olhos dos abastados era encarado como homem cumpridor, bom pai de família, prestimoso e temente a Deus. Era um vigarista, mais candongueiro que guarda, apreciador de amantes e de putas, marido infiel e tirano, mas celibatário no casamento, pedófilo prudente, pai lobo, filho ingrato, amigo desleal, tocador de concertina e gaita-de-beiços e, ainda por cima, fogueteiro. Ou melhor, era sócio misterioso numa empresa pirotécnica da zona. Era ainda feio como um sarronco. Batia nos filhos, maltratava os animais, espancava os contrabandistas e violava, quando podia, meninas muito jovens, sobretudo crianças. Sentia-se bem com o mal dos outros e apreciava ver sofrer. Mas era um guarda-fiscal competente, pois conhecia todas as redes de contrabando, os trilhos utilizados pelos contrabandistas e as suas artimanhas. A raia seca era toda sua. Ganhava a meias com o contrabando por si autorizado. E também a meias ganhava com o outro. Se apanhava algum contrabandista carregado de café, azeite, bacalhau, polvo, chocolates, tabaco, perfumes ou bananas, dispunha os bens capturados da seguinte maneira: metade para si e a outra metade dividida em partes incertas pelo Estado e pelo colega de patrulha. Era pegar ou largar. No fim das partilhas, nunca se esquecia de cobrar a taxa destinada ao sargento do posto, trinta por cento do serviço. Não fumava, não bebia vinho ou cerveja e gostava de passear montado no seu alazão, adornado de pistola e pinguelim. Cantava muito bem o fado, talento muito apreciado pelas forças vivas da Vila e pelas senhoras mal consorciadas. Era ainda caçador afamado.

O Martins gostava de acossar as mulheres dos contrabandistas e as suas filhas mais novas. Fazia-o com alguma discrição, mas não era homem para dissimular muito. Os homens do contrabando conheciam-lhe o feitio, por isso faziam-se desentendidos. Era o contrabando ou a honra. Mas a honra, nos lugarejos da fronteira, não dava de comer a ninguém. Ou quase. No entanto, diga-se em abono da verdade, não era as mulheres maduras o que mais apreciava. Cobiçava, principalmente, as fêmeas mais novas. Meninas púberes, ou crianças mesmo.

Os pedófilos mais frequentes são quase sempre gente da família mais chegada, quando não os próprios progenitores. Por isso o guarda Martins, pressentindo na família alguma atitude mais temerária por parte dos pais, ou manos, ou tios, começava a patrulhar a casa com o seu instinto de predador sexual e quase sempre alcançava os seus desígnios. Com a mãe amantizada, com o pai contrabandista, os irmãos oficiando o mesmo e os tios foçando em idêntico mester, a criança não tinha escapatória possível. Passava a ser o arranjo de todos. Mas também era sabido que o Martins enquanto andasse a cear a pardalita não autorizava que mais ninguém lá metesse o dente. E fazia-se respeitar. Era pegar ou largar. O Martins não era besta que se perdesse de amores por ninguém. Detestava o uso. E não era animal de tradições.

Podia ser amante da mãe, copular a filha mais velha e estuprar a menina mais nova da família, nada disso lhe tirava o sossego. Era um homem que pensava que o prejuízo próprio não durava. Quem se acostuma a subjugar destrói a grandeza moral da vida. E o gozo é um vórtice escravizador.

Mas nem as certezas são imutáveis, nem os prepotentes estão isentos do livre arbítrio. Pode-se comprar a honra de um homem, de dez, de cem, mas não se pode conseguir a honra de todos ao mesmo tempo. Além disso, o ser humano é imprevisível. Não os filhos-da-puta, já que esses estão amaldiçoados à desventura do insofrimento.

A princípio, o guarda Martins distinguia-se por ser um predador cauteloso, um raposo finório. Patrulhava o galinheiro com todos os sinais exteriores da estima, do trabalho e do seu enaltecido profissionalismo. Primeiro prendia o pai, de seguida comedia-se em ficar com a carga. Numa terceira fase aliciava o contrabandista para fazer parte da sua rede. A conquista da mulher era o passo subsequente, pois sabia que para chegar ao objecto predilecto tinha de passar pelas fêmeas mais velhas. Logo que elas ficavam amansadas, lançava-se na submissão das pardalitas.

Por vezes isso acontecia numa mesma aldeia entre famílias rivais. Os homens a tudo se acomodam. Mas a inveja é sempre maior que a própria condição humana. E dessa vez o contrabandista abandonado encheu-se de fundamentos e prometeu vingar-se em reunião familiar, pois podia ser corno, a sua mulher e as suas filhas mais novas umas putas do caralho, os seu filhos uns cobardolas, e a sua Rosita uma menina desgraçada para a existência logo desde criança, mas a honra é um pacto triste. Que Deus o amnistiasse, mas ser trocado pela família do Pereira, que sempre foram uns borra-botas, isso não podia aceitar. Vá-se a honra mas fique a tradição. E a sua família sempre foi mais importante do que a dele. Os Pereiras sempre foram cabaneiros, uns infelizes que nunca tiveram onde cair mortos.

12
Jan11

O Poema Infinito (30): o logro

João Madureira

 

Espero um tempo novo feito de palavras virgens recitadas por jubilosos jovens bebedores de vinho puro. Das suas mãos hão-de nascer os sinais ardentes da esperança e os seus dedos irão moldar um mundo novo. Já aí vem o esplendor da revolução. Os demónios da opressão vergam-se perante a luz violenta da liberdade. As estrelas da inocência brilham nos olhos dos idealistas. Devagar o espírito dos livros transforma o sangue espesso dos mártires em seiva que alimenta os novos heróis redentores. Deus é uma estrela sonâmbula. Os campos de batalha cheiram a trevo. Os astros da madrugada derramam esperança. A vitória dos que triunfam é bela. O espírito dos guerreiros espelha a invenção do amor. Os chefes amam com lágrimas fortes os seus mais intrépidos combatentes. Os campos enchem-se de cânticos. Começa de novo o mundo a girar na sua rota perfeita. Os astros estão alinhados. As mulheres inventam de novo amores loucos e heróis infinitos. A terra arada brota em cereais nobres. As árvores de fruto alimentam os pássaros que sobrevoam os campos gloriosos da batalha. Viver torna a ser uma arte pura. Pintam-se quadros soberbos dos semideuses. O pensamento é livre. As primaveras são instintivas. O pão e a alegria são o dinheiro do reino. O rei tem força. As manhãs nascem sublimes. A beleza vibra na boca das princesas. As mães embalam os seus filhos com palavras de ouro. Os poetas inspiram-se na vida simples dos virtuosos. As águas são puras como a alma dos mártires. O leite renasce nos úberes das fêmeas. O fogo provoca o contentamento dos jovens. Os sorrisos nascem da bondade. A verdade é a aurora do império. A esperança é integral. Tudo o que eu digo está vivo na frescura de um coração novo. Tudo o que eu escrevo é mentira.

 

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