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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Abr11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

61 – Sábado de manhã, quando o dia começava a resplandecer, quando os pássaros prolongavam os seus voos, quando as flores começavam a brincar com a luz do sol e com as cores do arco-íris, José lia, sentado num banco do jardim, “O Malhadinhas” e não parava de sorrir e de se maravilhar com a prosa do escritor beirão. Continuava afectado com a ausência da sua namorada, mas tentava diversificar os motivos de desorganização sentimental. Por isso nada melhor do que saborear a genial prosa de Aquilino Ribeiro. Então ela apareceu como um anjo vestido de mulher. E, ao contrário da primeira vez, vestia saia curta. E movimentava-se dengosamente em cima das suas pernas bonitas. Aproximou-se do José sem ele dar conta e sentou-se a seu lado. Ele assustou-se. Olhou para ela e pôs cara feia. Foi o instinto o que lhe desenhou o esgar. Mas rejubilou por dentro. Ela sorriu-lhe com doçura e esperou que se recompusesse. Ele olhou outra vez para ela e manteve-se sério. Custou-lhe representar o papel de duro, mas o orgulho a isso o obrigava. Tentou concentrar-se na leitura do livro. Ela permaneceu ao seu lado calada e serena. Isso quase o fez rebentar de raiva. “Queres que me vá embora?”, perguntou ela atrapalhada. Ele não respondeu. Não conseguia atinar com o que devia responder. Queria fazer-lhe sentir que a sua ausência sem notícias o tinha magoado profundamente. O tinha feito sofrer. “José, por favor, olha para mim.” Pôs-se-lhe um nó na garganta, mas continuou a fazer que lia o livro. “Se não me ligas, vou-me embora. Custou-me vir ter contigo. Chegaram uns zunzuns aos ouvidos da madre relatando-lhe que eu me encontrava com um seminarista. Deves calcular o chinfrim que isso provocou. Ainda bem que o meu pai não foi informado na altura senão rebentava uma guerra civil em minha casa. A madre, no entanto resolveu convocar a minha mãe para uma reunião. Ela de um lado e eu do outro a esgrimirmos argumentos sobre o amor. A madre limitava-se a ouvir e a fazer que rezava. A minha mãe não se cansava de dizer que isso não existe. Que o amor é uma palavra sem sentido prático que aparece nos livros. Que é uma coisa de tontos. E eu a tentar fazer-lhe ver que se não ama o meu pai não devia ter casado com ele. “Que remédio, minha filha”, respondeu-me a minha mãe. “O amor, por aqui, é engravidar, parir e calar. Nós somos umas barrigas de encher.” O José riu-se com a acutilância da última frase. Então pediu-lhe desculpa pelo seu comportamento e deu-lhe um beijo. Ela correspondeu e aninhou-se nos seus braços. Estiveram assim durante muito tempo. A ouvirem-se respirar e a sentirem os corações a bater num ritmo suavemente descompassado. “Gosto de ti, Graça”, pronunciou ele por fim. Ela beijou-o delicadamente nos lábios e disse que também o amava. Beijaram-se repetidamente. “Porque não vieste ter comigo no outro dia?”, perguntou o José colocando a medo um travo ligeiramente amargo nas palavras. “Esperei por ti como nunca tinha esperado por ninguém na vida. E doeu-me.” “Eu sei, li a tua carta. Mas não podia fazer nada. A minha condição feminina impõe-me provações que, mesmo sendo naturais, me infligem estados físicos delicados. Todos os meses passo três dias que me põem de cama com dores. ” “Delicada é a tua forma de falar.” “Honesta e forte é a tua maneira de escrever.” Tornaram a beijar-se como dois amantes e então ele leu-lhe várias passagens de “O Malhadinhas”. E riram-se como dois tontos.

27
Abr11

O Poema Infinito (45): o pecado original

João Madureira

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal é impotência de Portugal? As paredes do mar assaltam os sonhos. Mães de cristal reflectem a luz antiga. É esta uma memória amarga e translúcida. O bálsamo do silêncio persegue a boca frígida da vida, por isso as coisas vivas perfumam o céu de azul. É este o modo antigo do poema. As frases quase obscenas levantam os corpos. O sono afasta-se escrevendo palavras maduras de sexo. As tuas mãos são agora berços. Anoitece. Os meus braços são árvores que falam desdobrando planícies angustiadas. As notícias continuam a mastigar a fantasia. Careço de sossego. Túneis de néon atravessam a ansiedade. Pedem-nos certezas mas apenas vivemos ansiosamente. Colho o teu rosto no meio do sol. Voam olhares pelos jardins da ternura. Alguém semeia camponeses na memória dos citadinos. Deus resplandece nos nossos corpos engelhados de tempo. Crianças colhem corações tímidos. Borboletas cotejam a luz da lua. Van Gogh desce dos astros procurando o cheiro da erva. Mulheres cantam intervalos de chuva. Homens teocráticos passeiam a desgraça alheia. Alguém rega a dor com olhos de água. Bocas deslocam sonhos. Padres baptizam hermetismos. Anjos dividem a morte. Deus joga aos dados com Einstein. O entendimento morre de morte natural. Já não há metafísica suficiente para entender os néscios. Fogos-fátuos rimam com os corpos tristes. A Diabo empresta de novo o pecado a Deus. As frases divinas confundem-se na Babel globalizada. Cristo volta a ser crucificado em nome da paixão humana. Ninguém o salva desta eterna repetição. Os filhos dos homens choram lágrimas salgadas de impotência. O sangue do sacrificado desenha geometrias bárbaras. Barrabás volta a ser libertado em vez do ungido. O bom povo, aos gritos, assim o exige. Os corpos dos profetas são de novo navios de sangue, suor e lágrimas. 

25
Abr11

Iluminações

João Madureira

 

Parece que o ainda líder da recém demitida oposição não revela um talento especial para a política. Não acerta bem nos tempos. Deixa-se levar pelo ressentimento e pela excitação. Como a sua principal preocupação é chegar ao poder a todo o custo, é a isso que se dedica com obstinação. Apesar de legítimo é pouco ético. Vê-se ao longe que o seu talento não é para vir a desempenhar as nobres funções de primeiro-ministro mas sim a de ser gestor de uma empresa privada, com alguns capitais públicos, onde o inglês seja a linguagem de trabalho, pois apenas nesse idioma é que alcança exprimir as suas verdadeiras intenções. 

 

Nota-se que a grande maioria da actual classe política está tão à rasca como a dita geração. Se têm jeito para consertar carros, consideram que devem cantar ópera; se sabem cantar, acham que devem ser engenheiros informáticos; se têm queda para a engenharia querem ser directores escolares; e se revelam apetência pelas relações internacionais querem ser logo membros do Governo. É um despeito. É a necessidade de provar que por terem pertencido às juventudes partidárias são auto-suficientes para exercerem todos os cargos e mais alguns. E quase sempre com os resultados que estão aí à vista. 

 

Não pensem que estou a tentar dar a entender aquilo que estou a dar a entender. Essa não é a minha maneira de ser. Mas sempre vos digo que nos faz falta um Catão (considerado o primeiro escritor em prosa latina de importância; foi o primeiro autor de uma história completa da Itália em  latim. Alguns historiadores argumentam que, de não ser pelo impacto que causaram os seus escritos, o grego teria substituído o latim como língua literária em Roma) ou um Lincoln, que andou mais de seis quilómetros no meio de uma ventania gelada para devolver três cêntimos a um freguês. Está visto que já não existem homens desta têmpera. E mesmo o aio de Afonso Henriques apenas empenhou a palavra, não devolveu o que não era dele. Uma coisa é a palavra, outra bem distinta é o dinheiro.

 

É bem provável que estejamos a viver a época mínima da política. Sinto que nos estão a tratar como meras crianças cuja única parcela de grandeza é igual à que um catraio retira dos reis de contos de fadas. Daí a necessidade de estarem constantemente a invocar os homens que já se foram, pois apenas eles conseguiriam salvar o que dizem já estar irremediavelmente perdido.

 

Mas rejubilemos, pois, como muito bem explica o meu amigo R., não devemos ficar zangados porque alguém nos diz a verdade. Isto se tivermos a sorte de encontrar quem nos a diga.

 

Isto está tão mal que qualquer dia a Europa faz-nos o que os esquimós fazem com os familiares velhos: deixam-nos numa casota de gelo com comida para dois dias. E o pior não é o abandono, mas a esmola. Porque uma coisa é comer a própria comida, outra bem diferente é comer um prato esmolado, mesmo que o valor em calorias seja o mesmo.

 

Sente-se no ar a tragédia. Acho que os portugueses nunca antes se observaram uns aos outros com tanta hostilidade. Permitam-me a sinceridade, considero que se está a fazer tanto ruído à volta da nossa situação política, económica e social que não vai ser possível tomar uma decisão correcta. E a mentira hesita no ar. Não é por se dizer uma mentira dezenas de vezes que ela se transforma em verdade. Mas, convenhamos, é isso o que a maioria dos políticos faz. Acredita nas suas próprias mentiras repetidas até à exaustão. Depois passam a acreditar nessas suas palavras, a acreditar no poder da fala. Mas uma coisa é falar bem, outra, bem distinta, é dizer a verdade.

 

Eu continuo a desconfiar dos iluminados que nos apontam o caminho. Torço o nariz àqueles que se colocam à frente do resto da turbamulta para interceptarem o grande raio social. Suspeito dos que fazem queimadas no meio da sociedade portuguesa. É que os jorros de fogo podem provocar um incêndio que desbaste o país.

 

Sei que ainda não estou suficientemente velho para estar cansado da política. Mas cada vez mais me sinto confinado a escutar a minha própria consciência. É a isso que dou valor.

 

Em verdade vos digo que não sei se esta situação podia ter sido evitada. Todos sabemos que ela é irremediavelmente má. Sinto, no entanto, que quem se achar com forças para encontrar uma saída é um homem esperançoso ou, simplesmente, tolo. 

22
Abr11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

60 – Ele apareceu. Ela não. Nunca se sentiu tão triste. Foi para o seminário e escreveu-lhe uma carta que intitulou como Primeira Epistola de José à Sua Namorada. Rezava assim: Esperei-te mesmo antes de te esperar. Esperei toda a noite que amanhecesse. Esperei toda a manhã que chegasse a hora do almoço. Depois esperei pela hora da saída dos estudantes do Liceu. O tempo não passava como era habitual. E, decorridos os dez minutos que se demora a chegar ao jardim, desesperei. Esperei mais um pouco. Esperei outro. E outro ainda. E tu não apareceste. Apenas alguns pares de namorados sorridentes, de olhos brilhantes, a chilrear como pássaros ao sol, com as mãos saltitantes e com as bocas sequiosas, é que se passeavam na minha frente numa felicidade que me magoou até à alma. Pareciam querubins. Mas tu não chegavas. Tu, definitivamente, não chegaste. Desesperei mais um pouco e como, irremediavelmente, não apareceste, voltei para o seminário. Não consegui jantar. Os padres vieram ter comigo ao quarto e perguntaram-me se estava doente. Disse-lhes que não. O que era mentira. O que eu sentia era doentio. Só podia ser. Não está bem de saúde quem sua porque pensa numa mulher, ou quem chora porque não ouviu a sua voz, ou quem se desespera porque falhou um encontro. Não se encontra no seu perfeito juízo quem faz juras de amor a Cristo na cruz pensando exclusivamente na namorada. Não se encontra nada bem quem pensa vender a sua alma a Lúcifer em troca de conquistar a mulher cobiçada. Poucas vezes me senti tão mal. Nem depois da operação às amígdalas. Perguntaram-me os pinguins do seminário se tinha, por alguma razão especial, iniciado algum jejum espiritual. Disse-lhes que sim. E não menti. Se na noite anterior tinha adormecido como um santo, nesta dormi como um demónio agitado. Não sonhei contigo. Sonhei com a tua ausência. Eu, que ainda não tinha conseguido incorporar-te na minha consciência, comecei a sofrer a tua ausência. E isso é como estar doente antes de o estar. Eu, que ainda mal comecei a adorar o teu sorriso rápido e claro, a estimar o teu olhar doce e sincero, a amar o teu andar decidido e perplexo, o teu corpo esguio e bem esculpido, desabei em cima da minha credulidade. O amor não é um fogacho. Eu é que sou para aqui um parvo que se apaixona logo ao primeiro olhar. Uma rapariga como tu, para mim, é uma deusa. Mas eu para ti devo ser algo como um foguete numa festa de Verão. Sinto que não te toquei o coração. Eu sou para aqui um parvo a quem deves ter concedido alguma da tua amizade. Mas eu, para que saibas, não consigo ter amigos, quanto mais amigas. É estranho que nunca me tenha sentido tão só na vida. Eu que sou um solitário. Não consigo ler, não consigo comer, não consigo falar. Rezo. Mas não a Deus. Rezo para ti. Rezo porque tenho pena de mim próprio. Rezo como uma beata para que não me deixes. Tu que ainda mal chegaste à minha vida. Rezo para que o tempo passe rápido. Rezo para que apareças. Rezo para que sejas o meu milagre de Fátima. O amor entre dois seres humanos é uma coisa quase demoníaca. É uma febre de posse terrível. Penso nos teus olhos e quero-os só para mim. Quero-os fixos nos meus. Sem se poderem desviar para mais ninguém. Penso nos teus lábios e remordo-me de ciúme só de pensar que possam ter beijado algum outro rapaz.  Eles que nem tocaram nos meus. Penso nas tuas mãos e assemelho-as às da Virgem Maria que se encontra no altar da capela do seminário: alvas, frágeis, doces. Sofro porque não te tenho. Penso no teu corpo e ardo de desejo. E sofro. Sofro porque penso na possibilidade de que outro, que não eu, o possa possuir. Sofro porque não te tenho. Sofro porque te espero. Sofro porque te desejo. Sofro porque não te vejo. Sofro porque mal te conheço. Sofro porque sofrer tanto depois de um encontro com uma rapariga que mal se conhece é tão estúpido que dá pena. Sei que outros da minha condição, por amarem tanto como eu, flagelaram a sua carne com severidade. Eu não consigo. Sou capaz de morrer à fome por um ideal. Mas bater em mim próprio não consigo. Essa talvez seja uma outra forma de prazer. Perverso por certo, mas prazer. No fundo, o prazer é uma outra forma de dor. Por isso é que gememos quando atingimos o orgasmo. E quanto mais prazer temos mais gememos. É uma dor ao contrário. Antes de me sentar para escrever esta carta joguei xadrez com um colega que se tem revelado um quase amigo. E digo quase porque eu não consigo ser verdadeiramente amigo de ninguém. Bebi quase uma garrafa de vinho do porto. Perdi a partida de xadrez mas ganhei coragem para te escrever o que acabei de escrever. Peço desculpa pela sinceridade. Mas o meu compromisso com a verdade é para mim sagrado. Amo-te. Não há outra maneira de dizer aquilo que sinto. Mas sou pessoa para te dizer que a palavra não encerra em si tudo aquilo que experimento. Além de me parecer um pouco estúpida. 

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