Hoje acordei nostálgico. Sou daqueles que gosta mais da lembrança do que do aroma da flor presente. Sou daqueles que sente saudade de qualquer passado. Por isso tenho uma alma romântica. Apesar do meu cinismo.
Recordo-me perfeitamente do A., um camarada meio aristocrata meio revolucionário, que, depois do 25 de Abril, apesar de se dizer filho adoptivo da classe operária, utilizava, com todo o requinte, nas campanhas de dinamização cultural por essas aldeias fora, perante a incredulidade do povo analfabeto e dos militares do MFA, os seus cremes de barbear e os seus cigarros de luxo.
Mesmo no meio das serranias conseguia encomendar refeições abastadas, comendo-as com todos os requintes. E era com certa tristeza, e inveja, que ao almoço, ou ao jantar, partilhávamos tão sublime momento. Nunca vi, homem ou mulher, revolucionário, reaccionário ou indiferente, alimentar-se com tanta delicadeza.
A. podia perfeitamente, à semelhança do rei Luís XIV, o Rei-Sol, convidar todos os seus amigos para o espectáculo que era vê-lo nutrir-se. E, para cúmulo, comia tão bem como pensava. Nunca mais conheci pessoa tão inteligente como o A. Isto apesar de ter conhecido durante a minha vida quatro ou cinco pessoas verdadeiramente inteligentes.
A., para espanto de quase todos, viveu durante algumas semanas no meio dos montes, das pessoas e dos animais. Dormia no chão. Deitando-se com o Sol e levantando-se com o Sol. Ele que tão habituado estava às noitadas, lendo até ao amanhecer e dormindo até do meio-dia, que era a altura em que se levantava para almoçar, fazendo vida de menino rico, que era aquilo que verdadeiramente era.
O J. era o oposto do A., falava muito e atrapalhava-se com frequência. Por isso os seus amigos tinham criado uma frase que repetiam amiúde: «J., faz uma pausa.», era essa a forma mais delicada que todos utilizavam para interromper a sua verborreia. E a comer metia impressão. Este era o chefe de brigada. Apesar de chefe não tinha charme nenhum. E um dirigente revolucionário sem charme é como um capitalista sem capital.
O A. costumava dizer muitas vezes: «O segredo da felicidade está em aceitar o que a vida nos dá.» Ao que todos respondíamos: «Isso é muito reaccionário.» Ele fechava-se em copas e punha-se a fumar um dos seus cheirosos cigarros e a ler um livro, que, apesar de afirmar a pés juntos ser da autoria de um verdadeiro marxista-leninista, nunca era de nem de Marx nem de Lenine, ou de qualquer dos muitos sucedâneos.
A. era também um excelente contador de histórias. E nunca contava daquelas que têm um fim majestoso porque, segundo dizia, nas grandes histórias o fim nunca acontece onde nós esperamos.
O A., nas suas noites de inspiração, olhava para o céu estrelado e dizia coisas tão inteligentes como esta: «O homem é fundamentalmente um contador de histórias. Procurar um desígnio, buscar uma causa, lutar por um ideal é, quase sempre, a busca de um enredo e de um modelo para o progresso da história da humanidade.» Para rematar citava Fernando Pessoa por entre o chocalhar dos badalos dos animais nas cortes ou um que outro ladrar de um cão esfomeado: «A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.»
Apesar de, naquela altura, namorar uma rapariga encantadora, mas pobre, casou-se com uma matrona rica, irritante e rabugenta, capaz de transformar a vida a dois num inferno devido ao seu espírito quezilento. Mas, como todos sabemos, um poeta satisfeito é um poeta medíocre. Um poeta feliz é insuportável. Na idade madura pôs de lado os poemas em que se queixava das suas desgraças matrimoniais para compor uns verdadeiramente sublimes onde insultava a sua mulher.
Nos seus tempos de revolucionário, nos intervalos das campanhas de alfabetização, disfarçava-se de amante e gostava de se estender no sofá enquanto a sua namorada de ocasião se despia à luz das velas e untava os braços, à semelhança das mulheres árabes, com uma mistura de azeite e verbena. Nesse momento, ela olhava para ele tentando perceber aonde poderia chegar a excentricidade. E ele, fazendo-se de sonso, baixava os olhos e invariavelmente dizia: «Ainda bem que não és modesta quando se trata de vir para a cama. És a minha mulher. Preferia viver como teu escravo para todo o sempre a passar um único momento sem ti». Repetiu isto a uma vintena de miúdas. Todas de esquerda. E a estratégia resultou sempre.
Dali a dois dias já ele estava novamente na serra a tentar fazer a revolução, a fumar os seus cigarros de importação e a ingurgitar, com todo o requinte, as suas frugais refeições que a todos deixava água na boca.
Os processos revolucionários têm destas preciosidades. Daí a expressão popular: deitar pérolas, com vossa licença, a porcos.