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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Ago11

O Poema Infinito (63): está tudo iluminado

João Madureira

 

Todo o espaço avança em direcção ao nosso olhar e a extensa montanha fica invisível. Embora claro, o tempo espraia-se mais um minuto na lúcida transparência do fulgor. Vamos vencendo o ímpeto das distâncias para ver onde acaba o amor. A fecundidade dos tempos felizes ajuda a aproximar de nós o brilho silencioso do desejo. Esse é o nosso sacramento que paira ainda sobre a lucidez do tempo que nos sobra. Tudo está agora iluminado: a perfeição da estrutura, o rigor da inteligência, o brilho do vagar, o ritmo da condição humana, o espírito que se adensa, a sabedoria lúcida da terra, a mesa repleta de frutos do desejo, o esplendor monótono dos provectos caminhos, a transparência antiga da paciência, a infinita indulgência da monotonia, as promessas de amor, todo o exílio interior, a tua face oculta, todos os verbos santos, todo o ímpeto do prazer, toda a carne nua, todos os sexos externos, o eco dos ritmos africanos, a paciência dos predestinados, o fulgor explícito dos indícios, nós os dois passeando pela brisa da tarde, a brisa da tarde passeando por nós os dois, a ausência pacífica de senso comum, a nudez básica de qualquer cópula, a verdade, a mentira, os alicerces azuis do céu, todas as epifanias de Lenine sobre um piano, a subtil firmeza dos ofícios divinos, os anjos eléctricos, todos os santos e santas de todos os altares do mundo, a solidão dos loucos, a esperança de ter esperança, toda a energia sexual dos eunucos, a memória submissa dos meus mortos, a eternidade fugaz das imagens a preto e branco, a forma eterna de uma mulher nua, o infinito prazer de penetrar uma vagina húmida, todas as leis que permitem infringir as regras estúpidas, a abstracção da vida, a certeza da morte, todas as dúvidas metódicas e não metódicas, os faunos de Aquilino Ribeiro, Pedro Páramo, Juan Rulfo, Corto Maltese, Hugo Pratt, o júbilo de Frank Zappa, todos os indícios de amor, todas as previsões de ódio, as faces pálidas dos meus defuntos pais, as cinzas inertes de todos os meus antepassados, as minhas penitências de menino, a luz eterna dos domingos da minha infância, o espanto inicial da vida, o prodígio do pão e da água, a estrita incandescência da mulher que eu amo, os meus filhos, os vestígios infinitos do pensamento livre, a ausência mutiladora da glória eterna, a fé activa dos ateus, a fé monótona dos crentes do Deus único, toda a verdade antiga, a veemente ascensão da inteligência, os gemidos precoces de um orgasmo, a extensão vagarosa do tempo, o recrudescer da razão, o prodígio dos espaços em branco, o vazio atómico que cria a matéria, a estrutura pacífica dos bichos e das plantas, o sofrimento das crianças e dos velhos abandonados, a linguagem dos poetas loucos, as palavras gastas que procuram novas semânticas, a força de uma erecção, a delicadeza sonora e sofrida de uma penetração, a indigência da beleza provocada, a sábia surpresa da minha língua mãe, o repouso, o apetite, os símbolos, a intimidade, o júbilo, o lugar comum da amizade, a oralidade, a leitura, a escrita. A escrita, a escrita, a escrita… 

29
Ago11

Quarta crónica estival: o fim da quinzena esplendorosa

João Madureira

 

As férias na praia acabaram, mas o seu esplendor ainda me anda aos baldões pela cabeça. Quinze dias à beira-mar é tudo o que um ser humano mais deseja na vida. E é tão bom relembrá-lo: o calor, o mar, a areia, as besuntadelas, os passeios para molhar os pés, o transportar do saco das toalhas, a água fria para retemperar os ossos e tonificar os músculos, os emigrantes, os imigrantes, os migrantes, os turistas e os autóctones a jogarem as raquetas, o futebol, os putos a lançarem-se para a água como loucos, as conversas, os cães, os carros, os africanos, os políticos em calções, os hipermercados à pinha, os cafés repletos, os restaurantes a rebentar pelas costuras, o subir e o descer ladeiras, as prendas que se compram para a família, os telefonemas que se fazem para a família ou que a família faz para nós, os conhecidos que nos evitam, ou que evitamos, na terrinha, e que aqui nos falam como se fossemos os melhores dos amigos, as feiras regionais, as feiras locais, as festas, a animação estival a cargo das autarquias no seu máximo esplendor de qualidade e diversidade, os ciganos a venderem pólos de marca, os polícias de bicicleta, os ladrões de motorizada, os traficantes de droga de Mercedes último modelo, mulheres chilreantes escurecendo-se na praia para serem fotografadas e logo à noite colocarem no facebook as suas fotos eróticas a ilustrarem os seus poemas de amor cheios de mar, azul, areia, sol e… estrelas, os vendedores de bolas de berlim e de gelados, os leitores da bola a tirarem burriés do nariz, os nórdicos rosados como camarões a tomarem compulsivos e obstinados banhos de sol, mulheres bonitas, feias e assim-assim, homens assim e assado, crianças incómodas, jovens impertinentes e ainda mais areia a escaldar e mais água fria para gelar os meus ossos e mais protector solar e toalhas e jornais e chinelas e camisolas e óculos de sol riscados e amigos de ocasião chatos como o caraças e bóias e baldes e pás e buracos na areia e castelos na areia e… a auto-estrada de caminho de casa que tão cara é de percorrer. Depois sonhar com o almoço no Rui dos Leitões e… o Rui dos Leitões à pinha, as mesas todas ocupadas, a fila maior do que a que se forma para marcar consulta externa nos hospitais do SNS, a longa espera, a família cheia de fome e por isso já indisposta… finalmente o leitão, o vinho espumante, o apetite, a voracidade e o barulho ensurdecedor dos clientes do Rui dos Leitões, e os empregados nervosos sem mãos a medir, as crianças que berram o seu nervosismo primário, o seu pânico por permanecerem ali fechadas e com um barulho atroador que junta vozes humanas, sorrisos alarves, tilintar de garfos, garrafas de espumante a abrir… e ainda mais um pouco de leitão porque a fome é muita e ainda um pouco mais de espumante porque a sede é muita e o barulho ensurdecedor a dilatar-se um pouco mais, como se fosse possível, enquanto o dono do restaurante sorrindo se entretém na teima de ir assentando nas mesas que vão vagando os clientes que continuam a aguardar pacientemente por uma mesa e um ou dois pedaços de leitão à Bairrada pagos a peso de ouro… e chegam as sobremesas doces e finalmente os cafés. Depois de pagar uma fortuna por três travessas de leitão, saímos do restaurante um pouco mais pesados de corpo mas muito mais leves na carteira. É a crise, como muito bem diz o meu sogro. Cá fora o sol queima e quando entramos no carro o ar arde e os assentos são brasas que nos fazem suar em bica. Conduz quem não bebeu ou bebeu pouco. A ânsia de chegar a casa é enorme. Tenho saudades da minha cidade. Só quando estamos fora é que lhe damos o devido valor. Não penso em política pois de certeza que ficava com azia e lá tinha de desfazer o bolo alimentar à base de digestivos medicinais e o leitão foi tão caro e estava tão saboroso que é um desperdício chatear-me com tão fracas reses. Então o Pedro Passos Coelho é que me saiu cá um artista de revista, se sofresse da síndrome do Pinóquio nesta altura tinha um nariz que já não lhe cabia em São Bento. E então que dizer o António José Seguro? Para já basta pensar nele como o fantasma que para se ver nas vinhetas de BD tinha de se enrolar em gaze. Penso isto, e só isto, porque comi salada de alface e tomate no início da refeição. Se levasse mais longe o raciocínio lá se me azedava o leitão no estômago. Credo! Mas, como vos ia dizendo, não há nada como chegar à nossa terrinha. E a cidade de Trajano é tão carinhosa e está tão bem regulada que dá gosto pensar nela pelo simples prazer de pensar… nela. Então até para a semana. E fica desde já prometida uma crónica estival sobre os esplendorosos dias de férias que passei na nossa terrinha a ir de um lado para o outro com muito amor e carinho. E da qualidade e diversidade da animação estival a que tive o prazer de assistir. 

26
Ago11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

78 – Naquela época, as verbenas do Jardim Público em Névoa eram célebres e, talvez por isso mesmo, muito concorridas. Naquele tempo também o dinheiro escasseava no bolso de quase todos os portugueses, especialmente no dos jovens. Mas a escassez aguça o engenho.

Era frequente ver grupos de adolescentes organizarem-se por vizinhança ou outras afinidades electivas. Contavam os escudos, dividiam tarefas e actuavam segundo um plano previamente delineado. Parte deles adquiria os bilhetes no guichet junto à entrada do recinto, enquanto a outra parte se dirigia a um caminho estreito entre a margem do Tâmega e o muro de pedra que sustentava o gradeamento de ferro ao fundo do jardim. Esse era o lado mais vigiado, pois era por ali que os penetras sem bilhete tentavam a sua sorte. Uma das tácticas utilizadas pelos rapazes que tinham entrado pelo portão principal consistia em juntar-se no fundo do recinto e simular uma luta corpo a corpo pretextando desavença grave. Enquanto a luta se ia desenvolvendo com a lentidão necessária, e os polícias tentavam acalmar os ânimos entre os contendores, parte do grupo dirigia-se ao muro e içava os colegas que aí estavam à espera.

Depois de os rapazes serem içados e o sinal combinado ser dado, a rixa acabava e o grupo lá ia à sua vida, bem assim como a patrulha da polícia. Tudo estava bem porque acabava em bem. Tudo era como soía.

O dinheiro poupado nos bilhetes estava destinado a, lá mais para a noitinha, servir para adquirir sardinhas assadas, pão, caldo verde e vinho tinto.

Dentro do recinto, a rotina era a usual: uns dançavam, outros viam e os restantes passeavam para cima e para baixo aproveitando o fresco da noite.

O José, como todos sabemos, era da facção mais dada ao baile. Apreciava uma boa dança, gingava à maneira e aproveitava-se, quanto baste, das possibilidades eróticas, ou outras, do seu par. Masturbações no Jardim Público eram proibidas, por falta de espaço.

Nestas ocasiões, o José costumava emparelhar com o Pereira, um rapaz alto e magro como um lareiro. Também ele gostava de se enroscar nas raparigas com uma certa persistência e denodo. Algumas davam-lhe tampa logo após a primeira dança, mas outras continuavam a bailar ao seu ritmo, quase sem mexer os pés. O Pereira, para a dança, era um pé de chumbo, mas tinha conseguido transformar essa fraqueza na força do seu dançar. Era a prova provada de que se pode metamorfosear um defeito numa virtude. Por vezes desperdiçava o par porque se recusava a dançar ao som da música da banda filarmónica. Para ele só a música moderna é que contava. Já o José era pau para toda a colher.

Naquela ocasião, por circunstâncias várias, o José resolveu, antes de começar a sua noite dançante, passear um pouco na companhia do Andorinha, um seu colega assaz curioso. Vinha às verbenas mas nunca dançava. Passeava com quem o quisesse ouvir e, quando a fome apertava, ia comer com o grupo o que o grupo previamente decidia.

Nessa noite o Andorinha começou a falar de um livro que o tinha marcado profundamente. Já ia na segunda leitura e afirmava que, de tão interessante, era obra para ser lida mais algumas vezes sem enjoar. O José perguntou-lhe qual era o livro, mas o Andorinha só prestava atenção ao seu pensamento. E continuou a falar do livro durante a noite toda. Do quanto o tinha marcado o personagem principal, rapaz muito religioso, que perdeu subitamente a fé porque encomendou a cura do seu pé boto a Deus e Ele nada fez, deixando-o manco e ateu.

O Andorinha era um rapaz predestinado, um génio de província, que arranjava tudo o que era eléctrico utilizando a sua intuição e um ferro de soldar. Adorava, especialmente, consertar rádios. E fazia-o de graça. Era rapaz para se enfiar em casa semanas seguidas, movendo-se da cama para o sofá e do sofá para a cama, lendo “A Servidão Humana”, vendo televisão, ouvindo rádio, consertando os aparelhos que lhe levavam a casa, comendo, bebendo e fumando muito. Era um fã dos Beatles e dos programas televisivos de António Vitorino de Almeida. Do músico português apreciava a verve fácil e corrosiva anti-regime, e escangalhava-se a rir quando recontava os discursos do mestre enquanto abraçava ao colo um chimpanzé que, dizia ele, e com alguma razão, convenhamos, por muito que nos custe, que era muito mais inteligente do que a maioria dos portugueses, incluídos os governantes.

Gostava ainda o Andorinha de, nas noites mais frias e nevoentas, dar várias voltas às pontes, num trajecto de dezenas de quilómetros, pelo simples prazer de conversar e de falar do pé boto do seu herói ateu. Outras vezes relatava histórias hilariantes de homens da aldeia onde nasceu. Contava repetidamente a de um indivíduo que, de todas as vezes que ia defecar ao monte, pois não possuía casa de banho, encontrava invariavelmente um lobo que mais não fazia do que ficar quieto enquanto o homem, de cabelos em pé, fazia o que tinha a fazer. Contava também, com a cara mais séria do mundo, a triste história de um primo seu que tinha a cara torta de tantas bofetadas levar do seu defunto pai, que lhas dava todas as noites e sem prévio aviso.

O maior amigo do Andorinha era um gato que o arrebunhava todos os dias com todo o carinho do mundo. Ele, em troca, lançava-o da varanda lá de casa para a rua com o firme intuito de observar como invariavelmente o bichano caía sempre com as quatro patas servindo de amortecedores.

Essa noite de verbena foi a primeira soirée de uma proveitosa amizade, pois só ela é capaz de pôr um viciado na dança a escutar um companheiro durante quatro horas seguidas com muito prazer e subido interesse. 

24
Ago11

O Poema Infinito (62): fogos súbitos e livros sinfónicos

João Madureira

 

Iluminam-se mil olhos nos teus olhos e mil bocas saboreiam o ar doce da noite. Uma canção antiga soa dentro de uma casa com janelas abertas. As palavras pensadas desenham ciclos de memória. Um corpo absorto pelo cio adormece bocejando ternura e desencanto. Lembro-me de barcos e de tormentas e dos calendários brumosos da navegação. A solidão transforma-se numa palavra emigrante. Noutras ocasiões desenhei camponeses risonhos como searas acariciando animais e plantas. Neles encontrava sempre a terra que me há-de consumir. Terra e mar, um destino de paciência e euforia. Tu és a minha guerra e a minha paz. Ainda. E isso faz crescer água nos meus olhos que creio inocentes. A noite limpou o dia de movimentos caóticos. Agarrado à tua cintura sorrio e peço-te para irmos para a cama. Digo-te ao ouvido um doce lugar-comum: a noite fez-se para o amor. Outro: terna é a noite. Adormecemos quando o rocio começa a pousar límpido sobre a banal cor das flores do jardim. A felicidade é isso. Sonho com fogos súbitos, com livros sinfónicos, com éguas preenchidas de curvas elásticas, com antigos cavaleiros andantes sentados em selins de cabedal adejando o cabelo ao vento, com catedrais voadoras, com deuses loucos de amor humano. Sonho que sou um cavaleiro da távola redonda em busca do cálice do sexo. Uma linguagem diminuta toma conta da manhã. Pessoas matinalmente certas povoam de novo a cidade e abrem o seu corpo à tristeza do dia-a-dia. Alguém prega o seu olhar numa ambulância madrugadora. A vida começa a flutuar nas ruas. Homens industriosos passam rente à boca fechada dos livros e perfuram o seu silêncio subversivo. Cada vez mais iniciam o seu dia fatigados pela desilusão. Tento descer devagar da minha alucinação. O tempo encaixa na sua lógica neutra. É essa a sua insistência científica. Insisto em exercitar a boca com a palavra esperança, mas as pessoas teimam em evaporar-se. Começa a chover sobre o quintal da casa. O céu fica metafísico. As mãos começam a iluminar-se de novo quando toco nos teus olhos. 

22
Ago11

Terceira crónica estival: um, dois, três e… zzzzzzzzzzzzz

João Madureira

 

As noites são quentes, os dias são quentes, o sol é estonteante e o mar é frio como o caraças. Mas de resto, tudo bem. Continuo a ir para a praia, continuo a besuntar-me com muito rigor, continuo a ir tomar banho no mar aos solavancos, hesitando, hesitando, hesitando sempre. De noite suo muito por causa do calor. De manhã acordo alagado em água. Agora a pele começou a dar mensagens de que, por não estar habituada a tanto sol, também existe e não gosta mesmo nada de ser maltratada. O contacto com os tecidos tornou-se problemático. Fora isso, férias na praia são encantadoras, sobretudo antes de fazermos centenas de quilómetros para ir ao seu encontro e depois de já estarmos a trabalhar, quando a recordamos, em amena cavaqueira, na doce e calma companhia dos amigos.

 

Ler os jornais na praia é uma trabalheira. O vento sempre a soprar faz as páginas adejar em todos os sentidos e, quando o vento acalma, as mãos gordurosas do protector solar, em aliança espúria com a tinta das letras impressas, mancham tudo. Fora isso, tudo bem. A areia escalda, os vizinhos da barraca ao lado gracejam à base de impropérios (bendito seja o povo mais o seu sagrado linguajar), os filhos de vários casais amigos jogam futebol, ou batem ritmadamente com duas raquetes numa bola muito parecida à do ténis mas que produz um som estranho, levantam areia, chutam a bola contra quem passa, gritam imenso a sua alegria, pedem muita desculpa pelo incómodo de virem de cinco em cinco minutos procurar as bolas tresmalhadas nas toalhas das pessoas que para aqui estão de papo ao ar, com os olhos fechados a fazerem que descansam, enquanto se vão remordendo de raiva e angústia por causa de, à semelhança da interdição aos cães, a praia não ser igualmente vedada às crianças e aos africanos que persistem em vender relógios, óculos de sol e girafas de madeira de vários tamanhos e preços.

 

Passear na praia é aquilo que me dá mais prazer. Desde logo porque consigo aguentar bem o contacto da água fria com os meus delicados pés. Mas também tem os seus inconvenientes: a inclinação do areal que prejudica a frágil estabilidade da minha coluna vertebral, as pedras que incomodam o meu andar, a elevada quantidade de pessoas que se põem a passear junto ao mar ao mesmo tempo mas em direcções opostas, os jogadores de futebol e raquetes que ocupam a maior parte do espaço vital da praia, os jovens mergulhadores que correm como loucos e aos gritos, para saltarem para as ondas, assustando as pessoas mais idosas e aspergindo água fria sobre as crianças que descansadamente fazem buracos na areia. 

 

Por vezes dá-me vontade de ir urinar por força da muita água que bebo devido ao facto de tomar uns comprimidos que são diuréticos e por isso amenizam a minha tensão arterial. Mas como nessa altura já o sol aperta muito, e as casas de banho são distantes, o exercício torna-se penoso. Amigos meus mais dados à zombaria, aconselham-me a que me enfie no Atlântico e verta águas dentro do seu aconchego, pois ninguém dá por nada, além disso, dizem eles com acerto, e com vossa licença, o mijo é salgadinho como a água do mar. Reconheço que o apelo é forte, mas a minha educação espartana proíbe-me determinantemente de dar tréguas ao facilitismo e à promiscuidade.

 

Quando chega a hora do almoço, o sol aperta de tal maneira que me só me apetece fugir dali. Mas o caminho até casa é tão íngreme e penoso que apenas me consigo arrastar pela torreira, incomodado com o sal seco na pele das minhas costas e a areia nos interstícios das minhas chinelas de plástico robusto. Os sacos com as toalhas molhadas pesam. O sol continua a atacar, os outros veraneantes empurram-me, as crianças berram, os jovens pedalam nas suas bicicletas pelo meio das pessoas como se fossem pilotos de motas de grande cilindrada, os africanos insistem de novo na oferta a bom preço, dos óculos, dos relógios e das girafas. Entretanto é necessário passar pelo supermercado para comprar bebidas. Lá dentro a fila é enorme, os estrangeiros são muitos e as funcionárias das caixas não têm mãos a medir. Depois de aviado, entro de novo na torreira e subo a ladeira até casa com o mesmo esforço que Cristo pôs quando carregou a cruz até ao calvário.

 

O almoço foi frugal, bem regado, talvez até regado bem demais. Termino-o com uma sopa que me põe a suar em bica. Depois da sobremesa, que é sempre composta por fruta fresca e boa, refresco a cara e o tronco com água corrente e ponho-me a ver a televisão. É a volta a Portugal. Adormeço logo de seguida. Acordo, todo suado, quando a Luzia me diz que está na hora de ir para a praia. Vou de novo à casa de banho para me refrescar. E refresco-me. Pego no saco das toalhas e lá vou eu. Agora é a descer, mas a descida é tão íngreme que tenho de travar senão despenho-me.

 

Chegado à praia, com os pés a arder, coloco as toalhas, besunto-me, vou até a beira-mar e refresco-me. O sol continua bravo e o calor é muito. Por isso vou passear. Mas como o areal tem um desnível, os jovens jogam, correm e mergulham, as pessoas atropelam-se e o mar continua frio, resolvo deitar-me na toalha e adormecer. Mas…

 

De olhos fechados, mas acordado, começo a pensar nesta crónica e por isso vou alinhavando alguns lembretes mentais: descrição do prazer que é passar as férias na praia, abordar rotinas, falar do esplendor do convívio com os veraneantes, colocar um pouquinho de sal e pimenta no final com uma leve menção a Pedro Passos Coelho e António José Seguro, rrrr…  Então não é que o PPC… shshsh… Já para não falar do AJS que… zzzz… Resumindo e concluindo, estamos bem trama… zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz~

 

 

PS (primeira parte) – Conversa (escrita) entre um ex-ministro da educação e um professor no grupo do Facebook “Um Sorriso por Portugal”. JDJ: Quanto o acto de SORRIR é um acto de esperança no futuro. Por vezes não imaginamos a força que pode ter um sorriso. JM: Há qualquer coisa que me ultrapassa em tão vãs palavras. Se os lugares comuns pagassem imposto… E saber que o meu amigo foi ministro da educação. JDJ: Meu caro amigo João Madureira, se assim fosse não queria estar na sua pele, depois de ler o seu último texto. JM: O seu acto de sorrir é tocante. Sorria caro Justino, sorria… O meu amigo está nos apanhados.

Um pouco mais à frente, o JM foi expulso do grupo que se auto-intitula “Um Sorriso por Portugal”.

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