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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Out11

A toleima do D.

João Madureira

 

Ontem o D. chegou ao pé de mim possesso. Nem sequer pediu café, ou umas águas ou o que quer que fosse. Desde que o “seu” primeiro-ministro anunciou ao país que lhe ia cortar, desde já e dizem que para sempre, quatro meses de reforma em dois anos, anda mais amuado do que um peru. E se fosse só a ele, ainda vá que não vá, mas pensando que a sua esposa também é reformada e que os dois filhos são professores e estão casados com duas funcionários do Estado, dá para ver a razia que vai lá pela família.

 

O R. atirou-lhe de supetão: “É-te muito bem feito. Quem é que te mandou andar a agitar a bandeira do Pedrinho e a soprar no apito laranja. Mais te valia teres ficado em casa a tratar dos netos e a dares carinho à mulher. Vais ter de engolir o apito. Ai vais, vais. Devias era pedir explicações à senhora que ajudaste a eleger para o parlamento. Que pronta se colocou ela ao lado das propostas dos terríveis cortes aos funcionários públicos. Também não lhe restava alternativa. Para fazer papel de deputada sentada e deixar correr o marfim, mais valia termos elegido uma estátua, sempre ficava mais barata ao Estado. E com a crise que por aí grassa, todos os tostões poupados para cortar nas gorduras do Estado são bem-vindas. É cada vez mais consensual que dois terços dos deputados são apenas verbos de encher. Por isso, o número de parlamentares deve ser drasticamente reduzido.”

 

Mas o D., como se tivesse enlouquecido definitivamente, continuava a toleimar na sua ladainha. Tive pena dele, apesar de ser um laranjinha dos quatro costados. Mas, confesso, também não tive tempo para ter muita, porque para mim, e para a maioria dos meus, também os cortes são golpes duros de encaixar depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho e à educação dos meus filhos e dos meus alunos. Por isso, apeteceu-me repetir-lhe as palavras do R., mas, quando olhei para ele e o vi a pressagiar a litania, calei-me. Para sofrimento já basta o que basta. Além disso, apesar de laranjinha, é meu amigo e os meus amigos são meus amigos e pronto.

 

Depois apareceu o F. que lhe disse o mesmo que o R. lhe tinha dito há pouco. Mas quando o viu a rezar baixinho, comoveu-se e meteu a viola no saco. Logo a seguir apareceram os restantes elementos da nossa tertúlia e o fado continuou.

 

“Mentirosos, impostores, aldrabões, intrujões…”, pisava e repisava lentamente o D. como se estivesse a rezar.

 

“Está visto”, disse o R. com o seu ar de menino traquina, apesar de ter as barbas mais brancas do que o Pai Natal, “que vou dedicar-me à agricultura. Talvez consiga produzir alimentos que me deem para comer e vigor para os vender no mercado negro. Poderei, dessa forma, adquirir alguns livros para a minha biblioteca e comprar leite achocolatado para a minha neta, pois são dos poucos produtos que ainda não são taxados com a percentagem máxima do IVA.”

 

E o D., na sua obsessão: “Intrujões, aldrabões, impostores, mentirosos…”

 

O R. tirou do bolso o “Borda d’água” e pôs-se a ler: “Está na altura de, no Minguante, estercar as covas para as árvores a transplantar na primavera, plantar as árvores de fruto e podar, com corte diagonal, as árvores resistentes ao frio. Amanhã de manhã vou preparar os canteiros para a sementeira de alface e cebola e vou, ainda, semear em local fixo agrião, cenoura e rabanete. Depois dos Santos vou plantar os morangueiros, os alhos e as cebolinhas e colocar em local definitivo as couves de primavera e a alface de inverno.”

 

E o D. com os seus olhos mortiços continuava na toleima: “Intrujões, aldrabões, mentirosos, impostores…”

 

Pensei, com tristeza, que já não podia contar com o D. para me ajudar no jardim. Ele que sempre foi muito bom a estrumar e a semear as flores, a plantar roseiras (por favor, não antevejam aqui nada de irónico), crisântemos, lírios, narcisos, tulipas, açucenas, jacintos, junquilhos e anémonas. Além de ser ainda exímio a colher dálias e rosas.

 

Juro que me deu pena vê-lo naquele seu estado catatónico. E ele possesso, desiludido e ultrajado, toleimava: “Impostores, aldrabões, mentirosos, intrujões…”

 

De novo o R., crítico leitor do “Borda d’água”, tentou animar o D.: “Deixa-te lá disso. Descansa que isso, mais do que obra dos homens, é obra dos deuses. Esta maroteira estava escrita nos astros desde há muito tempo. Célia Cadete, no “Juízo do Ano”, dá-nos conta da profecia: “O ano de 2011 entrou num sábado, que é dia consagrado a Saturno, um planeta de movimento lento que leva cerca de 30 anos para completar a sua órbita. Saturno traz destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza; tem domínio sobre os velhos, os caducos e solitários, os tristes e melancólicos. O ano de 2011 será dominado pela carestia; mas tenhamos fé e lutemos com determinação para reverter a situação.”

 

Aqui, o desavergonhado do L. meteu a colherada: “Por isso é que o D. suou as estopinhas na campanha eleitoral da candidata do PSD, para, com a sua determinação, que propagou aos quatro ventos, ajudar a reverter a situação.”

 

“Qual determinação qual carapuça”, perseverou de novo o R., “deixem é falar a Célia Cadete: “O inverno será longo e frio e com pouca chuva. A primavera será ventosa. O verão irá ser bastante húmido e o outono prevê-se seco e fresco.”

 

“A mulher acertou em tudo. Célia Cadete para o Parlamento, já!”, gritou entusiasmado o L. “Pelo menos sabe o que diz. E di-lo sem papas na língua. Para estátua de pensadora bem nos chega a outra.”

 

E o D. com os seus olhos desmaiados insistia na tarouquice: “Aldrabões, mentirosos, intrujões, embusteiros…”

 

“Ó minha Pátria bem-amada, que bons filhos pariste”, concluiu o R. Todos nos rimos com o sorriso mais amarelo que há no mercado europeu. 

28
Out11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

86 – Como dissemos anteriormente, nas quentes noites de estio, o filho do guarda Ferreira, se não tivesse algum bailarico a que ir, estacionava em casa do Fernando e só de lá saía de madrugada. Estimava muito o seu amigo Fernando, mas admirava ainda mais a verve culta do seu ilustrado pai. Então se tivesse já a sua dose de vinho e sandes de vitela, o senhor Carvalho tornava-se um mestre à moda antiga.

Se ouvia uma música dos Beatles, por muito medíocre que fosse, adivinhava-lhe a melodia e trauteava-a com poderes adivinhatórios. Ou seja, depois do primeiro ou segundo acordes, era capaz de alinhar a música como se ela ainda não tivesse sido escrita pelos quatro rapazes de Liverpool. Punha-a logo sobre uma pauta imaginária e solfejava-a como se ele fosse John Lennon ou Paul McCartney em plena composição.

De pé, fazendo tremer a voz e a papada, o senhor Carvalho conduzia a orquestra imaginária com a sua batuta mágica, agitando as grossas mãos, ora lentamente, ora em frenesim, acompanhando permanentemente o compasso da melodia. E chorava.

Quando combinava a pinga e a música, o senhor Carvalho permanecia sempre emocionado. Os seus olhos ficavam rasos de água. E gaguejava e interrompia os seus gestos para afirmar que a música tem o poder de amansar os homens, de ir ao mais profundo de cada indivíduo e o colocar em paz com o mundo e com o seu semelhante. “A música tem o poder divino. A crer em Deus, imagino-o maestro da humanidade, com uma batuta feita de um raio de sol, chefiando uma orquestra de músicos sábios acompanhada por um coro de anjos entoando uma cantata universal, onde as notas musicais são como estrelas candentes. Eu acredito no poder da música. A música inebria os sentidos, exalta o amor, celebra a paz, louva a beleza, proclama a liberdade, diviniza o ser humano, aclama o progresso e apregoa o socialismo.”

Os filhos admiravam-no. Era raro encontrar um homem mediano com a sensibilidade do senhor Carvalho. No entanto, quando estava com um grão na asa, emocionava-se e deixava-se ir das palavras.

Ao contrário da quase totalidade dos bebedores, que têm mau beber, o pai do Fernando tinha bom vinho. Com um copo a mais, transformava-se num poço de melifluidade e cultura. Mas tinha o inconveniente de não conseguir calar o que tinha de calar: a sua paixão política.

Era o senhor Carvalho um republicano laico e socialista, um terno seguidor de Antero e de António Sérgio, um defensor da autogestão e do cooperativismo. Um combatente pela democracia e pela liberdade.

Com um copo de vinho a mais, e uma que outra sandes de vitela assada, o senhor Carvalho ia-se da língua e trazia sempre à liça o socialismo, que era o “nosso futuro”, e o seu “amor à liberdade”, que era a “nossa batalha” mais próxima. Dava muitos vivas à democracia e outros tantos morras a Salazar e ao fascismo. O problema é que no rés-do-chão vivia um engraxador que tinha a fama, e o proveito, de ser bufo da Pide. E com a Pide não era bom brincar.

Mas o senhor Carvalho, mesmo avisado pelos filhos, e pela santa da sua mulher, deixava-se entusiasmar e lá se ia das palavras. Os filhos, para disfarçarem o discurso, aumentavam ao som do aparelhómetro musical e tentavam desviá-lo da obstinação.

Uma das estratégias era arredá-lo da música e puxá-lo para a literatura. O homem gostava de poesia e recitava-a com muito esmero e ilustração. Por mor da azáfama, às vezes chegava a salivar em demasia, aspergindo perdigotos, o que fazia com que os que assistiam à récita e fossem conhecedores do seu comportamento, se colocassem a uma distância estratégica.

O senhor Carvalho recitava Fernando Pessoa, José Régio, Camões, Miguel Torga e outros que tais, como se fosse o próprio João Villaret. E tremendo a papada e elevando a voz, para consolo de todos, dizia gemendo de paixão: “Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!” (…) Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos… (…) Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, / E vós amais o que é fácil! / Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos... (…) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí! E a assistência, que era pouca, mas entusiástica, gritava e chorava de emoção.

Era frequente, a meio do recital, pedir à mulher que lhe trouxesse um copo de vinho. Ela, que amava e respeitava o seu marido, para quem os desejos eram ordens, trazia-lhe sempre um copo de tinto servido no mais pequeno dos copos que havia no mercado. E dizia-lhe com carinho: “Não o bebas todo de uma só vez que te podes engasgar.” Ele sorria e lá puxava de outro poema. Por vezes facilitava e pegava num ou noutro texto de Vitorino Nemésio e recitava-o. Evitava fazê-lo na voz anasalada, modorrenta e convencida do poeta açoriano. Dava-lhe ou um registo próprio ou, então, tentava encaixá-lo no estilo de João Villaret.

Mas a verdade tem que ser dita, por muito que gostemos de Vitorino Nemésio, o seu registo poético e declamatório foi sempre muito soturno, pouco entusiasmante. Quase tão incompleto como o seu toque de guitarra. O senhor Carvalho, porque era um homem culto e respeitador, prestava-lhe homenagem, mas a plateia não se conseguia entusiasmar. Ali todos eram fãs do ardente e telúrico declamar do João Villaret.

Os recitais de poesia tendiam a ser curtos, muito por obra e graça da sua estimada esposa, pois o senhor Carvalho, quando se entusiasmava, sobretudo aos fins de semana, tendia a beber um copo por cada poema declamado e, lá para o meio da récita, já as palavras tendiam a sair mais entarameladas. Era nesta altura que se socorria do tal Nemésio, que a todos provocava sono e arrelias. Mas o senhor Carvalho, porque era um homem culto, repetimos, tendia a recitá-lo como se o linguajar do poeta insular se adequasse mais ao registo notívago e vagabundo das tabernas.

Depois da música, e logo após o recital, de novo o senhor Carvalho teimava em dissertar sobre a música e daí a nada estava outra vez aos gritos de “viva a república, viva a liberdade, abaixo o fascismo”. O José quase que sentia no rés do chão o cão bufo a rosnar de raiva e a espumar de ódio.

De novo os filhos e a esposa do senhor Carvalho ficavam em pânico e, por isso mesmo, tentavam levá-lo à razão. O Fernando, que era o estratega da família, puxava então da guitarra e começava a tocar enquanto a mãe trazia mais um copo de vinho dos pequeninos, misturado com muita água. O senhor Carvalho, com o entusiasmo e com a pouca luz da sala, nem dava pela marosca. Ou se dava disfarçava muito bem, como é apanágio dos rapazes bons e dos homens sábios. 

 

26
Out11

O Poema Infinito (71): várias formas de enlouquecer

João Madureira

 

Dizes: és o interior da tua própria existência. Ninguém ama tão desalmadamente como o poeta. Talvez seja necessário mudar a estranha arquitetura da palavra amor e da palavra prazer. Acendo a minha boca na tua boca e aí está a poesia toda. Espalhamos fogo. Gosto da tua fantasia minuciosa, da tua oblíqua inovação, da solidão doce do teu amor. Tu és a minha árvore desenvolvida que se exprime com a brevidade da vida. Uma voz pura adjetiva a subtileza das formas. Alguém fabrica aves que voam por entre as labaredas de azul. O lado dos campos abre-se para as estrelas. O teu olhar levita preciosamente enquanto eu enlouqueço na doce selvajaria do teu corpo. Meto o teu nome na minha intimidade. Daí recomeça o enorme talento de existires. Recupero agora as colinas do mundo. O desejo acelera a velocidade das coisas. Colinas abanadas pelo silêncio mergulham no lado obscuro do dia. Procuro desesperadamente ser simples sem o ser. Os campos abandonados rodopiam em volta do ar puro. É preciso principiar. O amor acumula-se, as coisas respiram, o prazer torna-se inexplicável. Há várias formas de enlouquecer. Os campos são agora espelhos. Os espelhos são agora imagens esmigalhadas. Nuvens altas gritam aprisionadas no reflexo do rio. Sinos dementes explicam a morte. A água rega o amarelo das flores dos lameiros. É tarde. Toda a atenção da água canta a vontade de viver. Pego nas tuas mãos e falo-te da estranha imagem do universo, da dureza lenta da solidão, das palavras que amam devagar os amigos, do talento doloroso da eternidade, do silêncio profundo da paixão. Devagar, a cor da vida infiltra-se na densa angústia da ilusão. Um deus antigo esboça o hermético movimento do mundo. O tempo triunfante aproxima-se cada dia mais da minha idade. É essa a sua abstrata violência. É essa a minha solidão. Volto a ser o animal adormecido da minha infância. Sinto-me um homem solitário entre palavras. Na minha cabeça toda a aldeia canta um hino de pureza. Um hino de pureza quase louca. Tento despedir-me do esquecimento. Entretanto tocas-me com o teu livre delírio. As portas das casas ganharam raízes. As teias balançam na manhã roçando o hálito das pedras. As cinzas impõem o nosso inexorável desaparecimento. Respiro a tua ardente e delicada transformação. Há sempre no olhar dos amantes uma ilusão abismada, como um sono debaixo do fogo. A perenidade dos humanos ajuda ao exercício da sua beleza. Daí a velocidade da terra. Daí as janelas iluminadas. Crianças longas festejam a distância louca das estrelas. Vagarosas crianças iluminam a noite com giestas de fogo. Apagaram-se as luzes. As palavras atrapalham-se no meu braço que arde. No meio da fogueira há uma eternidade de mãos. As coisas mínimas ressuscitam indefinidamente. Tu és a minha poesia, o meu perdão, o meu esquecimento, a minha inocência premeditada. 

24
Out11

O cansaço dos alfaites

João Madureira

 

Não dou por mal empregues todas as horas que caminho no parque Polis da cidade. O Tâmega tranquiliza-me, as poucas árvores fazem-me desejar que se plantem mais e o sol de fim de tarde sempre me fascinou. Os passeios são um bálsamo para os olhos, para os pulmões e para a corrente sanguínea.

 

Agora que a água está mais estagnada, costumo reparar nos alfaiates (e pensar que cheguei a acreditar que estes insectos de patas longas só deslizavam por cima de água límpida e corrente, quem me manda a mim ser tão crédulo) a correr de um lado para o outro e, por cima, reparo em vários enxames de mosquitos. Por vezes oiço um que outro estampido, que presumo serem peixes a saltar na água. Nas margens consigo avistar algumas rãs. Torrões de lama desprendem-se da margem e ouve-se um borbulhar por debaixo da água. Folhas secas, como memórias, movem-se lentamente à superfície. Quase sempre paro para ficar a olhar para elas. No espelho turvo do lençol de água, os ramos das árvores, e os pássaros que os ocupam, perdem a possibilidade de se refletirem.

 

Cada vez há mais pessoas que se deixam arrastar pela indiferença. Como se sofressem de um cansaço prolongado. Por isso tendemos a ver as coisas isoladamente. Fixamo-nos nos contornos, como se nada mais exista para além deles. Tudo vemos e ouvimos instantaneamente. Não há tempo para pensar. Ofendem-nos e nós, em troca, ofendemos. Todos os discursos são jogos de palavras. Tudo nos parece natural: a mentira e a verdade, a mentira como verdade, a manipulação como realidade. Deixamo-nos fascinar pelas minudências, pelos artefactos, pela hipocrisia dos indiferentes, pelo imobilismo. Estamos tão vazios como os quartos de uma casa abandonada.

 

Ouvimos falar em força. Na força das ideias, na força dos argumentos, na força da razão. Olhamos em volta e a força do argumento de quem nos dirige convenceu-nos que éramos especiais, e que eles, além de especiais, eram superiores. Eram os génios que iam fazer avançar o país, a autarquia, a sociedade. E se não fosse em marcha rápida, pelos menos iriam fazê-lo em andamento um pouco mais lento, mas, também por isso, mais seguro, rumo ao progresso. E isso era música para os nossos ouvidos. Mas eles estavam, e estão, longe da verdade. Apesar de plebeus, dão-se ares de uma certa nobreza que sempre foi alvo de algumas concessões. Lembram-me os aristocratas britânicos que até meados de século passado tinham autorização legal para mijar, se tivessem vontade, nas rodas traseiras das carruagens. Eles e os seus cães… de fila.

 

Noto que as pessoas nunca se observaram umas às outras com tanta hostilidade como nos dias de hoje. O povo gosta de opinar e de agitar bandeiras e de se manifestar. Mas quando se trata de defender os seus interesses é uma nulidade objetiva. Não exige, mendiga, deixa tudo nas mãos dos outros. Com o desempenho político do governo, e da autarquia, acho que descobri o que torna idêntica a expressão dos portugueses: é o equívoco. Sentimos que fomos iludidos. Fizeram demasiado ruído em volta das propostas concretas. Resta-lhes a insustentável leveza da vacuidade.

 

Eu sei, todos sabemos, que quando alguém se vê cercado por rostos calorosos nas campanhas eleitorais, muitas das nossas dúvidas e objeções tendem a desaparecer. Mas agora também sabemos que quase todas as mentiras e hipocrisias são assim. A verdade política é momentânea. Isso é notório no olhar dos atuais dirigentes, neles não há um pingo de razão. Sentimos que erramos. Só não sei se há tempo para voltarmos a errar.

 

Não consigo suportar a ganância, a inveja, a gorda satisfação da vanglória, os ódios e destruições, a falsidade, os rancores. A minha capacidade de tolerância está cada vez mais baixa. Por isso sinto que se torna necessário escolher para nos dirigir alguém com capacidade para olhar os nossos problemas com mais clareza, que não se rodeie de indefinições, arranjismos, que se liberte, e nos liberte, de oportunistas, medíocres, conspiradores e judas, sempre prontos a vender o líder por trinta dinheiros. Além disso, também devemos evitar deixar-nos comover por aqueles que derramam lágrimas como os pinheiros largam resina.

 

Dizem os historiadores que nos tempos da rainha Isabel, os barbeiros tinham alaúdes e guitarras na barbearia para que os cavalheiros que estivessem à espera pudessem cantar e tocar. É que demorava muito tempo a arranjar as barbas e os caracóis que se usavam na época. É tempo de ganhar tempo e conseguir que as instituições públicas despachem o serviço de forma célere e competente. É que o povo não sabe tocar guitarra, só bombo e ferrinhos.

 

Relativamente ao poder autárquico, penso que a maioria dos vereadores considera que ficar sentado é poder. Os reis ficavam de traseiro sentado no trono, enquanto os plebeus permaneciam de pé. Pascal disse que as pessoas se metem em sarilhos porque não conseguem ficar quietas no quarto delas. É bem possível que o vice-presidente da Câmara nos venha dizer que roguemos a Deus para nos ensinar a ficarmos quedos como penedos. E esperar para votar nele. Mas essa é uma aposta numa raspadinha que quase nunca sai e quando o bilhete vem premiado o valor pecuniário é anedótico.

 

Quanto ao actual presidente da autarquia, é possível que conheça bem aquele quadro de Henri Rousseau (A Cigana Adormecida) onde a viajante cigana árabe adormece ao lado do bandolim enquanto um leão olha para ela. Somos todos levados a pensar que o leão respeita o repouso da mulher, que a imobilidade da cigana controla o leão. Mas, a ser assim, isso é magia. E a magia é sempre um truque bem exercitado.

 

É muito provável que o atual poder autárquico tenha adormecido por cansaço. Mas isso não nos pode levar a pensar que basta acordá-lo para que faça aquilo que não foi capaz de fazer até ao momento. O seu tempo de validade foi já foi ultrapassado. Por isso temos de atuar como nos aconselham os bons hábitos. Aproxima-se a hora da sua substituição. É a lei natural da vida. Todos os ciclos têm o seu fim útil. E este não é exceção. Fazemos votos para que não o tornem inútil. Há que renovar a esperança. Há que mudar de vida. Há que encontrar novos protagonistas. Há que construir uma alternativa válida e coerente. E a tão árdua tarefa não admite exclusões. 

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