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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Nov11

O Poema Infinito (76): o regresso a casa

João Madureira

 

Por mais que procures não descobrirás a fluência dos ventres maternos nem a poesia dos versos límpidos. Encontrarás, sim, as palavras escritas na angústia das pedras e na vertigem das portas. Por isso as minhas lágrimas possuem o sal estranho do desespero. Por isso os meus ouvidos entendem o som das aves frias que se arrepiam junto às sombras das casas que se alongam pelas pedras da eira. O sol é agora uma lentidão silenciosa. As palavras caem ao chão de forma muda enquanto as minhas mãos gesticulam como chamas. Numa esquina porosa o vento acende o verde das ervas e os insetos brilham como pérolas mortas. Talvez os meus olhos, sem o saber, repousem no espaço das folhas liquidadas que alimentam a terra, talvez o esplendor da morte se imponha no vazio das páginas que caminham nas linhas de sombra. Talvez. Talvez por isso os animais dancem na sua quase imobilidade mesmo à beira do turbilhão das árvores. Sinto como minha esta aparente liberdade do caos. A arca do pão guarda agora um vazio enorme de vocábulos. Antigamente guardou o desejo de tudo enquanto lá fora o conjunto impossível da felicidade e do desespero principiava a arder, enquanto a terra, o sol e a água se uniam no hábito de tentar a vida por qualquer meio. O ato de ser tendia a transformar-se num murmúrio proferido por lábios que se alimentavam da caligrafia da terra, quando os arados escreviam o pão-nosso de cada dia. Nesse tempo a vida era um lugar neutro repleto de apelos e as casas eram lugares nus e a pobreza era um princípio de vida e tudo se fazia e dizia através de sinais. Por isso aqui estou eu à beira da origem onde nada começa nem acaba, onde tudo é sede e desejo e angústia. Enquanto a planície se incendeia de aspetos sinto a plenitude de um delírio branco, sinto a dissidência originária onde a minha boca se move entre sequências vivas de palavras de terra e fogo. Os sinais passam rápidos demais para que eu os entenda. Desço a rua deserta por entre indícios de tempo e as casas inclinam-se entre os cones de luz onde perpassam sombras nulas. As palavras então ditas transformaram-se em pó e as páginas em branco dos cadernos converteram-se em caminhos que já não vão dar a lado nenhum. Tudo o que por aqui existe tem cada vez mais um nome breve, tem a forma de uma língua espessa e pesada pela carga dos silêncios e desvalida pelo ardor das feridas negras. Todos os homens e mulheres deste povo morreram discretamente apagados pelas luzes da cidade. Diluíram-se num tempo escuro e invisível. Em nome do seu sofrimento, das suas vidas sacrificadas, dos seus sonhos desesperados, das suas colheitas desfeitas, dos seus nomes de criança, da sua paz ruidosamente silenciosa, rezo-lhes pela alma para que a sua viagem através das nebulosas seja o seu regresso a casa. 

28
Nov11

O fim da História: uma narrativa de idiotas

João Madureira

 

Esta rapaziada que está no governo é toda bem-falante, são bons fazedores de discursos. São, especialmente, especuladores de maus sentimentos e ases no assédio verbal. O primeiro-ministro parece um adolescente fascinado por coca-cola que, com a lata na mão, a agita para depois ver a espuma toda a sair. Parece o maestro de uma orquestra que nos vai matando com os sons dos violinos, dos clarinetes e com o ribombar dos tambores e dos pratos.

 

Este executivo, cada vez mais se assemelha a uma patrulha de cobradores de impostos dos tempos da Idade Média: espoliam o povo dos seus parcos rendimentos, avisando-o de que tem o direito democrático de pagar e calar. Aos funcionários públicos só falta mesmo castigá-los com um chicote e expô-los atados de pés e mãos no pelourinho.

 

Temos de reconhecer que toda a confiança e ilusão depositada neste governo de direita neo-neo-liberal se transformou, rapidamente, numa tremenda desilusão e que as suas boas intenções passaram de espetáculo risível a tragédia, que se não é grega anda lá muito perto.

 

Disseram, esses prestidigitadores neo-neo-liberais, que iam ser a energia cinética do país, fazendo com que Portugal entrasse definitivamente em movimento e assim se mantivesse, para bem de todos. Mas ao que assistimos é a um país que estagnou e começa a andar para trás a uma velocidade preocupante. O desemprego não para de aumentar, a inflação continua a subir, os impostos não cessam de crescer, o PIB vai baixar ainda mais e os vencimentos descem na mesma proporção. Ou seja, todos os indicadores económicos e financeiros se agravaram. Todos sem exceção. Todos. Todos. Todos. E a recessão não cessa de aumentar.

 

“Diz-me como falas, dir-te-ei quem és”, diz a voz popular. Basta ver como discursa o triunvirato arrogante deste governo (ministros das Finanças, da Economia e PM), para sentirmos que esta gente não discursa, dá golpes verbais de uma arrogância e de um cinismo preocupantes.

 

O que este pessoal fez é pouco menos do que perverso do ponto de vista económico. Com a história do papão da dívida conseguiram que as pessoas tenham medo de gastar dinheiro. O presidente da Confederação do Comércio, João Vieira Lopes, afirmou que “a seguir ao Natal muitas empresas de retalho vão encerrar porque o Natal não compensará a perda de faturação ocorrida durante o ano”.

 

É bom lembrar aos mais esquecidos que o senhor PM está a fazer precisamente aquilo que disse que não faria e está a ir ainda mais longe do que a troika lhe pede. E a sua luta é sempre contra os mesmos, que são os bodes expiatórios de todos os males de Portugal: os funcionários públicos e os pensionistas.

 

Foi este PM, na altura ainda Pedro Passos Coelho, que afirmou ser um enorme disparate a ideia de cortar o subsídio de Natal em 2012. O povo entendeu que o homem queria dizer que o seu caminho não era esse. Mas todos entendemos mal a mensagem: o líder do PSD queria dizer era que a sua ideia ia bastante mais longe, ele pretendia cortar não só o subsídio de Natal, como o subsídio de Férias, e não apenas em 2012, mas também em 2013, e, quem sabe, em 2014, 2015 ou mesmo definitivamente.

 

Exigia-se a um PM responsável, honesto, solidário e sensível, que entre defender os direitos legítimos do seu povo e os direitos questionáveis dos credores, que nos querem sugar até à última gota de sangue, se pusesse ao lado dos seus concidadãos. O nosso PM devia batalhar ferozmente nas instâncias internacionais no sentido de minimizar os sacrifícios que todos vamos ter de suportar.

 

Mas não senhor, a criatura apenas consegue ser forte com os fracos e fraco com os fortes. Este governo não tem a menor noção de que com estas medidas está a destruir, com carácter permanente, a frágil teia de relações que sustentam a nossa coesão política e social. O PM português diz que a culpa é da troika. A troika diz que daí lava as suas mãos, como Pilatos. Mas se o Pilatos da troika é leviano, como lhe compete, o nosso é um atrevido intrujão.

 

Já o principal líder da oposição escolheu o papel de bombo da festa, abstendo-se na votação do orçamento em troca de uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Além disso, o ministro do logro, das meias palavras e de língua viperina, Miguel Relvas, quando ainda se discutia o decisão do PS, e sabendo que havia muita boa gente na comissão política nacional que defendia o voto contra, levou António José Seguro ao engano garantindo publicamente a possibilidade de uma discussão e de um entendimento sobre a posposta do corte de apenas um mês de subsídio aos funcionários públicos e aos pensionistas.

 

Mas o bombo da festa, em troca dos elogios bacocos e venenosos por parte do PSD e do CDS, que o apelidam de homem com sentido de Estado, enquanto se riem à socapa, vestiu o seu melhor fatinho e, numa pose de poeta de romance russo, comprometeu-se com um documento iníquo, estúpido, discriminador e patético.  

 

O guião desta série de suspense ainda tem outros traços de mau gosto e péssimo desempenho verbal. Pedro Passos Coelho afirmou que “só vamos sair desta crise empobrecendo”. Está claro que, com esta sua política de destruição do tecido social e económico da nação, tal afirmação é verdadeira, mas o PM, enquanto tal, devia ter cuidado com aquilo que diz. Não há memória de um líder político conseguir mobilizar os seus cidadãos contra a adversidade afirmando que com os seus penosos sacrifícios ainda vão ficar pior do que o que estão. Este homem pode saber o que diz, mas, definitivamente, não sabe aquilo que faz.

 

O executivo do PSD/CDS recuperou a ideia de Fukuyama: 2012 e 2013 serão os anos do fim da História. Acabaram as ideologias, os direitos políticos e sociais e o desenvolvimento. Agora só nos resta empobrecer.

 

PS – O PSD e o CDS apregoavam à boca cheia que para sair da crise bastava eliminar as gorduras do Estado. Por isso aconselhava uma cura de emagrecimento. Quando chegou a hora da verdade, e depois de uma procura intensa, a putativa ideia resumiu-se a eliminar os dois subsídios anuais a funcionários públicos e pensionistas. Convenhamos que é de génio.

 

 Estamos em crer que, mesmo assim, o Estado ainda fica com imensa gordura: o mês de férias que pagam ao pessoal, as férias propriamente ditas, os feriados e os fins-de-semana também pagos, o subsídio de refeição, a ADSE e os abonos de família. Isto para não falar no gás e na eletricidade que esses calaceiros gastam nos locais de trabalho, no papel, nas esferográficas, nas cadeiras, mesas, computadores, que podem trocar por máquinas de escrever, nas máquinas de calcular, que podem trocar por ábacos, nas lâmpadas, que podem trocar por velas ou candeias, e mesmo nos carros de serviço que podem trocar por carroças ou mesmo por burros, pois os cavalos são gado caro. E também pôr os polícias e a GNR a fazer as suas patrulhas a penates como no tempo do meu saudoso pai.

 

Esta rapaziada do Regisconta, que sabe trajar de fato azul, gravata bordeaux, camisa branca e sapato de couro castanho bem engraxado, e que se diz pronta a reformar o país de cabo a rabo, já abriu a caixa de Pandora. Um secretário de Estado, do desporto, creio, aconselhou mesmo os portugueses mais jovens e qualificados a emigrarem.

 

Até era bem feito que o bom povo português levasse o desafio à letra. Dessa forma ficavam eles, os cobradores de impostos e perseguidores de funcionários públicos e pensionistas, por cá a governarem as vacas, os burros, os porcos e as galinhas, que é para o que têm jeito.

 

Está visto, este governo não pretende apenas acabar com as gorduras do Estado, deseja acabar com o próprio Estado. 

25
Nov11

O Homem Sem Memória - 90

João Madureira

 

90 – Quem foi e não voltou foi o José, que se viu expulso do seminário sem apelo nem agravo.


A sua mãe nem queria acreditar. Quando o viu entrar pela porta dentro escanzelado como um cão gritou “abrenúncio” e desmaiou. Os seus irmãos começaram a chorar, o cão a ladrar, os porcos a cuincar na corte e os vizinhos encheram a pequena casa na tentativa de acudirem ao desconchavo da situação. Borrifaram o rosto da Dona Rosa com água fresca, chegaram-lhe às narinas um frasquinho de sais revigorantes e até lhe deram pequenas estaladas na cara, mas ela nada de despertar. Parecia morta. Mesmo o José, que sabia da pose teatral da sua mãe neste tipo de situações, começou a ficar preocupado. Desta vez o chilique parecia sério.


E era a sério. Demorou algum tempo e muito trabalho a despertar a Dona Rosa. Mesmo os vizinhos, e até o cão, tiveram dificuldade em reconhecer o José. “Pareces um pedinte”, disseram-lhe os vizinhos, no que foram secundados pelo latir do cachorro e pelo choro compulsivo do seu irmão Joãozinho que aparentava ter visto o diabo em figura de gente.


Em vez de ser a Dona Rosa a tomar conta do seu escanzelado filho, foi o José quem teve de apaparicar a sua apavorada mãe, que se fartou de chorar e lamentar a sua triste sina. Até este filho, que julgava predestinado ao sucesso eclesiástico, pois tinha falado na sua barriga, teimava em infernizar-lhe a vida.


Tudo eram contrariedades: o pai longe e os filhos a crescerem e a precisarem cada vez mais de comida e roupa e livros para irem para a escola… e o pai longe e os coelhos que lhe morriam com o chamorro e as galinhas que punham cada vez menos ovos apesar de comerem o dobro do farelo e do milho… e o pai longe e os porcos que não medravam e as terras a necessitarem de serem estrumadas e lavradas… e o pai longe consumindo muito do dinheiro em tabaco e vinho.


“Só me apetece fugir para o meio do monte e gritar, gritar, gritar. E morrer. Mas depois quem é que tomava conta dos meus filhinhos. O teu pai de certeza que vos deixava morrer à fome”, lamentava-se a Dona Rosa inconsolada.


Nessa mesma noite foi morta e cozida uma das galinhas que teimava em engordar e em fazer greve de zelo à nobre função de poedeira. A vizinha do lado encarregou-se de tudo. Mesmo o José, que há já muito tempo que fazia voto de jejum, alambazou-se com o pitéu. Mas vomitou-o pouco tempo depois. De manhã acordou febril e deprimido.


Já a Dona Rosa superou o choque, refez-se do susto, recuperou as forças e começou a sua magistratura de influência, pensando que dessa forma podia fazer com que o filho voltasse para o seminário. Mas o que Deus separou jamais os homens poderão unir.


Pensava ela, e bem, com o seu apurado sentido materno, que o primeiro passo a dar seria no sentido de empreender o enchimento do exíguo espaço que se encontrava entre a pele e o esqueleto do filho.

 

Durante várias semanas, o José esteve sob rigorosa vigilância maternal. Ao mesmo tempo que a Dona Rosa alimentava, com rigor e denodo, as galinhas, os coelhos e os chinos, e cevava os dois recos na corte, administrava igual trato ao seu primogénito. E tão bem o fez que os recos e o José começaram a medrar a olhos vistos. O povo, lá na sua imensa sabedoria, bem diz, para quem o quer ouvir e atentar nas suas palavras, que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.


Quando no final do mês o guarda Ferreira veio de visita a casa ver os seus e entregar parte substancial do ordenado à Dona Rosa, o José já estava com a figura melhorada. Apesar de a mãe dizer aos filhos que tinham de sentir saudades do pai, pois a boa educação assim o exige, os petizes recebiam-no cada vez mais como a um estranho.


De facto, o guarda Ferreira era para os seus descendentes a modos como um desconhecido, pois lá diz o povo, na sua imensa sabedoria, já que para isso é povo, que longe da vista longe do coração. Mesmo o cão, que é animal que reconhece sempre o seu dono, começou a dar indícios do contrário. Até os dois porcos, que foram mercados enquanto o guarda Ferreira esteve em casa de licença, o começaram a estranhar. Isto apesar de por eles ser reconhecido sempre que vinha a casa pois tinha por feitio alimentá-los com o dobro da comida com que a Dona Rosa os esfomeava todos os dias. O mês da engorda tinha significado para as duas cevas o paraíso: comida à farta e cozida no caldeirão. Daí a confusão.


“Tu também necessitas de ser engordado, estás pele e osso”, disse com um tom de relativa bonomia a Dona Rosa ao guarda Ferreira. Ele riu-se, com o seu sorriso triste e enigmático, virou mais um copo e foi para a rua esganar mais um cigarro.


Sentiu-se um homem solitário, um estranho no meio da própria família. A mulher tolerava-o porque lhe trazia o dinheiro com que alimentava, vestia e calçava os filhos. Os filhos mais novos toleravam-no porque assim eram ensinados. Aos animais era indiferente, até ao Texas, a quem tinha criado desde pequeno e só depois trazido para Névoa para guardar a casa e o quintal.


Apenas o José lhe dedicava algum carinho. Pressagiava nele a mesma sina, a mesma incapacidade para lidar com o mundo, o mesmo desajuste social, a mesma obstinação pela verdade, a mesma indiferença pela benemérita hipocrisia dos ricos. Daí o ter sido castigado por não ter aceitado ser um boneco nas mãos de uns reles contrabandistas e do ventas de larego do sargento da GNR. Daí o seu filho ter abandonado o seminário por não tolerar que, em nome de Deus, da verdade e da salvação dos justos, os padres apenas magicassem na sua vida terrena e em conviverem, sem remorso ou arrependimento, com os pecadores e os vendilhões do templo.


A mãe tinha ficado desiludida. Muito desiludida. E ainda assim continuava. Confidenciou-lhe que tinha a firme certeza de que ia ser capaz de convencer o filho a regressar aos propósitos de Deus, aos caminhos da salvação. Ele não acreditava que isso fosse possível. O José, tal como ele, nunca voltava atrás nas suas decisões. Eram orgulhosos de mais. Reagiam mal, mesmo fisicamente, ao recuo. Para eles não existia caminho de retorno.


O José veio ter com o seu progenitor e pediu-lhe um cigarro. O pai olhou-o a direito nos olhos e perguntou: “Já fumas? Olha que a tua mãe não vai gostar. Ainda vai dizer que fui eu que te meti o vício.” “Deixe-a dizer. Comecei a fumar no seminário. Lá o tempo nunca chega para a verdade, mas sobra sempre para os maus hábitos.” “Voltas para lá? A tua mãe pensa que sim. Acredita que te vai convencer a regressares.” “A mãe acredita em tudo. Até em Deus.” “E tu não acreditas?” “Deixei de acreditar depois de ler os livros sagrados onde se fala de Deus como uma entidade supremamente reaccionária, amarga, hierárquica. Quando a Igreja escolheu Deus, escolheu-o obscuro e sombrio. Eu, pelo contrário, acho que Deus deve ser alegre, igualitário, luminoso. Toda a história da humanidade fala de crianças e mulheres violadas, dá conta do ser humano a praticar a desumanidade inata sobre os outros seres humanos. Relata-nos a injustiça que há em tudo. Percebi que não pode existir um juiz bom e justo a organizar isto. É impossível. O que existe, pai, são apenas as regras da Babel, de uma humanidade cruel e egoísta.” “És capaz de ter razão, José. Tu é que sabes da tua vida.”


Olhando um apara o outro com os seus rostos muito idênticos e uns olhos simétricos, deram uma passa enorme no cigarro para encher os pulmões de fumo e expiraram o que restou para o ar fresco do entardecer.


“Venham jantar, a comida está pronta”, chamou-os a Dona Rosa da porta rodeada por todos os filhos, o Texas e um frango garnizé que era agora a mascote da família, devido ao seu comportamento atrevido com as enormes galinhas da mãe. 

23
Nov11

O Poema Infinito (75): confissão

João Madureira

  

Há mais marés que marinheiros expostos. De novo o mar se torna azul. O mar. O mar azul na sua solidão de exílio, na sua teimosia feliz. É pela minha consciência que se alarga o sítio onde as marés se enchem. Depois de uma análise paciente, o teu brilho torna-se de novo explícito. Os teus olhos são uma evidência tão antiga como o amor e a morte. Depois confesso-me e segredo-te ao ouvido tudo o que venero: o aspecto fino do cume das montanhas, o brilho minúsculo dos insetos, a substância invisível da penumbra, a nitidez do esplendor da alegria, a luz que guia o rosto dos amantes, a forma dos frutos, a lúcida sabedoria da terra, a policromia dos dias enigmáticos, os frutos que despontam nas árvores do bem e do mal, a transparência do canto dos pássaros de inverno, a tua paciência iluminada, a transfiguração dos atos solenes, a indulgência dos sábios, o perfeito sentido do lume, o ponto íntimo do desejo, o árido ritmo do prazer, o fulgor específico da paciência, todas as epifanias sagradas, a solidão dos sólidos geométricos, a imagem desfocada da eternidade, a fugaz medida de todas as tardes da nossa vida, o tempo sagrado de cada imagem revelada, o tempo infinito do tempo, os retratos que perduram na bruma, a invisível altura do primeiro beijo, a gravitação dos sentimentos, a dúvida invisível do amor, a negrura insistente das noites de inverno, a ascensão persistente do júbilo, a despicienda penitência dos caminhos velhos, a rigorosa luz eterna dos domingos, as frases que são indícios de outras frases, a feliz fragilidade do teu sorriso, a desorganização iluminada da paixão, a imagem expandida da paixão, a cor da paixão, o eco dos vestígios do sofrimento, o fogo concreto da raiva, os vestígios nus do ciúme, a eficaz ausência da glória, a fé que nos afeta a fé, os contrastes da verdade, a prefiguração da verdade, a ténue melodia da verdade, os diversos conceitos sobre o acolhimento das almas, a infância, o espanto, o espaço, o espírito, o sofrimento, a procura de sentido, a limpidez pacífica do orvalho, a tua entrega, a minha entrega, a subtileza doce de um orgasmo, a língua perentória que ameiga os sexos, a subtileza de um coito prolongado, a obediência, a humildade dos sonhos prévios, a sábia surpresa do amanhecer, a paciência eficaz, o júbilo das águas correntes, a sua diáfana transparência, a harmonia, o rigor, o ato eterno do vagar, o claro sossego da nostalgia, a extensão íntima das palavras, o seu claro uso, todos os sinais de vida, a radical presença do calor do teu corpo no meu corpo, a leitura do teu olhar, a escrita dos teus gestos, a singular pureza de um beijo, a sua leitura, a lucidez dos ventos. Parado junto ao ribeiro concentro-me no mutismo acústico das águas. Um dilúvio de brilhos evidencia o espanto dos bichos. Noé só não consegue encontrar a pomba que deve emparelhar com o espírito santo.  Por isso o caminho para o paraíso é tão demorado: por isso a nossa vida é tão breve. 

21
Nov11

A culpa e os verdadeiros culpados

João Madureira

 

A vida tem muitas surpresas. Por exemplo, o Príncipe Carlos de Inglaterra admitiu descender de Vlad, o Empalador, figura romena que inspirou o Conde Drácula. Por seu lado, Thomas Beautie, o transexual que ficou conhecido como o primeiro homem a ficar grávido, após gerar três filhos, afirmou que fechou a fábrica. Com a consciência pesada, Madonna, a cantora pop norte-americana, que é muito conhecida por adotar crianças, desmentiu a sua ligeireza afirmando: “Eu não sou superficial – gosto de flores, cavalos, natureza…”

 

Depois de discutir com os meus amigos, entre a chalaça e o desespero, temas tão pertinentes como os acima referidos, fui para casa aclarar as ideias. Todas as coisas, tanto faz que sejam boas ou más, nunca permanecerão o tempo suficiente para serem verdadeiramente importantes. Isso é o que nos diz qualquer rio ou montanha. Podemos sujá-los, cortar árvores, que a natureza e o tempo continuarão a curar-se e a sobreviver-nos. Por vezes esquecemo-nos disso e começamos a levar a sério a fealdade humana. Mas mesmo a barbárie foi temporária, à semelhança de tudo o resto.

 

Depois pensei no pecado, em Deus e no Demónio. Quando era rapaz gostava de me lembrar de Jesus e do seu exemplo. Agora penso ser essa a menor das minhas preocupações. É que se houver céu, estará quase deserto. E se existir inferno estará a abarrotar. Por isso muitos dos “chamados” vão ter de esperar vaga de pé. Os hipócritas estarão na fila da frente e, com toda a certeza, haverá uma fila especial para papas e boa parte do clero. E ainda uma segunda, simétrica, e terrivelmente competitiva, constituída por políticos e economistas.

 

Já José Rodrigues dos Santos, que é jornalista, apresentador de televisão e escritor de romances de sucesso, é vinho de outro cálice, ou hóstia doutro prato, pois evocou Jesus e logo pensou nele para tema do seu último livro “O Último Segredo”. Mas a originalidade não ficou por aí. Numa entrevista respondeu desta forma magnífica à pergunta sobre a sua originalidade: “Eh pá, e se Jesus voltasse à Terra? Era capaz de dar uma boa história para um romance.”

 

O problema, por vezes, está quando se conduz. Pedro Santana Lopes escreveu no “Sol” que “falar, escrever ou ler em andamento é perigosíssimo e coloca em risco a vida de outros”.

 

A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, ainda sem tempo para ouvir os avisos do seu colega de partido, viu-se envolvida num choque de viação em cadeia que resultou no atropelamento de uma idosa numa passadeira, em Faro. A notícia foi avançada no “Correio da Manhã”,  que citou fonte da PSP. O jornal informou que a titular do segundo mais alto cargo da nação não conseguiu travar a tempo o carro onde seguia sozinha "e embateu numa viatura, que tinha travado para uma idosa atravessar a passadeira". O automóvel embateu no carro à sua frente "e este atingiu a mulher, que ficou ferida com gravidade e foi transportada para o Hospital de Faro", escreve o “Correio da Manhã”.

 

Nem Assunção Esteves, para nosso descanso e para o descanso da nossa república democrática, nem qualquer um dos outros condutores sofreram qualquer ferimento, adiantou o jornal diário. O que o diário sensacionalista não avançou foi se Assunção Esteves vinha a falar, a escrever ou a ler em andamento. Se calhar vinha a pensar alto sobre a sua recente reforma. Pois, esta personagem importante do partido que deu origem ao governo angélico e procrastinador que nos quer resgatar do inferno e enviar-nos a modinho para o céu, reformou-se aos 42 anos, com 2.445€/mês, após 10 anos de trabalho.

 

Em entrevista à “Caras”, pois quem vê caras não vê corações, a elegante e loira presidente do parlamento lembrou-se dos bons velhos tempos: “Tive um fato Giorgio Armani, que comprei em Bolonha e que usei até rasgar as bainhas”. Estamos em crer que agora, reformada e no ativo, já não vai recorrer à costureira para lhe subir as bainhas do seu GA. A almofada económica da sua pequena reforma serve à justa para se vestir na sua loja preferida.

 

Mas enquanto a loira senhora presidente do parlamento, esse templo da democracia, vai amealhando para a roupinha, os portugueses, vítimas da enorme recessão, gastam mais com cães do que com bebés. Pudera, o que por aí há mais são cães, agora bebés não, custam muito a parir, a alimentar, a vestir e a educar. Os cães saem mais em conta e dão muito menos trabalho.

 

Já o presidente do PSD, e nosso primeiro-ministro, funileiro a tempo inteiro, depois de depenar os funcionários públicos e os pensionistas, avança de tesoura em riste e propõe mais cortes na saúde, na educação e na segurança social. Um jornalista manhoso do “Expresso”, provavelmente um socialista pago pelo engenheiro Sócrates e, talvez, casado com uma funcionária pública, perguntou-lhe se, perante as mentiras por si proclamadas durante a campanha eleitoral de que não ia mexer nos salários, nem aumentar os impostos, não devia pedir perdão a alguém. O nosso PM foi peremtório: “Não sinto que tenha de pedir desculpa aos portugueses.”

 

Na nossa modesta opinião, penso que o senhor PM sente que quem tem de pedir desculpa são os portugueses ao PM por existirem. Fontes bem informadas garantiram ao “Expresso” que algum ministro terá lembrado, e bem, estamos em crer, que “a função pública não é a base eleitoral deste governo”. Portanto, os crápulas que paguem a crise.

 

Ele há coisas do diabo: todos os indicadores económicos da conjuntura não fizeram senão agravar-se depois da tomada de posse do novo governo da nação – todos sem excepção. E sabem quem é o culpado? José Sócrates. Daí este executivo não fazer mais nada a não ser cortar nos ordenados e aumentar impostos diretos, indiretos e diferidos.

 

O senhor PM, também conhecido por PPC, diz que, além de não ter de pedir desculpa aos portugueses, pretende atingir em 2012 um défice de 4,5%. No entanto, a Irlanda, que está a regressar ao crescimento, vai ter, no mesmo período de tempo, um défice de 8,6%. 

 

É bom lembrar que o líder do PSD chumbou o PEC 4 porque, afirmava, a austeridade aí proposta era excessiva. Agora, por obra e graça desse doutor do embuste político, passámos para uma austeridade necessária, que os funcionários públicos e os pensionistas vão pagar com língua de palmo. Para quem chamava mentiroso a José Sócrates, é irónico, senão trágico. E quanto à verdade por si propalada, estamos falados.

 

Até apostámos que daqui a um ano a economia e as finanças estarão de rastos e que os verdadeiros culpados serão o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a dois anos as finanças e a economia estarão de rastos, e que os verdadeiros culpados serão novamente o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a três anos a economia e as finanças estarão de rastos e os verdadeiros culpados continuarão a ser o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a quatro anos as finanças e a economia continuarão de rastos e que os verdadeiros culpados serão o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas.

 

Enquanto o PSD estiver no governo a culpa será sempre do engenheiro Sócrates, da crise internacional… e dos funcionários públicos e dos pensionistas. E também de todo o povo português, claro está (e da crise internacional e dos funcionários públicos e dos pensionistas), a quem o PM não sente, nem nunca sentirá, necessidade de pedir desculpa.

 

A quem o PM sente necessidade de pedir desculpa é à crise internacional, que apenas atacou a nossa economia no primeiro dia em que este governo de anjos, santos e ministros franciscanos tomou posse.

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