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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Dez11

O Homem Sem Memória - 95

João Madureira

 

95 – O José passou cerca de um mês no hospital a recuperar dos ferimentos e outro mês em casa a reconquistar o ego. Das contusões e dos ossos fraturados recobrou sem mazelas evidentes. Já a recuperação dos rasgos na pele fiou mais fino.


Os médicos coseram e trataram os cortes como souberam e puderam. E muitos que eles foram. Uma costureira não teria feito melhor. O filho do guarda Ferreira ficou para toda a vida com 25 suturas resultado de outras tantas facadas e coronhadas. Talvez tantas como Jesus se tivesse sobrevivido aos ferimentos, ao flagelo da Via Crucis e à posterior crucificação. O ponto alto do sacrifício do Cordeiro de Deus.


Ninguém sabe bem como depois de ressuscitado, Jesus, agora Cristo, apareceu aos seus apóstolos. Disso não há registo algum. Nem oral, nem escrito. E sobre o assunto a Bíblia também nada adianta. Mas estamos em crer que se o filho de Deus, e da Virgem Maria, tivesse sobrevivido era bem capaz de ter ficado como o José, com o corpo pejado de extensas cicatrizes e linhas de pele suturadas com agulha e guita apropriadas. Valha-nos ao menos isso.


À primeira vista, o José apenas patenteava uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, o que lhe dava um ar verdadeiramente aproximado ao Django, um herói dos filmes de Western spaghetti muito apreciado na altura. Os amigos, quando o viam aproximar, assobiavam-lhe as melodias aprendidas nas matinés do Cine-Teatro e faziam que disparavam armas de fogo, soprando no dedo indicador como se ele fosse o cano de um revólver justiceiro.


Ele sorria e retribuía o assobio e um que outro disparo. Também não se esquecia de bufar na direção do seu indicador, imitando rigorosamente a postura, o charme e a coragem do herói cinematográfico.


Escusado será dizer que o José se tornou uma lenda na cidade. A sua coragem e a sua determinação passaram a ser admiradas pelas pessoas de bem. Muitas delas pediam-lhe para exibir as “medalhas”, o que ele fazia sempre que o local e a assistência permitiam a apresentação das suas reverenciadas cesuras.


A mãe aconselhou-o a matricular-se no Liceu para acabar o sétimo ano. Lá matricular matriculou-se, mas não ia às aulas. Começou a achar piada à boémia estudantil. Fundou um grupo de poetas e com eles começou a visitar diversas casas de boas famílias que diziam apreciar poesia e principiou a frequentar tertúlias vagamente culturais e saraus militantemente intelectuais. 


Inspirado na leitura de distintos poetas portugueses e estrangeiros passou a escrever poesia espiritual. Era capaz de demorar um dia a escrever uma quadra, desperdiçar outro a alterá-la de fio a pavio e ainda consumir um terceiro a riscar palavra a palavra até nada dela restar.


Incapaz de ajeitar versos que enaltecessem com talento Deus e toda a sua Corte Celeste, virou-se para a poesia trovadoresca, mas as loas saíam-lhe pífias e pleonásticas. Por vezes lia-as aos amigos nos dias das reuniões ordinárias do grupo e, apesar de muitos deles lhe elogiarem a rima e o acerto de algumas figuras de estilo, ele não se sentia confortável e rasgava-as ali mesmo, na presença de todos, para dessa forma radical serem testemunhas privilegiadas da sua busca da qualidade e da perfeição, argumentando que um bom poeta demora anos a fazer-se, além de ficar caro em papel deitado ao lixo e tinta gasta em escrever coisas inúteis e isentas de genialidade.


Muitos dos amigos argumentavam que o ótimo é inimigo do bom e que também os génios nunca se deram conta que o eram e por isso é bem possível que, também eles, tivessem atirado coisas geniais ao lixo pensando que eram apenas boas e guardado coisas apenas boas pensando que eram geniais, pois não existem bons juízes em causa própria. Além disso os génios são sempre tão modestos que, só depois de mortos e enterrados, é que se lhes reconhece o mérito. E nem sempre.


Lembravam-lhe que os génios só conseguem esse estatuto quando já são apenas memória, uma memória quieta e afável que põe qualidade numa obra que até ao momento da descoberta dos críticos era apenas um conjunto disperso de bons poemas.


A crise de inspiração fê-lo penar e meditar muito. Meteu-se em casa e começou a magicar nas causas das coisas, nomeadamente na sua falta de jeito para a versalhada. Depois de muito cogitar chegou à brilhante conclusão de que o que lhe estorvava o génio e o jeito eram as suas vivências. Até ali apenas tinha convivido com gente analfabeta e pobre. Dali nada podia surgir como verdadeira inspiração para uma poesia realmente poética.


Poesia a enaltecer a pobreza e as suas virtudes era coisa para burgueses, católicos pindéricos e padres. A verdadeira poesia, desde os primórdios, enaltecia o amor e as relações amorosas. Era aí onde residia o cerne da questão.


Mas para cantar o amor e as relações carnais eloquentes tinha de experimentar. A professora Marília bem explicava nas aulas de filosofia: Primum vivere, deinde philosophari. E ele tinha vivido tão pouco que a sua filosofia tendia a sair-lhe sem sentido e despida de ideias. E, bem vistas as coisas, a poesia é a forma superior da filosofia. A poesia, à semelhança da filosofia, tende a do nada completar tudo e vice-versa, que é a forma mais nobre de redimir a condição humana. Pois a vida dos homens resume-se a falar, comer, trabalhar e fornicar. Da comida e do trabalho tratam as ciências exatas e as que lhe estão próximas, do falar e do fornicar trata a poesia e a filosofia. 


Claro que o José podia, com a experiência que tinha, dedicar-se a escrever romances ou coisa que o valha. Mas ainda era jovem e os romances dão muito trabalho. Tem de se passar muito tempo com a caneta na mão, tem de se alinhavar muito enredo, tem de se organizar um esquema ou vários, tem de se inventar personagens, tem de se passar tempos infinitos a escrever e a corrigir, a corrigir e a escrever e, na maioria dos casos, depois de tanto porfiar, o calhamaço, que deu uma trabalheira imensa a escrevinhar, ou vai para a gaveta ou para o caixote do lixo.


O José, todos o sabemos, até era um rapaz corajoso e, convenhamos, moderadamente trabalhador, só que não se sentia naquela altura com coragem para enfrentar tamanha tarefa. Daí o ter optado pela poesia. Um poema escreve-se num dia, gasta-se uma folha de papel, ou duas se for revisto, e se não prestar, a desilusão não é muita. Nem o trabalho, concordemos, pois rasgar uma folha é fácil, já rasgar quinhentas folhas datilografadas é quase um enforcamento por empenho próprio.


Por isso escrever poesia dá algum estatuto, faz bem ao ego e não nos torna escritores obsessivos. Outra coisa bem distinta é passarmos anos a escrever um romance e depois, pelas razões já anteriormente apontadas, termos de sentir que todo aquele trabalhão foi um desperdício de ideias, tempo e energia.  

28
Dez11

O Poema Infinito (80): literatura acidental

João Madureira

 

Levitas num sossego que me traz os astros de volta, por isso te falo nos modos próprios de escrever. Utilizo os cânones da literatura acidental. A última história tem meio ano de choro e outros seis meses de riso. A voz canta a adelgaçada estratégia dos corpos desastrados. Oiço palavras que germinam na gloriosa cultura das cobras e na harmoniosa levitação do gelo polar. Oiço palavras que caem do ar como penas de choro e lamento e reúno-as num cesto de verga. Deuses gregos e latinos fodem como loucos dentro dos armários da casa. Nós deitamo-nos solitários e deixamo-nos mastigar pela luxúria da carne em combustão. Fugimos da nossa idade de crianças atados a pombas de metal que já fizeram de Espírito Santo em poemas de Fernando Pessoa. Cada vez mais a paciência fornece o combustível da escrita. Um poema é como uma curva de um caminho onde uma macieira deixa cair os seus frutos. Já fui pastor de vacas doces e de ovelhas líricas e andava pelos montes com um cajado aristotélico e inscrevia montanhas nuas em cadernos de erva. Agora é o tempo em que trago a família para casa pelas escadas que se desfazem no tempo. A sua memória é cada vez mais uma alegria triste. É um poema desfeito repleto de palavras duras. As suas bocas de pó sobem pelas paredes e cantam nas suas vozes de madeira seca. Lá fora a chuva cai na sua paciência de água. Cá dentro protejo-me do desespero alimentando-me com o fogo da lareira. O rigor do velho escano estende a inexorável evidência do tempo e do seu poder de destruição absoluta. No meu colo, onde outrora descansava o gato cinzento, dorme hoje o livro do génesis aumentando as dúvidas e as certezas num processo de fissão nuclear. Ao longe os cães que restam latem no seu tom difuso de asma e violência. As rodas dos carros já não andam nem chiam e as mãos das mulheres já não acariciam nem dominam o fogo. As caçarolas redondas onde se fritava o presunto e as batatas enferrujam penduradas em pregos. Sou um ponto parado no branco absoluto de uma folha de papel. Na minha face insiste o trânsito ininterrupto das rugas. Ao fundo a roda de granito do antigo moinho permanece na sua solidão circular. Lembro-me de a minha avó, sentada no seu tosco banco de carvalho negral, reverberar pensamentos enquanto olhava fixamente para o bruxulear das labaredas da lareira. Na minha cabeça animaizinhos inocentes faziam gestos budistas e os bois repetiam as histórias que me contavam. Agora é o sino da igreja quem me badala a memória. De encontro à janela, a chuva continua a desdobrar-se com a pose de um cientista. A noite começa a construir a sua liturgia de sono enquanto eu metamorfoseio metáforas absolutas de saudade. 

26
Dez11

O fado e o corridinho

João Madureira

 

Olho lá para baixo, onde o Tâmega corre sereno encostado às margens, fixo o olhar nos velhos arcos da ponte Romana e de seguida desvio os olhos mais para o lado direito, na direção do casario velho e abandonado, enquanto oiço o trio de jazz Carlos Bica & Azul e tento lembrar-me de uns versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces / basta de balancé entre o que é, o que virá, o que não é. / Basta de poetas com as mãos cruzadas / e de operários a cair de sono. / Somos poucos mas vale a pena construir cidades / ou morrer de pé.

 

O dia está tristonho e é isso que me leva a ler uma entrevista de Lars Von Trier ao Expresso, realizador que acaba de ganhar um prémio com o seu filme “Melancolia”. Lembro-me da minha paixão pelo cinema, lembro-me da importância do cinema na minha vida, na vida dos meus amigos, na vida da cidade. Lembro-me do saudoso Cine-Teatro, encerrado há muitos anos, e atualmente propriedade da Câmara de Chaves, que nunca conseguiu construir naquele privilegiado espaço central algo de útil para a cidade. E lá continua ele a servir de casa aos ratos e às aranhas. Deus do céu, tanto desperdício, tanta má gestão, tanta frivolidade, tanto abandono, tanta ausência de sensibilidade perante os símbolos da nossa vida colectiva. Deus do céu, tantos projetos falhados, tanta demagogia barata, tanta promessa falsa… tanto abandono.

 

Lars Von Trier, realizador de dois filmes soberbos (Breaking the Waves e Dancer in the Dark), não conseguiu definir-se sobre a sua última película. “Mas este filme é sobre quê?”, perguntaram-lhe, ao que ele respondeu: “Eu não sei.” Foi a partir daqui que comecei a cinematografar o meu filme interior. Esta gestão autárquica do PSD está tão cansada que já não sabe onde está o norte. O presidente vai gerindo o dia-a-dia como pode e sabe, enquanto seu vice se desdobra em almoçaradas, lanches e jantaradas. O senhor presidente delegou a visibilidade no seu vice como quem dá uma trotineta a uma criança traquina e embirrenta, na esperança de que o liberte do pesado fardo da gestão e da dívida.

 

Em abono da verdade, é necessário que se diga que com a conjuntura atual todo o exercício de governação autárquica e nacional é um bico-de-obra. Mas o que verdadeiramente dói é a falta de seriedade. Ainda me lembro de o PSD local prometer uma gestão autárquica que iria fazer com que o concelho ganhasse projeção, contribuindo dessa forma para o aumento e fixação da população residente. Mas, ao contrário, o nosso concelho perdeu gente, valências, protagonismo e capacidade de atração turística.

 

Diga-se, em abono da verdade, que cumpriu com a promessa de construir o Mercado do Gado, o Mercado Abastecedor e a Plataforma Logística. Mas, o que à primeira vista podia ser uma mais-valia, revelou-se um enorme erro de casting. O Mercado Abastecedor, enquanto tal, nunca funcionou e a Plataforma parece um parque industrial abandonado sem utilidade alguma, onde crescem as giestas e os tojos, onde instalações por estrear estão como se por elas tivesse passado a fúria das manifestações dos indignados, com os vidros partidos, as portas batidas e as ruas cercadas de ervas daninhas.

 

Ainda me lembro de ver o senhor presidente da Câmara, rodeado por todo o seu elenco camarário, nas manifestações contra as portagens nas SCUT e contra o encerramento da urgência no Hospital de Chaves. E não se limitava a marcar presença, discursava com empenho, com denodo, com coragem, dava entrevistas contundentes em que prometia luta e mais luta e todo o seu empenho na defesa dos direitos inalienáveis das gentes do Interior Norte. E a defesa dos direitos do povo que o elegeu, e que nele se reconhecia, ficava-lhe bem. Estava de acordo com o seu argumentário político, com o seu ideário social-democrata.

 

Mas isso foi enquanto o Governo era socialista, agora que lá estão os seus, diz-se surpreendido com a extinção de valências e de serviços e com a desclassificação da urgência médico-cirúrgica no Hospital de Chaves. E relativamente ao pagamento de portagens na A24 não se lhe conhece uma única declaração. Sobre isso nem sim nem sopas. Mas ainda há mais, o pólo da UTAD de Chaves vai acabar, por imposição da administração de Vila Real e, sobre isso, nem sim nem sopas. Talvez tenha ciciado algumas palavras em conversa com alguns membros da direção, mas quanto a tomadas de posição incisivas e enérgicas prefere gerir o sossego. O Governo, através da truculenta ministra da Justiça, pretende desqualificar o Tribunal de Chaves e centralizar serviços em Vila Real. Mais uma vez a nossa autarquia deixa isso para uma próxima oportunidade.

 

Está visto que o PSD local ostenta a mesma cara enganosa do PSD nacional. Quando é oposição tudo promete e quando é poder tudo cala e consente.

 

E enquanto todo este filme acontece, o que é que dizem e escrevem os nossos estimados deputados eleitos pelo nosso distrito? Pois enquanto o poder central laranja destrói todas as nossas potencialidades, fecha serviços, encerra instituições e aumenta impostos de uma forma obsessiva e estúpida, pois, enquanto tudo isso acontece, os nossos estimados deputados do PSD congratulam-se com a escolha do fado para património da Humanidade. Rejubilemos!

 

O Hospital de Chaves perde qualidade e serviços, cantemos-lhe um fado. Vamos pagar nas SCUT, cantemos-lhe outro fado. A UTAD fecha o anémico pólo de Chaves, cantemos-lhe ainda idêntico fado. O Tribunal vai passar a ser uma sala para fazer alguns julgamentos, então tanjam as cordas para todos entoarmos o fado do Embuçado, ou da Samaritana.

 

Os senhores deputados deviam tentar explicar ao povo que os elegeu a razão porque, ao contrário do que foi afirmado insistentemente por Pedro Passos Coelho, afinal sempre há um excedente de 2 mil milhões que, apesar de não ser excedente nem uma folga, é uma receita suplementar que dava e sobrava para pagar aos funcionários públicos pelo menos um dos subsídios. Mas não, o senhor PM preferiu doar esse dinheiro à banca, coitada dela tão descapitalizada, tão benevolente, tão caridosa. E vai mais um fado.

 

Olho para a minha secretária e, enquanto bebo um copo de água para acalmar a minha indignação, leio na capa da revista LER uma frase de Mário Soares: “Tentei muita coisa, até poesia.” E penso no senhor vice-presidente da Câmara e nas suas tentativas de ser também alguma coisa. Até tentou ser deputado. Apesar de eleito, foi e veio sem ter feito nada por si e, sobretudo, por nós, pela nossa região. E como diz o povo, e lembra semanalmente Pacheco Pereira na revista Sábado, é bem verdade que quem nasceu para lagartixa nunca poderá chegar a jacaré.

 

No seu ar ligeiramente afetado, vendo o país a afoguear-se, e o nosso concelho a ser roubado dos seus direitos mais elementares, o senhor vice, falando em nome do seu partido, vem a lume propor a criação de Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega, que ninguém sabe bem para o que serve, a não ser para criar mais uns tachos para alguns apaniguados.

 

Posto perante os graves problemas com que nos defrontamos, o nosso vice camarário propõe uma coisa inócua, inodora e insípida que mais não pretende do que ser uma manobra de diversão com a nítida intenção de esconder o Hospital, as Portagens, o Tribunal e o Pólo da UTAD. Posto perante os gravíssimos problemas com que o nosso concelho se defronta, o vice camarário canta-nos o fado do engano. Estamos em crer que os flaviense não se vão deixar cair no embuste.

 

O vice camarário, mais o seu grupo de apoiantes, já não são parte da solução para o novo ciclo de poder autárquico, são a parte cada vez mais visível, e previsível, do problema que constituem para o seu próprio partido, para a cidade de Chaves e para o nosso concelho.

 

Cá para nós que ninguém nos ouve, o que esta gente está a precisar não é de um fado mas sim de um corridinho à transmontana.

 

Volto de novo ao Carlos Bica, ao Azul e ao Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces…

23
Dez11

O Homem Sem Memória - 94

João Madureira

 

94 – Encontraram-no a curtir a borracheira, enquanto dormia numa cama abraçado a duas mulheres, que alguém identificou como mãe e filha. Quando o guarda Ferreira, entrando no tugúrio, deu com os olhos no seu filho vagamente iluminado por alguns raios de sol que teimavam em penetrar pelo telhado, emocionou-se como nunca o tinha feito na vida.


Ali estava aquela alma de Deus, carne da sua carne, sangue do seu sangue, novamente seco como as palhas, enfiado numa sotaina rota, que lhe deixava ver as vergonhas, de barba e cabelos desgrenhados, abraçado a duas mulheres dupla ou triplamente pecadoras, respirando profundamente como se fosse um anjo fornicador.


Quando lhe perguntaram se aquele era o seu filho limitou-se a responder: “Acho que sim.” O tenente, que, finalmente, tinha resolvido comparecer em território conquistado, virando-se para ele com toda a sua autoridade de juiz, questionou-o de novo: “O senhor agente aqui não acha nada. Ou sim ou sopas?” “Então sim, senhor tenente. No entanto sinto que se esse é o corpo do meu filho, penso que a sua alma já aí não habita.” “Isso da alma é lá com Deus. Eu, enquanto agente da autoridade, apenas estou autorizado a tratar de corpos e dos delitos que eles cometem.” 


Quando acordou, após ter sido regado com um balde de água fria, o José inquiriu furioso: “Quem foi o Judas? Eu também exijo que o Judas me dê o beijo da sua alta traição. Quem foi o Judas? Exijo que o Judas que me beije senão será amaldiçoado para todo o sempre.”


Mas à sua frente não apareceu o Judas, mas sim o nosso conhecido exorcista de cruz em riste, que não o beijou mas aspergiu sobre ele toda a água benta que transportava na caldeirinha. O José, possesso, não pelo demónio, como era espectável, mas por uma fúria cega, surda e muda, foi-se a ele com toda as forças que ainda possuía e tombou-o de um soco apenas. E olhem que o senhor abade afugentador de demónios pesava para aí cem quilos, ou até um pouco mais.


De imediato foi ele deitado ao chão por um grupo organizado de guardas. O seu pai ainda tentou deter a investida mas foi abalroado pelos colegas. Na guerra não se limpam armas, não se prezam amizades, nem se respeitam laços familiares.


O José continuou a debater-se enquanto levava murros, coronhadas e pontapés. Quando o viu devidamente manietado, e sangrando abundantemente do nariz e da boca, o exorcista, com a raiva do Demo e a impaciência de Deus, encaminhou-se na sua direção e cuspiu-o. De seguida, pediu uma garrafa de vinho e esbanjou-a, derramando todo o seu líquido, que uns dizem ser o sangue de Cristo, em cima do rosto atormentado do José.


“Embebeda-te mais um pouco, porco violento, que é para o que serves. Para Deus, e eu sou sua testemunha privilegiada, já não tens serventia nenhuma. Vai para as profundas dos infernos, tinhoso. Some-te daqui. Deixa esta gente em paz.” E ali se pôs a rezar bem alto para que Deus o ouvisse e lhe desse uma mãozinha em tão intricada missão. Para o exorcista, o José não estava possuído pelo demónio, ele era o próprio demónio.


No exato momento em que o cabo Pires ajudava a levantar o abalroado guarda Ferreira, justificando como podia a fúria cega dos seus subordinados imediatos, apareceu-lhe por detrás o seu superior direto que o felicitou pelo seu brilhante desempenho e pelo desempenho brilhante dos seus imediatos subordinados.


No momento exato em que o cabo Pires sorria para o sargento Elias, enquanto o guarda Ferreira sacudia o pó do seu capote azul e olhava triste para o seu inanimado filho que, esparramado no solo, continuava a sofrer as investidas coléricas do exorcista, apareceu-lhe por detrás o seu superior imediato que felicitou o desempenho do seu subordinado imediato e dos outros subordinados da cadeia hierárquica, felicitação que foi endereçada ao seu subordinado imediato, que logo a transmitiu a todos os soldados e praças da GNR, como era seu dever, incluído o guarda Ferreira, apesar de ter sido também ele vítima da fúria da razão, da ordem e da lei.


Com a moral em cima, os soldados da GNR sorriam de satisfeitos, enquanto as mulheres choravam e gritavam e os seus homens permaneciam quedos e mudos como penedos. Sem forças, prostrado no chão, o José piscou os olhos na direção do seu demónio de estimação. O exorcista arregalou os luzeiros e fez o mesmo.


Nestas coisas da religião é muito frequente cada um sentir-se como fazendo parte das tropas de Deus, atirando sempre para o outro o anátema de fazer parte dos exércitos de Belzebu. Cada um tem a sua teima.


Estavam todos neste equívoco de alma quando, vindo por detrás das largas costas do tenente Sampaio, deu entrada em cena a temível Dona Rosa que, na companhia do seu fiel cachorro, se dirigiu ao chefe da GNR, interpelando-o da seguinte forma: “Quem foi o filho da puta que bateu no meu filho? Quem foi?” Mal o graduado das forças da ordem de Névoa deu meia-volta, a mãe do José foi-se caras a ele com a sua faca de cortar carne para os salpicões e só não o golpeou com a fúria de uma cadela raivosa porque o guarda Ferreira, mesmo a tempo, lhe desviou a estocada com um habilidoso golpe de braço. O tenente Sampaio ficou branco como a cal com que se pintam as paredes das casas para receber o Compasso nos domingos de Páscoa.


Nesse preciso momento as mulheres deixaram de chorar e começaram a aplaudir a destemida progenitora do José. O José, fitando a sua mãe que agitava no ar a faca com que pretendia sangrar o porco do tenente, rodeada pelo marido, pelo sargento Elias e pelo cabo Pires, deu um pulo felino e, arrancando a cruz das mãos do exorcista, vergastou-o tanto e tão ferozmente como Cristo o fez aos vendilhões do templo.


Se não fossem os subordinados diretos do cabo Pires a agir prontamente, a pedido do imediato superior hierárquico e sob a ordem direta do tenente Sampaio, o exorcista podia ter sido chacinado, dependendo do ponto de vista, às mãos do seu demónio de estimação, ou de um dos servos mais diletos e mais utopista de Deus Todo Poderoso.


De novo o José foi deitado ao chão e espancado como um pobre de Cristo. De novo o guarda Ferreira foi derrubado quando tentou interpor-se entre os colegas e o seu primogénito. Só que agora estava a Dona Rosa em campo, que, em vez de desmaiar, como era sua mania, foi-se a eles como São Tiago aos mouros. Mas como em vez de espada comprida e refulgente apenas alçava a tal faca de cortar a carne para os salpicões, a sua investida foi prontamente abortada, pois o cabo Pires, para que a luta entre a família de um guarda contra a sua corporação não se transformasse num motivo de chacota para o povoléu miserável do bairro, passou-lhe uma rasteira que pregou com a mulher do guarda Ferreira no chão.


Vendo a família toda no chão, o mastim da Dona Rosa, guiado pelo seu instinto de cão, dirigiu-se ao tenente Sampaio e só não o ferrou nas jugulares porque o sargento Elias pegou na sua pistola de guerra e disparou um tiro certeiro mesmo no coração do animal.


Vendo a família Ferreira dominada, o bairro subjugado e o exorcista fora de perigo, apesar de muito maltratado, foi dada ordem aos funcionários camarários para virem recolher os corpos dos cães abatidos. As galinhas deixaram-nas para serventia dos indigentes. Afinal eram boas almas cristãs, chefiados por um comendador de Deus e da sua Madre Igreja. Foram ainda chamadas duas ambulâncias dos bombeiros, uma dos de baixo e outra dos de cima, para não ferir suscetibilidades, para recolherem os feridos civis, pois os soldados atacados pela fúria do lumpen foram socorridos pelas ambulâncias militares. 

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