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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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30
Mar12

O Homem Sem Memória - 108

João Madureira

 

108 – Arreliado, muito arreliado, desiludido, muito desiludido, e ofendido, muito ofendido, o José foi desaguar a casa do Fernando onde reinava a mais terna e mais alegre das anarquias.


O Fernando, quando o viu entrar, admirou-se, pois já há largas semanas que não passava lá por casa.  “Então herói antifascista, o que te traz por cá?”, disse para meter algum humor na conversa. Mas o José não lhe deu troco. No entanto, para se armar, propôs: “Desafio-te para jogarmos uma partida de xadrez.” “Xadrez a esta hora do dia, com a revolução na rua e a liberdade a passar por aqui, estás mas é doido. Doido varrido!”, contrapôs o Fernando que não gostava mesmo nada de jogar xadrez durante o dia e detestava ainda mais ter como adversário um amigo que não dava luta nenhuma.


O José insistiu: “Vá lá, só uma partida para eu pôr as minhas ideias em ordem.” O Fernando em pose de conselheiro: “Esse é o teu grande problema: quando jogas xadrez pensas noutras coisas e quando pensas noutras coisas limitas-te a jogar xadrez mental. Olha que as pessoas não são peças de xadrez. Não se jogam, não se movem num tabuleiro por nosso capricho. E se o caprichoso não souber movimentá-las convenientemente ainda é pior. Além disso, convém separar as águas: uma coisa é jogar um jogo, outra bem diferente é jogar com a vida, com as oportunidades, com as expectativas das pessoas, com os seus sentimentos, com os seus valores. A vida não é um jogo…”


“Nisso é que te enganas. A vida é um jogo. E a cada um toca jogar de acordo com a vontade do Mestre. Quando tu mexes uma pedra no tabuleiro não foste tu que a mudaste, foi alguém por ti, tu limitaste-te a movimentar a peça, mas quem pensou a jogada foi o Mestre”, retorquiu o José armado em filósofo do xadrez.


Mas o Fernando não se deixou levar pelo paleio: “Se quando tu jogas é o tal Mestre que te informa, então tens que mudar de Mestre pois o teu pode saber tudo mas, com toda a certeza, jogar xadrez é que não.”


E o José armado em democrata-cristão, ou mesmo em cristão puro e duro, coisa de que o Fernando desconfiou logo e nós, que o conhecemos um pouco melhor, também torcemos o nariz: “Tu sabes lá se o meu Mestre não é igualmente o teu Mestre, só que, como não pode ganhar dos dois lados do tabuleiro, por ser humanamente incompreensível, e empatar não serve a ninguém, opta por deixar-te ganhar para não acreditares nele, para eu poder acreditar.”


“Mas o que tu acabas de dizer é uma rematada idiotice. E tu não és idiota. Podes fazer-te de idiota, podes falar como um idiota, podes até comportar-te como um idiota, mas tu, mesmo que queiras, não és um idiota. Aí nem o teu Mestre te pode enganar. E se existir o tal Mestre, é bem provável que não seja idiota. Ou o seja apenas quando te comanda a mão quando jogas xadrez comigo”, disse desassombradamente o Fernando.


Mas o José tornou à teima, pois podia ser mau jogador de xadrez mas não era rapaz para se deixar vencer numa disputa dialética. As aulas de Retórica no seminário para alguma coisa tinham servido. E, como todos os que somos crentes sabemos, tudo o que não mata, salva. Por isso teimou forte e logo com um lugar-comum, que não tem compreensão humana nem resposta racional: “São insondáveis os caminhos do Senhor.”


“Tu andaste a meter-te na pinga?”, questionou-o o Fernando já a ficar um pouco admirado com tanta embirração filosófica e metafisica. “Não. Ando a tentar meter-me na política”, desabafou o José. E o Fernando: “Então não escolheste já o teu trilho? A prisão não te iluminou o caminho? A repressão não te abriu os olhos?”


Ao que o José respondeu: “Na prisão jogava xadrez contra mim próprio e nem mesmo assim conseguia ganhar.” E o Fernando, um bocadinho para o irónico: “Lembra-te que era o teu Mestre que estava do outro lado do tabuleiro. Quando veste a tua pele vê-se na obrigação de mexer as pedras para perderes. Quando se põe do outro lado só sabe ganhar. Por isso é que perdes sempre. Ele faz-te perder ao xadrez para te ganhar a alma. O xadrez é apenas o seu caminho. Tu disseste ainda há pouco que são insondáveis os caminhos do Senhor. Depois de pensar um pouco no assunto, acho que começo a entender-te a ti, ao teu Mestre, ou Senhor, e até os seus caminhos. Fazer-te perder ao xadrez comigo, e até contigo mesmo, é um caminho de redenção tão subtil, mas tão subtil, que só o teu Mestre é que é capaz de tal façanha sem que o comum dos mortais se possa aperceber do absurdo da situação.”


“Quanto mais te ouço mais me convenço de que o meu argumento é verdadeiro. Tu estás a esclarecer-me várias coisas para as quais não tinha arranjado justificação. Tu és um ungido”, disse o José meio a sério meio a brincar. “Mas eu nem sequer sou batizado”, respondeu o Fernando. “Mas ainda vais muito a tempo”, avisou-o o José.


“Ó José, estou em crer que não vieste cá a casa para jogares xadrez comigo ou, sequer, para me falares do teu Mestre. Sabes bem que eu nessas merdas não alinho. Eu não me meto com o teu Deus, mas também peço que não vos metais comigo”, disse o Fernando já a ficar muito para o sério.


“Da maneira como falas, tens de admitir que te referes a Ele como uma realidade, ou, pelo menos, como uma forte possibilidade”, afirmou o José.


O Fernando tentando não perder os papéis: “Olha José, vamos esticar o teu argumento um pouco mais. Quando jogo xadrez com o meu pai, umas vezes perco eu, outras perde ele. Quando assim acontece, de que lado é que o teu Mestre se senta?”


E o José num raciocínio que deve tudo à coragem, à sapiência, à capacidade de especulação, numa palavra sagrada, à genialidade: “O meu Mestre não se mete em jogos de xadrez de ateus. Nessas ocasiões tanto lhe faz que ganhe um como outro. De ateus não passam. Nem Ele os quer para outra coisa que não seja para o negarem. Foi para isso que se deu ao trabalho de vos criar. E um ateu dos bons custa mais a conceber do que para aí uns cem crentes. Dá um trabalho do catano. De facto Ele só pode provar que existe se alguém o negar. A não ser assim ninguém lhe ligava importância. Tu existes para o negar, que é o mesmo que afirmar que foste por Ele criado para fazeres o papel que fazes, o de ateu que o nega para o preservar, para o lembrar, para lhe dar sentido. Se tu não o negasses, Ele não tinha necessidade de provar que existe e por isso não existia mesmo.”


Cansados com a pertinência da discussão, aceitaram de bom grado umas sandes que a mãe do Fernando lhes arranjou, regaram-nas com dois copos de tinto cada um e puseram-se a ouvir Zeca Afonso no gira-discos.


“Faz-se noite. Terna é a noite. Esta noite do riso e do esquecimento. Não queres jogar uma partida de xadrez comigo?”


“Ah, ah, ah”, riu-se o Fernando.  “Ah, ah, ah”, riu-se o José.  “Ah, ah, ah”, riu-se a mãe do Fernando por os ver gargalhar com tanta vontade.  “Ah, ah, ah”, riu-se o seu irmão Abel que se ria por tudo e por nada. “Ah, ah, ah”, riu-se nas escadas o senhor Carvalho que gostava de ver as outras pessoas rir e por isso ria com elas, fosse por que motivo fosse.  

28
Mar12

O Poema Infinito (93): a infinita história

João Madureira

 

A antiga luz das histórias doces torna-se amarga e os homens beijam as mulheres com toda a cegueira do desejo e o desejo fica preso nos lábios e nas mãos e nos sexos dos amantes e os amantes ficam presos nas estrelas inscritas no céu dos seus olhos e os seus olhos transformam-se em sóis amadurecidos abalados pelo vento que já separou as águas do Nilo que nesse dia se tornaram vermelhas de morte para os afogados. E o céu retirou-se para dentro do meu livro de poemas momentos antes de eu adormecer. O vento move-se do seu lugar espreitando o limbo das águas e da neve e da geada que ilustram mais uma fábula de moral altruísta. Agora amadurecem os sons das guerras antigas que faziam cair os homens e chorar as mulheres e ainda sufocar as crianças por não conseguirem fechar a boca por causa do espanto da morte e da maldade e da estupidez. E os homens e as mulheres caíam cegos por causa do amor e do ódio que se misturavam com o suor e com o sangue das batalhas. Homens iguais uns aos outros matavam-se por que se julgavam diferentes. E havia homens brancos e homens pretos mortos lado a lado ilustrados com a cor ultravioleta da dissolução e que eram chorados pelas suas mulheres e incompreendidos pelas crianças que abriam ainda mais a boca com o espanto da guerra, da maldade e da estupidez. E os anjos da discórdia beijavam as lanças e as espadas e as flechas e os elmos e as cruzes de cristo e os crescentes árabes inscritos em tatuagens horrorosamente belas. E o firmamento enchia-se de uma água de lembrança apocalíptica e o deus de todos e de cada um abria as páginas do esquecimento e punha-se a escrever no livro que lhe ficava preso na boca de fogo e luz e era com ele que incitava os seus crentes à glória da morte triunfal. E o livro enrolava-se na língua dos guerreiros e na língua das mulheres e na língua das crianças e crescia como se fosse uma doença divina. E depois os anjos da guerra, cheios de sangue e vingança, subiam aos céus para de seguida tombarem na terra em forma de tempestade violentamente branca. Deus não se mexia do seu lugar e continuava a escrever no seu livro que despertava amor, morte e vingança e os homens que ressuscitava tornavam a matar e a morrer como se nada tivessem aprendido com a sua morte anterior. E deus continuava a escrever e os anjos a inchar de sangue e a subirem aos céus e descerem em forma de relâmpagos de vingança. E os homens continuavam a lutar e a matar e a morrer e as mulheres continuavam a chorar e a amar e a parir e as crianças continuavam a abrir ainda mais a boca e a sufocar de incredulidade como se todo o firmamento fosse uma vingança feroz de um deus que escreve um livro que lhe fica preso na boca e com ele manda matar e morrer em seu nome e em nome dos seus. E fez-se noite e os mortos amadureceram. E fez-se dia e os vivos, saindo das trevas da noite, olharam para o seu deus de livro na boca e continuaram a lutar, a lutar ferozmente, como se fosse esta a primeira vez, e as mulheres continuaram a chorar e as crianças continuaram a abrir ainda mais a boca por não conseguirem compreender a mesma história que lhe continuaram a contar. E até deus se deslumbrou com esta história que é sempre a mesma e que ninguém consegue entender. Nem ele que é sábio e por isso a escreve eternamente e de igual maneira. 

26
Mar12

Da expetativa ao imobilismo (VIII): a propaganda e as ideias – parabéns António, és um génio!

João Madureira

 

E ali estava o título da notícia ocupando metade da primeira página do meu semanário regional de referência: “Várias dezenas de pessoas manifestaram o seu apoio à candidatura do arq.º António Cabeleira à Câmara Municipal de Chaves.”

 

O título, convenhamos, é já a própria notícia, ou mesmo um pouco mais do que ela. Encostado ao canto esquerdo encontrava-se o retrato de perfil da face, um pouco pardacenta, do senhor vice. E por baixo dela, ele, na sua imodéstia tão modesta, estava citado: “Se for vontade do PSD, estou disponível para assumir a responsabilidade de ser candidato à Câmara Municipal de Chaves.”Parabéns pela tua humildade. Bravo, António. És um génio!

 

Por baixo do extenso título podíamos ver a cara de caso dos militantes e simpatizantes do PSD, talvez escutando as palavras do seu putativo candidato a candidato à Câmara flaviense. Digamos que a encenação obedeceu a alguns critérios de propaganda. Mas daí também não vem grande mal ao mundo. Parabéns pela tua encenação. Bravo, António. És um génio!

 

A notícia de uma candidatura anunciada já tinha sido dada na edição anterior, tentando constituir um facto político mesmo antes de o ser, tal como a pescada. Só que esta é a técnica da pescadinha de rabo na boca. Não sabemos onde começa a verdade e onde termina a encenação. Mas tudo bem. Parabéns pela tua discrição. Bravo, António. És um génio!

 

Ora na citada edição anterior aparecia o senhor vice camarário, devidamente engravatado, com a tentativa de um sorriso no rosto, ilustrando o título “Autárquicas 2013: Almoço de apoio à candidatura do arq.º António Cabeleira”. Quem diria. Ó surpresa das surpresas! Parabéns pela tua sobriedade. Bravo, António. És um génio!

 

E lá fomos nós à procura da citada notícia. E ali estava ela na página dois. A notícia era pequena, pois coube em apenas treze linhas. Já o que se lhe seguia era muito mais extenso: identificação, formação académica, percurso político, experiência profissional e outras atividades. Para tal, foram necessárias cerca de cento e sessenta linhas. E lá nos pusemos a ler. Parabéns pela tua relevância tão irrelevante. Bravo, António. És um génio!

 

Quando chegámos ao fim concluímos que o que se aproveitava como relevante do currículo do senhor vice camarário, e putativo candidato à Câmara de Chaves, “se for vontade do PSD”, era muito pouco, talvez coubesse em menos das treze linhas da notícia, onde se referia que três presidentes de junta tinham tomado a iniciativa de realizarem um almoço de incentivo ao senhor arq.º António “para que seja o próximo candidato à CMC”. Parabéns pela tua irrelevância tão relevante. Bravo, António. És um génio!

 

E o seu currículo é tão interessante, e tão exaustivo, que até tem, além do nome e da data de nascimento, a nacionalidade, a naturalidade, o número do BI, o arquivo de identificação, a data de emissão e o número fiscal, talvez para não ficarem dúvidas de que é um cidadão português, e outras coisas tão relevantes na carreira de um político da sua estirpe e verticalidade. Parabéns pelo teu brilho. Bravo, António. És um génio!

 

 Não resistimos a sugerir que para a próxima vez inclua, na sua identificação, a altura, a cor dos olhos, o peso, o número dos sapatos que calça, o grupo sanguíneo, o boletim de vacinas e a ficha dentária. Nem tudo lembra, bem sabemos, mas para isso estamos cá nós que para alguma coisa devemos servir. Mas não é isso que nos vai impedir de repetir: Parabéns pelo teu brilho. Bravo, António. És um génio!

 

Para não restarem dúvidas sobre a sua formação, cita-a duas vezes, uma na identificação e outra na formação académica, bem assim como uma pós graduação feita na UTAD com a utilidade que todos lhe reconhecemos. Depois refere o seu percurso político, revelando, desde logo, a sua tendência para ser vogal das comissões políticas distritais, e vice-presidente, além de destacar que foi “eleito inúmeras vezes membro da Assembleia Distrital de Vila Real”, também com o relevo e a projeção que todos sabemos. Parabéns pelo teu brilhante currículo. Bravo, António. És um génio!

 

Acompanhou, ainda, no papel, muita coisa: foi membro de diversas comissões irrelevantes e etc. e tal. Além disso, é autor de um interessantíssimo, e badalado, livro intitulado “Critérios para a Classificação de Municípios de Montanha Portugueses”, elaborado para a Associação Nacional de Municípios, com a utilidade que todos pressentimos. Parabéns pela tua obra literária e científica. Bravo, António. És um génio!

 

Podemos afirmar, sem exagerar, que o currículo possui a dimensão do senhor vice camarário. As partes relevantes chegam e sobram para ocuparem três linhas. O que já não é pouco. Mas também para que raio serve um currículo? Apesar disso, voltamos a repetir: Parabéns pelo teu comedimento. Bravo, António. És um génio!

 

Mas passemos às palavras, pois nestas coisas da política são elas que definem o percurso e a motivação. Fomos informados que estiveram perto de cem pessoas, entre membros das juntas de freguesia e assembleias de freguesia, comissão política do PSD e da JSD e executivo municipal. Ou seja, estiveram os convertidos, que, ao que sabemos, são poucos e têm tendência a diminuir. Parabéns pela tua teimosia. Bravo, António. És um génio!

 

Basta olhar para as fotos para vermos que o entusiasmo foi parco. Mas nada que nos surpreenda. Pois é certo e sabido que para aí metade dos que lá estavam, e outra metade dos que lá não puseram os pés, vão pôr-se tesos quando o senhor vice camarário lhes tiver de informar que as suas juntas, e respetivas assembleias de freguesia, vão ser extintas pelo governo central que é do PSD. Parabéns pela tua frontalidade. Bravo, António. És um génio!

 

Ou seja, o “grande apoio” do arq.º António vai ficar atrapalhadíssimo quando tiver, em plena campanha eleitoral autárquica, que defender a política do seu partido em extinguir metade das freguesias de Chaves, ou seja vinte e cinco. Quero ver como vão ser capazes de explicar às populações, que dizem defender e representar, o motivo por que o PSD resolveu extinguir a freguesia A em favor da B, a C em detrimento da D e como resolveram fundir as freguesias E, F e G para darem lugar à freguesia I, que fica perto da J, que, por seu lado, foi preservada e que vai acolher as freguesias K, L e M. Parabéns por estares de parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

Adivinho, com as singularidades das nossas aldeias e com a idiossincrasia do nosso povo, uma guerra feroz em torno do seu território, da sua identidade e da sua memória. Extinguir freguesias e concelhos é abrir uma caixa de Pandora que ninguém sabe o que poderá significar em termos de identidade local, regional e nacional. Isto é brincar com o fogo. E então neste período de crise severa, a ousadia pode incendiar o país e torná-lo ingovernável. Mas o PSD lá sabe as linhas com que se cose. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Mas voltemos à notícia que aqui nos trouxe. Parece que o presidente da Junta de Santa Maria Maior agradeceu a presença dos convivas por terem aderido à iniciativa no sentido de “motivar” o arq.º António para que seja o candidato do PSD à CMC. Pelos vistos, a tal vaga de fundo não existe porque muita gente do PSD não se revê na candidatura do vice camarário de João Batista. A disputa dos lugares já começou a fazer as primeiras baixas. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

João Neves anda a tentar segurar o seu lugar de candidato à freguesia de Santa Maria Maior, que, com toda a certeza, verá a seu território aumentado e as suas competências alargadas, lugar que já foi prometido a muitos outros e que aguarda o desenvolvimento dos distintos movimentos e dos diversos grupos e tendências dentro do PSD local. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

O João, presidente da Junta, dentro do seu estilo inconfundível, prometeu apoio ao António, porque a caminhada que se avizinha é “difícil”, lembrando o percurso fiel do António ao PSD e o estatuto de braço direito do “nosso querido amigo” João, o presidente da Câmara. E, para terminar, resolveu dar uma nota de internacionalismo partidário e linguístico, mandando o nacionalismo às malvas e a história dar uma volta, afirmando em Espanhol: “Tu si que valles.” Profundo. Tocante. Elucidativo. Relativamente às ideais para a cidade e para o concelho, nem uma se lhe ouviu. E isso também a quem interessa? Quando ganharmos logo se vê! Propaganda 1, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

De seguida falou o presidente da JSD que nada disse de substancial, a não ser prometer apoio ao António, o tal apoio das bandeirinhas, das esferográficas, dos autocolantes e das camisolas. Ideias nem uma. Portanto: propaganda 2, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

E ainda antes do putativo candidato do PSD à CMC, falou o outro João, o Batista, que prometeu apoio ao António, o Cabeleira, e se referiu à “proximidade” das Juntas de Freguesia em relação às pessoas, estando assim em melhor posição para encontrar as soluções mais adequadas. Apontando os presidentes de Junta como sendo as mais importantes referências das populações. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Mas esqueceu-se de explicar aos presentes, e também aos leitores do jornal, que, a ser assim, por que carga de água é que ele e o seu partido, que também é o do João Neves e dos outros presidentes de junta presentes, apoiam, e vão implementar, a extinção de vinte e cinco freguesias do concelho de Chaves, pretendem acabar, em metade das nossas aldeias, com o apoio de proximidade, muitas das vezes o único, mandando os atuais presidentes para casa aquecer-se à lareira, sujeitos a verem morrer sem o devido apoio o que resta da população idosa das suas localidades. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Depois continuou a pronunciar palavras de circunstância na tentativa de não responder a nada nem a ninguém. Também a quem é que isso interessa? Ideias para a cidade e para o concelho nem uma. O que também não é para admirar, pois tem sido essa a matriz da sua gestão autárquica. Portanto: propaganda 3, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

A finalizar falou o putativo candidato António, o Cabeleira, que de uma forma comovida, isto segundo o jornal, disse banalidades atrás de banalidades. É bem possível que tenha sido por causa da emoção. Mas deve ser bonito de observar o senhor vice camarário comovido. Deve ser mesmo um papelinho. Além de estar emocionado, o putativo candidato António, disse-o: “Agradeço com muita emoção, respeito e subida honra, esta manifestação de apoio.” Brilhante. Tocante. Relevante. Original. Sincero. Parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

E prosseguiu: “Hoje os novos tempos exigem políticas de verdade.” Só que nada disse sobre a extinção de 25 freguesias por parte do seu partido e ainda quais e porquê? Falar de políticas de verdade é uma coisa, agir em concordância com aquilo que se afirma, isso é outra coisa bem mais séria e difícil. Portanto isso de falar verdade é uma enorme falácia. Parabéns pela tua ousadia, bravura e coerência. Bravo, António. És um génio!

 

Falou ainda do desenvolvimento e outra vez de verdade. Mas nada disse sobre as 25 juntas de freguesia que o PSD se prepara para extinguir. Nem uma única palavrinha. Portanto a sua “verdade” é uma enorme artimanha. Falou ainda de esperança e de que ela exige responsabilidade. Fez parágrafo e continuou: “Estou convicto que o nosso partido tem condições de continuar a vencer eleições e a participar de uma forma decisiva no desenvolvimento sustentável do concelho de Chaves.” Ora dizer isto e não dizer nada é a mesma coisa. E lá se vai a verdade pelo cano abaixo. Parabéns pela tua ousadia, fé, esperança, caridade, bravura, coerência e tudo o resto. Bravo, António. És um génio!

 

Seguidamente voltou a falar mas a nada dizer, a não ser reafirmar o compromisso com a verdade. Mas nada disse aos presentes sobre a extinção de 25 freguesias do nosso concelho que vai ser ele, ou alguém por ele, a desenhar e implementar. Essa é a sua verdade, nada dizer de concreto sobre o maior atentado de que há memória contra as populações rurais, contra o interior, contra o poder local, contra a democracia. O que foi mais recorrente no seu discurso foi falar em eleições e em ganhá-las. Nem uma ideia referiu, nem um projeto adiantou. Limitou-se a fazer demagogia e a esconder a verdade por detrás da palavra verdade. Essa é a sua verdade. E isso é um enorme embuste. Portanto: propaganda 4, ideias 0. Parabéns. Parabéns. Parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

Com políticos desta dimensão só nos resta fazer votos para que não cheguem de novo ao poder, senão estamos tramados. Parabéns por nos abrires os olhos e por nos despertares da letargia. Nós cá vamos estar para o que der e vier. Parabéns. Parabéns. Parabéns. Bravo, António. És um génio!

23
Mar12

O Homem Sem Memória - 107

João Madureira

 

107 – O José bem procurou por toda a cidade democratas-cristãos, mas não encontrou nenhum. Nem sequer o primeiro para amostra. Era o que dava, por muito incrível que isso possa parecer aos estimados leitores, estar um pouco à frente do seu tempo. Porque, bem vistas as coisas, todos somos essencialmente democratas-cristãos


Os comunistas são democratas-cristãos e os socialistas também são democratas-cristãos. Até os democratas-cristãos são democratas-cristãos, por incrível que isso possa de novo parecer aos estimados leitores, pois alguém conseguir ser aquilo que diz ser é muito difícil. Apesar de há primeira vista parecer o contrário.


Lembremo-nos ainda que a doutrina social da Igreja tem muito de comunista e algo de socialista. Dizem por aí que Cristo foi mesmo o primeiro comunista. E o mais original. O mais divino. O mais simples. E quem somos nós para desmentir tal afirmação? Mas também quem somos nós para a confirmar?


Por isso é que o Papa João XXIII tentou unir aquilo que Deus desuniu. Não o alcançou, temos de convir. Para isso necessitava de ser Deus e não apenas o seu máximo representante na Terra. É que uma coisa é ser Deus e outra bem distinta é ser um seu representante, por muito Papa que se seja. Mas ainda deu um arzinho da sua graça. A cristandade tem destes paradoxos e destas peculiaridades, mas para isso mesmo é que é cristandade. Senão era outra coisa qualquer e perdia toda a graça e até o sentido de ser. Pois, como muito bem escreveu Shakespeare (o símbolo máximo do cânone ocidental, segundo o canónico Harold Bloom, esse D. Quixote da crítica literária. Ou será antes Sancho Pança?): “Ser ou não ser, eis a questão.” Ou ainda melhor e vertido em inglês de lei: Be or not to be, is the question.


O José, porém, não desistiu logo à primeira tentativa de encontrar um democrata-cristão, mesmo que dos fraquinhos. Mas perseverou.


Encontrou democratas que não eram cristãos. Ou pelos menos cristãos praticantes. Encontrou cristãos que não eram democratas. Pelo menos democratas praticantes. Descobriu democratas que, bem vistas as coisas, não eram democratas nem cristãos, que, também bem vistas as coisas, não eram cristãos verdadeiros nem democratas tout court.


Deparou-se igualmente com pessoas que se afirmavam socialistas e cristãs, já que, na sua ideia, o ser democrata se encontrava implícito na denominação de “socialista”. Encontrou comunistas que se diziam democratas, apesar de o não serem, e que, um pouco envergonhados até, se confessavam cristãos, apesar de aí existir uma terrível contradição entre o materialismo científico do catecismo marxista e a religião, que era o ópio do povo, como muito bem tinha afirmado Marx, o Papa de todos os comunistas e de alguns socialistas mais ardentes.


Mas democrata-cristão a tempo inteiro não encontrou nenhum. Nem um para amostra. Névoa também nisso seguia a moda nacional: A democracia de novo tipo que se estava a construir para levar o país rumo ao socialismo não se podia dar ao luxo de criar democratas-cristãos e liberais só porque eles não existiam em Portugal. Uma democracia não cria partidos. Os partidos é que são os responsáveis pela criação da democracia. Pelo menos é isso o que dizem os entendidos na matéria.


Verdade seja dita, o José também não encontrou nenhum fascista. Muitos dos que assim eram identificados pelos militantes da esquerda juravam a pés juntos que sempre tinham sido democratas e que só não o afirmaram publicamente porque Salazar, Caetano e os agentes da PIDE eram homens para os enfiarem na cadeia e dar-lhes porrada de criar bicho. Lá no fundo até podiam ser democratas, mas não eram idiotas ao ponto de o dizerem abertamente. Mas lá no fundo eram democratas. Sim. Eram democratas. Não tinham é a coragem suicida de o afirmarem publicamente. Mas eram democratas. Lá no fundo. Sim.


Apesar de ninguém o ler e nem sequer servir para fazer as palavras cruzadas, pois não as tinha, nem para ser utilizado como instrumento de auxílio à higiene pessoal, por causa do papel demasiado acetinado e da tinta que custava a secar, o periódico mais vendido na cidade passou a ser A Verdade, a voz da classe operária, o jornal dos comunistas. E quando algum dos que se intitulavam democratas, ou cristãos, se negavam a comprar o órgão da classe operária, eram insultados aos berros de “fascistas, reacionários e agentes da CIA”.


Triste e desiludido, o filho do guarda Ferreira e da Dona Rosa desaguou numa casa de pasto e, com os olhos no subtítulo Da Verdade “De pé ó vítimas da fome”, pôs-se a comer um rancho bem temperado e a beber uma garrafa de tinto da região. Estava ele na segunda pratada, no terceiro copo, e ainda na primeira frase do editorial de A Verdade, quando viu entrar na taberna o Graça que se colocou a seu lado e lhe contou o que a seguir vos vamos contar. É que a história da revolução democrática e nacional também se fez com tamanhos gestos de luta e solidariedade.


Disse-lhe que os seus amigos, no dia a seguir ao 25 de Abril, tinham decidido ir exigir a sua libertação dos calabouços da GNR. Para o efeito organizaram uma manifestação que contou com doze intrépidos antifascistas munidos de duas bandeiras e um cartaz e meio, onde se exigia aos antigos protetores da ditadura que libertassem imediatamente o camarada preso político que dava pelo nome de José não sei quantos Ferreira. De lá de dentro veio um guarda que os informou que naquele momento na cela do posto apenas se encontrava o Saraiva, bêbado como um carro apesar de ter sido preso às cinco da manhã e de àquela hora já passar das três da tarde.


Mas os intrépidos antifascistas não estavam na disposição de se deixarem enganar e ameaçaram que se não lhes fosse entregue o camarada José não sei quantos Ferreira ainda antes do anoitecer, se viam na obrigação democrática e revolucionária de invadir as instalações da GNR e de o restituir à liberdade, mesmo que para o efeito tivessem que recorrer à força. 


O agente que nessa altura se encontrava de plantão no posto, avisou-os de que tinha sido informado, via telefone, pela esposa do tenente Sampaio, pois o comandante de posto estava de cama em casa com uma crise de hemorroides, espondilose, urticária, ácido úrico e lombalgia, que ou dispersava voluntariamente a manifestação ou os agentes da autoridade tinham de tomar as devidas providências para desimpedir a praça e restabelecer a ordem pública.


Durante mais de uma hora, o pobre do GNR não se cansou de informar os intrépidos antifascistas de que o preso político, conhecido como José qualquer coisa Ferreira, tinha sido libertado ainda antes do golpe militar que pôs o Spínola no poder e o Marcelo Caetano na rua, sem contrapartidas.


Vendo que o GNR não saía da sua teimosia, os intrépidos antifascistas puseram-se a berrar ainda mais alto que o povo unido jamais será vencido e que o povo está com o MFA e que por isso exigiam a libertação do camarada José qualquer coisa Ferreira, sem condições ou qualquer tipo de contrapartida.


Lá pelas quatro e meia da tarde, a manifestação viu-se rodeada por uma multidão de pessoas que ali paravam para assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Não se manifestavam, apenas observavam a dúzia de intrépidos antifascistas a berrar e o guarda de plantão ao posto da GNR a tentar demovê-los de assaltarem o quartel, pois isso não era permitido por lei, e muito menos pelo senso comum, e seria uma ação inglória, pois o preso político tinha sido libertado ainda antes do golpe de estado do Otelo.


Mais para o fim da tarde, as donas de casa, as empregadas de servir e as meninas donzelas, abriram as janelas das suas casas e puseram-se a observar as pessoas da praça que rodeavam os intrépidos manifestantes antifascistas que montavam a vigília ao posto da GNR de Névoa com a firme determinação de conseguirem libertar o preso político seu camarada.


Dentro do posto, os poucos guardas que lá se encontravam começaram a sentir-se nervosos e a especularem sobre a melhor forma de pôr cobro a tal situação. Se carregassem sobre os manifestantes, era bem possível que os dispersassem, pois eles eram poucos e quase todos ganapos que não podiam com um gato pelo rabo. Mas a sua preocupação residia na populaça que se encontrava ao redor da manifestação, pois se carregassem ou disparassem sobre a dúzia de manifestantes, o povo podia enfurecer-se e matá-los apenas com a impetuosidade dos seus pés e a raiva das suas mãos.


Foi então quando o sargento da GNR, num gesto altruísta e desassombrado, resolveu pegar no Saraiva ao colo, subir as escadas, chegar à portão e mostrar ao povo o bêbado, avisando-o que aquele era o único individuo que estava preso.


Quando a dúzia de intrépidos militantes antifascistas viram o sargento com um corpo desfalecido ao colo, começaram a gritar “é ele, é ele” e a comentar que a GNR tinha morto o preso político. Depois gritaram “assassinos, assassinos” e tentaram romper caras ao sargento. Nesse momento o militar graduado deixou cair o corpo e, como por milagre divino, de repente o putativo féretro ganhou vida. O Saraiva começou a correr espavorido em direção à praça como se levasse fogo no rabo.


Desiludidos, os doze arrojados antifascistas, desmobilizaram por entre os risos do povo e a arrelia do Saraiva que se viu de repente no meio da multidão que começou a saudá-lo como um herói e a cantar a canção em voga na altura: Saraiva amigo o povo está contigo e o Saraiva está com o MFA. Ao que o Saraiva retorquiu: “Se sois o povo e o povo está comigo, pagai-me mas é um copo que estou cheio de sede.”

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