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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

20
Jun12

O Poema Infinito (105): a bicicleta semântica

João Madureira

 

Chegou a vez da grande memória, dos vestígios de dias prodigiosos manifestamente preenchidos por poetas que pedalam vertiginosamente as suas bicicletas dialéticas. É agora o tempo das flores legítimas de sol, das rimas das rosas, da violenta fantasia do verão que se aquece no amor confuso dos milagres. É esse o instante da graça do poeta que continua a pedalar no ritmo secreto do devaneio. E o poeta insiste na sua bicicleta. E no seu pedalar. Na direção do seu pedalar, pois sabe que a vida é curta, que o poema é infinito, mas que a morte é transfiguração. Num tempo sentado e em repouso, ouve cantar uma mulher no paraíso entre salsa, avencas e silêncio. Sobre as árvores desce agora uma doçura oblíqua. O jardim resplandece na sua clara atenção de uma infância que queima, que queima o espaço e a candura e a voltagem dos círios, que queima o tempo e as escuras varandas das casas abandonadas. E uma voz de criança quebra o espelho do lago e dos seus olhos irrompem frutos vagarosos numa velocidade de clareira. É o tempo dentro da sua velocidade. E as mães vêm devagar anunciar as suas palavras de criação. E o poeta fica louco anunciando canções de palavras sentadas. É o tempo dentro da sua pérfida inocência. O tempo que respira e anda dentro da sua imediata ausência. É o tempo de energia rápida. Um tempo que engole a magia, que devora os segredos, que respira as imagens que passam sempre e sempre. E para sempre. Tantos nomes têm o silêncio e o esquecimento. Tantos nomes rápidos. Tantos sonetos vorazes. Nas árvores sonolentas a seiva corre entre os interstícios de luz. E o ar veste-se de movimento. E o fulgor da matéria arqueja na madeira. E o tempo torna-se vegetal. E abre-se. E o dia fica a outra distância, absorvido pela própria velocidade dos átomos. E os rostos precipitam-se para dentro como uma estrela que a todo o momento se transforma noutra coisa qualquer. É a energia dos três pontos fixos. Toda a leveza se torna ameaçadora como se fosse feita de tecido doloroso. E a chuva afogueia a terra no seu regresso líquido. É a hora dos jardins se contorcerem entre a água e o estio. É a hora dos espaços surpreendidos transpirarem na sua atmosfera de melancolia. E o poeta que pedala a sua bicicleta dialética encontra o seu mapa astral e rejubila. E toca nos seus animais inventados com dedos que são semiluas e que são também folhas repletas de energia e tristeza. O poeta desenha com palavras enxutas um bordado sensível na margem do poema. E chora. Tem agora a idade dos suspiros. E por isso adormece. E brilha. E acende-se. E passeia pelos corredores do seu tempo. E chora. E estremece. E fala das suas mãos e das folhas impressas dos seus livros e fecha os olhos no seu silêncio de leitor. E espera devagar pelas palavras que lhe irrompem nos lábios. E dissolve-se nas palavras e na mulher que ama. E o poeta pensa: Tenho dentro de mim uma criança profunda que é todos os lugares a que já fui. E sorri. Fora do seu quarto as estrelas mudam de cor. E o poeta adormece pensando como é bonito imaginar que amanhã vai voltar a pedalar a sua bicicleta. A dialética da sua bicicleta. A semântica da sua bicicleta. Só então o poeta compreende que a sua bicicleta é a sua própria poesia. 

18
Jun12

Da expetativa ao imobilismo (XX): A Eurocidade, o cartão, o João, o Juan e o secretário técnico

João Madureira

 

E vai daí, João Batista, o senhor presidente do bairro sul, sorrindo para as objetivas na apresentação do primeiro número da revista Fórum, depois de olhar, momentos antes, para o senhor presidente do bairro norte, Juan Jiménez Morán, disse que Portugal e Espanha falam, agora, a “uma só voz”.

 

Não é nem Trás-os-Montes e Galiza, não é sequer o concelho de Chaves e o de Verin, mas antes Portugal e Espanha que agora falam a “uma só voz”, que, desta vez, até foram duas: a do autarca João e a do alcaide Juan. Ou vice-versa, por causa da equidade entre os bairros.

 

E a tal voz, una e indivisível, disse, ainda mais uma vez com o sotaque e o sorriso português do presidente do bairro sul da Eurocidade: “Queremos que as pessoas se sintam bem neste território e não sintam a diferença quando atravessam a fronteira.” E tornou a sorrir na direção do alcaide do bairro norte e, agora, na direção do público e proferiu: “Pretendemos ainda compatibilizar sistemas de cobrança de portagens, criar uma plataforma de correios ibéricos, eliminar o «roaming» na Península Ibérica e conceber uma comissão de proteção civil comum.“

 

Ou seja, os presidentes dos dois bairros da Eurocidade pretendem substituir-se aos respetivos Estados para criarem serviços ibéricos. E andamos nisto: tu dizes umas piadas, eu digo outras tantas e no fim rimo-nos pois alguém há de escrever alguma coisa nos jornais.

 

Mas, alto lá, será que estes dois senhores não têm sentido do ridículo? Querem fazer de nós parvos? Toda esta encenação já começa a enervar mesmo os flavienses mais crédulos e pacientes.

 

No dia da inauguração da sede da Eurocidade, situada em território galego, que juntou várias entidades políticas e administrativas dos dois países, foram proferidas palavras que são o exemplo perfeito de demagogia e de vacuidade inerentes ao projeto, pois tanto servem para esta celebração como para as mais diversas situações e comemorações onde os políticos enchem a boca com frases que ninguém entende mas que ficam bem a quem as profere. Foi assim que foram ensinados e é assim que sabem fazer política. É como muito bem diz o povo: Não entendemos nada do que o senhor presidente disse mas temos de reconhecer que fala muito bem.

 

Falaram de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida.

 

E então tudo isso deu em quê? Pois sim senhor, deu em pantomima. Até agora gastaram 200 mil euros para construírem uma sala insonorizada para lá tocarem bandas musicais, que nas horas vagas serve também de sede da Eurocidade, e emitiram um cartão de Eurocidadão. E essa pífia realidade serviu para os dois senhores presidentes dos bairros norte e sul da Eurocidade aparecerem em duas ou três edições dos jornais da região a sorrir e a exibirem um retângulo de plástico que pouca, ou nenhuma, serventia tem.

 

Está claro que se colocaram a tempo por detrás do apetrecho plastificado e apregoaram que “o cartão de Eurocidadão vai permitir facilitar a vida dos cidadãos e aceder a um conjunto de serviços públicos de carácter coletivo e social das duas localidades”. E disseram ainda mais: “Na Eurocidade tudo é um ponto de partida”. Eles é que são uns pontos. E fazemos votos que estejam de partida, para o seu próprio bem, ou, na melhor das hipóteses, para o bem das comunidades que afirmam representar e governar.

 

Mas ainda não é tudo. Na sua insistente manobra de propaganda, repisaram que o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP).

 

E insistiram: “O cartão do Eurocidadão destina-se a proporcionar os mesmos benefícios aos residentes dos dois municípios” (agora mais conhecidos por bairro norte e bairro sul), “nas mesmas condições de acesso e uso dos que já dispõem no seu município de residência, promovendo desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços.”

 

Mas não contentes com todas as promessas feitas, asseguraram ainda mais algumas, não vá a demagogia ficar manca. O tal cartão terá ainda a capacidade de potencializar e promover uma “gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos.”

 

Aqui chegados deixem que vos conte o que me fez lembrar esta publicidade enganosa: nada mais, e nada menos, do que os antigos vendedores da banha da cobra. Ou ainda os vendedores de mantas na Feira dos Santos que, na compra de um cobertor, oferecem uma dúzia de pares de meias, um ou dois guarda-chuvas, meia dúzia de lenços e ainda uma faca, uma tesoura e um pífaro de lata para os filhos ou os netinhos.

 

Ai pensam que exagero? Por muito esforço que faça apenas consigo ficar um pouco aquém da realidade. Eu bem tento, como muito bem sabem os estimados leitores, mas os autarcas dos dois bairros da Eurocidade conseguem suplantar-me sem para isso fazerem grande esforço.

 

Ora então fiquem os estimados leitores com as vantagens práticas do tão enaltecido cartão. E olhem que vou citar todas as que vieram nos jornais. Todas, todinhas sem exceção. Primeira: “Vantagens na Biblioteca Municipal de Chaves e nas Piscinas do Rebentão”. Falam de vantagens mas não especificam quais são, mas devem ser imensas. Segunda: “Benefícios nos Museus Municipais (Museu de Região Flaviense, Museu de Arte Sacra, Museu Ferroviário) e na Piscina Municipal.”

 

E terceira: “Previsivelmente” (e foi isto que veio escrito nos jornais), “a partir do mês de maio, existirá um programa de visitas guiadas gratuitas para associações e grupos, que inclui um amplo percurso por diferentes pontos de interesse turístico e patrimonial dos municípios de Chaves e Verin”. Isto é, “previsivelmente”, o choque turístico da dupla António Cabeleira e Agostinho Pizarro, o responsável do secretariado técnico da Eurocidade, vulgo o mentor ideológico do divertimento.

 

Ou seja, a Eurocidade vai oferecer gratuitamente passeios a turistas. E vai carregar tudo isso no cartão de crédito de todos os flavienses. É mais uma vantagem desse imenso privilégio de ser Eurocidadão com direito a cartão. E isto tudo está tão bem organizado que até vai depender, nas doutas palavras do responsável técnico Agostinho Pizarro, das “solicitações e da articulação com as agências de viagens”. Bravo Agostinho, também tu és um génio bem à imagem e dimensão do teu estimado amigo e, querido vereador, António Cabeleira. Bravo. Bravíssimo.

 

E para este efeito, o executivo camarário do bairro sul reuniu extraordinariamente e aprovou as alterações aos regulamentos municipais “no sentido de passarem a ser compatíveis com as normas previstas no Regulamento do Cartão do Eurocidadão, muito concretamente com as normas associadas aos benefícios decorrentes da titularidade de tal cartão”.

 

As citadas alterações permitem agora aos portadores do cartão do cidadão poderem “entrar gratuitamente na rede de museus e pagar 1 euro para usufruir da piscina (em vez de 2) e 0,40 cêntimos (em vez de 0,75) para pessoas com mais de 65 anos e até aos 16 anos”.

 

Ainda devem estar lembrados de os dois senhores presidentes encherem a boca de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida e… de o cartão permitir facilitar a vida dos cidadãos e permitir aceder a um conjunto de serviços públicos de caráter coletivo e social das duas localidades e… que na Eurocidade tudo é um ponto de partida e… que se destina a promover desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços e, ainda, que… o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP) e… que, afinal, o tal cartão vai possibilitar a gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos. Ufa, estava a ver que não conseguia acabar.

 

Agora, depois de tudo espremido, ficámos a saber que o famoso cartão permite aos seus portadores ir para o Rebentão e… para a piscina municipal e… entrar nos museus de graça.

 

E como eles são tão apelativos, já prevejo filas e filas de Eurocidadãos do bairro norte (antigamente conhecidos como galegos de Verin) e de Eurocidadãos do bairro sul (dantes apelidados de flavienses), impacientes para que os citados museus abram as suas portas para poderem aceder, a tempo e horas, às suas excelentes propostas culturais.

 

E isto semanas e… semanas e… semanas seguidas, pois eles são tão grandes e… o seu espólio é tão diversificado que é bem capaz de cada Eurocidadão gastar um mês inteirinho a admirar as peças expostas. Isto se conseguir ter vaga disponível. O que duvidamos. Mas para grandes projetos, grandes ideólogos. Bravo Agostinho, também tu és um génio.

 

E, num futuro próximo, bem mais próximo do que calculamos, enquanto os Eurocidadãos vão andar num corrupio cultural, turistas vão passear-se de graça pelas ruas do bairro sul gozando do privilégio de observarem um rio de águas estagnadas, de poderem enxergar, no centro histórico da cidade, as ruas cheias de garrafas partidas, copos de plástico e, de quando em vez, fezes pelos cantos e esquinas (resultantes do “botellón” flaviense), perguntando-se se os excrementos pertencerão a animais ou a seres humanos. O que para o caso tanto monta, mas sempre conferem um arzinho de ruralidade, que julgávamos perdido. E poderão ainda, os estimados turistas, se forem suficientemente curiosos, ficar a saber que o hospital que estão a vislumbrar lá ao longe possui apenas os serviços de um Centro de Saúde, que o edifício universitário é apenas uma construção elegante construída fora de portas, mas que já não tem cursos, ou possui apenas meia dúzia de turmas com guia de marcha para Vila Real, e que o Tribunal vai ser desmantelado para dar lugar a um espaço de ruínas romanas que fará as delícias dos maluquinhos das pedras antigas.

 

Esta pantomima fez-me lembrar o “Clube dos Fás”. Um grupo de crianças resolveu um dia criar uma coletividade que em troca de um cartão, e do prestígio de pertencer ao Clube, pagavam uma cota estipulada em reunião de direção. Como o dinheiro angariado não dava sequer para todos os sócios terem acesso a um gelado por mês, a direção do clube resolveu sortear semanalmente um Fá pelos sócios efetivos. O que muito alegrou os adeptos. Também em reunião da direção, para retribuir o trabalho efetuado e para recompensar o prestígio dos seus elementos, resolveu, a douta direção, incluir na oferta um Fá semanal para todos os membros efetivos do seu órgão máximo. Muitos deles andam agora espalhados pelas autarquias e outros já passaram por vários governos da nação.

 

PS – O que ainda não conseguimos apurar é se a Eurocidade já tem bandeira e hino oficial. Mas, com o caminho que isto leva, deve estar para breve. Até lá vamos aguardar pacientemente.

 

Ó senhor secretário técnico dê lá uma ajudinha! O bairro sul da cidade, que tão ajuizadamente ajudou a fundar, agradece-lhe do fundo do coração.

 

Para criarem Roma foram necessários dois rapazes, Rómulo e Remo. Para formarem a Eurocidade foram fundamentais dois autarcas, João e Juan, e um secretário técnico, Agostinho Pizarro. Sinais dos tempos. Mas a história continua a ter protagonistas que nos acodem sempre que deles temos precisão. Rejubilemos!

15
Jun12

O Homem Sem Memória - 119

João Madureira

 

119Mais algumas anotações de José, filho de outro José, filho de Luís, filho de Manuel, filho de Geraldo, filho de Venceslau, filho de João, filho de Fernando, filho de Dinis, filho de Carlos, filho de Afonso… filho Alexandre… filho de José, filho de Jacob, filho de Salomão, filho de David, filho de Jessé, filho de Esrom, filho de Farés, filho de Judas, filho de Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão.


Anotações sobre o terceiro livro sagrado das religiões monoteístas: O Manifesto do Partido Comunista, na sua edição portuguesa. Ei-las como as encontramos encafuadas na mala da prisão do José.


Nestas coisas de Livros Sagrados, o “Manifesto Comunista” é muito mais parecido com o Alcorão do que com a Bíblia. Aqui também tudo é muito pão pão queijo queijo, zeca. E sobretudo é o segundo livro mais chato do mundo. Ai não acreditam? Mas vão passar a acreditar depois de lerem o (quase) diário que escrevi durante noites e noites de tortura, onde estive perto de morrer queimado, e que aqui vos deixo como testemunho. Ah!, antes que me esqueça, o primeiro livro mais chato do mundo é do mesmo autor e dá pelo nome de “O Capital”.


Começo logo da pior maneira possível, com uma confissão: É que adormeci logo de início ao ler a nota introdutória “Ao Leitor”. E não foi sequer preciso chegar à primeira frase de Vasco Magalhães-Vilhena: “Sabemos a responsabilidade que tomamos.” Não. Adormeci no excerto da carta de F. Engels a A. Sorge. Ou seja, logo depois de “é terrivelmente difícil traduzir o «Manifesto»”, os olhos cerraram-se-me como dois portões de quinta. Reconheço que dormi lindamente.


Tentei noites seguidas avançar, mas é o avanças. Por isso tenho de reconhecer que, até à data, este é o primeiro livro que me provoca uma imensa soneira. Mas nem tudo foi mau, pois eu, que tinha insónias por causa dos meus dias passados na prisão, passei a dormir como um santo. Palavra de honra que é a mais pura das verdades.


Na primeira noite avancei por meia página ímpar e mais um quarto de página par, mas adormeci profundamente após ler: “Não há exagero em dizer que as dificuldades que se deparam na tradução…”, e tombei para o lado como uma pedra. Só acordei na manhã seguinte ao ouvir o canto do meu galo madrugador.


Na noite seguinte avancei cerca de uma página, mas fui-me logo abaixo após passar, em voo de andorinha, os olhos por cima das palavras que preenchiam cerca de uma folha, onde se podia ler: “A tradução para a língua portuguesa que hoje se publi…” Nem sequer fui capaz de acabar a palavra. E zás, tombei para o lado como um ditoso bêbado na noite de Natal. Dormi toda a noite como um justo. Acordei apenas de manhazinha logo após o galo cantar três vezes. Premonições.


Na terceira noite demorei três horas a decifrar oito linhas. Demorei esse tempo todo não porque não soubesse ler o texto, mas tão só porque adormecia e acordava ao ritmo de dez palavras lidas intervaladas por trinta e tal minutos de boas e sonantes ressonadelas. Isto segundo o relatório circunstancial da minha mãe.


“Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e…  “Prefácio da edição russa de 1882 (MEW, 19, pp. 295-296)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e  assim sucessivamente mais cinco vezes até… “e prefácio da edição italiana de 1893 (MEW, 22, pp. 365-366) (1)…” E o um era uma nota de rodapé com os seguintes dizeres: “Como é de uso corrente designamos aqui, para a abreviar, pela sigla MEW os Marx Werke editados pelo Doetz Verlag de Berlim (RDA).”


Nesse ponto desisti de continuar a ler o capítulo e passei à fase seguinte, pois cheguei à conclusão que esta parte não devia ser lá muito importante. Eu sei que nestas coisas nunca se sabe, mas que mais podia eu fazer senão deixar-me guiar pela minha intuição.


O texto que se seguia, da autoria do mesmo senhor, intitulava-se “Nota acerca da primeira tradução portuguesa do «Manifesto do Partido Comunista» ”, e iniciava-se da seguinte maneira: “A presente edição é, como atrás dissemos, a primeira, que saibamos, em língua portuguesa estabelecida sobre os textos originais…” e mais algumas palavras e mais uma nota. Passei em claro. Mas debaixo desta estava ainda uma outra em numeração romana que explicava: “Ver notas complementares no fim do volume, indicadas em algarismos romanos”. E foi para lá que me dirigi com toda a paciência do mundo. Essas notas ocupavam 79 páginas. Três delas sobre as notas da edição alemã referentes aos prefácios e outras duas alusivas às notas da edição alemã pertencentes ao texto do «Manifesto». As outras 72 páginas eram constituídas por notas complementares da edição portuguesa. E adivinhem lá quem é o autor. Frio, frio, frio. Não, não é o Lenine, Marx, Engels, Estaline ou Alberto Punhal. É o douto Vasco Magalhães-Vilhena.


Para os estimados leitores avaliarem da estatura intelectual do senhor, basta lembrar que o manifesto ocupa apenas 46 páginas. O que nos leva a concluir que as notas à edição portuguesa são muito possivelmente bem mais importantes que o próprio “Manifesto”. Pois no comunismo a dimensão define sempre a importância, a posição, o posto e o protocolo. E o controlo. Se há coisa de que os comunistas são zelosos é no controlo. E também no protocolo. Mas avancemos. Avante camarada…


Bem, posso dizer que mal dormi durante toda a noite e quando o consegui fazer, por escassos períodos de tempo, tive pesadelos. Comecei a pensar que se para se ser comunista era obrigatório ler o «Manifesto», eu, muito possivelmente, nunca poderia vir a sê-lo de corpo inteiro, pois o livro estava a transformar-se na história interminável. Pelo menos para mim. Mas, tendo como ponto de referência os níveis baixíssimos de escolarização, de alfabetização e de literacia em Portugal, já para não falar nos índices de leitura e, muito particularmente, de leitura especializada, estou em crer que em Portugal o «Manifesto» tinha para aí um leque de cem leitores disponíveis. E olhem que estou a ser otimista quanto baste. Além disso, eu tinha prometido a mim mesmo, e ao Graça, que só aderia ao Partido depois de ler, e compreender, o «Manifesto» e o «Programa e os Estatutos do PC».


Lá pela décima noite de flagelo, ainda ia no prefácio à edição alemã, da autoria de Karl Marx e Friedrich Engels. E para se aperceberem da leitura tortuosa a que estava obrigado, basta referir que depois de 19 linhas de um texto chato como a potassa, lá vinha mais uma advertência no rodapé com indicação de ver nota (V) no fim do volume, enquanto o texto nos remetia para mais três notas em numeração romana e duas em numeração árabe. Passando em claro as notas em numeração árabe referentes à edição alemã, que apenas ocupam 20 linhas, as do senhor Vasco, identificadas com a numeração romana de (I) a (V), valha-me Deus, estendem-se por 200 linhas, ao longo de seis densas páginas. Arrepiei-me e adormeci. Ou melhor tentei adormecer. Mas como não o conseguia, voltei ao princípio: “Quanto à tradução do Manifesto vê-se uma vez mais que…” mas agora não resultava. Passeia à outra parte: “Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Aqui foi de novo tiro e queda. Que descanso. Que felicidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… e… sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Até que o galo voltou a cantar três vezes. Mais premonições. 

13
Jun12

O Poema Infinito (104): o tempo e o espaço

João Madureira

 

Escuto nas tuas palavras frutos de pomares que se dilatam em ondas silenciosas de doçura. E as crianças brincam na tarde que se prolonga. E o tempo acaricia-as e surpreende-lhes a respiração. Depois os teus olhos incendeiam-se e tudo recomeça a ficar transparente. O vento começa a afagar as árvores e o dia transforma-se numa fonte de água clara. E a terra respira na sua nudez de silêncio. Sinto de novo a ânsia da tua nudez inocente. Dizes: Todo o jardim tem o seu segredo. Vou tentar dominar a evidência serena do desejo do teu corpo. Agora quero possuir a tua alma. Por isso tento penetrar na tua porta feita de palavras evidentes. Cada vez sinto mais a distância que me separa da infância e da sua monótona perfeição. Apenas as palavras que a definem ainda murmuram o seu odor evidente de vertigem. Sou cada vez mais uma festa de silêncio. O tempo torna-se duro e embrulha os sonhos. A vida deixou de ser uma ficção proibida para se transformar num arrependimento invisível. O tempo é cada vez mais uma circunstância feroz. O tempo é uma palavra implacável. O tempo é um eco longo e incontrolado. Por isso fingimos destinos e enfiamos os sentimentos profundos dentro de uma mala portátil. E o tempo fica em silêncio sorrindo dentro da sua razão inexorável. Eu fico apenas com a raiva extravagante da razão. Toda a esperança enlouqueceu dentro dos abraços de despedida. As primaveras são agora relâmpagos que doem e por isso te abraço enquanto dormes tentando aliviar os meus pesadelos. Chego em silêncio aos teus lábios e neles pouso um lindo poema húmido de desejo. É breve a austeridade desta luz. Continuo a percorrer um caminho de palavras que deixo escritas no rosto da terra. E até invento os meus passos e o meu próprio caminho. As evidências comovem-me e por isso não as digo. Uma vaga breve de um tempo igualmente breve emerge no teu rosto que é agora um sorriso súbito de espanto. Pouso as mãos no teu corpo que é uma extensão de vento. E sorrio de forma oscilante. Dizes: Todo o amor é uma memória passada de um tempo presente. E da superfície do teu rosto emerge a cintilação branda da manhã. Tu dizes: Nós somos enquanto existimos daí ocuparmos espaço. Eu insisto no ar e na sua suspensão harmoniosa. Os meus olhos inventam agora uma nova realidade. O mundo é novo. A terra é clara. Tu voltas a ser o meu alimento. Mastigo-te. O sol da manhã acende-se em carne. Os teus seios de água doce tornam a nascer como uma fonte. Bebo-te. Na tua boca respiram agora as janelas do mundo por onde a luz entra concebendo a vertiginosa música da fecundação. Sinto outra vez o aparato silencioso das horas. Ao pé de ti todas as palavras ficam nuas. A minha mão principia a percorrer-te lá do alto e desenha-te o perfil. E depois flui liberta como o olhar. Abrimos de novo os lábios e bebemos longamente. E o meu sexo escreve mais um poema na página aberta do teu corpo. 

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