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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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01
Jun12

O Homem Sem Memória - 117

João Madureira

 

117 – José também fez anotações sobre o Alcorão. E perguntarão os estimados leitores onde diabo arranjou ele em 1974 livro tão maldito no Ocidente e quase inexistente em Portugal. Pois podem perguntar dado que a resposta não é fácil de dar. Mas tudo neste mundo tem explicação. Ou quase.


Não se esqueçam de que o nosso herói dos tempos modernos andou no seminário e frequentou várias casas de distintos burgueses que podiam ler pouco mas tinham orgulho em possuir uma biblioteca farta com as obras mais importantes da cultura universal, devidamente organizadas e arrumadas em sóbrias estantes onde as empregadas da limpeza limpavam o pó com tenacidade. E com 99% dos livros tão virgens como a santa mais virgem da cristandade ali fechados na sua sapiente inutilidade.


O José podia ser um ladrão de livros, isso até nós o admitimos sem trairmos a sua biografia autorizada, mas foi um ladrão culto e cultivado. Além de extremamente seletivo nos seus furtos, era também extraordinariamente meticuloso e, até, íntegro. Não roubava mais de uma obra por biblioteca. Com a devida exceção do seminário de onde surripiou três: Apologia de Sócrates, de Platão; O Alcorão e Bhagavad-Guitá (Poema Sagrado e O Canto do Bem-Aventurado).


Como em casa possuía apenas a edição censurada de Os Lusíadas que se utilizava nos liceus, pilhou uma boa edição clássica da casa do professor Matias, num dia de tertúlia bem avinhada enquanto o professor se perdia de amores por um seu colega de profissão recentemente colocado em Névoa.


Roubou o Hamlet de Shakespeare mesmo nas barbas do doutor Américo, que era míope como uma porta. Em troca escreveu-lhe lindos poemas de amor para o advogado enviar à sua jovem amante, que também era amante do doutor Inácio, um colega do doutor Américo, mas seu rival político, dado que um se dizia republicano legalista e o outro se afirmava monárquico miguelista e trauliteiro.


Ambos e dois, como se diz na minha terra, eram mentirosos, pois o republicano legalista era apenas simpatizante moderado do Estado Novo e o monárquico não era nada trauliteiro, pois mal podia com um gato pelo rabo e desmaiava mal avistava sangue. Também a amante de ambos devia muito à verdade, pois dizendo amá-los, detestava-os por igual. A amar alguém, amava o tal professor que era a perdição do professor Matias. Só que este amava a filha da empregada de sua casa, mas em segredo porque a sua família burguesa proibia parvoíces determinantemente desse género. Mas avancemos.


Da casa do doutor Inácio furtou A República de Platão. Em troca organizou uma sessão de fados e guitarradas e escreveu-lhe também lindos poemas de amor para enviar à mulher do doutor Américo, que tinha sido a sua primeira namorada, e ainda era o amor da sua vida, e por isso é que tinha investido tudo na conquista da amante do seu rival.


Da biblioteca do médico Amílcar, um robusto comunista ateu até à medula, roubou as Confissões de Santo Agostinho. Em troca jurou que se ia converter ao comunismo e casar com a sua filha mais velha que era ainda mais feia do que a filha mais velha da madrasta da Gata Borralheira.


Da casa do senhor Armindo da farmácia surripiou a Odisseia de Homero. Este foi em troca do que a sua mãe gastava na botica.


Da casa do padre Luís fanou A Origem das Espécies de Charles Darwin. Em troca insultou-o, amigavelmente claro está, acusando-o de mulherengo, comilão e agnóstico.


Da casa do fascista Duarte Portugal, ainda mais crente nos camisas negras italianos do que Salazar e Rolão Preto, roubou a Divina Comédia de Dante, numa edição primorosa e caríssima. Em troca disse-lhe, baixinho, para ninguém o ouvir, que se fosse foder ele mais o Mussolini e mais os cabrões dos camisas negras que eram uns miseráveis devoradores de pizzas, raviolis, queijo parmesão, spaghetti e outras merdas pelo estilo.


Fausto de Goethe fanou-o a um tenente nazi, potentíssimo com os seus subordinados, mas impotente na cama da sua legítima esposa, do qual omitimos o nome para manter o devido recato na senhora e a devida honra no cavalheiro. Em troca escreveu um poema em memória de Ernest Röhm, depois de lhe ouvir contar que ele era homossexual assumido, e que por isso teve muitos inimigos. Não se esquecendo de referir que, inclusive, este seu ídolo chegou a advogar a homossexualidade para as SA. Depois contou-lhe da Noite das Facas Longas, em 1934. E lembrou ao José, como se fosse necessário, que embora Hitler o estimasse pela sua capacidade de gestão e pela lealdade à causa nazi, não tardou em considerá-lo como um obstáculo à sua autoridade, devido à rejeição de que era alvo na estrutura de poder que rodeava o Führer. E no fim, já depois de ter bebido uma garrafa de aguardente velha, contou, banhado em lágrimas, que na madrugada de 30 de junho de 1934 Ernest Röhm foi preso pessoalmente por Hitler e, resistindo à ordem de detenção, foi levado à força para a prisão de Stadelheim. Aí recusou uma pistola para "cometer suicídio com honra". Foi morto por guardas SS, os seus diletos rivais.


Extorquiu ainda outros livros de casa de colegas e amigos, de entre os quais destacamos Assim Falava Zaratustra de Friedrich Nietzsche. Depois de o ter transportado para casa dentro do bolso do sobretudo, chegou a levá-lo de novo para a estante do seu legítimo dono. Tornou a roubá-lo numa noite de bebedeira e de novo se arrependeu, por isso carregou-o novamente no bolso do sobretudo e colocou-o na prateleira de onde o tinha levado. E andou neste traz e leva durante um mês inteiro. O seu arrependimento era inconstante devido ao facto do pai do seu amigo afirmar que ora o Eça era o maior romancista português, ora era o Camilo Castelo Branco.


Se havia uma coisa sagrada para o José era a sua firme convicção de que Eça de Queirós era um génio, enquanto o Camilo era um romântico rústico e palavroso. Mas o que o levou a decidir-se definitivamente pelo furto foi a afirmação do senhor Augusto acusando A Relíquia de ser uma obra menor. Aí não se conteve, foi até à biblioteca, pretextando uma consulta qualquer, e surripiou o Nietzsche para nunca mais o devolver. Em troca ensinou o copinho de leite do Mário Aníbal a enrolar cigarros e a fumá-los sem se engasgar, a jogar o chincalhão e o sapo, a beber vinho tinto nas tabernas e a comer bolos de bacalhau de uma só dentada.


O Contrato Social de Rousseau desviou-o da biblioteca de uma professora de francês da Escola Comercial, viúva inconsolável pois o seu marido tinha sido morto na Guiné um dia antes do seu regresso definitivo à metrópole. Em troca, foi seu amante durante um mês e meio.


Apropriou-se ainda indevidamente do Discurso do Método de Descartes, na biblioteca do José Almeida, um fanático do cinema mudo, enquanto assistia à projeção de um filme rodado em superoito, onde entravam várias raparigas e rapazes fazendo de raparigas e rapazes que corriam nus por uma encosta acima ali para os lados de Boticas. Em troca emprestou-lhe três Cahiers du Cinéma com críticas esplêndidas a Godard que trocou por um volume de revistas do Tintim encadernados pelo filho do GNR Pires.  


Surripiou ainda a Areopagítica (Discurso sobra a liberdade de expressão), de John Milton, da biblioteca do chefe local da PIDE-DGS, que era pai do Aníbal. Em troca ensinou o seu grande amigo a fazer charros e a chegar fogo ao metano que expelia pelo ânus, o que provocava o riso incontrolado do seu irmão que era epilético, manco e vesgo, mas conseguia imitar a voz de Marcelo Caetano ainda melhor do que o próprio Marcelo Caetano.


Roubou Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, ao chefe da prisão de Névoa, que era conhecido do seu pai. Em troca gravou ao filho uma cassete do Made in Japan dos Deep Purple.


Rapinou Utopia de Thomas More, ao presidente da Câmara de Névoa. Em troca cagou-lhe à porta no 1º de Dezembro.


Desviou ainda o Elogio da Loucura de Erasmo ao Maneca Castro, um excelente guitarrista de fado, contrabandista de armas, chulo e pederasta, que gostava de foder as mulheres com o cano do seu revólver prateado.


Roubou O Príncipe da biblioteca do pai do Carlos Borges, dono da Pensão Nevoense, um rapaz que gostava muito de fotografar meninas vestidas e rapazes nus, além de adorar dançar de t-shirt, calções justos e muito curtos, e de avental enquanto limpava o pó com uma vassourinha de penas lilases no quarto onde reunia com os seus amigos. No dia do furto, o José foi primeiro à biblioteca com a desculpa de que ia consultar a enciclopédia. Mas o seu faro de cão livreiro conduziu-o na direção do livro de Maquiavel. De seguida subiu ao Vinte e Três e deu com o Carlos a dançar freneticamente enquanto se meneava de forma esquisita. Mal o viu entrar, o filho do dono da pensão lançou-se-lhe nos braços e deu-lhe um beijo nos lábios. O José apenas disse: “Não me fodas a paciência Carlos, não te iludas nem estragues a nossa amizade. Eu não sou paneleiro.


Furtou A Arte da Guerra de Sun Tsu da biblioteca da prisão da GNR. O que originou uma repreensão por escrito ao cabo Silvério. O livro saiu da prisão na cesta da Dona Rosa. Ela só o descobriu quando chegou a casa. Preocupada, escondeu-o. Depois falou disso ao seu filho. Ele confirmou o furto. Ela disse então que o melhor era devolvê-lo, ao que ele respondeu como devia. Admitir o furto só ia piorar a sua situação. A mãe concordou, mas lembrou que alguém ia sofrer as consequências. A sorte calhou ao cabo Silvério que era o responsável pela biblioteca. Apesar de amigo da família, não tinha a suficiente relação de proximidade para desatar uma onda de solidariedade que levasse a família Ferreira a entregar o livro. Entre o cabo e o seu filho, a Dona Rosa nem sequer hesitou um segundo.


Da biblioteca da Sociedade Nevoense surripiou uma edição de luxo do D. Quixote de La Mancha, de Cervantes, com belíssimas ilustrações de Gustave Doré, numa noite de passagem de ano, quando no edifício já tudo estava grosso. Aqui abriu uma exceção, em vez de um livro, que neste caso eram quatro, roubou ainda Moby Dick, Herman Melville também uma edição de luxo, bem ilustrada e excelentemente encadernada.


Da biblioteca do Liceu roubou o Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, um livro sem capas, que leu de uma assentada. E também foi do Liceu que levou de forma imprópria o livro que lhe iria determinar a existência e ditar o destino: O Processo de Franz Kafka. Mal o começou a ler ficou alucinado. Teve a sensação de que tinha sido ele quem o tinha escrito. No fundo era o fiel guião da sua vida dali a alguns anos. A primeira frase era premonitória: “Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.”


Mas ainda é cedo para antecipar cenários. Voltemos então às leituras anotadas do José.

 

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