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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Ago12

O Homem Sem Memória - 73 [rep]

João Madureira


73 – O José continua vigilante. De cima do terraço observa as suas tropas que, também elas, mesmo não parecendo, continuam despertas. Nas terras em volta amadurecem os frutos, as ervas secam e os pássaros cantam alegres. Este continua ser o Verão do seu contentamento.


Sentado numa cadeira reza baixinho uma oração por si inventada onde exalta o Sol, a Terra, a Água e o Ar. O chapéu à Daniel Boone permanece bem ereto na sua cabeça. Enquanto observa o nascer do dia tem uma ereção e começa o chorar baixinho de verdadeiro júbilo. De seguida entoa, com a boca transformada em cornetim, o hino do amanhecer, para deleite das suas imaginárias tropas, dos galos dos vizinhos e dos cães das redondezas.


A sua mãe, também ela já desperta e a rezar as suas orações, emociona-se com a pequena loucura do filho mais velho. O seminário tem desenvolvido nele uma estranha, mas tocante, loucura fantasiosa. Os irmãos adoram-no.


O José tem feito deles, pequenos conselheiros, confidentes ou filhos adotivos. Conta-lhes histórias, confidencia-lhes pequenos segredos, enche-os de mimos. Continua a ler imenso. Os livros são o seu verdadeiro mundo. São o território que administra com sabedoria, lealdade, verdade e justiça.


Hoje o cornetim toca também para lembrar à família que está na hora de acordar e preparar toda a logística necessária que permita passar um dia à beira rio.


O dia tem tudo para dar certo: amanheceu lindo de morrer, não há vento e está calor. Além disso, o guarda Ferreira está a gozar alguns dias de licença. Por insistência da dona Rosa, uns dias fuma menos… mas bebe mais. Noutros dias bebe menos… mas fuma mais. O guarda Ferreira continua, para nosso gáudio, o homem equilibrado que sempre foi e continuará ser, se Deus quiser.


Mal acordou fumou um cigarro, mas não bebeu nada. Tratou da sua higiene pessoal, foi buscar os garrafões do vinho tinto e arrumou-os junto à porta. Depois comeu um pedaço de pão com nozes e figos e bebeu um calicezinho de aguardente. Mas não fumou nenhum cigarro. Continua fiel à sua promessa de equilíbrio. De seguida ajudou a acomodar a comida feita de véspera nos cabazes e a dobrar os liteiros e os cobertores. Enquanto a dona Rosa vestiu e calçou os filhos, o guarda Ferreira e o José transportaram e acomodaram toda a tralha na carroça do vizinho Carriço.


Saíram de casa às sete, chegaram, por volta das oito, à margem direita do Tâmega e às nove sentaram-se a comer o pequeno-almoço. Durante o caminho o guarda Ferreira não fumou um único cigarro. Ainda fez uma ou duas tentativas para puxar o maço do bolso da camisa, mas o olhar certeiro da dona Rosa foi suficientemente persuasivo para o inibir da atitude. Pelo caminho juntaram-se a muitas outras famílias que seguiam na mesma direção e com o mesmo propósito.


Mal dispuseram as mantas no chão, algumas crianças voltaram a adormecer. O José pediu autorização à mãe para as acordar. Ela disse-lhe que o melhor era deixá-las dormir até acordarem. Nessa altura terão fome e será mais fácil alimentá-las. A mãe sorriu para o José e o José sorriu para a mãe. É bem possível que já se queiram mais um pouco. Viver à distância torna-nos mais tolerantes, atenua-nos os defeitos, aumenta-nos as virtudes.


O mata-bicho soube-lhes pela vida. O bacalhau frito e o presunto, juntos com o pão centeio, combinaram bem com a fome e esta também combinou muito bem com a bola de carne, os rissóis, a linguiça e o salpicão. Depois o vinho caiu regaladamente em cima da comida e a comida agradeceu. O guarda Ferreira, em coerência com o equilíbrio prometido, e devido a não ter fumado um único cigarro – se descontarmos um fumaçado a medo quando foi mijar atrás de um casebre e ainda outro durante a penosa montagem do acampamento –, bebeu um litro de tinto bem medido. Seguidamente foi pendurar os garrafões a refrescar na água do rio.


As crianças, por fim, acordaram e puseram-se também elas a comer. As mães começaram a falar-lhes, a dar-lhes mimo e a sorrir, o que combinou muito bem com a boa disposição dos cavalheiros que começaram a falar de futebol e a organizar-se em pequenos grupos. Porque os garrafões de vinho estavam afogados em água corrente, o guarda Ferreira, mais uma vez fiel à sua promessa de equilíbrio, fumou vários cigarros com o ligeiro intervalo de tempo que levava a acendê-los uns nos outros.


Os homens, esses sortudos, como não discutiam política, por não saberem o que isso era, e porque eram todos, ou quase todos, do Benfica, o que não possibilitava o contraditório necessário à manutenção de uma discussão acesa sobre o desporto rei, puseram-se a jogar à sueca. E assim se mantiveram até à hora do almoço.


Na banca onde o guarda Ferreira se alapou para batê-las, ao contrário das outras mesas de sueca, o vinho não entrou. A Dona Rosa tinha dado ordens expressas: “Aqui só joga quem não beber.” Ao que alguém mais bem disposto do que a anfitriã perguntou: “Nem um copinho de água?” Ao que ela respondeu: “Vai à merda Manuel.” Para logo de seguida se ouvir a voz serena do José: “Por favor, mãe, não sejas tão escatológica.” Ao que a família Ferreira em uníssono respondeu, incluído o guarda Ferreira, imitando a voz estridente da dona Rosa: “O que eu sou é escanifobética. Ah, ah, ah!” Ao que o senhor Manuel ripostou atrapalhado: “Não percebo nada do que estais para aí a dizer.” Então a dona Rosa repetiu: “O que eu sou é escanifobética”. Foi a vez do João se começar a rir e dar um peido sonoro como sempre acontecia quando gargalhava com vontade. O que foi aproveitado pelos outros irmãos para se rirem também o que provocou novo peido do João e mais riso nos irmãos e na dona Rosa, a que só não se lhes juntou o Leão, porque já tinha morrido, e o Virtudes porque tinha ficado em Montalegre, sempre num crescendo de hilaridade que nos abstemos de dar conta mais pormenorizada porque, afinal, já foi descrita em dois momentos anteriores. 


O guarda Ferreira, como não bebeu… fumou. E bem, só não chupou os dedos porque necessitou deles para pegar e largar as cartas.


O almoço foi bom. Comeram bolos de bacalhau, azeitonas, presunto, arroz de ervilhas, frango assado e bifes e chicharro de cebolada. Como sobremesa filaram-se no melão. As crianças beberam Sumol, as mulheres mais envergonhadas água e as mais destemidas vinho branco. Os homens enfrascaram-se com tinto. No fim do almoço o guarda Ferreira ainda esboçou o gesto de puxar de um cigarro. Mas como antes olhou instintivamente na direção da dona Rosa, meteu de imediato o cigarro no maço e serviu-se de mais dois copos de tinto de Arcossó.


Depois do repasto, enquanto o sol apertava, todas aquelas singelas criaturas de Deus, saciadas de comida e de paz, se puseram a dormir a sesta. Ressonaram como cavalos bêbados.


Lá mais para a tarde, sob o olhar vigilante das mães e dos irmãos mais velhos, as crianças atreveram-se a ir dar banho nas águas mansas do rio. Com a algazarra das crianças, os homens despertaram dos seus sonos embriagados e começaram a sorrir e a peidar-se com muita singeleza de espírito.


Esta ocasião hilariante permitiu que o guarda Ferreira fumasse mais um apetecido cigarro. Depois foi jogar as cartas e continuou a fumar ao mesmo ritmo com que perdia partida atrás de partida. A sorte do jogo não queria nada com ele. “Azar ao jogo, sorte no amor”, disse galhofando o par de adversários de mesa da sueca. Mas não levaram o riso até ao fim. Falar de amor na relação entre o guarda Ferreira e a dona Rosa é coisa que nem os pobres de espírito conseguem dizer sem sentirem remorsos. Com coisas sérias não se brinca.


No meio da erva seca os rapazes mais velhos jogaram futebol por entre gargalhadas e pó. Apenas o José se absteve devido a não ser capaz de andar descalço. Ainda propôs que lhe autorizassem a jogar com os sapatos que eram mimosinhos. Mas eles disseram que não, a jogar que o fizesse de meias. Ele assim procedeu, mas o raio das peúgas romperam-se logo de seguida.


Depois de mais uma maratona de cartas e de cigarros, o guarda Ferreira voltou a ser convidado para a merenda. Comeram-se os restos, que, mais do que restos, eram nova e suculenta refeição. Escorropicharam-se os garrafões de vinho e alguns homens mais bebidos, começaram cantar o fado. Por não haver mais vinho, o guarda Ferreira pode terminar o dia fumando os cigarros que lhes restavam olhando serena e calmamente para os filhos e para o pôr-do-sol. Quando a dona Rosa apareceu na sua frente, em contra luz, a lembrar-lhe que estava na hora de regressar a casa, o guarda Ferreira teve uma epifania: viu a sua mulher a morrer afogada no rio. Depois olhou para o filho e arrepiou-se. O José continuava a adivinhar o pensamento dos outros. 

29
Ago12

O Poema Infinito (21): Criação [rep]

João Madureira


A invenção do Mundo custou a parir cinco dias infinitos. Logo de seguida Deus criou os seres vivos em apenas dois. E o mesmo Deus ofertou o Mundo, ainda tosco e selvagem, aos animais e às plantas e aos homens que, na sua omnisciente visão, não são nem uma coisa nem outra. Valha-nos Deus. No início, o mundo foi feito através da iluminação cega da criação e Deus transformou-se em loucura e em espada e cortou as estrelas e modelou planetas e tingiu de escuro o firmamento e pôs calhaus a voar caoticamente entre eles. Posteriormente tornou-se amargo e amassou as montanhas e condenou animais a sê-lo para sempre e deu cor à humanidade criando o pecado e o sexo para ser praticado com conta, peso e medida. Deus fez o homem do barro e a mulher das costelas dele. Deus brincou com os humanos como se fossem bonecos de plasticina. Deus gosta muito de brincar. Nisso assemelha-se às crianças. Depois purificou as fontes e as crianças e deu vinho aos reis e aos pobres e colocou carga erótica nas coxas e nas mamas das mulheres e fez-lhes de seguida um rasgo entre pernas para parirem com dor. E pôs lá pêlos. E teve coragem de criar o macaco para o homem se sentir superior e de criar os homossexuais para confundir a sexualidade de uns e de outros. Depois criou os anjos sem sexo. E ainda criou o sexo sem anjos. E chegou mesmo a criar o sexo sem sexo. A que se seguiu o celibato de padres e de freiras. E criou os pedófilos que se abrigam dentro da sua Igreja. E criou caracóis para sugerir ao homem que se quiser prosseguir na sua evolução pode muito bem foder-se a si próprio sempre que queira sem incomodar ninguém e depois pôr muitos ovos para formar descendência. E criou Darwin para nos dizer que todos os seres vivos evoluem só que uns evoluem mais do que outros. E outros evoluíram tanto que chegaram a seres inteligentes e por isso conseguem ter consciência de que Ele existe. E criou a palavra virgem para distinguir a pureza das mulheres pois já sabia que ia ter um filho de uma que o foi antes e depois da fecundação e do nascimento do seu filho que foi utilizado para sofrer e redimir os homens e as mulheres e que, apesar de ser crucificado, de nada nos valeu pois os homens continuam tão maus como dantes e o seu único filho ficou para sempre crucificado numa cruz de pau feita de prata ou ouro que o seu representante na Terra ostenta como símbolo de poder. Mas o poder de Deus num homem é uma das coisas mais estúpidas que se pode conceber. E Deus, ao que por aí se diz, não é estúpido. Estúpida é a economia que foi criada pelo homem para enriquecer uns e empobrecer outros. A economia é uma prostituta rica que muitas vezes é abençoada pelo Homem e por Deus. E nisso o seu filho foi peremptório atribuindo a César o que é de César. Pois à mulher de César, que agora sabemos chamar-se Economia, não lhe basta ser séria também tem de parecê-lo. E finalmente criou o foguetão e enfiou lá dentro três homens que foram à Lua e um deles deu um pequeno passo para ele, disse ele, mas um grande passo para a Humanidade, disse ele também. E ninguém se atreveu a desmenti-lo. Ainda hoje se está a medir o seu tamanho e ninguém conseguiu definir com exactidão a sua extensão. São, por isso, insondáveis os caminhos do Senhor. 

27
Ago12

Um, dois e três… contos outra vez

João Madureira


1 – A galinha garnizé


Não é minimamente aceitável que se faça pouco da inteligência das galinhas garnizés. Não sendo tão grandes como as outras, são mais aguerridas, mais carinhosas com os pintainhos, mais defensoras do seu território, mais independentes dos galos, mais poedeiras, mais mexidas, decididas e guerreiras. Sabem adivinhar os eclipses da Lua e o vento Norte. Eu conheço uma que dança de roda quando houve música do Marco Paulo, que salta quando vê um padre e que cacareja ao contrário quando avista uma bruxa das más (Ai Mimi, Mimi, finalmente chegaste a um conto meu). Também adivinha os dias de trovoada e as noites de geada negra. É tão atenta e perspicaz que descobre um mentiroso pelo sorriso, um caloteiro pela maneira como se senta e um político invejoso pela grafia. Tem esta galinha garnizé o condão de se rir nos dias santos, sem que ninguém lho sugira. É também muito piedosa, muito tolerante com os outros e, sobretudo, sobe e desce escadas com uma pata só. Gosta muito de passear de carro, sobretudo de descer a Rua de Santo António aos domingos, especialmente quando as pessoas saem da missa. Nas noites de Natal canta lindas canções que ouve na televisão. Chegou a assistir a uma missa do galo e cacarejou com tanta ventura que a vaquinha e o burrinho choraram lágrimas verdadeiras e até o menino Jesus do presépio se sorriu. O que também é um milagre e, mesmo que pareça trivial, cai muito bem numa noite de consoada que é a festa da família onde os animais têm o mais honroso papel.

 

2 - O boi da corte

 

Veem o Larouco lá em baixo? Era ali que eu gostava de viver, entre a relva fresca e verde, entre as nuvens, o ar puro e os animais selvagens. Tudo menos andar rodeado de seres humanos que apenas me utilizam para competir simbolicamente em nome do seu pretérito orgulho tribal. E eu não gosto mesmo nada de andar por aí às marradas aos outros bois como se eles fossem os meus inimigos. Inimigos são os homens que me fustigam o lombo com as varas quando vou para o campo de batalha, quando perco a luta ou mesmo quando a ganho. Tristes ou alegres, derrotados ou vitoriosos, dão-me sempre com os varapaus nos costados. E eu ali a aguentar o desaforo. Por vezes só me apetece lançar-me a eles às cornadas e projetá-los lá bem para longe. O que eu queria de verdade era andar por esses pastos fora em liberdade e não fazer o papel de boi da Corte, como antigamente os bobos eram obrigados a representar aos pés do seu rei. Antigamente éramos os bois do povo, agora somos os bois dos parvos ou de um patrão que nos utiliza como animais amestrados de circo. E lá se foi a simbologia totémica, a virilidade serrana, a força telúrica do seminal. O que mais desejo é ver-me livre destes patetas e ir correr à desfilada por esses campos fora à procura de uma vaca que me espere e deseje. Uma vaca redondinha, amável e prazenteira. O resto é-me indiferente. E por agora é tudo, porque já ali vem o meu tratador para me levar para o estábulo. E eu que enjoo quando ando na camioneta. Ó triste sina a minha!

 

3 - O solilóquio libidinoso sobre um boi de barroso feito por uma digressionista ocasional logo após uma chega

 

Vou filmar este bicho espantoso enclausurado dentro do contentor da camioneta. Depois da vitória, o encarceramento. Ó desconsolada ironia! Já filmei o animal a turrar com o seu competidor. Já o filmei a resfolegar. Até já o cinematografei a espumar de irritação. É um magnífico animal, sem dúvida. Uma autêntica força da natureza. Um cântico à virilidade. E que genitais, meu deus! Que genitais! Que quadris! Que força! Quando mostrar isto à Lili de certeza que vai alterar-se copiosamente e sorrir. Ela adora animais potentes. Ela é doida por genitais. Tudo o que sugere virilidade a aproxima da parede. E ela adora ser encostada à parede. Ou estendida no chão. Ou assentada metodicamente numa mesa. Este toiro bravo faz-me evocar o Manuel. Era ele um autêntico beligerante. Era montês a esgrimir gládios. Era arrojado e destemido. Saracoteava com muito talento a silvestre agitação dos guerreiros. Agora vou confecionar um grande plano do frontispício do viril bovino para cinematografar os seus olhos. Olhos serenos. Olhos diligentes. E que genitais, meu deus! Vou também filmar os chifres. Armadura alta. Arnês apontando ao céu. E que genitais, meu deus! Também tem o dorso bem desenhado, pernas enérgicas e locomoção segura. E que genitais, meu deus! Que potência! São testículos telúricos. Uma ejaculação deste bichano deve ser como uma trovoada de Verão. Tem os músculos bem tonificados. E que genitais, meu deus! Nunca pensei que existisse realidade tão magnificente. A penetração dum bicho destes deve deixar a fêmea em estado de deslumbramento. Quando se desloca parece dócil. Mas quando investe contra o adversário até o piso tirita. Provoca cútis de galinha e tremores na espinha aos indivíduos alterosos. E que genitais, meu deus! Que genitais! Genitais destes são um excelso cântico à multiplicação indómita. E o Manelinho!? Bem, o Manelinho quando observar estas expressivas imagens vai dar saltinhos de contentamento. Vai emitir gritinhos de luxúria. Vai irradiar vagidos sincréticos e apologéticos. Mas que genitais, deus meu! Que opulência reprodutora! Que idiossincrasia indomável! Que estratégia construtiva! Que genialidade! Que genitais, meu deus! Que genes e tais! Bem alentados os genes. Bem ocorridos os garanhões informais. Bem-aventurados esses.

24
Ago12

O Homem Sem Memória - 72 [rep]

João Madureira


72 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação II).


Cena 9 (take 1). O Graça e o José, bem comidos e bem bebidos, palitam os dentes com um pauzinho de urze aguçado à navalha, arrotam alto, peidam-se e riem. Entretanto esperam pacientemente pelo inimigo que tarda em chegar.


Cena 10 (take 2). Ao longe o batalhão mirim serpenteia teimosamente pelo mesmo trilho percorrido anteriormente. Depois de algum movimento, estaca quase no mesmo sítio da primeira paragem efetuada durante a manhã, na qual o burro abandonou o seu comandante.


Cena 11 (take 5). Um soldado mirim: “Estou estafado. Comi muitos feijões e carne ao almoço. Dói-me a barriga. Vou ali arrear o calhau.” Vermelho de raiva, e com o brio pelas ruas da amargura, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, adverte alto e bom som: “Ai não vais não. Por este andar nunca mais chegamos ao campo de batalha. Não vos apoquenta o que pensa o inimigo da vossa coragem, ou da falta dela?” O soldado à rasca da barriga: “Ou vou ali cagar ou…” Os outros soldados aflitos: “Deixa-o ir se não borra as calças e depois é a debandada geral por causa do pivete.” O chefe mirim: “Vai, mas volta rápido, pois há ainda muito caminho para percorrer e um inimigo para atacar e vencer.”


Cena 12 (take 3). O Graça e o José continuam impacientemente à espera que o inimigo se resolva a atacar. O Graça: “Lá voltaram eles a parar. Se não nos atacam eles, atacamo-los nós.” O José: “Mas somos apenas dois e eles são para aí uns vinte.” O Graça: “Eu sei. Mas não aguento mais esta indecisão. Pelo que vejo temos de mudar de inimigo. Este nunca mais se decide a atacar. E uma guerra sem luta não presta. Eu nunca gostei das batalhas táticas. Detesto estrategas. Eu aprecio uma luta cara a cara. Gosto de sentir o cheiro do medo do inimigo.” O José: “Olha, olha, a coluna pôs-se de novo em andamento. Está tudo a postos?” O Graça com cara de caso: “Está tudo a postos, mas nada em ordem. Mas deixa-os vir. Até os comemos!


Cena 13 (take 3). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Em frente marche. Um dois três, um dois três, um dois… Lá está o inimigo empoleirado em cima das árvores. Os primeiros a entrar em combate vão ser os cães pisteiros. Sobem às árvores e enxotam o inimigo cá para baixo, que depois nós caímos-lhes em cima. Um cão pisteiro: “Falar é fácil, mas uma coisa é ladrar como os cães e mijar como os cães, outra bem distinta é subir às árvores. Os cães não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos. E nós não somos gatos. Somos cães. Por isso não posso subir às árvores. Além do mais tenho tonturas. Que suba o outro cão.” O outro cão pisteiro: “Essa é boa. Queres passar as responsabilidades para cima de mim, sem sequer me consultares. Eu também não subo às árvores. Sou tão cão como tu, com os mesmos direitos e com os mesmos deveres. Quando me alistei no batalhão mirim foi como cão pisteiro e os cães, como muito bem referiste, não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos.” De novo o batalhão parou.


Cena 14 (take 1). O José: “Voltaram a parar. Há-de chegar a noite e nós sem guerra. Estou de acordo contigo, está na hora de escolher outro inimigo. Este não presta. Só falam, cagam e mijam.”


Cena 15 (take 7). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Começo a estar farto desta merda. Primeiro foi o burro, depois foi a sede, depois foi a fome, ainda há pouco tempo parámos para o Peidolas ir cagar e agora são os cães que descobrem que os cães não sobem às árvores. Começo a estar farto desta merda. Se os cães não subirem às árvores desisto da guerra e a vergonha desabará por cima de nós como um manto negro da cobardia.” “Não, isso não pode acontecer”, gritaram irritados os soldados mirins. “Dá-lhes com a vergasta de salgueiro no cu que eles logo arrebitam. Até sobem pelas paredes acima.” O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro com um sorriso de escárnio nos lábios: “ O pelotão está comigo? Está mesmo? Acha o valoroso pelotão, que eu tenho a subida honra de comandar, que devo arrear com o meu pinguelim no rabo destes cães cobardes?” “Sim, sim, sim”, gritou o pelotão a uma só voz. “Então que assim seja. Agarrai-mos que eu logo lhes quebro a cobardia.” “A ver se te atreves”, desafiou o primeiro cão pisteiro. “A ver se te atreves”, desafiou o segundo cão pisteiro. “Ai atrevo, atrevo”, ameaçou vibrando o pinguelim o chefe mirim. Vendo que a razão da força pendia claramente para o lado do líder, os cães decidiram-se a subir às árvores.


Cena 16 (take 4). O pelotão mirim avança determinado na direção do inimigo. Nota-se ainda uma ligeira hesitação nos cães, que guincham baixinho impropérios. O chefe chega-lhes a roupa ao pelo.


Cena 17 (take 2). O Graça eufórico: “Agora é mesmo para valer” e lança um berro que põe os pássaros empoleirados nas árvores a voar sem direção definida.


Cena 18 (take 2). Os cães pisteiros caem num fosso e começam a chorar.


Cena 19 (take 10). Quatro troncos, vindos sabe-se lá bem de aonde, presos por fortes cordas de sisal, deitam por terra todos os soldados mirins e também todas as esperanças numa vitória.


Cena 20 (take 1). O José eufórico: “Agora é mesmo para valer. A vitória é nossa.” E lança três berros que arrepiam os soldados caídos e os põe em debandada geral.


Cena 21 (take 1). O capitão escoteiro, caído por terra, já sem chapéu colonial, sem monóculo e sem pinguelim de varinha de salgueiro, chora de raiva. O Graça abre-lhe a carcela das calças e sentencia com uma risada demoníaca: “Vamos fazer-lhe uma barrela para aprender.” O José: “Não o humilhes tanto.” O Graça: “Como chefe de brigada, condeno este imbecil a sofrer a suprema desonra de uma barrela. E, pondo-lhe a piroca à mostra, cospe-llhe. O mesmo faz o José. Depois deitam-lhe em cima várias mãos cheias de terra e esfregam até doer. E, desta forma humilhante para o capitão mirim, os heróis do momento dão por finalizada a guerra. 


22
Ago12

O Poema Infinito (30): o logro [rep]

João Madureira


Espero um tempo novo feito de palavras virgens recitadas por jubilosos jovens bebedores de vinho puro. Das suas mãos hão-de nascer os sinais ardentes da esperança e os seus dedos irão moldar um mundo novo. Já aí vem o esplendor da revolução. Os demónios da opressão vergam-se perante a luz violenta da liberdade. As estrelas da inocência brilham nos olhos dos idealistas. Devagar o espírito dos livros transforma o sangue espesso dos mártires em seiva que alimenta os novos heróis redentores. Deus é uma estrela sonâmbula. Os campos de batalha cheiram a trevo. Os astros da madrugada derramam esperança. A vitória dos que triunfam é bela. O espírito dos guerreiros espelha a invenção do amor. Os chefes amam com lágrimas fortes os seus mais intrépidos combatentes. Os campos enchem-se de cânticos. Começa de novo o mundo a girar na sua rota perfeita. Os astros estão alinhados. As mulheres inventam de novo amores loucos e heróis infinitos. A terra arada brota em cereais nobres. As árvores de fruto alimentam os pássaros que sobrevoam os campos gloriosos da batalha. Viver torna a ser uma arte pura. Pintam-se quadros soberbos dos semideuses. O pensamento é livre. As primaveras são instintivas. O pão e a alegria são o dinheiro do reino. O rei tem força. As manhãs nascem sublimes. A beleza vibra na boca das princesas. As mães embalam os seus filhos com palavras de ouro. Os poetas inspiram-se na vida simples dos virtuosos. As águas são puras como a alma dos mártires. O leite renasce nos úberes das fêmeas. O fogo provoca o contentamento dos jovens. Os sorrisos nascem da bondade. A verdade é a aurora do império. A esperança é integral. Tudo o que eu digo está vivo na frescura de um coração novo. Tudo o que eu escrevo é mentira.

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