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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Out12

O Poema Infinito (117): a luz e o enigma

João Madureira

 

A madrugada repousa nas horas que vão subindo pelo rio. E a encosta do monte procura o seu sentido no sossego. Sinto o ritmo dos teus olhos dançando contra a cor dourada da luz filtrada pelas folhas das árvores. Vai ser precisa outra manhã para entardecer de novo. O repouso do rio afeta a claridade do silêncio. Todo este lugar convoca a evidência que repousa nas nossas mãos. Mais uma noite antiga regressa ao futuro. Aparecem-nos os nomes na sua aproximação longínqua. E voam como aves que se aproximam do seu exílio de ar e azul. Todo o pensamento brilha e expende-se sacudindo os campos e as metáforas e a paciência. E a dor oculta-se. Prometo-te que estudarei a origem das enxurradas de luz. E o próprio lume. E a fosforescência dos surtos de energia. E os rumores da chuva. E a paciência da morte. E os alicerces das ventanias. E estudarei as ruínas da civilização ocidental. E ainda a expansão massiva da nossa vacuidade. Sei que novamente as palavras desencadearão tempestades e guerras. Dizes-me: Toda a paciência é sobrenatural. Por isso as cotovias trazem a noite e com ela atravessam a luminosidade dos vitrais dos templos. A madrugada tem ainda mais luz e as nuvens brilham na sua resignação húmida. Lá ao longe os espíritos movem-se rapidamente acompanhando mais uma das infinitas ressurreições de Jesus. E ele brilha dentro do trabalho que continua a ter para ser e parecer humilde. E sofre e ilumina-se, contrariando a intensificação do vento. E os homens estudam a sua condição de girândolas quânticas dispersas pelos grãos de areia do deserto universal. Falo agora deitado sobre a superfície das águas e o tempo varre as palavras que me saem das mãos. E os sentimentos redemoinham enviesados nas suas causas e nos seus efeitos. Velhos artífices tornam lúcido o seu ofício e entardecem com o tempo. E o silêncio torna a estender-se. E o nevoeiro ganha a sua saudosa transparência. E a luz pousa como uma ave. E os anjos voluptuosos analisam a sua inultrapassável velocidade. E partem de novo com tudo resolvido. E a sua velocíssima imagem entra no tempo. E o tempo desfaz-se. Para lá do espaço há sempre mais um bocado de espaço e depois deste outro se lhe segue e outro e ainda outro até as palavras se transformarem em números e serem infinitas. E assim infinitas transformam-se num enigma. E o enigma esconde-se dentro de outro enigma e este esconde-se dentro de outro até serem infinitos e se transformarem em Deus de todas as coisas que também é o Deus de coisa nenhuma. Agora a abundância dos milagres do seu filho multiplica a desgraça dos famintos. E os famintos riem-se, pois estão sempre escondidos dentro das suas necessidades. Deus elucida-os, falando-lhes sempre mais uma vez através do seu filho. E eles escondem-se ainda mais dentro das palavras e dentro dos enigmas e voltam a sorrir. Tal como o Universo e como Deus, também a estupidez é infinita. 

29
Out12

Pérolas e diamantes (9): Mo Yan, não fales

João Madureira

 

Veio nos jornais que o novo Prémio Nobel da Literatura, quando, lá na sua distante cidade de Gaomi, no leste da China, foi informado da feliz novidade terá dito “fiquei radiante e assustado”.

 

Na justificação sucinta dos atributos do autor, o júri destacou o “realismo alucinatório” da sua escrita e a capacidade de fundir o imaginário dos contos populares com a História e a realidade contemporânea.

 

O nome com que assina os seus livros é Mo Yan, um pseudónimo que em português significa “não fales”. E foi isso o que mais me impressionou. Assim, à primeira vista, não encontrei razão explícita para o facto. Mas nem tudo tem um fundamento evidente para existir. A seu tempo a razão das coisas costuma vir à tona, tal e qual o azeite quando o misturam com a água.

 

Também a mim me vão chegando vários apelos para que não fale. Ou, pelo menos, para que não fale de determinadas coisas. Ou, ainda, para que fale, mas não da forma como o faço. E, como os estimados leitores são testemunhas, eu cá me vou tenteando como sei e posso. Por isso falo do P.P. Coelho para não falar do… mo yan. Por isso escrevo sobre o inenarrável Relvas para não dizer nada acerca de… mo yan.

 

É que a cidade é pequena e aqui as forças do poder, e os homens das decisões, pela calada dos gabinetes, sempre pela calada dos gabinetes, batem duro e forte. Castigam as pessoas, discriminam instituições, destituem adversários, perseguem concorrentes e indiferenciam as pessoas competentes e de qualidade. E sempre pela costas. Na sombra dos gabinetes. Sempre na sombra. E pelas costas. Na calada dos gabinetes.

 

Eu até podia, e queria, falar do presidente da comissão política do PSD de Chaves (sim, ainda é António Cabeleira) e da sua patética declaração de que, com a sua proposta de reorganização do território, ele pretende “salvar freguesias do concelho”.

 

Lá poder podia e querer também queria, mas, na realidade, não posso. É que a cidade é pequena e está sujeita a um torniquete político e ideológico que a torna sufocante. Apetecia-me dizer que as palavras do vice-presidente da Câmara são uma verdadeira provo…

 

Alto lá. Eu não devo falar de determinadas coisas. Ou, pelo menos, não devo fazê-lo da forma como o faço. Sendo quase insignificante, senão mesmo insignificante, em termos sociais e políticos, dizem que não sou controlável. Ora porra, e eu a pensar que sim. Então eu não fiz tudo o que devia fazer? Não disse tudo o que era conveniente dizer? Não sorri quando devia? Não condescendi na altura certa? Não me portei bem ao jantar? Não comi com os talheres adequados? Não fiz conversa de salão? Não disse aquilo que de mim exigiam e esperavam no momento certo e na altura adequada?

 

Ah, então foi isso! A verdade nem sempre interessa, ou, pelo menos, não interessa assim despida e nua, assim pura e cristalina. A verdade nem sempre é conveniente.

 

Pois, como vos ia dizendo, eu até podia falar do buraco, do enorme buraco, que persiste por detrás do Faustino e onde dizem que vão construir um parque de estacionamento. Mas… mo yan. Assim é melhor. O que não é falado não é lembrado e eu agora penso mais na vidinha.

 

Também com a crise que por aí vai, o melhor é comer e calar. O que é que adianta uma pessoa estar para aqui a chatear-se. Tudo está no seu devido lugar. Os impostos a subir e o poder de compra a baixar. Mas a quem é que isso interessa?

 

Por exemplo, leio no “Expresso” que para um jantar com os amigos (e eles são tantos e tão bons, não os jantares, claro está, mas os amigos), o seu especialista enólogo recomenda um belíssimo vinho tinto da região do Douro, ao módico preço de 28 euros, que deve ser apreciado, e passo a citar, “num repasto onde entrem carnes fortes, de caça de pena (perdizes, que estamos agora na época delas) ou de pelo (lebres e coelhos)”.

 

Ah, e por falar em Coelho, Miguel Sousa Tavares escreveu também no mesmo jornal que “já tivemos maus e muito maus governos, mas jamais tínhamos tido um Governo tão incompetente e tão mal preparado para governar”. O que me levou a fazer a analogia com o que se relaciona com a nossa autarquia, pois também já tivemos más Câmaras, mas nunca tivemos uma Câmara tão in… (olha os apelos para que não fales) com… (ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas) pe… (ou, ainda, para que fales, mas não da forma que o fazes) ten… mo yan.

 

Lá tentar, tentaste, mas controlaste-te a tempo. Afinal és controlável. Com um bocadinho de jeito, também consegues. Bravo.

 

Com vossa licença, volto aos vinhos. João Paulo Martins, ainda no mesmo semanário, escreve que é um mito o queijo da Serra acompanhar-se com vinho tinto. Pois, apesar de estarmos na controversa zona dos gostos pessoais, e após provar este queijo com vinhos brancos estagiados em madeira, é provável que não se volte ao tinto. E a mesma ideia é válida para os outros queijos amanteigados, como o de Azeitão e o de Serpa.

 

No meio da polémica, pus-me a pensar que teimar na ideia de que um presidente da Câmara quando se vai embora tem de deixar o seu vice a governar é um mito. E dos maus. E um mito que já deu provas de ser meio caminho andado para o fracasso. Todos nos lembramos de Alexandre Chaves ter teimado em deixar na sua cadeira o seu delfim. E viu os seus intentos destroçados. (Olha os apelos para que não fales…) Também João Batista está a tentar seguir o mesmo caminho. (Ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas...) Dizem na minha terra que só os… (ou ainda, para que fales, mas não da forma que o fazes…) só os… mo yan.

 

Eu sei que Altamiro Claro e António Cabeleira são pessoas distintas. No entanto também sei que escolher entre um e outro é entrar na controversa zona dos gostos pessoais. Mas eu não tenho receio nenhum em afirmar que gosto mais de vinho tinto a acompanhar o queijo da Serra.

 

Outra treta, relacionada com o vinho, claro está, é que à mesa o copo maior é para a água. Mas lá está João Paulo Martins para nos desfazer de novo o mito, ou melhor, o erro. A água não requer, nem beneficia, de um copo grande. O vinho, pelo contrário, pode melhorar enormemente. Por isso é que eu acho que a candidatura do António Cabeleira não beneficia nada em ser servida em copo grande. Reúne todas as condições para ser servida em copo pequeno. É que a água nem tem sabor, nem cheiro, nem cor. Além disso, quem é que ainda acredita no putati… mo yan.

 

Eu ainda não entendi em que momento foi que António Cabeleira julgou que tinha perfil para ser aquilo para que manifestamente não tem… (Olha os apelos para que não fales… ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas... ou, ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…), nem nunca virá a… mo yan.

 

Na sua coluna habitual, já para o fim, o diretor do “Expresso” escreveu que “se há coisas que o país não perdoou a Sócrates foi a maquilhagem da verdade, o ‘empurrar com a barriga’, o dourar a pílula, a inconsciência otimista, as faturas adiadas.”

 

Também eu penso que os cidadãos do nosso concelho não vão perdoar a este executivo camarário a maquilhagem da ver… (olha os apelos para que não fales…), a inconsciência otimista das obras prometidas e irreali… (ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas...), as faturas adiadas de uma década de desperdí… (ou ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…).

 

Apesar do sacrifício feito em me conter, não quero terminar sem partilhar uma sugestão do enólogo do “Expresso” sobre um vinho que devemos guardar na garrafeira. Das suas seis sugestões, eu fiquei-me pela garrafa de preço médio (apenas 30 euritos, ó crise vai-te embora, porra, e leva contigo o Relvas e põe-no a estudar e leva também o Coelho e põe-no em casa a descansar).

 

É um tinto do Douro com o nome de “Quinta do Passadouro” Reserva Tinto de 2009. E escolhi-o porque me fez lembrar António Cabeleira. E sempre por boas razões. Desde logo pelo nome que nos remete para o passado. Para um passado que queremos bem passado. Não numa referência à carne de bife, convenhamos, mas sim numa alusão à memória. Porque, bem vistas as coisas, a memória é o que fica depois de tudo.

 

Mas atentem sobretudo na telegráfica recensão. “Com base em vinhas velhas de castas misturadas, é algo agressivo enquanto novo mas evolui muito bem, tornando-se refinado passados alguns anos na garrafeira.”

 

Fora as castas misturadas, que para aqui não são chamadas, a sua “qualidade agressiva” enquanto novo não vos faz pensar em nada? Se sim, ótimo, se não amigos à mesma. Mas sempre vos digo que engendrar este texto tem-me dado uma imensa trabalheira.

 

É minha firme convicção que o vinho e o senhor vice-presidente da Câmara de Chaves possuem uma característica comum, é que se tornam refinados passados alguns anos na garrafeira. 

 

Eu, como quem não quer a coisa, já tenho a minha garrafa “Quinta do Passadouro” quietinha no lugar a refinar-se. Não sei se me entendem. O que eu quero dizer é que… (Olha os apelos para que não fales… ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas... ou, ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…)

 

Ainda não entenderam. Pois eu quero dizer que, para a nossa terra ter futuro torna-se necessário que o putativo candidato do PSD seja colocado no… mo yan.

 

PS – A “Quinta do Passadouro”, está reservada para, daqui a uns anos, ser degustada acompanhando um queijo da Serra com o meu amigo Anselmo. E sei que nos vamos rir e apreciar o seu estágio.

 

Mas o que me levou a escrever este PS tem tudo a ver com as boas notícias. Isto para não me acusarem de bota abaixo. Finalmente Chaves ultrapassou Vila Real e é líder distrital.

 

Segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), os concelhos que apresentaram maior número de desempregados em termos absolutos, são Vila Real e Chaves, 15% e 17% respetivamente. E isto no fim de Agosto, que é o mês do turismo. Ou seja o desemprego cresceu 2,46% em relação ao mês de Julho.

 

Finalmente, lideramos o distrito. E estamos à frente de Vila Real. É caso para celebramos. E pensar que devemos isto ao PSD nacional e, muito especialmente, ao PSD local, e à sua gestão autárquica, é um fator de alento e de esperança no futuro.

 

Definitivamente, João Batista e António Cabeleira merecem o nosso aplauso. E mais qualquer coisinha.

26
Out12

O Homem Sem Memória - 131

João Madureira


131 – O José saiu deste encontro a ferver, não só de impaciência como também de desejo. Quanto ao desejo teve de o meter no seu devido lugar. Já a impaciência resolveu despejá-la inteirinha no Graça. Ele que se entendesse depois com o funcionário, com o Partido, com a revolução e com o Alberto Punhal e toda a cambada de políticos profissionais que não descansavam na sua tarefa de pôr o país a ferro e fogo. Portugal na forja da revolução fundia-se melhor do que o ferro. Também aqui alguém pretendia escrever o remake do livro “Assim foi temperado o aço”. Ah valentes guerreiros comunistas! Sempre a copiarem-se uns aos outros. Mas até para copiar é necessário saber.


O José tinha uma dúvida. E ela era bastante interessante. Poderia ele aceitar o convite da Isabel para fazer parte da sua lista de independentes e, muito provavelmente, derrotar a lista unitária dos estudantes comunistas?


E foi essa sua incerteza que comunicou ao Graça. E o Graça até lhe achou graça. Mais à pergunta, claro está. Mas também ao José, convenhamos. Tanta ingenuidade num ex-seminarista era caso digno de estudo e reflexão.


O José estava em pulgas. Cada vez se encontrava mais dividido entre a revolução, o Partido, a sua toleima unitária e a sua paixão independente. A Isabel era um apelo muito forte. Mas a revolução também era um assunto sério. Mesmo muito sério. Pelo menos era disso que se queria convencer, ou deixar convencer. O que vem a dar no mesmo. Já pensar de acordo com este pressuposto era outra coisa, fazia parte de uma outra realidade. Não admitia que lho dissessem, mas trocava de caras a revolução pela Isabel. Ó se trocava! Mas se o podia admitir intimamente, admiti-lo publicamente era uma desonrosa traição à revolução, mesmo que ela neste momento fosse ainda, e apenas, democrática e nacional.


“Então, posso armar-me em menino emancipado e aceitar o convite da Isabel para fazer parte da sua lista de independentes?”, perguntou a custo o José. Ao que o Graça respondeu: “Podes.” Mas ao José custava-lhe acreditar que a situação fosse assim tão clara e simples para a direção do Partido. Por isso insistiu: “Então posso mesmo dizer à Isabel que sim?” Ao que o Graça respondeu: “Podes.” “Não estás a brincar comigo, pois não?” “Eu não brinco com a política. Um comunista não se diverte com o trabalho partidário. Isso era a sigla dos fascistas da FNAT.” “Mas já falaste com o funcionário e com a comissão concelhia?” “Não, não falei.” “E porquê?” “Pois porque não é preciso. A célula de estudantes comunistas é autónoma na sua organização, nas suas tomadas de posição e nas suas decisões.” “Vá lá, poupa-me às tuas piadas.” “Acredites ou não, neste caso quem decide sou eu. E, como te disse, tens a minha autorização para concorreres na lista de independentes do Liceu.” “Mas podemos ganhar?” “Pois podeis. Ou melhor, podemos.” “Como assim?” “Olha José, o que te posso dizer é que a lista de que vais fazer parte é capaz de ter ainda mais estudantes comunistas do que a que concorre sob a nossa bandeira.” “Eu vi logo. Então já minaste a lista adversária, não é?” “Os comunistas são os mestres do disfarce.” “Talvez queiras antes dizer os campeões da dissimulação. Os…” “Os líderes do movimento estudantil unitário, queres tu dizer.” “És um embusteiro.” “Eu prefiro pensar que sou um comunista sincero e um revolucionário consequente.” “Então e a verdade?” “Qual verdade?” “A verdade revolucionária.” “Ah! Essa. Mais importante do que a verdade é a revolução. E a revolução não se pode sujeitar ao jogo da burguesia. As eleições são uma mascarada. Nesse jogo sujo todas as estratégias são permitidas. Vão concorrer quatro listas: a nossa, a dos independentes, que também é nossa, a dos socialistas e ainda a da direita. Se apenas fossem a votos a nossa, a dos socialistas e a da direita, quase de certeza que a dos socialistas ganhava por causa do voto útil da direita na sua lista. Com a entrada na disputa da lista dos independentes, o voto de direita vai ser preferencialmente transferido para a lista da Isabel, bem assim como o da grande parte dos simpatizantes socialistas que gostam mais da tua amada do que de chocolate. A verdade é que a lista independente é constituída por militantes ou simpatizantes dos partidos da direita, dos socialistas e dos…” “…comunistas. Como estás tão bem informado és capaz de saber responder à questão que te vou colocar: Existe algum verdadeiro independente na lista dos independentes?” “Existe sim senhor.” “Quem?” “A tua amada. A Isabel.” “E eu que estava com problemas de consciência de que fosse o único infiltrado!” “Os revolucionários não têm problemas de consciência. Como o seu único objetivo é a revolução, tudo o que contribuir para a fazer triunfar é bem-vindo. Aos comunistas não interessam os meios. A nós só nos interessam os fins.” “Sendo assim, não sei se…” “Proíbo-te de dizeres disparates. Um verdadeiro revolucionário não tem dúvidas quando o que está em jogo é a vitória do seu projeto. Tudo o que nos pode colocar na senda da vitória é permitido.” “Pois que assim seja, mas eu dessa forma não sei estar.” “Se fosses tu o único infiltrado, concedias-te o direito de fazer jogo duplo e armares-te em vítima inocente ao serviço de uma grande causa. Assim como não o és, armas-te em desgraçadinho. Um verdadeiro revolucionário…” “Já não sei se quero ser um revolucionário e muito menos verdadeiro, pois ao que vejo a verdade por aqui anda mais torcida do que o rabo do porco da minha mãe.” “Ai José, José, quanto me custa a tua amizade.” “Se te custa, larga-a. Eu bem me amanho sozinho.” “Não te armes em vítima. Tu sabes bem o que quero dizer.” “Isto parece-me apenas um jogo de espelhos. Anda tudo a ver quem é que engana mais. Coitada da Isabel. A pensar que anda a fazer uma grande coisa, que anda a arranjar espaço para a possibilidade de um trabalho associativo mais independente e sério, fora das amarras dos partidos, e eis que todos lhe caem em cima como uma maldição.” “Ela apenas é vítima da sua ingenuidade.” “É ingenuidade querer percorrer um caminho de unidade, libertando o movimento associativo das garras dos partidos, permitindo-lhe ser livre e independente?” “Claro que é. O movimento associativo se não estiver ao serviço da revolução, está ao serviço da reação. E quem está de fora racha lenha. Então a menina queria vir lá da montanha para Névoa mandar no movimento associativo estudantil apregoando a independência? Mas independência de quê e em relação a quem? Ninguém é verdadeiramente independente. A independência política é uma farsa. Ou se está ao lado dos explorados ou dos exploradores. Não há meio caminho.” “E eu a pensar que era traidor.” “Um revolucionário só é traidor se atraiçoar a revolução. Tudo o resto são cantigas.”


Pela porta do centro de trabalho alguém entrou a cantar forte e seguido como um corridinho: “A cantiga é uma arma contra a burguesia tudo depende da bala e da pontaria tudo depende da raiva e da alegria a cantiga é uma arma contra a burguesia…”


“Hoje ao Mário “Camões” deu-lhe para a cantoria”, disse por dizer o José, para acabar de vez com a conversa de merda que estava a ter com o seu maior amigo. “Não é o Mário quem cantarola. Além disso está proibido pelo funcionário de entrar no centro de trabalho. Quem assim canta é o Aníbal “Goela Grande”. “Bom funcionário do Partido me saiu o gabirú do Porto, então proibiu de entrar na casa dos comunistas o comunista mais puro e decidido que por aqui havia? Isto não é um partido revolucionário, é um partido de burocratas e revisionistas. Se expulsam os comunistas que querem fazer a revolução, com quem é que a vão fazer?” “Contigo.” “Comigo?” “Sim, contigo. E com o Aníbal.” “A ser assim bem pode o bom e crédulo povo português esperar sentado pela revolução, pois ela nunca vai cá chegar.” “És um criticista. Cala-te lá, senão ainda te mando abater…” “Andas armado em Estaline. É?” “Mando-te abater dos ficheiros, para passares definitivamente a independente.” “Neste momento é o que mais desejo.” “És um romântico. Daqui só sais quando eu o permitir. E eu não to vou permitir nunca. Comunista uma vez, comunista para sempre.” “Com a verdade me enganas.” “Intelectual.” “E isso é um elogio ou uma crítica?” “Entre nós é um misto dos dois. Depende da entoação, do emissor e do destinatário.” “Então, decide-te lá. É um elogio ou uma crítica.” “Uma crítica, evidentemente. Pois apenas os intelectuais é que têm a mania da independência.” “Diz-me lá a verdade, quantos independentes há na lista da Isabel?” “Independentes só há um, ela e mais nenhum. Quatro são comunistas, um terno de simpatizantes mais tu; três são socialistas e apenas um é de direita. Ou seja, há um empate entre os comunistas e os outros. Quem desempata é a Isabel. Por isso é necessário que tu a controles. E, pelo que vejo e sei, ela só se deixa dirigir por quem gosta.”


De novo se ouviu: “A cantiga é uma arma contra…”, mas o Graça não deu ao Aníbal a possibilidade de acabar com a cantoria, convidando-o para ir beber cerveja ao bar do pai. 


24
Out12

O Poema Infinito (117): a desordem e o silêncio

João Madureira


O tempo persegue o frio e o frio inquieta o tempo. E os gelos eternos incendeiam-se fragmentando o olhar dos cetáceos. Cá em baixo o vento fustiga de pavor as árvores. Uma floresta de lírios foge do silêncio da sua cor incendiada. Trago comigo ainda alguns restos do dilúvio. Por isso a vida retoma o seu plano de lucidez. Alguém canta uma ária coletiva. Estende-se a arte nos seus trágicos determinismos. Toda a terra treme. E a raiva recompõe-se no seu tempo de mão solitária. Os heróis dançam dentro da sua razão alucinada. Os mártires rodopiam numa dança de morte e abandono. E ficam cegos dentro da sua razão. A própria boca feita de uma invenção total profere a sua idade hermética. E o tempo fratura-se e nega qualquer tipo de sentimento inquietante. Os verbos da transgressão expõem-se na sua mecânica elementar. Tu chegas-me dividida em metáforas. A vontade atrai a refutada técnica dos murmúrios. Eu deslizo na folhagem suspensa da teimosia. Volto ao meu árduo trabalho de secar palavras e elas reagem como crianças doidas. O teu sorriso é agora uma ambulância psicadélica. As nuvens procuram o seu desastre iminente. Lenços de palavras dispersas fazem vigílias sonâmbulas. E abrem panos e palcos onde tocam orquestras mínimas. Uma chama crepuscular baila e brilha nos teus olhos. O templo da ilusão alastra-se numa sonolência de exemplos. Jonas continua a arfar dentro da sua baleia perpétua. Alguém semeia sorrisos na alba. Um tiro fere o consolo dos pobres. E os ricos flutuam dentro das suas bolhas milionárias. Todos os espelhos se embaciam e estilhaçam por não conseguirem suportar a beleza elástica. Dizem novamente que as armas são perguntas mortais. Os cânticos de guerra sucumbem dentro da linguagem abstrata da história. Símbolos cabalísticos avançam na noite. A multidão entrincheirada vê passar animais suspensos e comboios carregados de símbolos. Todos os povos que habitam o vale estão em festa. E dilatam-se dentro do seu espaço poético. Os reis continuam a ter fome de joias. Eu olho o vulcão que se prepara para expelir vozes. O poder desaba em cima da mesa dos deuses da terra. Uma estrada de raízes trabalha as palavras incorruptíveis. Cavalos galopam dentro do seu espaço abrupto. O tempo lava-nos o cérebro. E as mães choram arrepios de guerra. Eu invisto nas palavras com toda a vertigem do silêncio. O vulcão expele luzes. Uma árvore inundada de palavras quentes uiva e destila poemas de pânico. Eu sento-me na pedra negra do trabalho e aguardo pela noite. Os meus dedos filtram a desordem e aguardam que apareças. As horas perecem umas a seguir às outras apontando o dedo acusador aos deuses da desilusão. Esta viagem não tem fim. Esta viagem não teve princípio por isso nos remete para a sua pulsão metafísica. Toda a paciência que colecionei se esvai como água correndo pela montanha abaixo. A vida refugia-se na sua essência de contradição. Os livros do cânone regressam ao seu silêncio de sempre. As bíblias metálicas desencadeiam um terramoto de orações dentro da catedral vazia. Cristo chora sobre a sua metáfora de Deus. O meu poema infinito metamorfoseia-se em corpo sonoro de um movimento perpétuo. Renuncio ao sistema linguístico. Calo-me aos gritos. 

22
Out12

Pérolas e diamantes (8): O drama nacional seguido de duas boas notícias

João Madureira


1 – O Drama

 

Manoel de Oliveira tem um novo filme, “O Gebo e a Sombra”, feito a partir de uma peça escrita por Raul Brandão em 1923. O filme não tem efeitos especiais, tal e qual como a vida que agora nos toca viver.

 

Todo o filme é de uma atualidade acutilante, funcionando como um espelho do momento que atravessamos e que se vinha insinuando vai bem para mais de uma década.

 

Nele encontramos tudo aquilo que infernizou o nosso viver coletivo durante a já longa existência do país: o horror da pobreza, a impiedosa divisão entre castas, classes sociais e económicas e o intransponível fosso existente entre os exageradamente ricos e os ridiculamente pobres.

 

No fundo, o filme é uma crítica mordaz ao capitalismo selvagem que as elites políticas que nos governam pretendem tornar viável. E o que é trágico é que estão mesmo à beirinha de o conseguir.

 

No filme é notória a visão maniqueísta de que temos de cumprir o dever de empobrecer para conseguir sobreviver, baseada no princípio filosófico que Kant definiu como “imperativo categórico”: “O homem apenas se diferencia dos animais quando cumpre o seu dever”, o que na lógica neoliberal do governo da Nação pode ser traduzido por subir na vida à custa da luta desenfreada pela ascensão política, social e económica.

 

Convém lembrar aos mais distraídos que a ambição costuma cegar e a ambição desmedida chega mesmo a matar.

 

Saindo do filme para a realidade, basta reparar nas palavras e nos seus autores para nos apercebermos do ambiente letal que se instalou no país (diz-me como falas, dir-te-ei quem és). Por exemplo, Nuno Amado, o presidente do BCP, afirmou ao Expresso: “Vamos executar, sejam acionistas ou não”. O que na boca de um banqueiro é quase uma frase assassina.

 

Marques Mendes, ex-líder do PSD, e temível comentarista da TVI, referindo-se às últimas decisões do Governo, proferiu: “Isto não é um agravamento fiscal. É um assalto à mão armada.”Mas não se ficou por aí, logo de seguida acusou o PSD de “liquidar a classe média”. E olhem que o pequeno homem do Minho sabe bem daquilo que fala.

 

António Capucho, também ele membro destacado do PSD, admitiu, numa entrevista ao mesmo jornal, curiosamente propriedade de Pinto Balsemão, um dos fundadores do PSD, que com esta gestão danosa dos destinos do país, o PSD, se sobreviver, vai tornar-se um partido odiado.

 

Em discurso aberto, disse que o PSD se transformou numa “máquina fechada que rejeita qualquer inovação e crítica, que chama os seus fiéis e marginaliza os que têm pensamento próprio”.

 

E foi mesmo mais longe: “Não vemos (por parte do Governo) uma estratégia alternativa que permita inverter os efeitos perversos das medidas de austeridade sobre o consumo, a economia e o emprego, efeitos que são evidenciados pela preocupação orçamental.”

 

E a prova provada de que o que Capucho afirma é uma verdade incontornável vem escarrapachada nas páginas do mesmo semanário: “39 mil empresas na restauração podem fechar com IVA a 23%”, o que, segundo a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares, significa a extinção, em apenas dois anos, de cerca de 100 mil postos de trabalho. Brilhante, pois pior é impossível. E se pensarmos que os comerciantes são a grande base eleitoral do PSD, o caso pode atingir proporções de drama identitário.

 

Concordemos que para acabar com o que resta da economia do país, é o golpe de misericórdia perfeito.

 

Claro que também há setores laborais que dão um grande contributo para o caos. O mais paradigmático é o caso da CP, que desde janeiro deste ano não teve um único dia de calendário que não fosse afetado por um qualquer pré-aviso de greve, total ou parcial. O que, convenhamos, é obra. Obra de destruição, claro está. No entanto encapotada sobre o manto diáfano de reivindicações dos trabalhadores. Num país em guerra social, anda tudo a ajudar à festa.

 

Vítor Gaspar, vendo-se acossado pelos apupos dos deputados, pelos dichotes dos comentaristas e pelas greves e manifestações dos portugueses, resolveu construir um momento dramático no parlamento ao afirmar textualmente, com a sua vozinha de menino reguila: “O povo português revelou-se o melhor povo do mundo e o melhor ativo de Portugal.”

 

A mim até as lágrimas me vieram aos olhos. De riso. Talvez nervoso, convenhamos, mas é que este tipo de gente provoca-me urticária e arrepios na espinha.

 

No entanto não quero terminar sem vos dar conta de uma boa notícia, ou melhor, duas.

 

2 - As boas notícias

 

Primeira: Veio nos jornais que uns mergulhadores descobriram 120 espécies novas nas ilhas das Berlengas, entre anémonas cor-de-rosa e peixes azuis escondidos em recifes de corais vermelhos. Descoberta que encheu de orgulho e prazer a minha costela de ecologista empedernido.

 

Segunda: O militante social-democrata, e atual presidente da junta de Santa Maria Maior, João Neves, depois de ter declarado publicamente, num jantar de autarcas do PSD flaviense, o seu apoio a António Cabeleira, com a já célebre frase: “António, tu si que vales!”, pensou melhor e resolveu anunciar ao povo do nosso concelho que vai candidatar-se à presidência da Câmara de Chaves como independente. Ou seja, mandou o valioso António às malvas.

 

Candidaturas destas só nos podem orgulhar. E quantos mais candidatos houver mais possibilidades têm os eleitores flavienses de escolher em consciência. E, quem sabe, até acertar. Então se forem todos da mesma valia de João Neves, o nosso futuro está garantido, pois, ganhe quem ganhar, quem definitivamente triunfa é a cidade, o concelho e, sobretudo, o nosso povo.

 

Candidaturas com este nível são bem o espelho do enorme prestígio de que goza a nossa autarquia. Enaltecem, por si só, o valor intrínseco com que contribuíram os três mandatos da gestão do PSD. Por isso, e como é público e notório, a autarquia flaviense é atualmente elogiada por esse país fora. E até mesmo nos Açores e na Madeira. Ah, e também nas Berlengas. Chegou mesmo a ser citada em várias reuniões da Associação de Municípios, e noutros fóruns do estilo, como um exemplo de gestão criativa, dinâmica, enérgica, carismática, financeiramente rigorosa e culturalmente exemplar.

 

Por isso o comércio local está em plena recuperação, a cidade fervilha de dinâmica turística, o nosso património histórico é um exemplo de recuperação e conservação, a nossa população jovem arranja empregos com facilidade, muito pela ação dinamizadora e empreendedora do nosso vice-camarário, o Pólo da UTAD viu muito recentemente os cursos a aumentar, as ruas estão limpas, os jovens têm propostas culturais interessantes, o centro da cidade é, durante a noite, um exemplo de civismo, paz e amizade, as obras prometidas estão em andamento, o parque de estacionamento no centro da cidade é uma nova e encorajadora realidade e o pavilhão multiusos vai possibilitar fazer a Feira dos Santos dentro de portas e com a dignidade que nunca teve.

 

Estamos também em condições de adiantar aos nossos estimados leitores que nos pavilhões desportivos que atualmente se encontram em construção, a autarquia vai levar a efeito os campeonatos europeus de berlinde, matraquilhos, jogo do pião, bilharda, fito e setas.

 

Vão realizar-se, ainda durante os próximos meses, bem à semelhança das que foram organizadas em anos anteriores, e com o sucesso que todos sabemos, a Feira do Mel, a Feira do Presunto de Chaves, a Feira do Pastel de Chaves, seguida de várias exposições de pintura, simpósios e até um congresso internacional, a Feira das Águas Termais, a Feira do Vinho, a Feira das Procissões, que contará sempre com a presença do Senhor Bispo de Vila Real, com a do excelentíssimo senhor presidente da Câmara de Chaves, com a do digníssimo senhor vereador/vice-presidente e putativo candidato António Cabeleira, bem como a excelentíssima esposa do segundo.

 

Foram especialmente convidados a fotografar esta feira para a posteridade, os membros da Associação de Fotografia Lumbudus. Para o final está agendada uma exposição fotográfica inaugurativa da nova sala de exposições do antigo Cineteatro de Chaves (transformado em edifício cultural multiusos), gentilmente cedida pelo senhor presidente da Câmara à dinâmica associação, como cumprimento de uma promessa feita há cerca de dois anos aos elementos da sua direção, em reunião formal concedida com esse mesmo propósito.

 

Peço desculpa, mas tenho de interromper aqui a narrativa, pois o senhor diretor do Notícias de Chaves pediu-me para ser um pouco mais poupado nas palavras. É que o espaço não sobra e, além disso, custa bom dinheiro. E dinheiro é o que mais falta nos bolsos da gente séria e trabalhadora.

 

Para a semana há mais novidades. Penso eu. Isto se o senhor primeiro-ministro permitir e o senhor presidente da câmara de Chaves e seu respetivo vice não se importarem.

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