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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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21
Jan13

Pérolas e diamantes (21): depois do nevoeiro, o sol

João Madureira


Olho lá para fora, na direção do Brunheiro, e apenas avisto um telhado e uma antena parabólica. Tudo o resto é nevoeiro. Um nevoeiro denso e frio como apenas se sente em Chaves. O sol não se viu durante todo o dia. Na rua está um frio de rachar. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.  

 

Pego no livro de Mo Yan, “Peito Grande, Ancas Largas” e fixo-me na primeira página onde apenas está escrita uma dedicatória: “Ao espírito da minha mãe”. Duas lágrimas pequeninas, mas muito densas, fazem-se-me nos olhos. É do frio. Quem já não tem mãe tem por vezes muito frio. E então se for de inverno tem frio a dobrar. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Olho de novo lá para fora e a fotografia é a mesma: nevoeiro, frio e Brunheiro nem vê-lo. Concentro-me na leitura: “O teu pai falhou porque foi demasiado brando, demasiado bondoso.” De novo outras duas lágrimas tão pequenas e densas como as primeiras ou ainda mais fazem-se-me nos olhos. É do frio. Tem de ser. Eu não sou propriamente um sentimental. Claro que é do frio. Quem já não tem pai vai para umas décadas, sente frio. Muito frio. Sobretudo no inverno. É janeiro. É inverno. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Volto à leitura: “Por isso, não te esqueças: se quiseres ser um homem mau, tens de matar sem piedade; e, se quiseres ser um homem bom, terás de andar sempre de cabeça baixa para não pisar as formigas. O que jamais deverás ser é um morcego, que nem é ave nem é rato. Não te esqueces disto?”

 

“Se quiseres ser um homem bom, terás de andar sempre de cabeça baixa para não pisar as formigas”. Mais duas pequenas e densas lágrimas se fazem nos meus luzeiros que hoje se molham com uma inusitada frequência. “Estás mas é a ficar velho e sentimental”, penso cá com os meus botões. Mas também é do frio. Sim. É do frio. Lá fora está um frio de rachar. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Dou-me conta que dentro de casa a temperatura está agradável. Então é sugestão. O nevoeiro. O frio. O sol que não aparece. O Brunheiro que se mantém embuçado. Enfim, a melancolia de um fim de tarde. Sim. É isso.

 

Recordo-me agora que o meu pai andava sempre de cabeça baixa, olhando sempre para o chão, eternamente envolto numa ténue nuvem de fumo que o cigarro lhe conferia. Foi com ele que aprendi a não pisar as formigas.

 

Mais duas pequenas e densas lágrimas se formam nos meus olhos. Levanto-me e vou beber um copo de sumo de laranja. Mau Maria, os indícios fazem-me pensar na política. Sento-me de novo. Era o que mais faltava. Juntar mais frio ao frio, juntar mais nevoeiro ao nevoeiro. E com o inverno que grassa por esse país fora, o melhor é desistir. E já.

 

Só que ninguém lê em vão. “O que jamais deverás ser é um morcego, que nem é ave nem é rato. Não te esqueces disto?” Sim, Mo Yan. Sim, pai. Não me esqueço. Eu também olho sempre para o chão para não pisar as formigas. E não quero ser morcego. Mas olhem que eles abundam no nosso país.

 

Com o copo meado de sumo, olho para um recorte de jornal onde Mota Amaral critica Passos Coelho, chamando a sua atenção para o “alastramento de uma verdadeira catástrofe” em Portugal, onde, a cada dia que passa, a indignação dos cidadãos cresce, porque “não veem nem finalidade nem fim para os cortes de benefícios”. “A situação geral do País em vez de melhorar, como o Governo promete (…), tem vindo a degradar-se e basta ter os olhos abertos para comprovar o alastramento de uma verdadeira catástrofe”.

 

Olho bem para o artigo para confirmar. É mesmo de Mota Amaral, deputado do PSD e ex- Presidente da Assembleia da República. Desta vez as lágrimas não nascem nos meus olhos. Mas uma indignação fria como o dia tomou conta de mim. E tremo. E desta vez não é de frio.

 

E a indignação ainda cresce mais quando leio no jornal que a maioria dos 164 contratados pelo Executivo de Pedro Passos Coelho, todos eles entre os 24 e os 29 anos, ganha o dobro de um técnico superior da função pública. 

 

Enquanto escrevinho este arrazoado que não sei bem onde me vai levar, lembro-me de uma reportagem que vi na televisão dando conta da manifesta incapacidade dos surdos-mudos poderem aceder aos pedidos de emergência através do 112. Agora que me veio à memória, reconheço que a comparação é pertinente. Por vezes, relativamente àquilo que escrevo, também me sinto surdo-mudo gritando desesperado ao telefone por ajuda.

 

Lembro-me de um grande amigo que uma vez me disse, entre a ironia e a confissão, que foi precisamente por se ter encontrado tantas vezes com o fracasso, que não existia ninguém mais hábil do que ele em escondê-lo e a suportá-lo com resignação. “Por isso”, dizia ele sorrindo amargamente, “é que cumprimento ainda com mais efusão os idiotas e lanço sobre os meus amigos um olhar afetuoso”.

 

Lá fora o nevoeiro ainda se tornou mais denso. O frio aumentou. O Brunheiro desapareceu definitivamente. Até a antena parabólica se esfumou. Apenas uma pequena parte do telhado da casa continua visível. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Penso na cidade. Como não a vejo, imersa que está no nevoeiro, recordo-me do Jardim das Freiras ou do Largo do Arrabalde. Fecho os olhos e sorrio por momentos. Depois mais duas lágrimas surgem nos meus olhos.

 

A minha cidade, a nossa cidade, essa cidade que todos aprendemos a amar, por obra e graça de uns morcegos, foi demolida à nossa frente, ali mesmo debaixo dos nossos olhos, debaixo da nossa indiferença, debaixo das promessas falsas, debaixo de uma ideia parola de novo riquismo, debaixo de uma ilusória promessa de desenvolvimento. E tudo ruiu.

 

A fantasia chegou ao fim. A obra dos morcegos aí está. Quem tiver a coragem dos néscios que os acompanhe. Esse é o caminho do insucesso, a senda do imobilismo, o domínio dos indiferentes, daqueles que não têm memória, que não têm apego às suas raízes, que não honram nem a palavra, nem a verdade e muito menos a nobreza da alma flaviense. Dez anos de fogo-fátuo, de imobilismo e de hipocrisia já bastam.

 

Apesar das promessas, o poder autárquico atual nem modernizou a cidade nem a devolveu aos cidadãos. Limitou-se a descaraterizá-la.

 

Basta de nevoeiro. Amanhã é bem possível que o sol espreite logo de manhãzinha. Esta noite vou sonhar com o Jardim das Freiras. Talvez para o ano que vem, o Pai Natal mo traga no sapatinho.

 

É verdade que nunca nos banhamos duas vezes na mesma água do rio. Mas também é bom que se diga que nunca vemos duas vezes com o mesmo olhar.

 

É hora de recuperarmos a nossa identidade. 

18
Jan13

O Homem Sem Memória - 143

João Madureira


143 – A escola de pioneiros acabou no dia seguinte. E, por incrível que possa parecer, não por vontade do José, mas sim pela perentória decisão e a ideológica audácia dos órgãos dirigentes do Partido, que tudo sabem e tudo veem.  


Quando o Graça lhe deu a notícia, o José, por incrível que possa parecer, ficou branco como a cal. Mais uma vez desiludiu, mais uma vez saiu desiludido. Se tal situação tivesse acontecido há umas semanas atrás, até tinha ficado contente. Mas agora que lhe começava a apanhar o jeito, a extinção da escola foi um rude golpe. Mas o Partido quando decide está decidido e não se fala mais nisso. Para a frente é que é o caminho.


O camarada Graça não lhe deu apenas essa má notícia, contou-lhe que o camarada funcionário tinha sido incumbido por outros camaradas da direção regional do Norte, que também tinham sido informados por camaradas do Comité Central, de que o camarada professor José tinha de redigir um relatório de crítica e autocrítica sobre o seu desempenho enquanto responsável máximo pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa.


E ele, muito a contragosto, acatou a imposição.


Aqui disponibilizamos o relatório, na sua versão integral, depois de ter sido por nós recuperado logo após a sua desclassificação a cargo da Comissão de Defesa da Memória dos Prisioneiros do Gulag Português.


«O camarada Graça disse-me que o Comité Central fez questão em que eu, enquanto máximo responsável pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa, elaborasse um relatório de crítica e autocrítica sobre o meu desempenho enquanto diretor e docente exclusivo. Já agora podia acrescentar, para que toda a verdade seja dita, também enquanto contínuo e até empregado de limpeza. Pois na escola fiz de homem dos sete instrumentos. E talvez por minha culpa, minha tão grande culpa. Pequei. Eu pecador me confesso pois pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa… Mas deixemo-nos de ironias e avancemos.


Como devem saber (continuo irónico porque sei que o Partido, qual mãe obsessiva e controladora, tudo sabe e tudo vê), eu estudei durante algum tempo no seminário. Lá também era usual a confissão, mas não exigiam que ela fosse feita por escrito. Talvez porque sabem que um documento escrito deixa sempre uma espécie de impressão digital, revela sempre uma personalidade e serve eternamente como prova de alguma coisa, quer seja para o bem, quer seja para o mal, ou mesmo para a desgraça. Uma confissão escrita é um ato de violência sobre a individualidade e o pensamento de alguém, sobretudo se agiu de boa-fé. É a modos como um atestado de desconfiança. É uma incriminação antecipada.


A confissão oral é como uma expiação, uma forma de deitarmos cá para fora algo que nos consome ou atormenta e, assim libertos do pecado, podermos continuar a viver sem que o remorso, ou a má consciência, nos impeça de coabitar com aquilo que temos e com aquilo que somos, no meio daqueles que amamos, ou não, mas que temos o dever de respeitar.


Quando alguém tem de escrever sobre o seu desempenho, logo após a extinção de algo que dirigiu, é invariavelmente um sinal de crítica. Só quem erra e perde é que é chamado a escrever sobre o erro e sobre a derrota. A quem acerta e triunfa escrevem-lhe os discursos, os relatórios e os louvores.


Serve este introito para realçar que escrevo este relatório sobre reserva moral e mesmo ideológica. Eu fiz tudo o que me pediram, segui todos os preceitos, aceitei todas as sugestões e adotei as orientações do Partido à risca. Apenas introduzi uma novidade, a escrita de textos livres, que até não eram muito livres, mas reconheço agora que para lá caminhavam.


Na escola tudo se discutia. Tudo se discutiu. Sem preconceitos, nem tibiezas. A Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa foi sempre um exemplo de liberdade. Mais do que falar de liberdade, ou na liberdade, na escola praticávamo-la. Sem preconceitos. Se calhar houve alguém que não gostou. Paciência. Cristo, apesar de ser quem era, também não agradou a todos. Bem assim como Marx, Lenine, etc. E nesse extenso etc. incluo o camarada Alberto Punhal. Mas cada um é para o que nasce. E eu não nasci para pensar como Piatakov, camarada de Lenine, que disse esta frase extraordinária: “Um verdadeiro bolchevique, se o Partido o exigir, está disposto a acreditar que o preto é branco e o branco é preto”. Eu, por incrível que isso possa parecer, não sou desses. Não fui bafejado por tão colossal sentido de obediência. Pois, a ser assim, o socialismo real não é uma luta contra os abusos característicos do capitalismo, mas sobretudo contra a própria realidade. E eu por aí não vou. Nisso sou como o José Régio: “Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos...”


Ninguém me disse uma palavra sobre o motivo do encerramento da escola. Apenas o camarada Graça me informou que foi fechada por ordem expressa do Comité Central. Que também a ele não explicaram as razões, mas que sabia que não foi por razões económicas, pois a escola até dava lucro ao Partido por causa dos donativos que recebia de diversos camaradas e ainda pelo dinheiro obtido na venda de diverso material feito pelos camaradas pioneiros, pelos seus familiares e amigos. 


Como não sei porque a encerraram, tento adivinhar. Estou em crer que o fizeram por causa dos pais. Basta olhar para os filhos para ver a personalidade dos pais, pois os filhos são o seu reflexo. E pelo que ia observando, apesar de comunistas, os pais dos camaradas pioneiros davam-se mal. Competiam muito entre si. O que nunca cheguei a entender muito bem foi a razão. Quem decide ser militante comunista não está à espera de facilidades, nem de prebendas, nem de estatuto social. Então por que razão é que competem tanto? Será para cair nas boas graças dos camaradas dirigentes? Ó triste móbil! Mas a cada um a sua luta.


Se os pais forem tão competitivos como os filhos, o problema não reside na vontade de fazer triunfar a revolução, a grande dificuldade coloca-se quando estiverem no poder. Até lá comportam-se como uma matilha de lobos que se junta para conseguir encurralar e matar a presa. O problema vai ser quando tiverem de dividir o cordeiro.


Apesar do discurso abrangente da defesa do proletariado, a maioria dos militantes convive mal com as classes sociais mais baixas. Dizem que as apreciam, que as defendem, mas vê-se logo que é apenas discurso, não é convicção. Uma coisa é recitar as palavras da cartilha comunista, outra, bem diferente, é acreditar naquilo que se diz da boca para fora.


Fazendo uma caricatura, posso escrever, já que estou em maré de confissão, perdão, de crítica e autocrítica, que os camaradas burgueses pretendem chegar a dirigentes de topo, que os pequeno-burgueses pretendem ocupar o lugar dos burgueses, que os operários aspiram a chegar a pequeno-burgueses, que os camponeses querem passar a ser operários qualificados e que ao lúmpen tanto se lhe dá como se lhe deu, quer é emborrachar-se e viver a vida dia a dia sem preocupações de emprego, família e educação. A sua máxima aspiração é viver entre um copo de tinto e um cigarro e entre um cigarro e outro copo, que até pode ser de branco, mas se for de tinto muito melhor.


Depois de ler os textos dos camaradas pioneiros que sugeri que escrevessem deu para perceber que todos querem ser Albertos Punhais. Todos ambicionam mandar, dirigir, ter importância, aparecer nas capas dos jornais, nas televisões, etc. Ora isso só pode ser influência dos pais. Bonitos comunistas eles me saíram. Em vez de ensinarem aos filhos os princípios da humildade, e da humanidade comunista, da partilha, da luta por um ideal, adestram-nos na competição, na conjura, na conspiração, na inveja, na ascensão social a todo o custo.


Não duvido que esses camaradas ensinam aos seus filhos os sagrados princípios da igualdade. Mas, sei que também lhes dizem que todos somos iguais, que os comunistas são iguais ao seu povo, que os comunistas são os melhores filhos do nosso povo, mas que há comunistas que são mais iguais do que outros. E eles sabem muito bem que tipo de igualdade é essa.


Agora que aqui cheguei, até me apetecia escrever mais algumas quantas verdades, mas vou terminar dizendo que se andam atrás de um bode expiatório para justificarem o mal-estar que se vive na concelhia de Névoa, enganaram-se no animal, pois a dissidência está entranhada dentro da organização, na fraca preparação ideológica dos militantes, na tibieza das suas convicções, na pequena inveja e na mediocridade. E até um pouco na ideologia, que é muito intrincada para gente de vistas tão curtas. Quem não lê não sabe, quem não estuda não aprende, quem torto nasce tarde ou nunca se endireita. E o Partido não pode cair na armadilha de ser um antro de pseudointelectuais invejosos, de operários rancorosos e complexados, de agricultores bêbados e preguiçosos e de estudantes cábulas e arruaceiros.


Peço desculpa a quem incumbiu o camarada Graça deste infeliz assunto, mas sempre lhe digo que este é o caminho da suspeição. E a suspeição é meio caminho andado para a desgraça. Coitado do camarada, ainda não deu conta que é atras dele que andam.


Aos conspiradores que lhes faça bom proveito.»

16
Jan13

O Poema Infinito (129): a árvore das palavras

João Madureira


As árvores desejam as palavras para florescerem. As palavras amam as árvores com as suas sombras brancas de desejo. A partir dos limites a ânsia é uma ordem. Por cima das árvores as nuvens assombram os muros. Toda a nudez ilumina as constelações. Vamos iniciar a aprendizagem do desassossego, em silêncio, sentindo por cima de nós a evidência enigmática das cores futuras. Os insetos murmuram sobre as folhas ínfimas. As linhas espaciais segredam refúgios. Abrigamo-nos na terra. Na cintilação da matéria. Frutos azuis abrem-se ao vermelho. As palavras transformam-se em pólen e tornam-se incomunicáveis. Olho-te com a perseverança da espera, num gesto inaugural, onde a solidão é um abismo de estrelas e de luas vazias, onde a luz está submersa numa caligrafia de presságios. Tudo desaparece por momentos. A árvore assimila as borboletas. Músicos bailam por dentro do calor das suas melodias. Dançam dentro dos fragmentos dos violoncelos, no redemoinho dos trompetes, na clausura dos pianos. Os gnomos tomam de assalto os telhados das casas onde dormem os pássaros recolhidos nos seus abismos. O orvalho atravessa o vórtice. As copas das árvores flutuam e dialogam num tranquilo tremor de folhas verdes. As metáforas respiram a consistência dos textos. O desejo é agora uma diagonal silenciosa. Os gnomos agitam-se disfarçados de símbolos fálicos e submergem as suas cabeças em fendas lânguidas. Os signos riem-se em pausas de harmonia. Os músicos sorriem incendiando de música os seus instrumentos. E respiram as sombras das notas musicais. Os pássaros voam dentro de espirais de azul. As nuvens passam velozes pelo céu. A terra sente de novo a ternura da água. Os corpos dos gnomos deslizam lentos e breves como cerejas. Nos jardins minúsculos levantam-se as cores na sua delicada brevidade. Todos os conceitos respiram as palavras que se alimentam da pigmentação das pétalas. O tempo acaricia o musgo e perpetua o crepúsculo. As perguntas tornam-se ausentes. O vento dá ritmo às nossas mãos. A música jorra através das flautas. A terra transforma-se num labirinto voluptuoso. As árvores tornam-se enigmáticas. Os seus frutos são agora estrelas. A orquestra toca um prelúdio de amor e morte. A música faz carícias às palavras e os músicos metamorfoseiam-se em relâmpagos de matéria. As cores puras dormem na espuma do silêncio. É no silêncio que eu escrevo o deslumbramento da luz e a sua afirmação. As paisagens tornam-se claras. Na linha do horizonte constroem-se os corpos. E caminham. E esperam. E navegam. Todo o movimento é livre. O campo é extenso. Olho a tua ausência e beijo as sílabas da tua boca. As folhas secas rodopiam junto às árvores. O tempo fica ausente. Entretanto acumulo sombras. E escrevo palavras dentro de outras palavras. Por isso reverdecem e atravessam as páginas e incendeiam as imagens e afundam-se nas bocas dos anjos. A surpresa transformou-se num desejo imprevisível. O desejo é o limite. O desejo é um grito. O desejo é o vazio que vibra. Adormeço cansado do excesso de transparência e de leveza. As palavras cobrem-me os olhos. Palavras nuas que vaticinam a vocação animal. 

14
Jan13

Pérolas e diamantes (20): A Coragem e a Esperança

João Madureira


Há na nossa terra muita gente que deplora algum do desperdício da nossa maneira de estar, que se situa entre a sobranceria e o humor. Eu aprecio-a. Aprendia ao longo da vida no seio familiar e nos livros que fui lendo. Por isso me delicio com as observações finas, com o sentido de humor e as frases memoráveis que cada vez mais vão caindo no esquecimento desta sociedade que alguns apelidam do conhecimento.

 

Mas nisto de definições, como noutras coisas da vida, cada um deve ficar com as que mais lhe aprouver, que eu também cá vou andando com as minhas às costas. E até hoje tenho aguentado razoavelmente a carga. A carga e a descarga, diga-se em abono da verdade.

 

Atualmente já ninguém, ao que parece, se preocupa o suficiente com o facto de que tantas palavras tolas andem a sobrar. Mas é bom que elas cheguem, e, por vezes, até sobrem, para o que der e vier.

 

Ao que parece, não fomos nós que inventámos o provérbio de que para palavras loucas orelhas moucas, ou algo pelo estilo.

 

Nós não temos dúvida absolutamente nenhuma de que sabemos sempre, e em todo o lado, toda a verdade acerca dos outros. Outra coisa é sabermos a verdade acerca de nós próprios. Ou sequer admiti-la.

 

Nós, todos nós, pessoas honestas, respeitáveis e distantes de quase tudo o que cheire a realidade, estamos sempre predispostas para acreditar que aquilo que vemos nos outros não passa de manobras de intriga e maquinações.

 

Claro, estimado leitor, que não me refiro apenas a si, mas a toda a cidade. Nós temos um entendimento mais cético e positivo das coisas e até de como os factos se desenrolam neste nosso pequeno burgo.

 

No fundo, a nossa terra é um ninho, ou de néscios, ou de lacraus. Por isso temos de dar cotoveladas uns nos outros, de fechar os olhos, de baixar a cabeça, de, como diz o povo na sua ironia prática, casar a monja com o monge, em caso de necessidade, para que o mundo continue a rodar.

 

E desta forma se vai desgastando a maior parte da nossa prestigiada inteligência, a passiva pelas cadeiras dos cafés e a ativa pelas cadeiras do poder. E então toca de os que têm poder descascar na oposição e vice-versa, numa modinha que nunca dá bons frutos nem consegue criar nada de bom.

 

No fundo, vamo-nos encarniçando com as falhas recíprocas, especialmente com as dos que nos estão mais próximos, não nos dando conta que quando os desacreditamos também nos desacreditamos a nós.

 

É bom que nos consciencializemos que quando estamos permanentemente a lançar aos tubarões as pessoas que nos podem ajudar, acabamos também por lançar borda fora as suas ideias e os nossos ideais.

 

Fui criado num tempo em que existia o preconceito de falar. Ou dito de forma mais clara, subsistia o prejuízo de falar verdade. Agora vejo que se instalou entre nós o preconceito de escrever. Pelo menos de escrever assinando por baixo com o nome verdadeiro.

 

Basta dar uma olhadela nas redes sociais para nos darmos conta da ignomínia que por lá grassa. Há mesmo gente importante da nossa praça que se disfarça debaixo do ridículo manto de quatro ou cinco identidades diferentes para publicar notícias onde é o artista principal, distribuindo prebendas, sorrisos e abraços. Mas, nestas como noutras coisas, as atitudes ficam com quem as toma. E a verdade virá ao de cima como o azeite.

 

Todos sabemos que muito pouco daquilo que existe dentro de nós é passível de ser escrito de forma a que possa ser corretamente transmitido aos outros. E, o que ainda é mais frustrante, apenas uma porção menor dessa mensagem chega ao seu destino.

 

Mas continuamos a falar, ou a escrever, convictos de que a luz da razão irá iluminar as nossas almas tão sequiosas de verdade, transparência e esperança. Dizem, e todos queremos acreditar, que a esperança é a última a morrer. E se morrer que morra de pé como as árvores.

 

A não ser assim, o que será da nossa vida! Então se cada um começar a meter a viola no saco, o que é que nos fica? O que é que nos resta?

 

Não podemos trocar as palavras nem a razão, mesmo que isso seja difícil. Todos sabemos que é nos momentos de grande fracasso – como são disso exemplo cabal a gestão autárquica concelhia e a gestão governamental nacional – que somos acometidos pela tentação de desistirmos, de esquecermos, mal tenhamos ocasião.

 

Mas não podemos desistir. Devemos deixar correr com fluência toda a sinceridade, alguma dela mesmo inútil, que carregamos dentro das nossas almas, mesmo que o outro se mostre de início indisponível para receber uma pobre palavra que seja, vamos aguentar com resignação e alguma perseverança, e deixar que as leis ocultas da sobrevivência da razão tragam novamente a predestinada aproximação humana.

 

Vamos desta vez, apesar das disputas e das discórdias, mostrar que somos capazes de nos unir em favor da nossa terra e das nossas gentes.

 

Deixo-vos, a terminar, dois premonitórios versos de Joaquim Pessoa:  E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.

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