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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Mar13

O Homem Sem Memória - 153

João Madureira


153 – A extinção do grupo de teatro deu lugar à criação de mais dois. A esquerda é excelente nestas práticas. A sua capacidade de divisão e de reprodução em grupos, grupinhos e grupelhos foi sempre um dos seus melhores atributos.


O primeiro juntava os esquerdistas e os socialistas. O segundo agregava os militantes e simpatizantes do Partido Comunista, mais os respetivos unitários. Para sermos rigorosos, temos de explicar que o segundo grupo se subdividiu ainda noutros dois, porquanto a sensibilidade mais ligada aos intelectuais era defensora do teatro de vanguarda e uma outra, de cariz mais operário, se inclinava para o tipo de espetáculo de caráter essencialmente popular, logo cómico. No entanto uma coisa ainda os ficou a unir: todos ensaiavam na sala dos “Canários”, só que em dias diferentes. Fugiam uns dos outros como Trotsky de Estaline.


O José conseguiu, vá-se lá saber bem o como e o porquê, pertencer aos três. Estava decidido a unir o que a ideologia desunia com tanta exuberância. Isto apesar de serem todos marxistas.


O grupo esquerdista e socialista convidou um ex-actor do Seiva Trupe, que à época dava aulas em Névoa, para ser o seu diretor e encenador. Por causa dos apelos mais basistas, imitaram a técnica do improviso e puseram-se a rabiscar pequenos textos a partir de músicas do Zeca Afonso, tentando ilustrá-las com movimentos apelativos, numa mistura grossa entre ballet e danças folclóricas, combinando o “Lago dos Cisnes” com o “Malhão”. Era vê-los a esticar muito os braços em direção ao teto, e ao público, fazendo cara sofrida e falando muito em gaivotas, em pescadores, em estivadores, em burguesia, em operários, em exploração do homem pelo homem, em camponeses e na terra a quem a trabalha pois a canalha come palha, como as cavalgaduras.


Os ensaios nem sempre corriam como deviam. Não só porque se começaram a aperceber que a peça não funcionava como era suposto, pois não se conseguia enxergar lá muito bem o seu sentido, o que provocava acesas discussões entre os seus autores (que, é bom que se diga, pois corresponde à verdade, e, como todos bem sabemos, só a verdade é revolucionaria, eram todos), criando um mal-estar que indispunha, sobremaneira, o encenador, mais habituado a trabalhar textos de qualidade, fazendo com que a maior parte dos ensaios fossem orientados à vez pelos líderes das distintas fações existentes. Originando ainda mais barafunda e confusão, pois se um dava uma certa orientação às cenas, às falas, às músicas e à direção de atores, o que se lhe seguia fazia tudo ao contrário, tentando mostrar quem efetivamente detinha o poder.


Como todos mandavam era certo e sabido que ali ninguém obedecia. Muitas vezes, quando o encenador substituto dizia “toca a sair de cena quem não é de cena” ou saíam todos ou não saía nenhum, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que era ainda mais complicado de gerir e, sobretudo, de compreender.


Era extremamente difícil alguém fazer-se obedecer por quem contestava toda e qualquer autoridade pessoal. Nas poucas vezes em que aparecia o encenador titular, a maioria dos atores e figurantes tentava agir de forma a que o espetáculo ganhasse certa dinâmica e ainda algum sentido, mas a verdade é que o diretor passava quase todo o tempo a reunir com os atores principais, escolhidos exclusivamente por si, e que obedeciam a um princípio: todos gostavam muito de fumar umas ganzas. E era isso que faziam enquanto os restantes se exercitavam nos gargarejos, na colocação da voz, no ensaio de vários passos de dança e na memorização de várias falas. E andaram naquele teatro de enganos durante dois ou três meses sem que a peça adquirisse qualquer aspeto coerente. Foi portanto com um misto de espanto e incredulidade que ouviram o encenador, e diretor, anunciar que, apesar de não parecer, a peça estava pronta para ser apresentada ao público e com esse propósito indicou uma data que, curiosamente, coincidia com a primeira semana de férias grandes da estudantada.


Foi marcado o dia da estreia. Foram vendidos os bilhetes. Foram elaborados e afixados os cartazes. No dia da estreia apenas apareceram os atores secundários e o público, pois ao encenador nunca mais lhe puseram a vista em cima e os atores principais foram passar o fim de semana a Lisboa onde assistiram a um concerto de reggae.


O José nem teve tempo para se desiludir, pois, como informámos anteriormente os estimados leitores, o nosso herói fazia parte de mais dois grupos que naquele momento ensaiavam duas peças de teatro. Uma de um autor português militante do Partido ainda sem nome na praça e a outra de um autor clássico francês muito conhecido, mas de quem agora não lembramos o nome.


A primeira consistia num texto pretensamente moderno onde se tentava desmistificar o teatro como espetáculo, brincando com os estereótipos de classe. O José fazia de ator principal e ao mesmo tempo de falso encenador, muito intelectual, muito revolucionário, muito dado à causa da verdade e da revolução, todo entregue à arte e à sua glorificação. E punha máscaras e tirava máscaras e contracenava com uma diva que o tentava tirar dos espetáculos revolucionários dizendo-lhe que ele era um génio das artes cénicas e que se andava a perder no meio da populaça e do teatro dos maltrapilhos e dos famintos. Mas ele, metido dentro do seu papel, contrapunha que a arte só é arte se for revolucionária, por isso detestava a frivolidade e que o seu dom só tinha sentido se fosse orientado para servir o povo, para denunciar o mal e defender o bem. Mas temos que ser sinceros e comunicar que, apesar do texto ser vigoroso, ao José as palavras saiam-lhe sem chama nem viço. E isto porque a pretensa diva era uma rapariga desengraçada, sem voz para o teatro, com um corpo de lutadora de luta livre, com uns ombros vigorosos, com uma anca reduzida, que, apesar de bem vestida, parecia um manequim de feira, gesticulando fora de tempo, tentando seduzi-lo com a mesma sensualidade de uma senhora de oitenta anos. E como se tudo isso fosse pouco, a donzela rechonchuda estava apaixonada por ele, quase até à náusea. Perseguia-o dia e noite, mandava-lhe bilhetes, escrevia-lhe cartas, fazia-se encontrada em todas os cantos e esquinas. Um dia conseguiu levá-lo mesmo até sua casa e, numa manobra de sedução, despiu-se atrás de um biombo, vestiu um robe e puxou-o para a cama. Ele resistiu, tarde, mas resistiu. Ela deitou-se ao seu lado, por baixo e por cima dele, beijou-o, abraçou-o, acariciou-o, lambeu-o como se fosse um chupa-chupa, disse-lhe palavras doces, recitou-lhe poemas eróticos, fez trinta por uma linha, mas o José parecia que tinha sido mergulhado nas águas do Tâmega em dia de geada, por isso não conseguiu reagir. Mas nem mesmo assim a rapariga desistiu do seu amor e do seu Romeu. Já de pé, porque deitados estavam sentenciados ao adormecimento, abraçou-o pela cintura e pôs-se a falar com ele e a dizer que o desculpava pela sua fraqueza, que ainda o amava mais, se isso fosse possível, por ter demonstrado que não é o amor físico o que o atrai e que mais isto e mais aquilo. Mesmo não querendo ser indelicado, o José bem porfiou nas suas tentativas de se libertar do abraço da ursa apaixonada, mas é o libertas. Deu para perceber que a donzela dos ombros largos podia não ser lá muito prendada, mas era mulher para o agarrar com muita resolução e crença. Já ia alta a noite quando o José utilizou o último recurso, dizendo que logo pela manhã tinha um teste de filosofia no Liceu e que tinha de fazer uma direta para estudar, pois a prova era decisória. À falta de melhor fundamento socorreu-se dos versos de uma canção brasileira então muito em voga. E com a sua cara de verdadeiro ator recitou: “Além disso a minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.” Sensibilizada com este último argumento, resolveu libertá-lo mas com a promessa de que lhe desse um tempinho para se vestir e poder acompanhá-lo a casa.


Se esta cena de amor foi deplorável, por todas as razões e mais algumas, então a da apresentação da peça nem é bom falar. A verdade é que o edifício dos “Canários” desabou perto das três da manhã, apenas cerca de vinte e cinco minutos depois de os elementos do grupo de teatro o terem abandonado após o último ensaio antes da estreia. Com a companhia salva quase por milagre, resolveu-se transferir o espetáculo para o Cineteatro da cidade. Mas existia um problema. Como a sala era enorme tornava-se extremamente difícil os atores fazerem-se ouvir sem a devida ampliação da voz através de microfones. Depois de várias e distintas experiências, chegou-se à conclusão que para serem audíveis os diálogos das diversas personagens, tinha de se semear o palco com microfones emprestados por um grupo de música rock e limitar as deslocações dos atores ao mínimo indispensável. Conclusão: todos ficaram nos seus postos a debitar o texto sem quase se mexerem. O José passou sensivelmente todo o espetáculo ao lado da atlética Julieta escutando-lhe a sua voz desengraçada ampliada pela aparelhagem. Apenas o público se portou como devia, no fim não bateu palmas, mas também não arriou porrada em ninguém por causa de tão mau desempenho.


Depois de mais um fracasso, ao José apenas lhe restou levar a sua cruz até ao calvário. Do mal o menos, na terceira peça unicamente executou a tarefa de sonoplasta.


Durante um mês, auxiliados e transportados por um camarada camponês que possuía uma carrinha de caixa aberta, calcorrearam o concelho, apresentando com assinalável êxito uma farsa gaulesa que muito fez rir o povo das aldeias, pois nisso é como as crianças, as piadas mais brejeiras e alarves são as mais bem aceites. Ai povo, povo que lavas no rio e talhas com teu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da citada cançoneta, a quanto obrigas. Que seja tudo pela altura do incenso. 

27
Mar13

O Poema Infinito (139): bênção

João Madureira

 

Voamos como os insetos à volta das lâmpadas em movimentos fortuitos e as pedras transformam-se em cinza e a noite torna-se obscena. De imediato lanças frementes atravessam o espaço indo cair na margem sombria do silêncio. Erguemos esse silêncio, envolvendo-o com os braços em forma de teia de aranha. Já não há nenhum firmamento que consiga proteger-nos do abraço definitivo da noite. A noite estala como se fosse feita de bagos de milho que explodem dentro de um micro-ondas. E a tua transparência surge desenhada pelas delicadas veias do meu sexo. Esse é o meu corpo futuro. Beijo-te os lábios como os poemas beijam a brancura incompleta do amanhecer. As lâmpadas transformam-se em flores e decidem iluminar a felicidade ténue da tua nudez. Eu nomeio o teu desejo e inscrevo-o na pele fresca da lua que é agora uma deusa de chuva. Bebemos a água no oásis do silêncio da manhã. Um lírio nasce no meio dos teus seios. Uma luz misteriosa voa alto em direção ao teu olhar. As palavras curvam-se. O tempo desenha o alvo. As janelas deixam entrar as nuvens. Apesar da nossa idade cansada deitamo-nos na nascente do desejo à espera que circule por nós. Voam os sonhos como pássaros fugidios dissolvendo a terra, pegando fogo aos desejos, queimando os fantasmas brancos da loucura. O mundo revela-se dentro das suas torres obstinadas. A chama dos teus olhos flutua entre línguas de veludo. Tens o rosto tatuado de água. És uma menina nua dormindo sobre as dunas protegida por uma pantera vermelha. A espuma inunda-te o sono e faz-te despertar do devaneio. Eu escrevo um poema suspenso no azul do céu procurando identificar a pureza da água no teu corpo. Círculos vazios vibram dentro do nada estendendo o horizonte do fim para o princípio. Sonho com a ardência do teu corpo, com a mudez das casas, com o fragor dos minotauros, com os labirintos do desespero, com a solidão da sede, com a fragância da névoa, com o fulgor dos teus olhos matinais, com a nitidez dos rostos enlouquecidos. Nas nossas mãos nascem raízes que atravessam as sombras. O nevoeiro sobe pelos muros. Uma luz subterrânea alimenta a memória. O teu rosto persiste e procura as carícias. Dizes: Amo a tua timidez. E a tua fragilidade acesa. E a tua permanente adolescência repleta de recatos. Inclino-me e ofereço-te uma frágil flor de chuva. E guardo as tuas palavras dentro do meu coração de árvore inexorável. Possuirei o teu corpo com a perseverança do mar correndo como o vento na rapidez dos teus gestos. Por isso escrevo incendiando as bocas silenciosas e pegando fogo às palavras, procurando indefinidamente a enigmática transparência de cada pessoa. Por isso sorvo a cor das montanhas, a agitação dos mares, a calma do entardecer, a trémula nascença de uma flor, a violência de um parto, a impaciência de um coito, as linhas intermináveis do horizonte, a inclinação das luzes, a frescura da terra quando chove nas tardes quentes, o reflexo dos teus olhos, a marcha do vento, a respiração feliz dos amantes, a impenetrável lucidez dos loucos. Por isso toda a linguagem é necessária, por isso a luz incide duramente sobre a vida, por isso todas as coincidências são inflexíveis. Digo: Deixa-te estar mais um bocadinho pois eu nutro-me de ti. Adormeço beijando-te entre um sorriso e duas lágrimas. Bendita sejas. 

25
Mar13

Pérolas e diamantes (30): a loucura de Nietzsche

João Madureira


Começo esta crónica quase sem palavras, claramente tão poucas como as que existem no filme “O Cavalo de Turim”, do húngaro Béla Tarr, película que conquistou o Urso de Prata – Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim em 2011 – e foi, segundo o autor, o filme que encerrou a sua carreira.

 

O filme começa com o ecrã em negro e com as seguintes palavras do narrador: “Turim, 3 de janeiro de 1889. O filósofo Friedrich Nietzsche sai de casa. Ali perto, um camponês luta com a teimosia do seu cavalo, que se recusa a obedecer. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. Nietzsche aproxima-se e tenta impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo. Naquele momento perde os sentidos e é levado para casa, onde permanece em silêncio por dois dias. A partir daquele trágico evento Nietzsche nunca mais recuperará a razão. Ficando aos cuidados da sua mãe e irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de agosto de 1900.”

 

A seguir vê-se um cavalo a puxar uma carroça e um velho em cima dela. Depois o filme tenta recriar o percurso do camponês, da sua filha, do velho cavalo doente e a sua vida miserável. E não sai disso, metido quase sempre dentro de quatro paredes, numa contemplação aflitiva do vento e das folhas feita através de uma janela minúscula. De Nietzsche nunca mais se ouve falar, nem se sabe muito bem porque foi citado.

 

Eu, ao contrário de Béla Tarr, até vos queria falar do filósofo alemão, designadamente porque queria chegar a Freud, devido ao facto de andar a ler o livro de Michel Onfray, onde o autor pretende demonstrar que o pai da psicanálise é uma fraude, inspirada, sobretudo, imaginem só, em Friedrich Nietzsche. As voltas que a ciência dá!

 

Mas resolvi deixar essa abordagem do “Anti-Freud” para outra altura, porque a figura de Nietzsche a aproximar-se do camponês que chicoteava o cavalo e a tentar impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo, me fez olhar para as notícias dos últimos dias e ficar em estado de choque.

 

Eu explico. Com a crise que o atual Governo da Nação está a impor, a golpes de chicote, ao país, e com o sucesso que todos sabemos, agora já não nos enganam vendendo gato por lebre, como nos bons velhos tempos, mas sim enfiando-nos carne de cavalo por carne de vaca.

 

Eu sei que a carne de cavalo até é mais barata e saudável, que é rica em ferro pois possui um maior teor de hemoglobina, sendo por isso uma forma de tratamento das anemias e até usada por atletas de alta competição. Sei ainda que tem um baixo teor calórico, ao contrário das carnes vermelhas, e que possui, comparativamente, a mesma gordura da coxa de um frango, sendo boa para prevenir, ou mesmo tratar, problemas relacionados com o colesterol.

 

Mas que, por causa da crise, andem a abater cavalos puro-sangue lusitano e garranos aos milhares, para consumo, deixa-me à beira do desespero.

 

O preço de um potro garrano varia entre os 75 e os 100 euros e o do puro-sangue lusitano atinge certamente valores mais altos.

 

Em 2012 foram abatidos 2.803 cavalos, quatro vezes mais do que em 2011, um aumento de 312%. No que diz respeito aos garranos, a carnificina atingiu mais de metade dos poldros do Minho.

 

Parece que já ninguém sabe muito bem aquilo que há de fazer. Neste estado de coisas, além de se abaterem cavalos (o que seria de Nietzsche se lhe tocasse viver em Portugal), também se abatem empregos aos milhares todos os dias. Mas, nesse aspeto, há sempre gente inteligente que sabe muito bem aquilo que tem de se fazer.

 

João Salgueiro, ex-ministro do PSD e membro do Conselho Económico e Social, possivelmente depois de ter lido o capítulo “Do homem superior” (“Assim Falava Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche), resolveu citar Keynes: “Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados.”

 

Não sabemos é se com o dinheiro que vão receber, esses fazedores e tapadores de buracos, conseguirão amealhar o suficiente para conseguirem chegar à carne de garrano, pois a de vaca para eles está ao preço do caviar para Cavaco Silva. Por isso tememos que, depois dos cavalos, sejam os burros as próximas vítimas. O problema é que em Portugal os asininos de raça, não os de condição, estão em vias de extinção.

 

Mas voltemos a Nietzsche (“A Ceia”- “Assim Falava Zaratustra”).

 

“E a propósito: não me tinhas convidado para uma refeição? E repara, todos os que aqui estão tiveram de percorrer um longo caminho. Por certo não vais alimentar-nos com discursos!”

 

“E já todos vós falastes demasiado do perigo de se morrer congelado, afogado, ou de qualquer outro mal; mas nenhum de entre vós pensou no mal de que, pela parte que me toca, sofro, e que é a fome.”

 

“Assim falou o Profeta, mas quando os animais de Zaratustra ouviram estas palavras, fugiram apavorados; pois eles bem viam que tudo o que tinham conseguido trazer durante o dia não era suficiente para encher o estômago àquele único profeta.”

 

“ (…) Assim falava Zaratustra – mas o Rei da direita replicou: “É estranho! Já alguma vez se ouviram palavras tão razoáveis sair da boca de um sábio?”

 

“E em verdade, o que de mais estranho se pode encontrar num sábio, é ele ser razoável e não um burro.”

 

“Assim falava o Rei da direita, surpreendido. Mas o burro sublinhou as suas palavras com um I-han! descontente.”

 

Pelos vistos, com o caminho que isto leva, só nos resta juntarmo-nos ao burro do Zaratustra e

fazer: I-han! I-han! I-han! I-han!

 

Nesta época de vacas anoréxicas, está um tempo para cavalos gordos, economistas inteligentes e para burros filosóficos, tenham eles a condição que tiverem. 

22
Mar13

O Homem Sem Memória - 152

João Madureira


152 – E lá foi a rapaziada dos “Canários” pregar a outra freguesia. Através de vários contactos estabelecidos com distintas associações de índole cultural, a que não era estranha a filiação partidária dos dirigentes, dos atores e do restante pessoal, arranjaram disponibilidade, e ajuda financeira, para rumarem até ao centro do país, para aí exibirem a sua arte.


Alugaram um autocarro onde transportaram as pessoas e o restante material necessário ao bom desempenho do seu trabalho e, carregados de boa-fé e muita esperança, dormiam em pousadas da juventude, comiam onde calhava e apresentavam o espetáculo onde fosse possível, bastava para tanto que existisse um palco, mesmo que improvisado, e um ponto de luz para ajudar no som e na iluminação.


Apesar do espetáculo estar pensado para exortar as massas à revolta e a participarem ativamente, primeiro na revolução democrática e nacional e de seguida na revolução socialista em direção ao comunismo, o sucesso da peça residia, quase exclusivamente, na “banda sonora”, especialmente no fado do tal povo que lava no rio e talha com o seu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da cançoneta. O único defeito para os especialistas na cantiga dos bairros de má fama, e pouca fortuna, de Lisboa, residia no facto de o fadista ser apenas acompanhado à viola pelo seu irmão. Guitarra nem vê-la. E um fado sem guitarra fica manco. Mas, mesmo assim, o povo aderia à modinha e punha-se a cantar ao lado do fadista com muito tino e afinação. Está claro que isto exasperava os atores e as atrizes com mais consciência política do grupo. Que o povo se identificasse, quase exclusivamente, com este tipo de cançoneta reacionária, monótona e desprezível, deixava-os desconsolados, pondo muitos deles a pensar e a comentar, se valia verdadeiramente a pena apostar no teatro como instrumento de ajuda no esclarecimento do povo que queriam libertar da ignorância e da exploração do homem pelo homem. Além disso, a letra falava em “chão sagrado”, o que revelava uma clara conotação religiosa, logo reacionária e trazia à baila um “aroma de urze e de lama”. “Aroma de urze”, ainda vá que não vá, agora “de lama”?, isto atingia as raias do mau gosto e da idiotice. Onde se viu alguma vez um aroma “de lama”? O que queria dizer o homem que escreveu o poema com tamanha alarvidade? E, como se ainda fosse pouco, tinha mesmo um verso em que declarava rigorosamente: “Deste-me alturas de incenso”. “Alturas de incenso”? Afinal, o autor pretende falar do cheiro do “incenso” ou das “alturas” do fumo? Ou a que raio se queria ele referir?


Estas e outras interrogações incómodas foram circulando de boca em boca, o que originou uma espécie de desconfiança não só em relação à música propriamente dita, mas também em relação ao duo de irmãos fadistas que se limitavam, depois do espetáculo, a beber fino atrás de fino sem se comprometerem com mais nada. Pouco lhes interessava o que os elementos mais revolucionários do grupo diziam acerca do fado.


A verdade é que o pessoal começou a desmoralizar e a pensar seriamente em acabar de imediato com aquele arremedo de peça subversiva. Para isso reuniram em plenário e debateram o tema com a seriedade exigida. A maioria votou a favor da proposta dos esquerdistas que apontavam ou o cancelamento do espetáculo ou, então, a eliminação do fado da “banda sonora”.


Os elementos dirigentes ligados ao PC ficaram fulos pois alguns dos seus militantes, ou simpatizantes, tinham votado contra os dois fadistas que, apesar de não serem propriamente comunistas de cartão, eram simpatizantes comunistas com provas dadas. Alguém lembrou que a proposta ganhadora de se acabar com a peça ou com o fado, colidia com a circunstância de o grupo estar obrigado, por contrato, a levar a efeito os espetáculos previamente definidos. Do outro lado surgiu o comentário de que o contrato não tinha validade nenhuma pois as associações que o assinaram não pagaram um mísero tostão à passarada canarinha.


Com o grupo rachado, não restou aos presentes outra solução a não ser a de darem a digressão por terminada. Depois das despedidas conflituosas e de uma que outra palavra mais viva, ou atitude mais belicosa, meteram-se dentro da carreira e rumaram caras a Névoa. A meio do caminho, e a meio da noite também, foram mandados parar por uma brigada revolucionária do exército que estava de vigia às manobras reacionárias dos adversários da revolução democrática e nacional (imaginem só quando ela se transformar em socialista a caminho do comunismo!), pois, ao que corria como informação fidedigna, é que os spinolistas tinham intentado mais um golpe para por termo à democracia participativa e ao avanço para isso que nós sabemos.


Tudo correu bem até um dos graduados ter descoberto as fotografias com o semblante de Marcelo Caetano, de Américo Tomas e de Salazar coladas em cartão prensado e pregadas em ripas. Surpreendidos com tal achado, quiseram questionar os responsáveis pelo grupo sobre a razão de tal dislate. Não seria que por debaixo do manto de um grupo de teatro popular se pretendia esconder um bando de fascistas?


Está claro que a insinuação exasperou os presentes. Foi um problema para o militar graduado se pôr à fala com algum dos responsáveis. Como o grupo estava sem diretor, ninguém quis assumir interinamente o cargo e prestar as devidas explicações a quem de direito. Quem salvou a situação foi o José quando colocou a questão sem papas na língua: “Então acham que se fossemos verdadeiros fascistas andávamos com os retratos dos nossos líderes à vista de todos? Com os ares que atualmente por cá se respiram, essa era a fórmula perfeita para acabarmos na prisão ou em frente a um pelotão de fuzilamento.”


O argumento fez com que a tensão se dissipasse e por isso os “Canários” foram autorizados a seguir caminho rumo ao seu destino. 

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