Sexta-feira, 1 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 149


149 – Foi com a exposição sobre a URSS que o José iniciou o que podemos denominar como o seu ciclo dos “Canários”, que era a modos como um teatro antigo, que tinha sido sede social e sala de ensaios de uma banda filarmónica já extinta e que atualmente albergava uma pretensa associação de âmbito cultural.


Além de servir de espaço para sessões de esclarecimento das forças de esquerda, o salão tinha condições suficientes para apresentar peças de teatro ao público, pois possuía um palco, uma sala razoável para a assistência mais comum e até balcão para o público mais relevante.

 

Foi durante o tempo que durou a exposição que tiveram início os ensaios para a peça de teatro que um grupo de sócios e amigos dos “Canários” resolveu levar para a frente.


O primeiro passo – pois até a mais longa marcha começa com ele, como muito bem disse Mao Tsé-Tung, ou Mao Zedong –, foi definir o perfil dos elementos que podiam pertencer ao grupo de teatro. A direção da associação decidiu que apenas podiam ser admitidas pessoas comprometidas com a cultura, o que queria significar que apenas estavam em condições de pertencer ao grupo militantes ou simpatizantes de esquerda, pois a gentalha de direita abominava a verdadeira cultura. O que levantou de imediato uma outra questão: onde começava e onde terminava a esquerda.


Para uns, os elementos ligados ao PCP, a esquerda começava no MDP e terminava muito próxima do MES. Para os esquerdistas, a esquerda começava no MES e terminava um pouco além da UDP. Para os moderados e independentes, a esquerda começava no PS e terminava no MRPP.


Depois de todos os argumentos ponderados, verificou-se que se fossem apenas admitidos os elementos de esquerda considerados pelo PCP, a peça a representar tinha de ser um monólogo e se fossem aprovados os elementos de esquerda admitidos pelos maoistas, a peça escolhida tinha de ser um diálogo com não mais de duas personagens. Isto se viesse lá de baixo um encenador, pois o único conhecido por estas bandas era militante do PS.


Devido aos factos, que não aos argumentos, venceu a proposta que considerava de “esquerda” todos os partidos à esquerda do PS, incluindo-o obviamente. No entanto, houve ainda uma última discussão sobre se o MRPP podia, ou devia, ser considerado um partido de esquerda.


Apesar dos argumentos a favor serem relevantes e os contra não serem desprezíveis, a maioria votou a favor da decisão de que o MRPP, embora utilizando como símbolo a foice e o martelo e de os seus poucos militantes cantarem “A Internacional” na sua versão oficial, era um grupelho de direita. Chegando mesmo alguns dos participantes na reunião da direção dos “Canários” a apelidá-los de provocadores e agentes da CIA.


Depois de contactados os elementos que interessavam para a constituição do grupo, foi convocada uma reunião para definir qual a peça a escolher. Foram apresentadas diferentes ideias e também alguns fragmentos de vários textos. Depois de diversas leituras das peças sugeridas, instalou-se o impasse. Não havia maneira de todos se porem de acordo acerca da peça a escolher, ou porque era difícil de compreender, ou porque era pouco revolucionária, ou porque era chauvinista, ou esquerdista, ou maoista, ou tendencialmente social-democrata, ou revisionista, ou outra coisa qualquer. A verdade é que cada tendência tentava impor a peça que em reunião partidária tinha decidido apresentar aos restantes elementos do grupo. Eram tantas as propostas como as sensibilidades partidárias, excluindo o PS, pois aos seus militantes tanto se lhes dava como se lhes deu. Eles achavam-nas todas boas.


Vendo que não se chegava a acordo, o encenador propôs então uma reflexão revolucionária, o que muito estranhou aos elementos mais revolucionários do grupo, que a princípio ficaram fulos por não terem sido eles os mentores da ideia, o que veio demonstrar, por incrível que pareça, que até as invenções mais revolucionárias podem vir daqueles que não são revolucionários.


A ideia era que, dado que nenhum dos textos lidos, discutidos e comentados, tinha colhido o voto maioritário, ou melhor, unânime, dos elementos do grupo, o melhor mesmo era todos participarem na escrita de uma peça. Depois de a proposta ter sido aprovada por unanimidade e aclamação, foram comemorar para uma taberna típica mesmo ali ao lado. Comeram, beberam e cantaram noite fora. E durante o fim-de-semana resolveram dedicar todo o tempo a redigir o texto.


Escusado será dizer que cada um tentou impor a sua tendência ideológica que não sendo substancialmente diferente, exceção mais uma vez feita para os militantes e simpatizantes do PS, era pícara em pormenores: nos nomes dos dirigentes, nos lugares onde se passavam as cenas, nas citações, nas bandeiras, nas palavras de ordem, nos heróis tombados, nos heróis erguidos, nos punhos que se levantavam quando se gritava a favor do socialismo, na definição das políticas agrárias, no tipo de reformas, no tipo de greves, no âmbito das nacionalizações, no controle operário, na aposta ou não na autogestão, no tipo de autogestão, na ocupação das terras ou das casas, na necessidade ou não de uma revolução armada, no tipo de ensino, no tipo de associativismo, no tipo de unidade sindical, etc.


Muitas vezes se insultaram por causa de uma vírgula posta fora do lugar, por causa de uma canção sugerida, por causa de um poema escolhido, por causa de uma pretensa citação que indiciava uma alusão encapotada a Alberto Punhal ou a outro dirigente partidário. Por causa de uma discussão acerca de um pormenor comezinho, um militante do PRP-BR ameaçou mesmo ir buscar a G3 que trazia no carro para impor a sua versão numa cena qualquer.


Estava visto que um texto coletivo era ainda mais difícil de fazer do que a própria revolução. Isto apesar da tão propalada unidade na ação, tão ao gosto dos discípulos de Punhal.


Resumindo e concluindo, o texto que dali saiu foi de uma mediocridade confrangedora. Podemos dizer que abordava quase todos os tópicos revolucionários que se viviam na altura, mas sem aprofundar nenhum. Era uma mistura de palavras de ordem dos vários partidos, com cenas tão neorrealistas que, estamos em crer, até os mais acérrimos defensores do neorrealismo as abominariam por neorrealistas. 


publicado por João Madureira às 07:45
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