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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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29
Abr13

Pérolas e diamantes (35): contemplações e algumas deduções

João Madureira


Foi num fim de semana que finalmente descobri a destrui… desculpem, a transformação do Jardim das Freiras numa praça rasa com um tanque ao fundo. Afinal o seu destino, ou melhor, a sua função, é converter-se num terreiro militar, numa montra de propaganda das nossas forças militares.

 

Em vez de passearmos em redor dos canteiros de flores, vimo-nos, eu e a Luzia, a deambular entre provectas viaturas do exército português, metralhadoras e pistolas com aspeto de serem já do tempo da primeira guerra mundial. Também contemplámos G3 do período da guerra colonial. Ai que saudades!

 

Observámos ainda pais babados a fotografar os seus filhotes alindados com capacetes militares ao volante de carros de assalto blindados. Foi enternecedor observar crianças a brincarem às guerras, os militares a fazerem de animadores culturais e os pais a servirem de repórteres fotográficos, como se estivessem no Afeganistão dos Pequeninos. Uma lágrima rebelde esteve mesmo para me correr pela face abaixo, mas eu, para não dar parte de fraco, consegui aguentá-la. Porra, um homem não chora.

 

Mas não era disto que hoje vos queria falar, mas sim de mais uma apresentação (acho que já vamos na sétima ou oitava) de António Cabeleira como candidato à Câmara de Chaves. Desta vez veio a terreiro afirmar que é o “candidato da verdade”. Mas era escusado, porque no senhor candidato isso é uma redundância. Todos o sabemos.

 

Desta vez veio comunicar que o seu lema é “Todos por Chaves”. O que quer dizer que também me inclui a mim na sua ideia, no seu lema e na sua vontade. Desde já lho agradeço. Mas tenho de lhe pedir desculpas, pois não consigo acompanhá-lo nem na vontade, nem na verdade, nem no lema. Não consigo, não é porque não queira. É mesmo por manifesta incapacidade para o seguir em tão difícil desiderato. Neste caso, desculpe-me senhor candidato, serão “Todos por Chaves”, menos um. No entanto, desejo-lhe as maiores felicidades.

 

Igualmente afirmou que pretende “unir a família social-democrata”. Então ela está desunida? Má notícia nos transmite. Mas acho que exagera. Nós não acreditamos. Que eu saiba ela está mais unida do que nunca. E, como todos sabemos, o povo unido jamais será vencido.

 

Promete ainda “fazer o melhor possível pelos flavienses”. Disso ninguém duvida. Os doze anos de gestão autárquica do PSD são disso a melhor prova: o centro da cidade é hoje um espaço privilegiado de comércio e turismo, a população residente aumentou significativamente, o nosso tecido industrial amplificou-se como nunca. E até já temos uma fábrica de pastéis de nata no imenso complexo construído em Outeiro Seco. E, como se isto fosse pouco, o Hospital de Chaves aumentou as suas valências, o Tribunal ganhou um estatuto de dignidade que a todos enche de orgulho e o Ensino Superior vai ser substancialmente ampliado, pois a UTAD está a pensar seriamente em transferir os seus melhores cursos para Chaves.

 

Além disso, o senhor candidato é um estratega experimentado, sagaz e audacioso. Ora vamos lá às evidências. António Cabeleira, passa de segundo na lista da Câmara a primeiro. João Batista, atual presidente, passa a candidato a presidente da Assembleia Municipal e António Vicente, o atual presidente da AM, passa para 14º na lista da candidatura do PSD. Basta este pormenor para nos apercebermos que quem mexe assim nas listas, é um jogador de xadrez espantoso.

 

Do resto das suas promessas nem é bom falar, pois elas são tão boas, tão atuais e inéditas, que encheríamos páginas e páginas de jornais e mesmo assim, estamos em crer, não conseguiríamos dar-vos nem sequer uma pálida imagem da sua pertinência e profundidade. 

 

Sobre o combate político, AC limitou-se a criticar o PS por ter levantado “suspeitas sem qualquer sentido” em relação à dívida da Câmara, que para o PSD é de 40 milhões e para o PS é de 50 milhões. A nós, seja qual for a cifra parece-nos uma cratera do tamanho das que a chuva provocou em Marvão. A verdade é que o PS de Paula Barros não veio ainda a público apresentar os seus números. Ao que nos disseram, o “aparelho” partidário anda entretido a compor as listas autárquicas. Pelos vistos não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

Chegou-nos aos ouvidos que foi constituído em Chaves o “Movimento Autárquico Independente”, mas deve ser boato, pois se nem o PSD nem o PS dizem nada é porque não existe. Nós até vimos um cartaz na sua sede. Mas pode tratar-se apenas de uma alucinação. João Neves não era capaz de fazer uma desfeita dessas aos partidos do sistema. 

26
Abr13

O Homem Sem Memória - 157

João Madureira

 

157 – Como teve de deixar de filmar por falta de financiamento – e não por escassez de talento, pois talento possuía o nosso personagem principal em quantidade mais que suficiente para dar e vender –, o José teve de se voltar para outros géneros de arte que lhe ocupassem o espaço mental disponível, ou melhor, o seu espaço vital, pois a arte está para os verdadeiros artistas como o ar está para os animais terrestres e a água para os peixes. Não sei se nos fazemos entender.


Como ouvia sobretudo cantores de intervenção, meteu-se-lhe na cabeça que devia aprender a tocar viola para dar vazão à sua veia artística. Perdido por cem, perdido por mil. Lembrou-se então de pedir ao seu querido amigo Fernando que lhe ensinasse algumas posições no instrumento de cordas que lhe permitissem atamancar algumas cantigas do José Afonso. O Fernando disse-lhe que devia começar por algo mais simples. Mas ele teimou no Zeca e foi o que teve: músicas tocadas pelo Fernando mas que ele não conseguia seguir, nem de perto, nem de longe. Colocava os dedos nas posições certas, mas à custa de muito porfiar, e tangia as cordas muito devagarinho para não as assustar. Por vezes conseguia alcançar um dó a soar a dó, mas o problema era quando tinha de mudar os dedos para, por exemplo o fá, aí atrapalhava-se e demorava tanto tempo que o dó já se tinha ido embora da canção enquanto o fá chegava a passo de tartaruga. E isto passava-se com todas as notas que se lhe seguiam. Enquanto as notas musicais eram breves e rápidas, os intervalos eram enormes e lentos. Chateou-se imenso logo no primeiro dia de ensaio. E no segundo. E no terceiro. E no sétimo. No décimo desistiu, para grande alívio do Fernando. Estava provado que para a viola não servia.


Nesse mesmo dia, olhou para o Fernando com cara de caso e perguntou-lhe se tinha alguma sugestão para dar vazão à sua inquietação artística. Ele, muito a modinho, lembrou-lhe que a banda desenhada era uma via possível. O José, apesar de gostar de BD, como todos bem sabemos, perguntou-lhe se não seria uma espécie de recuo artístico passar do cinema para os quadradinhos, assim de repente. Se não seria passar de cavalo a burro. O Fernando respondeu-lhe que não sabia se era um retrocesso ou não. O que sim sabia era que a BD, por alguma razão, já se designava como a nona arte. O José perguntou-lhe então qual era a oitava, ele respondeu-lhe que era a fotografia.


“Talvez deva então tentar a oitava antes de passar à nona, pois não é bom queimar etapas. Os comunistas chineses que o digam”, lembrou o José com a sabedoria que todos lhe reconhecemos. No entanto, o Fernando lembrou-lhe que para se fazer fotografia era necessário uma máquina, rolos de película fotográfica e um estúdio de revelação, ampliador, revelador e fixador, objetos e materiais que eram caros e difíceis de arranjar. “Então, talvez seja boa ideia dedicar-me à BD”, admitiu o José, imbuído da sua inteligência prática.


Pediu então ao Fernando o último Pilote que tinha recebido e pôs-se a copiar desenhos do Astérix e do Tenente Blueberry. Saíram-lhe mal, como era de esperar. Mais uma vez o Fernando lhe disse que tinha de começar por algo mais simples. Uderzo e Jean Giraud não estão ao alcance de qualquer um.


Mas o José lembrou-lhe que quem reproduz os melhores pode vir a ser como eles e quem plagia os maus só pode conseguir ser pior do que eles. Fernando gostou daquilo que ouviu, por isso disse-lhe que devia, quiçá, tentar a Filosofia, que na Grécia antiga era uma grande arte. O José respondeu-lhe que se dava mal com a Filosofia. O Fernando lembrou-lhe então, e bem, que com quem se dava mal era com a professora de Filosofia e não propriamente com a Filosofia. Ele até concordou com o comentário, pois correspondia à verdade, mas recusou liminarmente dedicar-se à “arte da treta”, que era como ele definia o mester de Sócrates. O Fernando, sabendo da sua inclinação para a escrita, sugeriu-lhe que talvez fosse boa ideia tentar o conto ou o romance, pois para essa arte já possuía as ferramentas necessárias: a caneta e o papel, e dominava a arte da caligrafia com razoável mestria. O José disse que não era bem assim. Além disso faltava-lhe a máquina de escrever, para dar aos escritos a sua versão final. O Fernando disponibilizou-se a emprestar-lhe a do seu pai que pouco uso tinha tido até ao momento.


“E as ideias?, inquiriu o José com toda a pertinácia que lhe reconhecemos. “As ideias?”, perguntou intrigado o Fernando. “Pois, as ideias”, insistiu o José. E o Fernando: “As ideias são como as cerejas, a seguir a umas veem outras e assim por aí fora até acabares o livro. Além disso, ideias tens tu de sobra.” “E as palavras? Como escolho e decido as palavras para concretizar as ideias?”, perguntou o José. E o Fernando: “Essa arte vem com o tempo e com o treino. Mais com o treino do que com o tempo. Com o tempo surgem mais as ideias, com o treino aparece mais a forma. E a forma aprende-se sobretudo lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, lendo e escrevendo, escrevendo e…” “Sim, já percebi. Mas como sei que tenho jeito para a escrita. Existe algum teste específico para ficarmos a saber se temos queda para as letras?”, perguntou o José. E o Fernando: “Que eu saiba não. Mas como o meu pai é um bom leitor, podemos pedir-lhe que leia algo que tu escrevas e que imita a sua opinião. Se ele gostar, podes ter a certeza de que o que tu escreves tem qualidade. Nessas coisas não se engana. Nem na qualidade da escrita, nem na qualidade da música, nem na qualidade do vinho.” “Mas ele é meu amigo”, lembrou o José. E o Fernando: “Damos a ler-lhe um conto sem lhe dizermos de quem é, como se ele fosse o elemento do júri de um prémio literário.” “E se ele disser que não presta aquilo que escrevo, o que vou tentar a seguir?”, perguntou com cara de caso o José. E o Fernando: “Pior do que o teu jeito para a música e para a BD com certeza que não será.” “Obrigado pelo elogio”, melindrou-se o José. Para a seguir perguntar: “E quanto ao cinema? O que é que achas da minha arte cinematográfica?” E o Fernando: “Como tu bem sabes, eu de cinema percebo pouco e também pouco vejo. Mas digo-te desde já que detesto o Godard”, e calou-se fazendo-se desentendido, enquanto abordava uma canção do Leonard Cohen na sua viola de cordas metálicas.


O José continuou a olhar para o Fernando à espera de resposta, mas o seu amigo não lhe dava troco. No entanto, o nosso herói insistiu: “O que é que achas da minha arte cinematográfica? Viste os meus filmes, não viste?” “Vi”, respondeu lacónico o Fernando entre o trauteio de passagem de um verso para outro da canção do canadiano. “E?”, perguntou o José. “Pois!”, disse o Fernando enquanto acompanhava com o seu assobio a canção do Leonard. “Então não dizes nada sobre os meus filmes? Não tens opinião acerca deles. Lá por não simpatizares com o Godard não implica que não gostes das minhas curtas-metragens”, declarou o José já um pouco enfadado, até porque sabia que o Fernando não era rapaz para esconder aquilo que pensava. Mas também sabia que era incapaz de ferir os sentimentos de um amigo. E o José era o seu maior amigo. E o Fernando: “Pois, de facto são curtas, as tuas metragens.” (Assobio de acompanhamento musical). “E?”, insistiu o José. (Assobio de acompanhamento musical). “E são a cores…” (Mais assobio de acompanhamento musical). “E?” “E têm planos interessantes…” “E?” (Ainda mais assobio de acompanhamento musical). “E não têm som, o que lhe dá um toque especial…” (Um pouco menos de assobio de acompanhamento musical). “Especial em quê?” (Um pouco mais de assobio de acompanhamento musical). “É que estamos habituados a que os filmes mudos sejam a preto e branco e os teus são mudos, mas a cores…” “E?” “Olha, se calhar, era boa ideia acompanhá-los com músicas do Leonard Cohen tocadas por mim, um pouco à semelhança dos acompanhamentos ao piano das películas a preto e branco que passavam antigamente nas salas de cinema.”


O José então riu-se e olhando bem nos olhos o seu amigo questionou-o decididamente: “Diz lá de uma vez o que pensas dos meus filmes?” E o Fernando: “Pois ou que são uma valente merda ou então são duas obras-primas. Mas eu inclino-me mais para a primeira hipótese. No entanto isso não invalida a segunda. Pelo menos é ponto assente que medíocre não é, o que é um adianto. Ambos detestamos a mediocridade.”


“Obrigado pela tua sinceridade,” disse o José antes de sair porta fora com a determinação dos génios (demónios?) incompreendidos. 

24
Abr13

O Poema Infinito (143): a mudez de Deus

João Madureira


Da minha janela observo o rio a encher-se de água e a manhã a alagar-se de luz. Ainda há pouco a alvorada me entrou nos olhos com a sua ilusória beleza navegante. E eu não quis chorar. Ao longe gritam anjos maduros com as suas bocas claras de brusquidão. Levanto-me e desço as escadas vendo desfilar na minha frente pássaros avermelhados que esperam de Deus o milagre da fala. Sei que esse milagre nunca chegará. Por isso Deus é uma eterna desilusão para as aves. Debaixo da ponte corre a água que transporta as memórias. As ruas esperam-me submersas na sua calma. Eu coleciono passos. Sou um adorador de silhuetas. Sou um colecionador de olhares. Sou um guardador de sorrisos. Sou um adulador de gestos. Toda a terra chega quente aos meus sentidos. O rio continua a encher. Escuto um júbilo triste nas canções que enfeitam os caminhos. Os comboios da infância chegam envoltos numa névoa rosada. E com eles acodem as vozes angustiadas do mundo. Os cães trazem espelhada nos olhos a sua angústia animal. E sofrem. Também eles esperam que Deus lhes conceda o dom da fala. Mas eu sei que esse milagre não está ao alcance do Criador. Por isso Ele é uma desilusão imortal. No rio, a água rumoreja e um vento frio apodera-se do meu coração. Este já não é o mesmo vento que ontem anunciou a tarde. Este vento passa velozmente pelas árvores que esperam de pé há séculos que Deus lhes outorgue o dom da fala. Mas eu sei que isso não está nos seus propósitos. A manhã passa depressa, como se fosse uma nuvem impelida por um vento superior. Agora é o rio que geme. Os sonhos escondem-se nos caminhos. A noite vai chegar fria e solitária e Deus teimará de novo em vigiar os seus filhos prodigiosos para depois se ir esconder no fundo do céu. Deus enlouqueceu. Já é Ele que reza para que os seus prodigiosos filhos Lhe perdoem. Tenta esquecer as culpas supliciadoras e cruéis do Antigo Testamento. Os cães adormeceram dentro da sua paciência. Os pássaros avermelhados descansam as suas asas de desalento, enquanto debicam palavras manuscritas nos livros antigos. As árvores diluvianas ressuscitam prontas a combater a chuva. As pombas da Santíssima Trindade persistem no seu arrulho interminável. Fernando Pessoa dorme no quarto ao lado vigiado por Eros e Psique. Uma família de poetas acrobatas fabrica um trapézio feito de nuvens. Obscuras borboletas assinalam o caminho da loucura. Os mortos viajam no seu tempo eterno de esquecimento. Os mares nunca mais voltarão a ser tranquilos. Nem os sonhos. Nem a voz imponderável de Deus. Por isso Ele semeia nas galáxias os buracos negros. Eu nascerei noutro corpo, no meio de uma vegetação delicada, onde pequenos deuses que cheiram a eucalipto levantarão os seus exércitos e invadirão a Terra. O nosso planeta renascerá ébrio e delirante para que tudo volte a ser igual. Eu já não tenho receio dos meus equívocos. Vivo rodeado de livros que são barcos e que me trazem mensagens de paixões semeadas de memórias onde fêmeas magníficas devoram machos eficazes e onde os pássaros avermelhados se deixam devorar pelos cães na sua vigília de solidão enquanto são observados pelas árvores do esquecimento. As mulheres semeiam choros. Os homens podam angústias. As crianças destroem os caminhos das formigas. Agora sei a razão de Deus ser mudo. 

22
Abr13

Pérolas e diamantes (34): imagens de uma cidade (III)

João Madureira


Quando por vezes tive de apanhar o comboio para ir viver durante algum tempo fora da nossa cidade, mal ouvia o barulho da marcha das rodas nos carris, era violentamente tomado pelo sentimento de comunidade e de pertença ao coração de Chaves, como nunca me tinha acontecido antes.

 

Era nos períodos da partida e da chegada que me lembrava, tomado por uma dor ao mesmo tempo absurdamente triste e alegre, da Ponte Romana e sentia dentro de mim o seu tempo antigo, o tempo muito antigo da nossa cidade, a dilatar-se e a preencher-me com a sua figura ancestral e digna.

 

Na cidade havia (há) riqueza, mas conjuntamente pobreza (também ainda a há, e muita), coabitando lado a lado com a nossa grande história. As ruas principais enchiam-se de gente e os bairros metiam-se dentro de si, apesar da sensibilidade evidente das pessoas às novas realidades e às diferentes ideias que chegavam de fora. 

 

Por detrás da sua beleza monumental, era esse o segredo de Chaves: a relação fragmentada, mas duradoura e solidária, da nossa vida quotidiana.

 

As palavras relativas às nossas qualidades gerais, ao nosso espírito gregário, à nossa singularidade enquanto cidade, transformaram-se em discurso indireto sobre a nossa própria vida.

 

Agora, o discurso político e partidário tomou conta do nosso estado mental. Como se lhe pertencesse o núcleo principal da vida da nossa cidade. Mas isso é um embuste. Nós, os flavienses, não os que se dizem, mas os que o são desde sempre e para sempre, constituímos o centro essencial do nosso burgo. Nós mesmos. Não eles, mas nós. Nós os que lhe pertencemos desde sempre e para sempre.

 

Por outras palavras: através da contemplação da nossa cidade, agora quase vencida e acabrunhada, esmagada e triste pelo que lhe está a acontecer, ainda mais triste e acabrunhada do que eu, sinto dolorosamente que alguém tem de lhe deitar a mão para que não feneça debaixo da nossa indiferença.

 

Porque, apesar dos atentados que sofreu, e continua a sofrer, Chaves ainda mantém a sua beleza caraterística, que vagas sucessivas de “bárbaros” não conseguiram destruir. Ainda tem a riqueza da sua história, ainda possui os seus mistérios, que bem podem ser os remédios para os nossos sofrimentos. Talvez tenhamos de amar a nossa cidade como amamos a nossa família. Provavelmente não nos resta outra solução.

 

Numa noite destas, com a cabeça um pouco aturdida por algum vinho, lancei-me de novo numa caminhada pelas ruas mais estreitas e escuras da nossa cidade, para as sentir tremer e dar-me conta da sua tristeza. E senti-me dentro dela como se estivesse num filme antigo de que eu gostava.

 

Não sei porquê, mas senti-me feliz. E foi essa felicidade que quis apanhar para a conservar e poder falar dela como uma possibilidade. Como quem leva à boca um fruto maduro ou como quem acariciava um berlinde quando era criança.

 

Tive então vontade de regressar a casa pelas ruas vazias, sentar-me à secretária e escrever o que estão agora a ler.

 

Mais uma vez volto a citar Joaquim Pessoa: “E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.”

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