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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

26
Jun13

O Poema Infinito (152): aqui

João Madureira


Hoje vou contar quase uma história sobrenatural. Onde as distâncias somam gente. Onde não existe o abandono. Onde a solidão se abastece de água e de árvores. Onde o dia nasce cheio de palavras. Onde os rios se encostam aos verbos desenhados por compêndios de pássaros. Onde os poetas guardam a água que amanhece nos olhos dos amantes que vão perder a virgindade. Onde a linguagem é anterior ao pecado original. Aqui tudo se equivale. As imagens que brilham, os pirilampos que se acendem, a noite que gravita, as velhas teorias que dizem que a vida está no início do seu período relevante. Aqui a poesia não é útil, pois os homens e as mulheres não usam as borboletas. Aqui fala-se da biografia indestrutível dos carvalhos. Aqui todos os seres são soberanos. Aqui criam-se imagens abismadas. Aqui nascem os homens que mudam as coisas. E nascem também as mulheres que mudam os homens. Aqui nasce o exagero. E a originalidade. E a autenticidade. E o instinto da poesia. E os parâmetros da claridade. Aqui nasce a afluência evidente dos objetos e a comovente inutilidade do amor. Aqui nascem as imagens repletas de céu e de pássaros e de perplexidade. Aqui nasce a linguagem das árvores, o esplendor da morte, a imaginação devorante dos alucinados e todo o universo caótico de todas as imagens do mundo. Aqui tudo se torna invisível para procurar a visibilidade. Aqui confluem as aves que são livros, os livros que são aves, os escritores que são cogumelos, os meninos que correm pelas ladeiras e a chuva de absinto que faz pling, pling, pling nas poças dos canteiros. Aqui deus não existe. Aqui os homens possuem um brilho inventor nos olhos. Aqui os poetas são meninos que brincam com poetas e que trazem novidades concebidas sem pecado. Aqui todas as virtudes são defeitos e todos os defeitos são virtudes. Aqui as paisagens sentam-se à janela e lamentam-se. Aqui ninguém explica nada. Aqui não se ensinam medos nem se decifram olhares. Aqui os cavalos andam soltos pelas ruas e enamoram-se das estrelas. Aqui o vento embrulha as palavras transformando-as em sorrisos. Aqui tudo tem significado. Aqui nada tem significado. Aqui brinca-se com o fogo e ninguém se queima. Aqui o medo perdeu o medo de ter medo. Aqui os espelhos são feitos de água e a beleza é feita de loucura. Aqui as pessoas estão sempre a distrair-se a ir-se e a vir-se. Aqui o chão sobe pelas pessoas e enche-as de natureza. Aqui os meninos descobrem gritos de futuro e as avós murmúrios de passado. Aqui inventam-se aparecimentos e a saudade dos sítios e o tempo do amor e o nome dos bichos e a experiência do sofrimento. Aqui as pessoas deixam de ser estranhas. E os anjos amam as suas mães e os seus pais e os seus irmãos e dormem aconchegados nos braços roliços das deusas da transgressão. Aqui há muitas maneiras de viver e outras tantas de morrer. Aqui experimenta-se a fartura da beleza e a excitação sexual. Aqui cada um ama aquilo que quer amar. Aqui sopra-se poesia aos ouvidos e pede-se inspiração ao papel. Aqui os homens e as mulheres têm esperança e sorriem contando mistérios uns aos outros. Aqui as portas nunca se fecham e os girassóis são tão bonitos e tão trágicos como os de Van Gogh. Aqui as mulheres cozinham a esperança e os homens semeiam crepúsculos. Aqui as contas dos terços são feitas de orvalho. Aqui ninguém chora. Aqui os homens e as mulheres fumam silêncios e brincam com lagos azuis. Aqui tudo é mistério. Aqui nasci eu. 

24
Jun13

Pérolas e diamantes (44): todos estamos a pagar a incompetência

João Madureira


A situação política portuguesa está tão degradada que as pessoas têm a nítida sensação de que já nada interessa. Instalou-se a perversa ideia de que nada muda no essencial. Estamos a enlouquecer coletivamente.

 

Os políticos que vivem da alternância do poder dizem que esta é a lógica do jogo democrático, que tudo isto faz parte da disfunção do sistema. O problema está no facto de que, nas últimas duas décadas, os políticos que usaram, e abusaram do poder, não possuem um mínimo de vergonha na cara. Conseguem fazer promessas, conseguem não cumpri-las minimamente e ficam impunes como se fossem meninos de coro.

 

Todos nos damos conta que a alternância democrática não é suficiente. A qualidade política tem-se deteriorado a um ritmo inquietante. A esta gente falta visão do mundo.

 

Os políticos de hoje foram formados dentro das estruturas partidárias, por isso lhes falta qualidade, cultura, sensibilidade e abrangência. E isto é válido tanto para o PS, como para o PSD, como para o CDS.

 

Persistem na ideia de que eles é que possuem a verdadeira noção do que é o Estado Social e o Estado de Direito. De facto eles são tudo, porque se instalaram à mesa do poder e nada deixam para a cidadania. Aprisionaram o Estado e a Nação.  E, o que é ainda mais grave, aprisionaram-nos dentro da sua lógica.

 

Paulo Morais, vice-presidente do movimento Transparência e Integridade, afirmou que o maior centro de corrupção em Portugal é a Assembleia da República e que as primeiras filas dos partidos políticos, como o PSD e o CDS, estão repletas de pessoas que são, em muitos casos, membros dos diversos Bancos de Investimento, nomeadamente do BES. Isto é uma coisa que, no mínimo, nos põe em pânico, quando não em desespero.  

 

Todos nos perguntamos por que carga de água é que não nos apercebemos destas evidências. A explicação é simples: existem várias dezenas de comentadores políticos a fazerem as suas análises. Se atentarmos bem, todos eles já foram ministros. São todos dos partidos, sobretudo dos partidos da denominada área da alternância democrática. E isso não é normal.

 

De facto, eles não comentam política com independência. Eles defendem as teses dos seus partidos. O caso mais escandaloso é protagonizado pelo professor Marcelo (Rebelo de Sousa), que é tão independente, tão independente, tão independente, que até veio a Chaves para apoiar a candidatura da fação minoritária do PSD local, liderada por António Cabeleira. Se o ridículo matasse, dali não saía ninguém vivo.

 

Se fosse este tipo de gente a escrever o nosso futuro, estávamos definitivamente desgraçados. Mas o futuro, para bem de todos nós, não está escrito em lado nenhum. Somos nós que o vamos construir. Custe o que custar, doa a quem doer.

 

Para ajuizarmos dos dislates que, por exemplo, se praticam na nossa autarquia, vamos aos factos.

 

No ponto 4 do “Compromisso” de “Todos por Chaves”, escreve-se que “É tempo de traçar objetivos e de hierarquizar prioridades tendo em conta os recursos disponíveis. Transformar ideias em projetos e projetos em obras.”

 

Então vamos lá aos projetos e às obras e às prioridades e aos recursos e à hierarquia e às ideias e à transformação. A seguir ao escandaloso aluguer, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves, a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar mais dinheiro público. Em ata do dia 18 de março de 2013, relativa ao “projeto de execução das piscinas municipais cobertas de Chaves”, ficámos a saber que a vereação camarária aprovou por unanimidade (lá está o arco do poder, ou o arco dos interesses, leiam como entenderem, a funcionar) a decisão de “promover a revogação do contrato” com a GIPP – Gestão Integrada de Projetos e Planeamento, Lda., e indemnizá-la em 62.181,25 €.

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu retirar dos bolsos dos contribuintes sessenta e dois mil cento e oitenta e um euros e vinte e cinco cêntimos, para pagar uma indemnização por não poder levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada.  

 

Sinceramente que não sabemos como estas coisas são possíveis numa instituição pública de interesse comum. Nem sequer nos interessa debater a sua legalidade. O que sim nos importa discutir, e perceber, é a forma como estes atos de gestão ruinosa de uma autarquia são possíveis sem que nada aconteça aos autores de tais dislates.

 

A política autárquica flaviense tem razões que a própria razão desconhece.

 

Será?

21
Jun13

O Homem Sem Memória - 165

João Madureira


165 – A reunião iniciou-se num ambiente tenso. As circunstâncias assim o exigiam. Os dados estavam lançados, para o bem e para o mal. Com o país dividido em dois, a revolução ficava com duas caras, com a do triunfo a Sul e com a da luta, a Norte.


A ocasião era desesperante. No fundo, na região Norte os comunistas eram francamente minoritários, mas em Trás-os-Montes eram ultraminoritários. Fazer a revolução com meia dúzia de gatos-pingados era uma enorme toleima. Mas parece que era isso o que o Partido já tinha decidido.


Reuniram-se numa sala sem qualquer janela, o que conferia ao evento um clima ainda mais claustrofóbico. Fora da casa dois camaradas de caçadeira ao ombro faziam segurança como se estivessem a guardar um milheiral de um ataque de javalis.


O camarada funcionário transmitiu aos presentes o que o Comité Central tinha deliberado: resistir no Norte e consolidar no Sul. Quando alguém perguntou como é que iam resistir sendo apenas meia dúzia de camaradas que não sabiam mais do que colar cartazes, pintar paredes e vender jornais partidários, o camarada funcionário respondeu-lhes com as sagradas palavras de Alberto Punhal: revolucionários, ou valorosos ou mortos.


“Ora foda-se”, exclamou o Graça. “Isso deve ser uma piada de mau gosto. Como é que vamos resistir sem armas, sem treino e sem chefes experimentados?”


O camarada funcionário explicou que estava para chegar um grupo de camaradas experientes em guerra de guerrilhas que lhes ia ensinar a todos a suprema arte da revolução armada proletária e socialista. 


“Proletária?”, perguntou o José. “Não enxergo neste grupo um único proletário.” “É uma maneira de dizer”, desculpou-se o camarada funcionário. “Dos que estamos aqui, pode ninguém ser proletário, mas nenhum de nós tem dúvidas de que defende a revolução proletária. Ou será que tem?” Ao que o José respondeu: “Posso não ter dúvidas disso, mas também não tenho certeza nenhuma de que o caminho definido pelo Comité Central seja o que melhor corresponde à grave situação política atual. Fazer uma guerra de guerrilhas em Trás-os-Montes parece-me um suicídio. O melhor será tentarmos chegar ao sul e, a partir daí, arranjar um exército militante capaz de invadir e libertar o Norte das garras da reação.”


“A revolução do Norte não pode depender da gente do Sul. Cada povo tem de libertar a sua terra. Pátria ou morte, venceremos,” disse o camarada funcionário. E o José: “Então agora já fazemos parte de um outro país? Já não somos portugueses?” E o camarada funcionário: “Sim, ainda somos portugueses, só que do Norte. “O camarada Alberto Punhal, secundando a proposta do Comité Central, considera que é melhor implementar o socialismo em metade do país, a parte Sul, onde existe uma classe operária consciente e organizada lutando contra patrões ricos e exploradores e trabalhadores agrícolas reivindicativos e sem terra que desejam cumprir o seu sonho de expropriar os latifundiários, do que retardar a revolução motivado pelo facto de o Norte estar atrasado, inculto e ser pasto da propaganda da reação. O Comité Central também decidiu dividir-se em dois, enquanto esta situação durar. O Comité Central do Sul, chefiado pelo camarada Alberto Pinhal, e o Comité Central do Norte, chefiado pelo camarada Alberto Fiscal, comandados superiormente pelo camarada secretário-geral unificado Alberto Punhal.


O José, vendo o caminho a que esta postura os ia conduzir a todos, propôs que a decisão do Comité Central fosse a votação. O camarada funcionário foi aos arames. “No Partido quem manda é o Comité Central.” “Qual”, perguntou o José. “Agora é o do Norte”, respondeu o camarada funcionário. “E o CC do Norte decidiu o mesmo que o CC do Sul?”, perguntou o José. “Não, não teve de o fazer, porque a decisão já tinha sido tomada ainda antes da divisão. E essa decisão não pode ser contrariada. As decisões do Comité Central Unificado não podem, sob pretexto algum, ser postas em causa pelos Comités Centrais derivantes. O camarada Alberto Punhal não o permite.


“Então são os outros que decidem em nosso nome se devemos matar ou morrer em nome da revolução. É isso, camarada funcionário?”, perguntou o José. Mas o camarada funcionário não lhe respondeu.


Todos os camaradas presentes não conseguiam sequer articular palavra. Estavam ali como se estivessem num funeral. Ou melhor, como se estivessem no seu próprio funeral. Alguns começaram a chorar. O Graça, inteirando-se da real situação, levantou-se e proferiu, levantando o punho direito: “Desesperar jamais.” E começou a entoar A Internacional. Todos os outros o seguiram. Perdão, todos não, o José manteve-se sentado e em silêncio.


Definiram que os doze constituiriam uma brigada revolucionária móvel que atuaria preferencialmente na zona da Serra do Brunheiro e na do Cambedo. Seria também aí que seriam contactados pelo Partido e treinados por dois camaradas guerrilheiros, antigos combatentes do Ultramar.

 

Esta brigada podia ainda dividir-se em duas ou em quatro, conforme a necessidade. Comeriam do que o povo lhes desse e tentariam, dentro do possível, esclarecer e organizar a população para lhes prestarem apoio e para recrutar os mais esclarecidos e corajosos e levá-los a aderirem ao Exército Revolucionário de Libertação do Norte, ERLN.

 

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