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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Set13

O Poema Infinito (164): alma e fogo

João Madureira


Tolda-se-me o romantismo quando quase morro nos teus braços. Acaricio as mãos que sustentam o teu rosto. Tu és o futuro do meu passado. Os deuses, coitados, compram agora a sua glória. Os homens, felizardos, negoceiam a sua própria desgraça. Desventurados os que se sentem felizes. A vida é tão breve. Deus ungiu o seu filho para o matar. Afinal crucificou o seu mito, a alegoria do sol que abre os céus, a parábola de um deus vivo e de um filho morto. Depois entrámos na realidade e fecundámo-la. Vivemos agora dependentes desse instinto. Dessa encarnação ressuscitada. Dessa madrugada que precede a luz. Desse instinto confuso onde tudo começa a extinguir-se. O teu olhar desce sobre a terra e sobre os seus mistérios. Deus fadou-nos com a sua incerteza brutal, com a sua augusta imprevisão. Agora vigiamos o espírito inteiro da força que envelhece. As bênçãos são espadas. A noite escreve as lendas de um mito brilhante. Todos procuramos a beleza por achar no som presente a posteridade. A nossa alma é uma sombra eterna, um enigma que se encobre dentro do Santo Gral. O destino é uma inutilidade semântica. A terra fica fria. Pões-me as mãos sobre os ombros. A febre consome-me. Dentro de mim tudo vibra. A luz da calma e da inquietação sobe-me ao olhar. Divido-me entre o sentir e o querer. Divido-me entre o amor e o gládio. A minha alma é uma estrada estreita por onde passam palavras atrapalhadas. Abro os braços e o mundo varia, desço os olhos cansados na direção do teu rosto. O mar e os medos são anteriores a nós. Abre-se a terra expelindo cores e sons. As árvores do medo desembarcam. As aves sonham formas invisíveis. As flores ficam sós. O horizonte assume a sua perspetiva eterna de linha abstrata. Movimento-me dentro da tua esperança. Nessa distância imprecisa entre o amor e o tédio. Entre a expetativa e a vontade. Por mim escorre o medo dos átomos. Outros acharão o que eu procuro. A magia da evocação, a glória da história, o ato de deus, o gesto divino da criação, o destino das horas, a mão que desvenda a ciência da ousadia, o temporal da vontade humana, o acaso da luz e da sombra. Pelas montanhas ascende o silêncio sangrento da guerra. Toda a sorte é incerta. Deus projeta no céu a luz dos mártires. Sei agora que o mar não tem tempo. Por isso tenho saudades. Saudades da mão fria do vento, da ansiedade das brincadeiras, da hora adversa dos sonhos, da alegria densa de viver em casa, das brasas na lareira, das forças cegas que dormem ainda na penumbra das manhãs cinzentas. O mundo divide a luz. A tua voz chega-me afortunada e eu escuto-a como se fosse uma criança que mora onde o rei esperou pela sua coroação. Ele de gládio ungido revelando o Santo Gral e Excalibur. Eu dormindo ouvindo o som do mar, o som das ondas, o som dos intervalos da alma, erguendo as minhas asas de abandono. 

16
Set13

Pérolas e diamantes (55): os cromos estão todos trocados

João Madureira

 

Nos cartazes de propaganda eleitoral, o PSD de Chaves insiste na sua trilogia argumentativa da “verdade”, do “trabalho” e da “competência”. Insiste, é verdade, mas pouco fez, ou faz, para que isso seja realidade.

 

Relativamente ao trabalho é à competência todos somos testemunhas que a Câmara de Chaves apenas se limitou a cumprir calendário. E muitas vezes nem isso.

 

Fora umas obritas atamancadas à última da hora, os vários anos de gestão autárquica de João Batista e António Cabeleira foram ou de imobilismo ou de retrocesso.

 

Algumas obras revelaram-se desnecessárias, daí o estarem ao abandono. São disso exemplo paradigmático a denominada plataforma logística, o mercado abastecedor e as infraestruturas da feira.

 

Umas constituem atentados ao bom senso ou ao bom gosto, como são os casos do Jardim das Freiras e do Jardim Público. Outras, até, não passaram do papel, apesar de terem sido adjudicadas e logo abandonadas, e das quais estamos a pagar chorudas indemnizações, como já vos demos conta.

 

A tudo isto ainda podemos somar o buraco por detrás da Adega Faustino (que continua a ser escavado ao ritmo do caracol, para insinuarem que ali vão fazer alguma coisa) e o cruzar de braços sobre a desqualificação do nosso Hospital e também do Tribunal de Chaves.

 

Tudo isto o vento levou. Daí o estarmos esperançados que leve também quem praticou tais dislates, para que o filme fique completo e tenha o fim que merece.

 

Esta introdução ajuda-nos a direcionarmo-nos no sentido do que hoje nos serve de tema de fundo: a “verdade” do PSD de Chaves, nomeadamente a que está plasmada nos cartazes espalhados pela cidade relativos aos candidatos à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

 

Estamos habituados a que nos cartazes as caras das fotos correspondam à dos candidatos inscritos nas listas entregues, e aceites, no Tribunal. E que a ordem também esteja de acordo com esses documentos. Ora nem uma coisa nem outra está impressa nesses anúncios.

 

Os placares e os panfletos distribuídos à população parecem uma caderneta com os cromos todos trocados. De facto, lá podemos ver 41 rostos. Só que, relativamente à lista entregue no tribunal, sobram 5, pois nas listas somente aparecem 13 elementos efetivos e 23 suplentes, que somam um total de 36.

 

Mas desses 23 suplentes, o tribunal exclui 10.

 

Para que a verdade seja reposta, e os eleitores saibam em quem vão poder votar, desde já passamos a informar que os seguintes candidatos nem sequer deviam figurar nas listas afixadas pela cidade, pois, como já referimos, foram excluídos pelo tribunal.

 

Segue-se a relação de excluídos: Sandra Sarmento, Alcino Neves, Francisco Santos, Ilda Maria Maia, António Setas, Almor da Costa, Sónia Pires Braz, José António Santos, José Carlos Matos da Conceição e Maria Olívia Cardoso.

 

Depois fomos tentar verificar se a ordem das fotos correspondia à ordenação das listas publicadas pelo tribunal. Outra surpresa desagradável. Não correspondia. Parece que as fotos foram colocadas aleatoriamente. Não adotam seriação nenhuma, pois nem sequer seguem a ordem alfabética.

 

Esta tentativa bacoca de baralhar, e confundir, os eleitores parece ter sido elaborada intencionalmente.

 

O que nos escapa é o critério.

 

As fotos do Rui Louro, do Hugo Silva, da Isaura Silva e do Alexandre Medeiros estão de acordo com as listas do tribunal.

 

O quinto elemento das fotografias é Luís Santos que surge nas listas do tribunal em vigésimo segundo lugar (nono suplente).

 

Já o sexto elemento da lista das fotos é Maria José Pessoa, sendo que na relação do tribunal aparece o nome de José Maria Carvalho. A Maria José Pessoa ocupa apenas o décimo segundo lugar dos efetivos.

 

Em sexto está Marília Abelha que nas fotos aparece em quadragésimo primeiro lugar.

 

A sétima foto é a de Alcino Rodrigues que surge nas listas em sétimo lugar. Bingo.

 

A oitava foto é a de Rui Vital, mas também está trocada com a lista do tribunal, onde aparece apenas como décimo quarto (primeiro membro suplente).

 

A nona foto corresponde a Sandra Sarmento que foi excluída das listas pelo tribunal, onde figurava apenas como vigésima sétima (décima quarta suplente).

 

Na lista do tribunal, em oitavo lugar aparece o nome de Nuno Veras que nas fotos surge colocado na vigésima primeira posição.

 

O nono elemento da lista nominal é Carina Tomás que apenas aparece nas fotos em vigésimo lugar.

 

O décimo das fotos é José Matos (que presumimos nós corresponder a José Carlos Costa Matos da Conceição) que nas listas nominais ocupa o 34º lugar (21º suplente), que, como já referimos, foi excluído pelo tribunal.

 

O décimo elemento das listas do tribunal é Júlio César Serapicos, mas aparece nas fotos apenas em décimo nono.

 

Já o décimo primeiro elemento das lista das fotos é Zulmira Oliveira, que aparece nas listas apenas na vigésima primeira posição (oitava suplente), ou seja, a aparecer no seu devido lugar teria de ocupar o vigésimo primeiro lugar na lista das fotos, que é ocupado, como já referimos, por Nuno Veras.

 

João Silva está corretamente colocado no décimo primeiro lugar. Segundo Bingo.

 

O décimo terceiro efetivo na lista nominal aparece devidamente colocado. Parabéns.  

 

A partir daqui vamos ser sucintos, senão ainda nos vamos perder mais um pouco neste labirinto da “verdade” do PSD local liderado por António Cabeleira. Decidimos, por isso, a partir daqui, apresentar sempre em primeiro lugar a posição da lista nominal e seguidamente a posição na lista das fotos.

 

O décimo quarto da lista nominal, e primeiro suplente, é Rui Vital, que aparece na lista das fotos em sétimo; e a décima quinta, Sandra Dias, aparece colocada em vigésima segunda. 

 

Agora de forma ainda mais simples: João Magalhães (3º suplente) é 16º e aparece em 25º; Domingos Pinho (4º suplente) é 17º e aparece em 22º; Filomena Teixeira (5ª suplente) é 18ª e aparece em 17º; Carlos Teixeira (6º suplente) é o 19º e não o encontrámos nas fotos com esse nome nem com outro parecido; Raul Grilo (7º suplente) é o 20º e aparece em 32º; Maria Zulmira Oliveira (8ª suplente) é a 21ª e aparece em 11º; Luís Miguel Santos (9º suplente) é o 22º e ocupa o 3º lugar nas fotos, como já referimos; Pedro Miguel Campos (10º suplente) é o 23º e aparece em 34º; Carla Sofia Rodrigues (11ª suplente) é a 24ª e aparece em 39º; Hélder Gonçalves (12º suplente) é o 25º e aparece em 16º; João Luiz Rodrigues (13º e último suplente) é o 26º e aparece em 18º.

 

Os restantes, como anteriormente referimos, foram excluídos pelo tribunal.

 

Esta é que é a “verdade” da lista do PSD de Chaves. O que vem no cartaz está profundamente errado. A quem aproveita a confusão e inverdade?

 

O PSD de António Cabeleira vai ter de baralhar de novo para dar cartas. Mas isso, já todos o pressentimos, não vai colmatar a falha do seu sistema de controle e persuasão.  

13
Set13

O Homem Sem Memória - 175

João Madureira


175 – Todos ficaram incrédulos e num silêncio profundo a olhar para o José. Deitado no catre parecia Cristo estendido no santo sepulcro, mas ainda por limpar e cheio de sangue e equimoses. O Graça começou a chorar baixinho e a perguntar: “Porquê, porquê, meu Deus. O que fez ele de mal.” O camarada funcionário tentou racionalizar: “A sua traição parece-me agora evidente. O apóstolo da dúvida e da incerteza, finalmente encontrou o seu calvário.” O Graça dirigiu-se para a beira do amigo e pediu água para lhe lavar as feridas. Ninguém lha deu. Os guardas limitaram-se a cantarolar umas incongruências.


“Pai, pai, porque me abandonaste?”, perguntou o José. “Mãe, mãe, porque me abandonaste?”, voltou a perguntar o José. De seguida entrou em delírio. Por fim adormeceu. Ou desfaleceu, ainda não apurámos ao certo. Quando acordou e reparou que o Graça estava a seu lado, tratou-o por Pedro, mas injustamente, como todos sabemos. Entretanto voltou a desfalecer, ou a adormecer, ainda não apurámos ao certo. Quando acordou de novo pôs-se a falar com a mãe.


“Disseste-me que falei dentro da tua barriga, agora falo dentro da tua cabeça. Eles vão-me matar. Vão-nos matar. Fizeram-me confessar tudo. Tudo. E eu não tinha nada para confessar. Mas confessei tudo. Tudo o que eles exigiram.”


O Graça voltou a chorar. O José, tratando-o novamente por Pedro, disse para poupar as lágrimas, pois acreditava na sua amizade, apesar de o ter negado três, trinta, ou trezentas vezes: “O seguinte és tu.”


Todos os camaradas estavam encostados às paredes, hirtos e brancos como a cal. Apenas o camarada funcionário palrava: “Não tenhais medo camaradas. O Partido apenas quer apurar a verdade. Quem não é culpado não deve temer represálias. Vão ver como tudo se resolve por bem. Agora que descobriram o traidor, vão-nos libertar.”


O Graça pôs-se então de pé e correu caras a ele: “Meu grande sacana. Como és capaz de dizer uma coisa dessas de uma pessoa como o José. Ele traiu o quê? A verdade é que não, todos somos testemunhas. E muito menos a sua consciência de homem livre. Tu é que te trais a ti próprio quando pensas pela cabeça dos outros.”


Quando ia para lhe assentar uns murros nas ventas, foi impedido pelos outros camaradas que lhe disseram que não devia fazer o que outros fariam por ele. 


De novo se abriu a porta da cela, desta vez para chamarem pelo Graça. Ele recusou-se. A haver porrada que começasse o mais cedo possível. Além disso não tinha nada para confessar. E foi isso que gritou bem alto durante todo o trajeto.


No catre o José gemia e delirava. Os outros camaradas pareciam rezar. Apenas o funcionário continuava a tentar justificar a situação do ponto de vista marxista-leninista: “Só a verdade é revolucionária. Por isso temos de tentar sempre encontrá-la. Mesmo que o processo seja doloroso.” E lá continuou a debitar outras idiotices do género. Alguém perguntou: “Achas que o Graça também é traidor? Algum dia viste ou soubeste algo que o possa incriminar?” Ao que o camarada funcionário respondeu: “Eu assim diretamente não. Mas nunca se sabe. Quem tem amigos traidores é potencialmente um traidor também.” “Então todos somos traidores.” “Todos não. Eu não sou amigo do Graça e muito menos do José. Tratei-os durante algum tempo por camaradas, pois pensei que o eram. Mas nada mais do que isso. Limitei-me a cumprir com as ordens do Partido. Quando soube da dissidência do José fiz aquilo que qualquer dirigente pode e deve fazer, transmiti essa informação aos organismos dirigentes. Eles depois lá fizeram o resto. E acertadamente, como se vê.”


A pesada porta voltou a gemer nos gonzos. Por ela entrou outro cristo ensanguentado e cheio de chagas. Nisso os camaradas tinham sido exemplares, ninguém conseguia distinguir um cristo do outro, de tão maltratados que estavam.


“Afinal o Graça também é traidor. Veem camaradas, como tinha razão”, gritou o camarada funcionário apontando na direção do segundo cristo. Os restantes camaradas já não lhe passaram cartão nenhum, dirigiram-se ao Graça e trataram de o amparar e de o estender no catre. Alguém pediu água para lhe lavarem as feridas. Responderam-lhe que o fizesse com a saliva, pois a água no Alentejo é um bem muito escasso.


Também o Graça gemeu e delirou. Quando se abeirou de si o camarada funcionário para tirar alguma informação, ele apelidou-o, e com razão, de Judas e cuspiu-lhe na cara um jato de sangue. Depois chamou os outros camaradas e confessou-lhes com as lágrimas nos olhos: “Também eu confessei tudo.” “Tudo o quê?”, perguntaram-lhe incrédulos. “Tudo o que eles queriam. Agora todos somos traidores.” “Mas nós não traímos nada, nem ninguém.” “Por isso mesmo. Quando lhes disse isso, responderam-me que estava a esconder algo de muito grave. Por isso é que estávamos presos. O Partido, argumentaram eles, nunca se engana. Por isso ou confessamos os crimes ou a tortura continua até obterem a reconhecimento da verdade. Dali não saem. O melhor é confessar o mais depressa possível o que eles querem. No entanto subsiste um problema, é conseguirmos acertar com aquilo que eles pretendem que a gente confesse. Quando existe culpa, não é difícil acertar com a resposta. O problema é quando se está inocente e nos culpam de algo que não sabemos bem aquilo que é.”


Alguém confidenciou: “Isto é bem mais complicado do que eu pensava.” “Pois. Se confessas rápido desconfiam que lhes estás a mentir. Se nada lhes confessas, suspeitam que lhes estás a encobrir a verdade. Pois para eles nenhum de nós é inocente. Se todos dizemos o mesmo imaginam que estamos todos combinados na mesma mentira. Se cada um diz coisa diferente, desconfiam que estamos todos a mentir com o propósito de lhes indicar pistas falsas, o que ainda os põe mais furiosos.”


Alguém mais impaciente perguntou-lhe como tinha ele acertado com a confissão. Ao que ele respondeu que foi por tentativa e erro. Quando depois de uma resposta sua lhe batiam ainda mais, deduzia, e bem, pensamos nós, que ia no caminho errado. Então tentava nova resposta. Se a porrada continuava com grande intensidade, tentava inventar outro tipo de resposta. Se a bordoada diminuía seguia esse caminho e assim sucessivamente até a porrada cessar e eles se darem por satisfeitos.


Perguntaram-lhe então que tipo de resposta é que eles deviam dar para não levarem tanta cacetada. O Graça, como bom camarada, disse-lhes que se lhes explicasse o que ele tinha confessado era certo e sabido que levavam tanta porrada ou ainda mais do que ele e do que o José. A melhor estratégia era mesmo irem tenteando as respostas pela intensidade da sova. Muita sova queria significar que se tinha de mudar de rumo. Porrada de criar bicho, todos tinham de levar. O estratagema era não morrer no interrogatório ou ficar paralisado para a vida inteira.”


Abriu-se de novo a porta e foi gritado novo nome. O camarada respondeu presente. E lá foi cumprir com o castigo. Apurar a verdade é, como estamos a tentar provar, uma tarefa dificílima. 

11
Set13

O Poema Infinito (163): o desígnio dos poetas

João Madureira

 

Os teus lábios embalam as palavras. Baloiças na minha nave ágil. Estou alerta. O meu canto afaga as ondas. As vagas erguem-se e rumorejam. Um sol ébrio ergue-se no céu como um titã. O silêncio é agora uma seta que incendeia o mundo. Frutos brilhantes vergam os ramos das árvores. As árvores ficam maduras. As estrelas luzem no céu. As praias ficam grisalhas. As sereias cantam e rezam. Os barcos ficam paralisados. O tempo revolve a água. Agosto ergue-se por entre os fogos que devoram as árvores. Anoitece. O céu fica da forma de porcelana. Os momentos tornam-se conscientes. Respiramos a alegria dos jardins e a eternidade do vidro. Fico irreconhecível. O desenho amado do teu corpo esbate a tempestade. Lembro-me de acordar quando os sinos ralhavam rasgando as manhãs de domingo. Os antigos campanários que ostentavam a sua antiguidade acolhiam as preces dos crentes. Todos aprendiam a violar as promessas. Os corações dos jovens ficavam embriagados. Os padres desmentiam as relíquias. A minha alma quebrava-se ao som dos sinos. As nuvens eram como corações vestidos. Deus revelava então o desígnio dos poetas. Os fantasmas exigiam os seus corpos. As palavras sagradas unem-se à carne. Os objetos tornam-se secretos. Todos esperamos pelo sinal redentor. O poeta tece um cordel de palavras. O medo infiltra-se no bosque e fica sombrio. Carreguei-o eu como uma cruz. Os pinheiros ficam assombrados. Na praia, as ondas murmuram espuma. És agora uma imagem imprecisa e ansiosa. Sussurro-te os nomes dos pássaros que voam em despedida. Atrás de nós a gaiola fica vazia. Na nossa frente, a nevoa é espessa. Este momento torna-se misterioso. Os caminheiros desenham novos caminhos com os seus bordões. Nos relógios bate a eternidade. Também sou agora um peregrino que canta a sua angústia enquanto caminha. Transporto no alforge fólios antigos e desbotados. O meu olhar desce em avalancha pela montanha. Apenas a música nos salva dos abismos. Tornaram-se inseparáveis o medo e a queda. O pânico fica vazio de sentimentos. Meço então o tempo e as naves de pedra e dentro dos templos penduro as estrelas com correntes. Penso no desígnio luminoso das abóbadas e dos arcos e na beleza dos templos mergulhando nos vitrais, que são agora janelas onde triunfa a luz. Arcanjos seguram a beleza das cúpulas. O edifício faz agora sentido dentro da sua redondez. Nele já triunfou a penetração dos séculos. Desvendo o peso bruto dos muros, o abismo racional dos pecados, o desvario das florestas ardidas, a timidez cristã das capelas, a alma gótica de Deus. Sonho um dia criar coisas belas e acreditar no peso malévolo da perfeição. Os crentes são arrogantes tímidos. Da minha boca saem cânticos que golpeiam o silêncio. Os sonhos são agora errantes. Os netos procuram os tesouros dos avós. Erguem a sua voz própria e, dentro da igreja, cantam em coro enaltecendo a beleza arqueada dos jardins, a altura divina das cidades, a nostalgia da verdade. Os pescadores morrem sentindo que a areia da praia esfria e proferem os nomes do tempo através dos tempos. O ar fica turvo, a água escura. Tomo nas minhas mãos a tua distraída alegria. Liberto a nau das suas amarras. Oiço agora as sombras da tarde e o que resta dos nossos beijos. As abelhas saem das colmeias e começam a zumbir no meio dos bosques entre a melissa e a hortelã. Ainda se alimentam de tempo. Depois fenecem dentro do seu júbilo doce. A noite cresce dentro da sua mágoa. E chora desenganada do mundo. A desilusão torna-se eterna.  

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